Um outro Amor Verdadeiro
27 Valete
Notas iniciais

[Killian]
Acordo de madrugada. Na verdade, nem consegui dormir direito. David está ao meu lado envolto num sono profundo. Checo por mais uns segundos antes de me levantar. Tomo todo o cuidado pra não acordá-lo. Nem um movimento. Saio do quarto fechando a porta atrás de mim. Vou até a cozinha. Encho um copo com água gelada. Passo as costas da mão na testa secando o suor. Lavo meu rosto. Volto no quarto, pego um casaco, uma calça moletom e saio.
O ar frio da madrugada me envolve. Tremo. Olho para um lado e para o outro. Direita. Começo a caminhar. Minha respiração faz uma nuvem de fumaça que desaparece em instantes a minha frente. Ponho as mãos nos bolsos da jaqueta para esquentá-las. Entro na praça da cidade. Caminho até o parquinho e me sento em um dos balanços. Testo-o para checar se ele me aguenta e então solto todo meu peso relaxando.
Seguro as correntes com minha mão (e meu gancho). Deixo meu corpo inclinar pra frente. O balanço vai e volta. Deixo que o ar frio me envolva. Jogo meu corpo pra frente e para trás, balançando novamente.
– Caiu da cama foi?
Viro o pescoço pra ver quem é, embora não seja preciso.
– Está me seguindo ou o que?
– Está se achando de mais, não acha? – Começo a me levantar. – Calma rapaz. Eu vim em paz
– O que você quer Will?
– Quando eu era criança, costumava balançar num desses, só que feito de pneu.
Ele se senta no balanço ao meu lado. Balança pra frente e para trás. Um sorriso brota no seu rosto. Isso deve lhe trazer boas lembranças. Ele para de balançar. Olha para o chão.
– Sabe Killian. – Diz ainda olhando para o chão. – Sei que tu tem namorado. Sei também que não tenho direito de interferir nisso. E que não é certo, nem mesmo ético. – Olho para ele, que ainda encara o chão. Concordo com a cabeça. Sua voz está diferente. Nem parece o Will de sempre. – Só que.. – pausa – ... eu nunca fui de fazer as coisas certas. Desde que eu me lembre, eu sempre gostei das coisas proibidas. – Sua voz voltou a ser como sempre foi. Provocadora. Envolvente. – E o mais importante. De coisas difíceis.
Não consigo falar nada. Engulo em seco.
– Will. Olha.. eu.. hã..
– Shhhh. – Ele faz pedindo silencio. – David não precisa saber de nada. Ninguém precisa saber. – Ele se levanta. Dá a volta e para atrás de mim. Fico imóvel. Suas mãos pousam em meus ombro. Um calafrio percorre meu corpo inteiro. Seu rosto se aproxima de mim. O ar quente de sua respiração toca minha orelha e mais uma vez sou tomada por calafrios. Penso em levantar, mas não consigo. De alguma forma eu estou preso ali.
– Será o nosso segredo. Somente seu e meu. – Suas mãos seguram as correntes acima de mim. Deixo meu corpo girar. Fico de frente a ele. Meus olhos estão fixos ao chão. Sinto o toque quente de seus dedos em meu queixo. Meu rosto é puxado pra frente. Encaro-o. Não devia estar fazendo isso. Não devia. Mas me permito. Fecho meus olhos me preparo para o toque quente e úmido de seus lábios.
Nada acontece. Abro os olhos. Vejo-o sorrindo pra mim. Seus dedos sobem e acariciam minha bochecha. Ele pisca um dos olhos. Sorri mais uma vez e sai. Meu corpo gira e eu volto a posição que estava antes. Tudo volta como estava antes. As únicas lembranças de que Will esteve ali é o seu cheiro que permanece no ar, a sensação do seu toque que permanece em meu rosto e meus ombros e a imagem provocadora de seu sorriso desenhada na minha mente.
– O que foi que eu fiz? – Pergunto a mim mesmo. Giro meu corpo. Não há sinal de Will em lugar algum. Assim como ele apareceu, ele sumiu.
~ Horas depois ~
– Onde estava? Acordei e você não estava na cama.
– Estava sem sono e decidi dar uma caminhada pra espairecer. – Digo trancando a porta atrás de mim.
– Pesadelos?
– Mais ou menos. – Ele me abraça. Me sinto estranho em seus braços. – David, eu..
– Sim?
– Nada, esquece.
Ele me olha. Sua cara diz: pode falar. Dou um sorriso desconcertado e vou pro quarto trocar de roupa. Ponho algo mais fresco. O dia amanheceu e a temperatura está mais agradável.
