Meu coração batia tão rápido, mal podia acompanhar, era noite e a floresta parecia não ter fim, o caminho era brevemente iluminado pelos espaços não preenchidos pelas árvores. Por um minuto pensei ter ouvido um animal rastejando ao meu lado, senti medo por não conseguir enxergar o que realmente era, mas não podia parar de correr, mesmo com as pernas ardendo pelo esforço contínuo e os vários arranhões pelo corpo eu precisava continuar, precisava fugir, porque o animal rastejando ao meu lado era muito menos assustador do que aquilo que estava realmente vindo atrás de mim.

Os passos atrás de mim estavam mais perto, o pânico tomava conta de mim, não sabia mais para onde ir, a minha frente à floresta acabava e a única coisa depois dela era um precipício. Já havia corrido tanto, estava tão cansada, tão fraca, não conseguia mais pensar direito. Foi quando um relâmpago me assustou e de sobressalto me joguei dentro da moita ao meu lado, na queda recebi uns arranhões a mais. Minha respiração estava acelerada e os passos se aproximavam mais rapidamente, era como um leão vindo atrás de sua presa certa. Fiquei em silêncio, não havia mais o que fazer, decidi aceitar que aquele era meu fim, estava tudo acabado, mas por um milagre ele não me viu, passou correndo por mim direto para o fim da floresta e lá ele parou, olhando ao redor a minha procura, mirando todas as direções.

Comecei a me levantar para correr novamente floresta adentro até chegar a cidade e finalmente me salvar.

— Camren! — Ouvi um grito atrás de mim. Era ele, tinha me visto e agora sim seria tarde demais para correr. – Vamos, apareça! Não vou te machucar, nós devemos ficar juntos, é nosso destino. Eu te amo, Camren! – Naquele momento percebi duas coisas. A primeira é que ele não havia me visto quando levantei, não fazia ideia de onde eu estava. E a segunda é que aquelas palavras me deixaram tão enojada, senti tanta raiva que talvez tenha sido por isso que fiz o que fiz. Como alguém pode ser tão desprezível? Como alguém pode usar palavras tão fortes sobre um sentimento do qual nem sequer conhecia? Ou será que o amor é assim, como uma doença? Perdi a cabeça por completo e comecei a andar na direção dele enquanto ele ainda gritava meu nome, e quando estava perto o suficiente me escondi atrás de uma árvore.

Dentro de mim algo gritava para eu correr, mas tudo que conseguia pensar era na raiva que estava sentindo, no quanto ele havia me machucado e ferido de tantas maneiras possíveis, então apanhei uma pedra no chão, cabia perfeitamente na minha mão, era como se ela estivesse lá a minha espera. Então olhei novamente para aquele homem desprezível e asqueroso e caminhei em direção a ele, que continuava a me procurar em todas as direções. Quando estava prestes a me revelar e sair da escuridão da floresta ele ficou de costas para mim e de frente para o penhasco, e começou a andar, pensei ser um devaneio, mas era tudo real, será que ele pretendia se matar? Ele iria desistir de me encontrar, finalmente? Seria possível?

Foi então que ele se virou, seus olhos estavam nos meus, aquele olhar de loucura estava novamente sobre mim e percebi que estava fora da floresta, totalmente desprotegida e diante dele. Procurei pela pedra que havia pegado antes e me dei conta de que já não estava mais em minhas mãos, eu a tinha largado pensando ser aquele o momento em que ele finalmente iria morrer, e por conta própria. Como fui ingênua.

—Você voltou para mim, meu amor. Você voltou Camren.

Meu nome foi dito novamente, mas sem resposta, não conseguia falar, o pânico se instalou novamente em mim, precisava encontrar um jeito de me livrar dele. Senti um puxão no braço, era forte e rígido, então olhei para os olhos dele novamente.

—Me responda quando eu falar com você! – Ele gritou, me segurando.

Enlouqueci em raiva e medo, não podia voltar novamente para aquele lugar horrível com ele, não podia, então o empurrei com toda força, empurrei de novo e de novo até que ele tirou a arma da calça e apontou pra mim. –Eu não quero machucar você. -Ele disse.

Lembrei então de todas as vezes que ele havia me dito aquilo e me machucou em seguida, então gritei o mais alto que pude e saltei sobre ele com toda força que me restava. Levei socos e alguns chutes, mas finalmente o poder era meu, a arma era minha e não era para mim que ela estava apontada. Ele me olhava com curiosidade, como se pensasse que eu não seria capaz e talvez estivesse certo, a garota doce e meiga que eu era não seria capaz de fazer aquilo, a garota que para salvar um cachorro de um chute fraturou as costelas não seria capaz de fazer aquilo. Mas eu não era mais aquela garota, agora tudo que eu queria era sobreviver, então atirei.

Por segundos vi seus olhos abrirem em incredulidade, logo em seguida vi seu corpo cair no penhasco ao qual jamais voltaria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.