O fim de semana amanheceu glorioso e os Campbell se prepararam para ir passear no velho ancoradouro onde muitas famílias se reuniam para seu lazer de verão. O local era permitido nadar, mas com um aviso de atenção por causa da correnteza que se formava na maré alta. Contudo, na hora em que eles iam, a maré era baixa e não havia perigo. Mesmo assim, Severo não tinha permissão para nadar.

E ele estava inconformado.

– Por que eu não posso nadar?

Enfiada num conjuntinho florido de short e blusa, chapéu e óculos escuros, Mamãe Campbell ajeitou o boné em Severo e repetiu:

– Você ainda é pequeno e não pode nadar sem acompanhante. David já é grande e sabe nadar. Você vai ter aulas de natação e aí poderá nadar.

Severo Snape também vestia um conjuntinho de short e camiseta, com estampas dos Power Rangers.

– Mas eu quero nadar agora!

– Mas não pode. Deixa eu te dizer o que você pode fazer. Você pode brincar na beiradinha com seus brinquedos. Mas fique bem à vista. Você tem que tomar cuidado com o sol, também. Não tire o boné.

– Está bem, mamãe.

– Obedeça a sua mãe, menino.

– Sim, papai.

Severo se jogou para sua mãe:

– Eu amo você, mamãe.

– Eu também te amo, Sev.

– Eu vou te amar para todo o sempre!

– Eu também, querido, mas mesmo assim você não pode nadar.

– Está bem, mamãe. Eu não vou nadar. Vou ficar na beirinha!

Ele pegou seu saquinho de brinquedos e foi para o local indicado, que efetivamente ficava na beirinha da água. O rio não parecia ser muito fundo, mas certamente o era para uma criança de cinco anos.

Era perfeito.

Severo se entreteve com seus brinquedos e de vez em quando corria até a mãe, que lhe oferecia suco e água, pois estava bem quente. Ele não se furtava a sempre agradecer e a dar beijos nela e no seu pai.

Porque afinal de contas ele sabia o que estava para acontecer.

Eles estavam no local há uns cinqüenta minutos e Severo estava sozinho, brincando a uns 50 metros dos pais, bem na beira do cais quando ouviu uma voz no ar.

– Professor Snape!

Era o que ele estava esperando. Pôs-se de pé e disse:

– Potter, precisa aproveitar um momento que eles estiverem com a atenção desviada. É melhor criar uma distração agora, conforme combinamos.

– Certo.

Debaixo da sua Capa de Invisibilidade, Harry Potter correu até adiante no ancoradouro, onde um homem estava parado com um saquinho de pão, tentando alimentar os peixes. A idéia mais óbvia lhe pareceu a mais segura: ele simplesmente empurrou o homem para dentro da água:

– Ohhhhh!

Splash!

– Socorro! Socorro!

Várias das pessoas que se divertiam no rio se aglomeraram para ajudar o infeliz homem, molhado até os ossos. Felizmente o tempo era bom e quente, e dificilmente ele ficaria gripado.

Enquanto as pessoas estavam se aglomerando, de costas para onde Severo brincava, Harry correu até Severo, abaixou-se e abriu a capa, dizendo:

– Entre aqui!

Severo obedeceu, mas sua mente sabia que aquela era a sua porta de saída da vida dos Campbell. Ele teve que fazer um esforço físico para não voltar atrás e retornar a uma vida segura, cheia de amor e carinho.

Só que não era sua vida.

Ele jogou o boné na água e se escondeu embaixo da Capa da Invisibilidade, dizendo, tentando conter as lágrimas:

– Vamos embora! Vamos logo!

Na verdade, ele estava com pressa porque não queria ouvir os gritos desesperados da Sra. Campbell quando ela se desse conta de que seu filho mais novo, adotado há poucos meses, tinha desaparecido num dia ensolarado de verão, provavelmente caído no rio. Severo tinha se afeiçoado demais à sua mãe adotiva, e magoar aquele coração que só lhe dera amor tinha sido uma das decisões mais difíceis que ele tinha tomado.

Mas era o único jeito: eles tinham que imaginar que o garoto estava morto, e parar de procurar por ele.

Em meio à confusão, Harry apressou o passo e Severo correu para longe do ancoradouro. Os dois andaram pelo menos duas quadras até usar a varinha de Harry para pegar o Nôitibus Andante até um endereço conhecido: Largo Grimmauld, 12.

Quando eles entraram na casa, um pequeno grupo os esperava: alguns membros da Ordem da Fênix estavam lá. O Prof. Dumbledore foi o primeiro a exclamar:

– Chegaram em segurança! Excelente! Vocês foram vistos?

Harry respondeu:

– Não, senhor.

– Por Merlin – disse Remo Lupin – Sirius teria adorado ver isso.

Severo fez uma careta e mostrou a língua para o lobisomem. Lupin arregalou os olhos, surpreso.

– Você parece bem, Severo – disse o diretor de Hogwarts – Está corado. Ganhou peso.

– E estou bem pequeno também. Prof. Dumbledore, eu peço que me retire logo o feitiço. Eu... não estou bem.

– Sente alguma coisa, Severo?

Ele apertou os lábios e disse, já entre lágrimas:

– Estou com saudades da mamãe.

– Oh, sim. Harry nos contou sobre sua... adoção. Sinto muito, Severo.

