"...Eu pude ver o sol desaparecer
Do seu rosto, dos seus olhos, da sua vida..."


Não sei exatamente o que aconteceu, mas durante o parto, logo após que meu filho nasceu, que o vi alguns segundos, o levaram para dentro e me deram sedação.
Acordei no dia seguinte com muito frio, Thomas me tapou e disse que nosso bebê estava ótimo, que se continuasse a crescer como cresceu dentro de mim, em pouco tempo poderia ir pra casa.
Não perguntei o que havia acontecido, porque me apagaram, eu não queria saber na verdade. Deixei muito claro a eles antes do parto que não queria informações sobre meu estado de saude, faria o que deveria fazer para me tratar, mas não gostaria de saber o progresso a não ser que fosse curada. Claro que isso foi má ideia, afinal fiquei ansiosa e sem saber o que poderia fazer ou não.
No dia seguinte fui autorizada a ir até a UTI Neonatal conhecer nosso bebê, usando toda aquela vestimenta pude pega-lo no colo, decidimos que seu nome seria Pietro. Ele era muito pequeno e magrinho, respirava rápido e ofegante com a ajuda de oxigênio, abriu os olhos para mim e eu sabia que mesmo sem me ver direito ele sabia quem eu era.
Thomas falou que a cada três horas ia para a UTI e dava leite para ele, que sabia que como pai aquilo era importante, e eu achei isso lindo. Mesmo que eu partisse, ele seria muito amado por Thomas e minha mãe.
Assim que voltei para meu quarto e me alimentei, o médico oncologista veio começar a me passar os novos medicamentos, mas tudo o que ele tinha para conversar sobre o avanço da doença foi com Thomas no corredor, podia ver o rosto dele assustado e ao mesmo tempo triste, me encarava enquanto conversava com o médico, para tentar tranquiliza-lo comecei a acenar para ele e sorrir.
Mais de um mês se passou desde que tive meu bebê, finalmente eu podia segurar Pietro no colo, ele era leve, mas eu estava cansada demais para segurar muito tempo. E por usar máscara a maior parte do tempo não podia nem mesmo beija-lo.
Conforme o tratamento ia avançando, mais medicamentos me davam, menos horas de sono eu tinha, podia ver que Thomas também estava exausto. Raramente o via dormindo quando eu estava acordada, e as vezes enquanto ele dormia ainda precisava acordar para ir alimentar Pietro, ao menos muito em breve ele poderia ir para casa, mas eu ainda tinha muito o que fazer naquele hospital.
Thomas estava com o cabelo pra cortar, olheiras, e o tempo todo se perdia nas frases. Era nitido que aquilo era mais do que podia suportar, mas ele queria fazer tudo o tempo todo. Mas um dia, enquanto ele dormia, a enfermeira veio chama-lo para alimentar Pietro e eu perguntei a ela se não podia ser eu no lugar, ao que ela concordou.
Ele já estava corado e fortinho, tirei minha máscara e enquanto lhe dava mamadeira fiquei cheirando seu cabelo e acariciando sua pele macia, as enfermeiras falaram que em no máximo uma semana ele poderia ir pra casa, aquela foi a unica noticia boa na semana.
Na mesma noite passei mal novamente e fui levada para uma nova bateria de exames, quando o médico chamou Thomas ele ficou desesperado e sem chão, podia ver pelo jeito que andava e chorava, que as coisas não estavam acontecendo como eles esperavam.
Mas para a minha surpresa, Thomas veio até mim e falou
— Eles estão lhe dando alta, vai continuar a se tratar em casa. Acreditam que o ambiente do hospital só está te fazendo mal.
E aqui estou eu, lar doce lar, com Pietro no colo.