As coisas não pareciam fazer sentido, por um momento. Parecia que tudo estava bem, mas então, ela estava correndo no terreno aberto, conseguindo se embrenhar por entre as árvores de copas altas. Olhou ao redor. Estava tão escuro. Tão frio. Abraçou seu próprio corpo, sentindo-se enjoada. Um tanto tonta. A perna doía pelo esforço. Doía tanto. Havia corrido de forma claudicante, caindo por vezes na grama. Seus joelhos doíam. Estavam latejando. O sangue também latejava em seus ouvidos. Seus pulmões pareciam querer explodir, como uma bexiga.

Sentou-se no chão de terra, recostando-se a um tronco de árvore. Estava exausta. Abalada. Não conseguia pensar. Não conseguia. Simplesmente tudo não fazia sentido. Conseguia ainda se lembrar de Draco, calmo, na sala de estar, sorvendo um bom e velho whiskey. Ela aproveitara para também tomar um pouco da bebida. Os dois conversaram sobre tudo. Sobre nada. Parecia tão perfeito. Um momento calmo, depois de um dia turbulento. Ela sentia suas defesas baixaram, enquanto sorvia da bebida ambarina. O gelo derretia de forma lenta.

— Você não deveria beber – ele havia a advertido, com um sorriso lupino – Mas, eu gosto quando você está com as defesas baixas.

Ela deu risada. Sentia-se leve, tranquila. Parecia que sua mente estava longe, então. Como se não conseguisse alcançá-la. Draco, então, havia se levantado da poltrona. Conseguia se lembrar dessa parte. Ele se aproximou do sofá, sentando-se ao seu lado. E fez algo que ela não esperava. Ele a puxou pela nuca, sem cerimonias. Imediatamente, sentiu seus lábios contra os dela, de forma intima. O gosto de ferro tomou conta da sua língua, porque ela havia sido pega desprevenida. Os dentes dele bateram contra seus lábios, de forma sôfrega. Ele não parecia perceber que estava a machucando. E ela não conseguia dizer que estava, pois estava um tanto fora da orbita. Um tanto distante. Mas, não se importava. Parecia que ele tinha o controle de tudo, como se estivesse a dominando. Estava mais atenta naquele momento, na floresta, próxima a propriedade dos Malfoy, percebeu que aquilo tudo eram um absurdo. Levou os dedos aos lábios, sentindo-os inchados. Sensíveis ao toque. Arrepios involutórios tomaram conta de seu corpo. Apesar disso, aquela não era a pior parte.

Enquanto ele a beijava, ele a deitou sobre o sofá, deitando seu corpo sobre o dela. Tocou cada parte que podia de seu corpo. Ela se deixou levar, como se fosse a coisa certa a se fazer. Mas, sentia que algo estava errado. Sua mente não parecia estar ali. Estava tonta demais. Talvez, pela bebida.

— Draco – ela sussurrara, enquanto ele beijava seu pescoço. Sua voz sairá baixa, quase como se não tivesse forças a dizer. E o mundo girava ao seu redor, quando fechara os olhos. Com certeza, efeito do álcool – Acho melhor...

— Shhh...fique calma – ele pedira. Sua voz era suave. Sua boca colada ao seu ouvido – Aproveite esse momento.

Ela não conseguia aproveitar mais. Estava em pânico. Mas, seu corpo não a respondia. Simplesmente não conseguia afastá-lo. Seria possível que ele a tivesse drogado? Não teve muito tempo para pensar em seguida. Ele havia tirado a blusa que ela usava e estava prestes a tirar sua calça. Ele realmente iria seguir com aquilo? Ela tentou pedir que ele parasse. Mas, ele não parecia escutá-la. Estava em desespero. Tudo iria acontecer, sem seu consentimento. Porém, algo aconteceu em seguida.

Hermione não sabia dizer se fora real ou não. Mas, George havia entrado na sala, com uma pistola apontada para eles. Parecia enlouquecido. Os olhos injetados. Ele tirou Draco de cima dela, jogando o no chão. Então, ela escutou o tiro. Estava atônita, sobre o sofá. Pensou que ele faria o mesmo com ela, mas não fez. Ele saiu dali sem olhar para trás. Tremula, ela simplesmente não conseguia se mexer. Seus movimentos estavam lentos. Sentiu que perdia a consciência em seguida. Quando acordou, não verificou se Draco estava vivo. O sangue rubro manchava o tapete branco da sala. Ela não ficou para ver. Não. Apenas vestiu a blusa, que estava caída ao lado dele e saiu da sala. Tudo fora uma sucessão de flashes. Ela tentando correr, pelo gramado. Caindo várias vezes. Então, se embrenhando na floresta. Suas mãos tremiam. A escuridão engolia a floresta, de forma aterradora, mas ela não queria sair dali. Estava paralisada, na verdade. Mesmo que quisesse, não poderia se mover. O medo era algo que realmente embotava os sentidos.

