Um pequeno contratempo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
- Severo, eu quero uma prova de lealdade e confiança.
Severo Snape realmente não tinha como recusar a ordem, não diante de todos os Comensais reunidos na Mansão Riddle. O tom de Lord Voldemort não deixava margem para dúvidas – ou resistência. Além do mais, fazia tempo que Snape não trazia nenhuma informação útil sobre a Ordem da Fênix. O Lord das Trevas estava ficando impaciente por ter novos alvos para atacar o Bem, e Snape não estava contribuindo.
- Sim, meu senhor.
Aquele não estava sendo um bom dia para Snape, desde o começo. O inepto Longbottom tinha explodido outro caldeirão, Harry Potter o incomodara, Alvo o tinha chamado para outra daquelas conversas de "Você precisa relaxar, Severo". E desde que chegara à reunião imprevista de Comensais, Voldemort parecia estar de péssimo humor.
Agora, isso.
- Vou lhe fazer um feitiço e enviá-lo ao mundo trouxa.
Lugarzinho detestável, pensou Snape.
- Minha missão?
- Voltar ao nosso mundo, se conseguir! – ele puxou a varinha e apontou para Snape – Puer terragenum!
Um raio brilhante saiu da ponta da varinha e a claridade adquiriu um formato azul ao envolver Snape, que gritou de dor. Uma grande explosão cegou os Comensais durante alguns segundos. Quando eles puderam enxergar de novo, viram apenas as roupas de Snape no chão. Muitos deles estavam assustados.
- Milorde... – disse Lúcio Malfoy, mais branco que sua máscara de Comensal – Não o Puer terragenum!...
- Não se preocupe, Lúcio – disse Voldemort, sem se abalar — Severo é muito engenhoso, eu tenho certeza que vai se sair dessa. Por isso é que eu preciso de um favor seu.
Mas Lúcio mal prestava atenção. A pilha de roupas no chão começava a se mexer, e do meio dela surgiu uma criança.
Um menino, para dizer a verdade, de uns quatro anos. Seu cabelo era preto feito carvão, os olhinhos também. Ele era magrinho e provavelmente era pequeno para sua idade. Ele olhou em volta e o nariz puxadinho para baixo não deu a nenhum dos comensais qualquer dúvida sobre quem era aquele menino.
Severo Snape.
Por um instante, Snape não entendeu direito o que tinha se passado. Ele estava em pé, então como sentia que estava próximo do chão? Por que todos pareciam ser tão altos, quase inatingíveis? Ele ergueu a cabeça e olhou para cima. Voldemort o olhava com uma satisfação perversa nos olhos verdes, e Lúcio Malfoy, a seu lado... Bom, Lúcio estava com a máscara de Comensal, então ele só viu os olhos cinza brilhando – de puro desprezo.
Num átimo, Snape compreendeu tudo: ele tinha sido atingido com o Puer terragenum, um feitiço análogo ao Puer infringenum – um feitiço que fazia as pessoas voltarem a ser crianças durante algum tempo, o que as fazia reviverem suas sensações de criança. A diferença entre os dois é que o Puer terrigenum não mexia na memória do atingido: isso porque ele era um feitiço permanente, passível de reversão apenas com potente contra-feitiço.
Para coroar sua suprema humilhação, Snape tinha ficado pequeno demais para a roupa e estava nu debaixo das suas longas capas.
Ele chamou:
- Milorde?
A próxima constatação era cruel.
Sua voz, um de seus instrumentos de trabalho mais preciosos, era a de uma criança. Até que era agradável para a voz de uma criança de quatro anos, não chatinha e fininha que irritava como uma lâmina nos ouvidos. Mas ainda assim, não era mais a voz capaz de seduzir só no seu tom, ou de atemorizar alunos do primeiro ano só com sua intensidade, sem que ele precisasse erguer a voz para silenciar uma turma inteira de crianças de 11 anos.
Voldemort virou-se para ele e apontou a varinha, dizendo:
- Ajustate!
Imediatamente, as roupas de Snape se adaptaram ao tamanho dele e o pequeno garoto no chão parecia uma miniatura do Severo Snape que todos conheciam. Estranhamente, porém, o cabelo estava bem assentado e assemelhava-se ao corte Romeu– ele parecia um minúsculo pajem medieval.
Os Comensais estavam calados, mas a tensão no ar era palpável.
- Lúcio – chamou Voldemort – Pegue-o no colo.
