Em um reino próspero, existia um rei. Um rei que se chamava Príncipe.

Seu reino era grande, estabelecido, apesar do clima de tensão e incerteza instalado no mundo a sua volta. Há muito não entrava em guerras, mas não tinha aliados. Um reino farto, tanto de recursos quanto de rigidez.

Príncipe, por outro lado, era um rei amoroso e flexível. Ao menos, dentro de suas muralhas. Foi o primeiro a tratar seus funcionários pelo nome, andar em vestes menos formais pelos corredores do palácio, não exigir uma mesa recheada no café da manhã; apenas uma cesta de pães, suas geleias favoritas e uma jarra de suco cítrico, nunca doce. Ainda era jovem e gentil, um líder bondoso e justo. E, acima de tudo, Príncipe odiava a barreira que separava seu palácio de seu reino.

Ao assumir o lugar de seu pai quando a idade certa chegou, tinha planos detalhados para cada setor e departamento, os ajustes e recursos necessários. No dia seguinte, começou a botá-los no papel. Passou horas e horas detalhando cada plano de ação que imaginou em todos os anos de preparação. Tinha melhorias para o reino inteiro, adaptados e personalizados para cada região e suas necessidades. Ao final do dia, ao ouvir as batidas características na porta, apanhou apressado todos os papéis espalhados pela mesa e levou-os para a última gaveta, permitindo a entrada de seu pai ao escritório.

O antigo rei, Vossa Majestade, teve com ele a primeira de muitas reuniões, onde discutiam o futuro da nação antes da conferência oficial com os conselheiros e ministros. Foram poucas as vezes em que realmente tentou, e nenhuma de suas investidas foi ouvida. A maior parte do tempo, acenava positivamente com a cabeça, fazendo anotações rápidas e repetitivas. Já tinha decorado tudo antes das oficializações, mas o nervosismo pela expectativa de errar jamais deixou de aparecer ao notar os olhos fundos e atentos durante seus discursos.

Havia anos que Majestade não levantava a voz para ele. Tantos que não se lembrava da última vez. Ainda assim, os funcionários se entreolhavam quando a postura se tornava mais ereta e a face mais dura, sempre que o som dos passos pesados ecoava pelo corredor. Demorou anos até que notassem que estava se tornando mais frequente. Mais normal. Mais duradouro. Aos poucos, a leveza de Príncipe se tornou mais escassa, mais íntima. As reuniões mais curtas. O semblante mais frio. As declarações mais diretas.

Até que o ataque aconteceu. Em uma noite comum de outono, enquanto Príncipe encarava a última gaveta de sua mesa. As batidas na porta não esperavam resposta; e sua mãe já tinha lágrimas nos olhos quando anunciou o acontecido. Às pressas, correram pelos corredores, tateando as paredes por onde passavam. Vossa Majestade já estava lá quando chegaram e Príncipe caiu ao seu lado. No último lugar que imaginava, encontrou conforto e calma: nos olhos dele. O coração acelerado se cansou e, ao fechar os olhos, seu rosto se tornou calmo. Vossa Majestade se foi e, pela primeira vez, Príncipe percebeu leveza em seu semblante. A antiga rainha, Querida, se juntou ao filho em sua dor, lamentando ininterruptamente pelas longas horas daquela noite. Ao fundo, apenas o som estrondoso do despencar das muralhas. Apesar de ter durado apenas um suspiro, o som se repetiu milhares de vezes na mente de Príncipe.

Todo o reino se reuniu ao redor dos destroços. De um lado, todos espantados com tanta cor e diversidade. Do outro, curiosos com a semelhança exagerada entre as pessoas daquele povo. As diferenças, no entanto, foram deixadas de lado ao badalar triste dos sinos da torre central. O luto uniu tão diferentes povos tanto quanto abalou seus corações. Vossa Teimosa Majestade, como era lembrado, teve sua partida lamentada com dor e tristeza, mas ainda assim com esperança.

Passado o período de luto, Príncipe retornou para seu escritório, se sentou à mesa e esperou. Se passaram uma, duas, três horas. Mais uma, mais três, mais cinco. Como apenas o silêncio lhe recebeu, desviou os olhos da porta. Encarou o teto, a janela, o porta-canetas, suas mãos, o porta-canetas novamente. Notou o brilho dourado e reluzente do bico de pena da mais trabalhada caneta do pote. Quinze anos, constatou. Finalmente, levou a mão até a maçaneta da última gaveta à direita, abrindo o compartimento e retirando uma grossa pilha de folhas. Passou a ponta dos dedos pela lateral, notando a cor ficar mais amarelada à medida que os anos iam passando por sua pele. Com um suspiro, virou a primeira página.

As datas se tornavam mais distantes conforme folheava. Há dois dias, sete, treze, dezenove, vinte e quatro… Notou a ingenuidade, a inocência, a empolgação mais forte a cada mudança de tom. Em algum momento, cedeu à uma leve risada. As horas trouxeram um sorriso constante. As lembranças trouxeram as lágrimas, discretas como névoa. Com os primeiros raios de sol, enfim chegou ao que procurava. Tomou em mãos a última folha sobre a mesa, encarando-a por alguns segundos.

Seus olhos foram atraídos novamente para o brilho fosco do metal à frente. Não percebeu quanto tempo se passou entre uma piscada de olhos e outra, mas sabia que o período que voltou tinha aproximadamente quinze anos. “Para seu primeiro decreto”, ele havia dito. Príncipe jamais esquecera daquele momento. Tomou a caneta em mãos, sentindo a sensação nova do peso entre as falanges. Analisou a textura áspera, querendo memorizá-la. Após algumas adaptações de linguagem, retirou a folha da máquina de escrever. Por tê-la manuseado com apenas uma das mãos, conferiu o texto duas vezes antes de se levantar e praticamente correr para os aposentos reais.

Querida se emocionou mais de uma vez durante todo o processo. Durante todo momento, a caneta bico-de-pena permaneceu no bolso interno do terno meio amassado; até mesmo quando este ficou manchado de geleia de morango, graças a pressa de Príncipe em — palavras dele — saborear aquela maravilha novamente. O objeto foi tocado novamente apenas três meses depois, quando todo reino pode testemunhá-lo funcionar pela primeira vez. O papel, trabalhado e elegante, onde se lia “Declaro aqui a qualquer um a que possa interessar que, a partir do presente momento, não é necessária união em matrimônio para a tomada de posse do trono, independente de gênero, cor, raça, linhagem e afins. Todo casamento deve ser motivado por sentimentos e vontade própria, e apenas por estes.”

Tudo bem, ele refletia, ainda não era muito bom com palavras, mas não pôde conter o sorriso para seu povo, alternando o olhar entre a mãe e Arthur, seu chefe de segurança.
Às vezes, ao deitar depois de longas horas de trabalho, ainda ouvia o coro. A primeira de muitas vezes em que seu povo se uniu ao declarar: Vida longa ao Rei.

Notas finais
Obrigada se chegou até aqui. Espero que tenha gostado da leitura e, quem sabe, ela tenha significado alguma coisa pra você.

O link do vídeo que me inspirou (vale muito a pena ver, a mensagem é incrível e o trabalho do Leo no geral é perfeito): https://www.youtube.com/watch?v=NCRXITWcr08&t=17s

Nos vemos por aí, eu acho
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!