Um pequeno problema
10 O passado é logo ali
Maysa foi a primeira a entrar correndo pela porta da sala abraçando a avó.
Regis chegou devagar na porta de entrada, olhou com muita atenção para aquela senhora idosa, sentiu as lágrimas brotarem no canto dos olhos, correu a abraçá-la e emocionado insinuou:
— Mãe, desculpe que eu não conheci você.
Ela nem soube o que pensar ou dizer. Permaneceu por longo tempo abraçada forte àquela criança e também emocionada, acreditou que ele era assim, uma espécie de lembrança de um tempo remoto, em que toda sua já desfalcada família estava presente.
Quando Regis deixou aquele abraço carinhoso, seus olhos se voltaram para Luciana, que lhe atirando a cueca já seca, disse:
— Pronto, pode vesti-la. Está lavada e seca.
Ele apanhou-a no ar e então pediu “à sua mãe”:
— Posso usar seu banheiro?
— Troque no quarto.
— Regis — ironizou a menina. — Você não precisa autorização para usar sua própria casa.
Ele correu ao quarto, fechando a porta.
— E aí? — Especulou dona Maria. — O que descobriu?
— Que ele é meu pai! — Riu a menina. — Desse tamainho!
— Isso mesmo, dona Maria — emendou Luciana. — Não sei como, por que ou de que jeito, mas de alguma forma ele saiu do passado e está aqui conosco, enquanto meu marido de verdade desapareceu. Deve ter algo a ver com a tal lei da física.
— Então ele é mesmo meu Regis!? — Alegrou-se dona Maria. — Claro que é ele! É idêntico!
O menino voltou do quarto, dizendo com sorriso animado:
— Pronto! Agora estou melhor!
— O que houve? — Quis saber sua mãe.
— Ele estava com as coisas soltas, vó! — Ironizou a menina.
— Que coisas? — Não entendeu dona Maria.
— Parecia que eu estava pelado! — Deu de ombros Regis. — Agora estou confortável.
Luciana beijou o rosto da sogra em despedida, dizendo:
— Agora temos que ir! Já está tarde e eu ainda tenho que preparar o almoço pra levar Maysa na escola.
— Eu posso ficar aqui? — Pediu o menino.
— Como assim? — Estranhou Luciana. — Você já quer me abandonar?!
— Aqui é a minha casa! Não é?
— Você é casado comigo e lá é a sua casa agora!
— Não sou casado!
— De onde você acha que vieram meus três filhos lindos?
— Não sei! — Deu de ombros.
— Mas eu sei! Vieram de você!
— Olha o meu tamanho!
— Estou brincando. Não vou mesmo poder namorar você. No mínimo eu seria acusada de pedofilia e iria parar na cadeia.
— O que é pedofilia?
— Pessoas adultas namorarem criança! Isso é pedofilia. Vou esperar você crescer para poder namorá-lo.
— Mamãe… — ironizou a menina. — Aí a senhora vai ficar velha!
— Então vou criá-lo como filhinho e pronto!
— Aí a vó vai ficar com ciúmes! — Tornou a ironizar Maysa.
— Não vou não, filha! — Negou dona Maria. — Eu o reparto com sua mãe!
— Já teve mesmo que repartir antes! Não foi mesmo?
— Eu fico com todo mundo — riu o menino exibindo-se. — E eu vou ficar aqui só um pouco. De tarde irei pra sua casa.
— Ah! Então tá então, ué! — Entendeu Luciana. — Pensei que fosse nos abandonar! À tarde, quando vier buscar a Maysa na escola passo aqui pra te pegar.
— Não precisa me buscar! — negou o pequeno. — Irei sozinho. Eu sei o caminho.
— Nada disso! — protestou convicta Luciana. — Não estamos mais em seu tempo, onde as crianças podiam andar sozinhas nas ruas.
— Uhm! — Franziu o nariz, Regis.
— Se um menininho como você ficar andando na rua sozinho, corre o risco de ter seu coração vendido como mercadoria para pessoas malvadas.
— Eeeh! — tornou a franzir o nariz. — Não sou leitãozinho!
— Mas vale muito mais do que um! Trate de me esperar por aqui.
— Está bem! Vou esperar.
Sendo assim, as duas foram embora e ele ficou para curtir um pouco de sua mãe envelhecida.