– Por favor, poderia ser mais rápido?

– Infelizmente, não será possível – disse o Prof. Dumbledore – A poção só poderá ser terminada amanhã, com a adição do último ingrediente. Sabe que é uma poção complicada. Você dormirá essa noite aqui no Largo Grimmauld.

Nymphadora Tonks se ofereceu:

– Eu posso encolher um pijama para você.

– Obrigado. Mas sem ursinhos, por favor.

Remo Lupin disse:

– Ah, Severo, você realmente está muito bem. Aqueles trouxas fizeram um milagre.

Já morto de saudade, Severo deixou escapar uma lágrima:

– Por favor, precisamos falar disso?

A Profª McGonagall disse:

– Mas deixem o pobre pelo menos se sentar. Ele acabou de chegar de Surrey e tem apenas cinco anos. Provavelmente está com fome. Quer comer alguma coisa, Severo?

– Obrigado, Minerva.

– Venha comigo até a cozinha.

Ele procurou a mão dela, surpreendendo a rígida professora. Foi de mãos dadas que eles foram até a cozinha, que ficava no porão. O resto do grupo veio atrás, incluindo muitos Weasley.

Harry olhou a camiseta dele e disse:

– Power Rangers. Eu ouvi falar que eles estão voltando.

– Não tinha camiseta do Yu-Gi-Oh.

– Escuta, Ron e eu estamos jogando Snap Explosivo. Se você quiser jogar, pode vir conosco.

– Obrigado. Aliás, eu gostaria de lhe agradecer, Potter. Você se arriscou muito.

– Não tem erro. A polícia não vai desconfiar de mim. Eu nem estive perto de vocês no fim de semana, lembra-se?

– Eu sei. Como eu disse, minha cabeça ainda está um pouco confusa. Eu sei que estou entre amigos, mas sinto um impulso irresistível de voltar para minha mãe adotiva.

– Você gosta muita dela, não gosta?

– Sim. Essa separação... está sendo difícil.

– Eu sinto muito. Aquele lugar parecia ser muito feliz.

– Eu nunca tinha tido isso na vida, Potter. Pais que me amavam, uma infância tranqüila. Você não calcula como tudo isso está sendo difícil.

Minerva McGonagall apareceu com um prato de sanduíches, um copo de suco de abóbora e disse:

– Coma um pouco, Severo, e procure se hidratar. Potter disse que você estava no sol durante muito tempo, isso pode afetar seu humor também.

– Sim, Profª McGonagall.

– Mas se você puder conservar esse traço cordato que parece ter adquirido, seria ótimo para todos nós.

Ele tomou o suco e disse:

– Não se preocupem. Em breve vocês terão de volta o Mestre de Poções que vocês gostam tanto de odiar.

McGonagall disse:

– Coma o seu sanduíche. Você está em fase de crescimento.

Snape voltou à velha forma e rosnou:

– Não por muito tempo.

Remo Lupin disse:

– Pronto: o professor Snape resmungão de sempre está de volta.

Tonks olhou para a cara dele e disse:

– Que nada. Isso é puro soninho. Alguém não tirou sua sonequinha hoje.

Severo se inflamou:

– Para seu governo, Srta. Tonks, eu não tiro sonequinhas todos os dias. Sua insinuação é desrespeitosa, insultuosa e irritante!

– Mas você passou por grandes emoções hoje – disse McGonagall – Por isso vai ter sonequinha, sim. Se já terminou de comer, pode ir para o seu quarto.

– Mas o que é isso?! – disse Severo, só que sua voz ainda era de criança, e não era nada intimidadora – Um complô para me dar ordens?

Molly Weasley interferiu:

– Calma, gente, eu sei lidar com crianças teimosas que ficam com sono. Vamos, Severo, vamos mimir.

– Mas eu não estou com sono!

– Ah, mas logo vai estar – disse McGongall – Eu coloquei uma poção no seu suco para você dormir um pouco. O estresse emocional de hoje foi grande, Severo. É melhor você dormir um pouco mais.

– Eu deveria ter reconhecido o gosto do asfódelo!

– As papilas gustativas de crianças são diferentes das dos adultos. Além do mais, eu disfarcei com açúcar.

Molly Weasley estendeu a mão:

– Venha, Severo. Eu vou colocá-lo na cama.

– Isso é um absurdo! Eu não sou um bebezinho! – mas ele bocejou.

Harry disse:

– A poção certamente já está fazendo efeito...

Ron garantiu:

– Não, é só o mau humor típico do nosso querido professor Snape.

Severo estourou:

– Mais respeito, Sr. Weasley! Eu ainda sou seu professor.

– Acho que aquele joguinho de Snap fica para outro dia, hein, professor?

Snape sentia seu corpo relaxando. A poção começava a fazer efeito, e ele se levantou da cadeira, dizendo:

– Onde fica mesmo aquele quarto?

A Sra. Weasley pegou a mãozinha dele e disse:

– Eu o levo até lá.

Já mal se aguentando em pé, ainda que fosse de tarde, ele subiu as escadas e a Sra. Weasley o levou para dentro do quarto. Lá ela o colocou debaixo das cobertas e disse:

– Durma bem, Severo.

Meio adormecido ele disse:

– Obrigado por me adotar, mamãe...