Houve uma ligeira hesitação. Lúcio Malfoy tinha verdadeiro pavor de criança. Ele se gabava do fato de jamais ter posto Draco no colo depois que o menino tinha sido batizado.
Sem tirar sua máscara, Malfoy agachou-se e pegou Snape pelas axilas, elevando-o e ajeitando-o contra si. Com as mãozinhas pequenas, Snape não pôde evitar tocar na máscara. Lúcio praticamente rosnou para ele, e Severo parou.
- Meu servo Lúcio – disse Voldemort – Quero que você o entregue a um orfanato trouxa para ser adotado. Será um teste para que ele reafirme sua lealdade e seu lugar entre os meus Comensais. Ah, e já que você estará entre trouxas, Severo, não vai precisar mais disso – ele apontou a varinha para a de Severo – Virga evanesca!
A varinha se desfez em pleno ar.
- Não! – o menino gritou, sem conseguir se controlar, mexendo-se no colo de Lúcio.
Voldemort soltou um sorriso odioso:
- Ah, sim. Você vai notar que rapidamente seu controle emocional vai falhando, embora suas memórias se mantenham intactas. Ser criança nunca foi fácil para você, Severo, eu sei, mas quem sabe, agora que você vai ser trouxa, você tenha lembranças mais felizes. E se algum dia conseguir voltar para mim, faça isso – ele se virou para Lúcio – Podem ir agora.
Lúcio apertou Severo contra si e Aparatou.
- Faça o favor de me acompanhar.
- Você não pode me levar no colo? – rosnou Snape, o que era uma façanha para um menino de quatro anos – Minhas pernas estão muito curtas.
- Isso não é problema meu – foi a reposta fria – O nosso Lord parece estar muito desgostoso com você e eu não quero desagradá-lo.
- Lúcio, você precisa me ajudar.
- Desculpe, Severo, mas minhas ordens são explícitas. E ainda terei que lidar com trouxas por sua causa. Eu odeio essa gente, você sabe! Só querem dinheiro. Ainda bem, que eu tenho algum dinheiro trouxa para emergências.
- E eu? Vou ter que viver com eles.
- Bom você não é um espião? Aja como um.
- É difícil. Esse corpo está cheio de sensações estranhas. Sinto meu controle emocional falhando.
- Bom, chegamos. Faça o melhor para se controlar.
Os dois pararam em frente a um portão de uma casa antiga, com um pequeno jardim na frente. Como era de noite, ela parecia escura e ameaçadora. Lúcio abriu o portão. Severo seguiu-o até a porta de entrada, sentindo-se apreensivo. Não gostou daquele lugar. Lúcio bateu à porta e esperou algum sinal de vida lá de dentro. Uma luz se acendeu e em seguida, uma mulher despenteada abriu a porta:
-Sim?
- Desculpe a hora mas vim de longe – disse Lúcio – e me disseram que aqui haveria a solução para o meu problema – ele olhou para Severo, que ergueu o olhar para a mulher diante dele. Ele a olhou com atenção.
Ela parecia alta (bom, todos pareciam altos), era magra, talvez uns 40 anos, enrolada num roupão de baixa qualidade. Severo viu chinelos gastos e meias puídas. A mulher abriu um sorriso calculista entre os dentes amarelados.
- Claro, senhor. Por favor, entre.
Lúcio ultrapassou a porta, Severo o seguiu e olhou para a casa velha, com pisos de madeira. Visivelmente desconfortável com o ambiente, Lúcio foi direto ao assunto:
- Não posso me demorar. O menino perdeu os pais num recente incêndio.
- Por isso ele está de luto – observou a mulher – Ele não tem papéis?
- Tudo foi queimado. Gostaria que ele fosse adotado para viver com uma família... er, boa.
- Claro, claro. E o senhor é...?
- Um vizinho. Ele ficou comigo uns dias, mas agora precisa seguir sua vida. Moro longe, perto de Wiltshire, e seu estabelecimento me foi muito recomendado.
- Não se preocupe, senhor – mais um sorriso cheio de dentes amarelos – Cuidaremos bem do garoto.
- Excelente. O nome dele é Severo Snape, e ele tem quatro anos.
- Ele não tem roupas ou brinquedos?
- Tudo queimado, infelizmente. Bom, eu preciso ir agora.
Severo sentiu uma aflição no estômago:
- Lúcio, não!