Não sabia por quanto tempo ficou ali. Não sabia dizer quantas horas se passaram. O frio era intenso, naquele lugar, mas ela não queria sair. Não queria encarar os fatos. De que Draco estava morto, na sala de estar e que ela não fizera nada. Nem que ele a tocara sem seu consentimento. O que a drogara. Ou seria sua própria imaginação, pregando peças? Será que beberam além da conta? Não conseguia se lembrar. Não conseguia confiar em si mesma. Não quando havia misturado seus remédios para ansiedade com álcool. Era esse o problema. Deveria encarar os fatos. Nunca deveria misturar remédios com bebida alcoólica.

Escutou galhos se romperem próximo onde estava. Seu corpo retesou todo. Poderia ser um lobo. Poderia ser a polícia. Qualquer uma das opções era ruim. Muito ruim. Foi quando divisou em seu campo de visão um homem.

— Hermione? – a voz era tão semelhante à de Fred.

Ela fechou os olhos, se abraçando, dizendo a si mesma que ele não era real. Não. Não era real.

— Hermione, sou eu. George.

Ela abriu os olhos. Estava aterrorizada. Ele estava agachado, ainda carregando a pistola. Encolheu-se, com medo. Era aquele o momento. Ela iria morrer. Simplesmente iria morrer sozinha, ali na floresta. E ninguém iria poder defendê-la ou ajudá-la.

— Está tudo bem – ele disse, em tom estranho – Não precisa ter medo de mim.

— Não...não preciso? – ela gaguejou, sem sombra de ironia em sua voz. Estava apavorada. Com medo de que ele apontasse a arma para ela.

— Não – ele negou com a cabeça – Eu vi que você correu para cá. Eu sinto muito...eu sinto muito por tudo...- A voz dele estava tremula. Ela sentiu o remorso em sua voz. Mas, ainda não confiava nele – Isso tudo é culpa dele.

— Dele quem? – perguntou ela, ainda sentindo-se temerosa. Ele poderia ter perdido o juízo. E ainda era perigoso.

— Malfoy – ele disse, com um tom de desprezo – Se não fosse ele, nada disso teria acontecido. Ninguém precisaria ter morrido.

Ela engoliu a seco, sem saber o que dizer. Esperou que ele dissesse algo a mais. Mas, não disse. Apenas o farfalhar do vento podia ser escutado.

— E por que é culpa dele? – ela perguntou, com medo que se o deixasse em silêncio, ele poderia pensar em matá-la também, como fizera com Draco.

— Como não poderia ser culpada dele, Hermione? Isso tudo começou por causa dele – George se levantou, então, andando de um lado a outro. Ela não conseguia vê-lo de forma nítida, apenas sua sombra, devido a escuridão – Ele...ele é culpado de tudo. Da morte de Angelina. Eu deveria saber que aquela maldita droga não devia ter feito parte da festa. E que nós não deveríamos ter ido...- Sua voz parecia um lamento naquele momento. Um pedido de desculpas, talvez. Mas, ela não sentia pena dele. Não sentia pena nenhuma – Eu não sei como tudo começou, Hermione. Eu estava tomando apenas uma cerveja. Foi quando tudo ficou estranho. Parecia que ninguém estava normal. Nem mesmo o maldito Malfoy. Só consigo me lembrar que ele colocara as mãos em Angelina. Eu fiquei tão furioso com aquele, porque eu a amava. Fred nunca deu atenção a ela. Não sabia o quanto ela era especial – Seu tom era possessivo, o que revoltara o estomago de Hermione – Então, eu parti para cima dele. Nós estávamos perto demais da piscina. E eu não sei. Angelina caiu em seguida. Ela se afogou. Todo mundo viu. Era um acidente! Um acidente...- o tom dele se tornara estridente. A culpa parecia corroê-lo. Apesar disso, ela não sabia no que acreditar – Então, todos nós sabíamos que deveríamos ir embora. Eu não fiz nada. Fiquei com medo. Medo de que Fred contasse o que fiz. Ou que Harry e Roy abrissem suas bocas grandes. Eu deveria ter contado a polícia, mas fiquei com medo. Eu fiquei apavorado. Gina, no entanto, disse que deveríamos manter a boca fechada. Que não deveríamos dizer nada. Afinal, Malfoy não havia dito nada. E ele não disse, porque ele não se lembrava do que aconteceu aquela noite. Ele desmaiara antes, pois eu o acertei com força. O que era bom. Muito bom.