Aquela casa em que ele vivia até a dois dias atrás, agora tão diferente da que sempre fora: o poço de sarilho de cordas, foi substituído por torneiras que esbanjam água potável; o chão de concreto em vermelhão agora estava em piso cerâmico frio; a pequena varanda de entrada, de madeira à vista, agora exibia-se em uma grande garagem com laje; o banheiro com chuveiro improvisado à base de grande balde, com bico de regador soldado em sua parte inferior e que tinha sua água esquentada em fogão à lenha, depois o mesmo era erguido pelas forças do muque de sua mãe ou pai, por uma corda com carretilha, já que seus pequenos músculos não tinham forças suficientes, dera lugar agora a um moderno chuveiro semelhante ao da chácara de Luciana , onde basta girar o seu registro e a água já caí torrencialmente quente; as janelas de madeira na cor verde clara, agora eram de veneziana recalcada em vidros esverdeados; o quintal de terra batida, estava totalmente revestido à base de forte concreto, sem um único pé de frutas dos diversos que existiam, incluindo uma linda parreira, a qual ele mesmo usava para brincar de funcionário da companhia de energia elétrica em suas estacas de aroeira; a horta de onde saía a maior parte de suas refeições, também dera lugar ao concreto armado; a pequena casa de dois cômodos que ficava no meio do quintal, fazia-se forte na lateral do terreno, divisa com o qual seu pai plantava mandioca e milho e ele mesmo fugia para tal, à brincar com a linda menina vizinha, quase de sua idade, branca, de lindos cabelos castanhos, em casinha improvisada por sob a guanxuma alta, misturada ao mandiocal e que este terreno agora, também fora substituído por majestosa residência moderna.
Todos os móveis e utensílios de utilidade ou conforto também eram diferentes, tais como já mencionado, o fogão que antes dava um baita trabalhão para criar fogo com lenha de velhos pés de café, se ascendia com um simples girar de botão; as camas ostentadas por velhos colchões recheados de palhas de milho e acolchoados recebera o encanto de lindos colchões de molas ou espumas, macios e confortáveis; seus lençóis à base de sacos de açúcar emendados tinham agora a beleza e conforto de lençóis de malha fria; o velho rádio alimentado por acumulador recebera imagens em moderno televisor de led, com quase cinquenta polegadas de tamanho; as velhas cadeiras verdes de madeira maciça dera espaço ao moderno conjunto estofado; um belo refrigerador mantinha os alimentos conservados, diferente de antes, onde se conservava a carne de porco dentro de uma lata com quase vinte litros de gordura, enquanto outro tipo ficava para defumar acima do fogão de lenha, ao lado de uma parede preta pela fumaça…
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O menino se alimentara bastante durante o almoço, em companhia da mãe que, inclusive recusara sua ajuda, apesar dele garantir que em apenas dois dias no passado, ajudá-la era sua constante tarefa diária.
— Eu me lembro disso! — Concordou ela. — Tadinho! Tão pequenino e com trabalhos para fazer!
— Não têm problemas, mãe — insinuou ele balançando os ombros. — Se eu não ajudasse, à senhora teria que fazer sozinha.
Após o almoço seguiu para a sala de estar e antes de deitar-se no confortável sofá, pediu:
— Eu posso ligar a televisão?
— Você pode fazer tudo o que quiser, filho — Alegou ela meigamente. — Esta é a sua casa.
Com um pouco de dificuldades com o tal controle remoto, conseguiu enfim ligar a televisão em um canal de desenhos e deitou-se com as pernas esticadas sobre o sofá, enquanto a mãe sentou-se no outro de dois lugares.
Alguns segundos de silêncio e a mulher resolveu puxar assunto:
— Como você veio parar aqui?
— Não sei! — Negou ele entretido no desenho animado.
— Por exemplo, você está aqui desde ontem. O que você fez a dois dias passados?
— Fui na escola depois do almoço, depois que voltei jogamos bola no campinho de frente de casa…— pensou um pouco. — A senhora se lembra do campinho que tinha aí em frente?
— Me lembro. Foram vocês mesmo quem construíram. Não foi?
— Sim! Fizemos faz poucos dias! — Fez uma pausa. — Mas agora está cheio de casas!
— É que o tempo passou — alegou-a. — Aliás, passou depressa demais até pra mim! Imagine pra você! O que mais você fez depois que jogou bola com os coleguinhas?
— Depois da janta brincamos de salva… depois tomei um banho… — pensou um pouco e gesticulando emendou. — Mais ou menos!
— Mais ou menos? — Riu sua mãe desconfiada. — Ou nem tomou?
— Tomei sim! — Foi incisivo. — Estava suado de tanto correr.
— Então o que significa mais ou menos?
Apenas balançou os ombros como a dizer “sei lá”.
— E o que mais?
— Fui dormir — nova pausa. — E acordei aqui. Quer dizer… na casa de Maysa.
— Com que roupa você dormiu?
— Deixe-me ver — pensou um tempo. — Não me lembro.
— Acordou aqui com a mesma?
— Nããão! Acordei com um pijama de adulto. Cabia três de mim dentro dele! Luciana disse que é de seu marido — franziu o nariz emendando. — E ela diz que sou eu!
— Realmente você adulto é casado com ela.
— Iéca!
— Por que iéca? Não gosta dela? Nem da Maysa?
— Não é isso! Se falassem que sou casado com a Maysa, fazia sentido, mas com uma mulher mais velha… ela tem idade pra ser minha… Avó!
— Se ela escutar você falar isso ela briga com você!
— Por quê? — Protestou ele. — Não to falando mal! Quantos anos ela tem? Quarenta?
— Não importa! — Riu a mulher. — Se ela ouvir você falando isso, nunca mais namora você, mesmo quando você voltar adulto.
Calaram-se por alguns minutos, os quais ele permaneceu vidrado na televisão, a qual ele nunca assistira em sua curta vidinha de menino pobre.
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