- Ora, ora, Severo, nós conversamos sobre isso. Agora você vai ficar com a moça boazinha e ela vai lhe arranjar novos pais.
Sem conseguir se controlar, ele pediu:
- Não me abandone, por favor!
- Seja um homem, Severo – repreendeu – Talvez um dia nós nos encontremos de novo. Adeus.
A mulher levou Lúcio até a porta, e Severo sentiu lágrimas se formando em seus olhos. Ele tinha que dar um jeito no seu descontrole emocional, e logo. Afinal de contas, ele não era uma criancinha de quatro anos, não era!
A mulher voltou e pegou-o pelo braço:
- Venha, garoto – o tom simpático e falso tinha sumido de sua voz – Chegar a essa hora na noite! Onde já se viu? Pelo menos ele deixou muito dinheiro – tive algum lucro!
Severo ergueu o olhar e viu que as mãos dela estavam cheias de notas dobradas. Pareciam muitas.
- Você pode me chamar de Srta. Dóris. Vou colocar você junto com os mais velhos essa noite, e depois vou mudá-lo para o alojamento dos pequenos.
- Sim, Srta. Dóris.
- E mantenha a voz baixa. Não queremos acordar ninguém. Você vai manter sua cama em ordem e suas roupas no lugar. Infração serão severamente punidas. Em breve você vai ser entrevistado pelo Serviço Social. Eles vão arrumar uma família que queira adotá-lo.
- Quanto tempo até eu ser adotado?
- Isso é com o Serviço Social. Mas porque está fazendo todas essas perguntas? Você só tem quatro anos!
Com isso, Severo teve que calar a boca. Crianças não eram ouvidas entre os trouxas.
A Srta. Dóris lhe deu um pijama e o levou até um dormitório escuro cheio de camas enfileiradas, como se fosse um estabelecimento militar. Havia meninos dormindo nas camas, mas alguns disfarçadamente abriram os olhos para ver o que estava acontecendo.
Dóris foi até o fim do dormitório, onde havia camas vazias. Ela parou na última e disse:
- Todos são acordados às 6h. Os mais velhos vão para a escola depois do café, mas você ficará com os mais novos. Espero que ajude a tomar conta dos menores.
- Sim, Srta. Dóris.
- Fique longe de problemas e você se dará bem. Está com fome?
- Não, Srta. Dóris.
- Então vá dormir.
Sem dar boa noite, ela o deixou para se trocar e colocar-se sozinho dormir. Naquele momento, ao ver-se completamente sozinho, Severo sentiu-se indefeso. Sem poder controlar o medo do que seria sua existência dali para frente, ele chorou silenciosamente, lágrimas correndo pelas faces muito alvas de seu rostinho infantil.
- Pssst – veio uma voz à direita – Não faça barulho.
Severo se virou. Era um menino, erguido nos cotovelos que o encarava. Deveria ter uns nove ou dez anos.
Severo fungou e se enfiou debaixo das cobertas finas e baratas. Ele tentou pensar como poderia sair daquela situação, e se juntar novamente ao mundo dos bruxos, mas no momento, ele não conseguia pensar em nada, de tão apavorado que estava. Tudo lhe era desconhecido, e ele se sentia tão pequeno, tão desprotegido, com aquele mulher tão grande e má a ameaçá-lo. Olhando para o teto da casa antiga, ele imaginou o que seria dele dali para frente.
O menino à direita se sentou na cama e cochichou:
- Por que está aqui?
- Meus pais morreram. E você?
- Minha tia não me quis. Você não tem ninguém?
- Não.
- Nem eu. Mas você é pequeno. Vai conseguir ser adotado logo. Eu não, já sou grande.
- Como é o seu nome?
- Joey. E o seu?
- Severo.
- Nossa, que nome estranho. Tomara que seus novos pais mudem o seu nome.
- Eu não quero mudar de novo. Durante toda minha vida, eu tenho sido Severo.
- Você é estranho. Mas é legal. Vou te dar um conselho: fique longe do Moe. Ele gosta de judiar dos pequenos que nem você.
- Vou me lembrar.
- Agora vou dormir. Tenta dormir um pouco também.
- Tá bom. Boa noite, Joey.
Snape se virou para o lado, tentando adormecer apesar dos pensamentos atribulados de seu coração e dos pequenos ruídos que os garotos adormecidos faziam. Depois de muito tempo, ele conseguiu conciliar o sono.
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