Silêncio, então. Um silêncio aterrador. Ela pensou que ele iria simplesmente atirar nela, naquele momento, pois agora, ela sabia toda a verdade. Mas, se ele pensava em fazer isso, não teve chance.

— Desgraçado! – escutou George dizer.

Pelo escuro não conseguiu ver muita coisa. Apenas duas sombras. A de George e a outra. Não sabia dizer quem era. Seus olhos não a ajudavam. Mas, escutou a voz de Draco. Ele...ele estava vivo!

— Pensou que eu morreria assim tão fácil? – ela escutou a voz debochada de Draco – Vamos, é melhor você soltar essa merda de pistola, se não quer sofrer as consequências disso — Sua voz era um tanto sôfrega. Ele deveria estar com dor. Ela não viu onde ele havia recebido o tiro. Deveria ter sido em um local do corpo que não era fatal.

Hermione escutou o tiro em seguida. Ela gritou, horrorizada. Alguém cairá no chão. Um dos deles estava ferido com certeza, mas não conseguia se mover para ver. Não queria se mover.

— Hermione? – escutou a voz de Draco – Você está bem?

Ele estava perto dela, agachado. Fizera menção de tocá-la, mas ela se encolheu, recostando com força no tronco. Não queria seu toque. Não queria vê-lo. Não queria vê-lo nunca mais.

**

Tudo terminou de forma estranha. A polícia havia chegado alguns minutos depois. Draco havia acionado o xerife e havia ferido George, não o matado, como Hermione havia pensado a princípio. Ela testemunhou o ocorrido para o xerife Thomas, de forma distante. Um tanto fria. Parecia que estava fora do seu próprio corpo, pois não sentia nada. Apenas dizia os fatos, porém, omitindo o que houve entre ela e Draco. Não queria se lembrar. Não sabia quem era o culpado de tudo naquela situação. De fato, George havia cometido um grave erro. E era um assassino. Mas, se fosse encontrar culpados, diria que Draco teria sua parcela de culpa também quanto a tudo. E principalmente, ela descobriu que ele tinha culpa quanto ao vicio de Fred. Ela descobriu isso da pior maneira possível, quando foi ver George no hospital. Ela sabia que não deveria ir, mas foi. Algo a compelia a ir. Sentia que nada fazia sentido. Por que George mataria seu próprio irmão, a sangue frio? Ela o questionou quanto a isso.

— Eu tive que fazer isso, Hermione. Fiz parecer que ele havia sido morto por traficantes – confessou George, sem um pingo de remorso em sua voz. Seu braço estava algemado a maca – Ele não podia simplesmente manchar minha reputação no exército. Se ele tivesse ficado calado, tudo ficaria bem.

Então, enquanto o escutava, sentindo o estomago retorcer, ele havia dito que Draco era um dos fornecedores de heroína de Fred. E que ele também deveria estar preso, como George.

— Mas, parece que um homem como Draco não pode ser atingido, não é mesmo? – Seu comentário sarcástico a fez sentir o estomago azedar. Não conseguiu mais permanecer ali.

Voltou para Londres, alguns dias depois, ainda com a perna machucada e engessada. Ao menos, conseguia se mover melhor. Seu editor, claro, estava furioso. Mas, ela tinha uma nova história para contar. E contou a ele tudo. Disse que iria usar o que houve com ela, para escrever os fatos, omitindo claro, os nomes. Parecia uma ideia mórbida, mas isso não saia da sua mente.

Pela noite, enquanto dormia, acordou, de repente, escutando passos do lado de fora do quarto. Ao sair, teve uma visão aterradora. Fred, seu Fred, estava na sacada do loft, olhando para fora. Ela se aproximou, hesitante no começo. Não sabia estava acordada, ou dormindo. Mas, ele parecia tão real. No entanto, quando ele se virou para ela, parecia triste. Tão triste. Não havia nenhum machucado em seu pescoço. Nada que denotasse como havia morrido.

— Você fez tudo errado – Fred disse, em tom de lamento. Sua voz era distante.

— O que eu fiz? Eu descobri a verdade. Como isso pode estar errado? – ela perguntou, sem entender o motivo para ele estar tão triste com ela. Afinal, ela havia desvendado o mistério sobre sua morte.

Fred balançou a cabeça, com um olhar melancólico, então, sua visão esvaneceu. Hermione desejou que sua dor pudesse desaparecer, como ele havia desaparecido. Principalmente, o sentimento de culpa que sentia corroê-la, por pensar em publicar um livro sobre a morte dele.