Sentamos na mesa para tomar café. Pego algumas fatias de bolo. Encho meu copo com café e leite. Como e sinto o olhar de David pesar sobre mim a todo o momento. Me endireito na cadeira incomodado.
– Hunrun. – Ele pigarreia. – Então.. onde esteve mais cedo?
– Eu disse. Acordei de madrugada. Não estava conseguindo dormir e então decidi sair pra ver se o sono vinha. O que, claramente, não aconteceu.
– E simplesmente ficou vagando pela cidade? De madrugada?
– Não. – Ele me encara. – Parei na praça da cidade e fiquei lá até amanhecer.
– Hum. – É a única coisa que ele diz.
Mentiroso. É o que deve estar estampado na minha cara. Não estou mentindo, estou? Ele perguntou onde eu fui, eu disse. Não menti sobre isso. Apenas omiti alguns detalhes.
Pego mais um pedaço de bolo. David termina de tomar seu café. Ajudo-o a retirar a mesa. Ofereço ajuda para lavar as coisas. “Não precisa”, é o que ele diz. Volto pro quarto. Pego a jaqueta que estava usando a pouco em cima da cama. Caminho até o armário para guardá-la quando noto um papel em um dos bolsos. Retiro-o.
06:45. Hoje. Na entrada da cidade.
São as únicas informações escritas. Viro a folha. O desenho de um valete de copas ocupa a maior parte do verso.
– Vou para a delegacia. Pretende vir? – David diz entrando pela porta atrás de mim. Amasso o papel. Penduro a jaqueta no guarda-roupa. Limpo a garganta antes de responder.
–Agora não. Pode ir. Vou ver se consigo dormir um pouco e mais tarde eu devo aparecer lá.
– Ok. Se cuida. – ele sorri, me dá um beijo e sai. Respiro aliviado. Olho para o papel amassado na minha mão. Rasgo-o e jogo no lixo. Olho para o relógio. 06:08.
Olho para a lixeira e novamente para o relógio. Meu coração acelera. Pego uma calça jeans no guarda-roupa e a jaqueta que acabei de guardar. Vou até o banheiro. Me olho no espelho. Pego as chaves e saio.
~ alguns minutos depois ~
Chego ao ponto de encontro. O relógio marca 6:43. Olho ao redor. Ninguém. 6:45. Ninguém. Começo a acreditar que era algum tipo de brincadeira sem graça. Viro e começo a andar de volta a cidade quando vejo uma carta com a mesma figura que estava no bilhete. Vou até ela e a pego. Uma seta indica a mata à direita. Caminho mata à dentro. Mais uma carta. E outra. E outra. Sigo a trilha. Pego uma outra carta. Olho ao redor, não encontro mais nenhuma. Sigo reto e encontro um pequeno lago. Nunca havia visto essa parte da cidade antes. Sento-me próximo a margem do lago. Atiro uma pedra que produz pequenas ondas na água inerte.
Encaro as águas calmas. O silencio enche o local. Um movimento no lago me chama a atenção. Pequenas ondas surgem na margem de frente a mim. Ondas iguais as anteriores feitas pela pedra que atirei. A água volta a ficar calma. E mais uma pedra atinge um lugar próximo ao anterior. Olho para a margem do outro lado. Não vejo ninguém. E então vejo Will sair da cobertura de algumas árvores. Ele está usando uma calça jeans colada ao corpo e uma camisa azul claro com mangas longas arregaçadas até a altura do cotovelo.
[Will]
Vejo Killian sentado do outro lado do lago. Atiro uma pedra no lago chamando sua atenção. Atiro outra. Ele olha em minha direção. Saio de trás das árvores permitindo que ele me veja. Caminho até onde ele está. Paro a dois passos dele que já se encontra de pé.
– Sabia que viria. – Digo sorrindo. Puxo-o pelo braço, agarro sua nuca e o beijo. Sua língua invade minha boca em uma briga selvagem. Sua mão toca meu peito e desce até minha cintura. Ele a agarra e puxa meu corpo rente ao dele. Retiro sua jaqueta. Ele veste uma camiseta branca colada ao corpo. Seguro sua gola com as duas mãos e com um puxão forte a rasgo no meio deixando seu peito nu. Sua mão desce até minha cintura desafivelando meu cinto e abrindo a braguilha da minha calça. Acaricio suas costas e as marco com minhas unhas. Ele geme com o ardor. Minha mão desce até sua bunda. Aperto-a com força. Prazer. Vontade.
– Não via a hora de isso acontecer. – Digo. – Nem eu. – Ele responde. Sorrio e termino de retirar suas roupas.
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