Um novo The Big Four
12 Não Queria Isso...
Notas iniciais
Jamais vira o Soluço assim! Quer dizer... o mais próximo disso, foi quando o Deny tentou me beijar, mas... parece que ele está mais furioso que antes...
– Beterraba, sai já daí! – Fala Soluço, tentando (visivelmente) segurar a raiva.
– Ótimo! Só o que faltava! – Ironiza Itan – Soluço, defensor dos fracos e oprimidos!
– Eu não dirigi a palavra a você! – Grita Soluço apontando o dedo indicador para Itan.
– Ela não é obrigada a seguir suas ordens! Ninguém é!
– Considerando que vem de uma pessoa que acha legal se exibir por ai!
Os dois ficaram nessa “Guerra Fria” por um tempo. Eu? Eu não me mexia! Nunca passei por isso! O que acontece quando seu melhor amigo, pega o pior inimigo, dando em cima da sua protegida, que estava dando corda a ele?
Mesmo sabendo que não era o melhor momento, e nem o melhor lugar para pensar nisso, mas... eu sabia, no fundo eu sabia, que isso teria que acontecer! Mas porque tão cedo? Porque me pegar desprevenida desse jeito?
Sinto um filete de lágrima escorrer pela minha bochecha, e decido acabar com aquilo, e adiar meu dia de decisão.
– JÁ CHEGA! – Gritei com todo o resto de voz que me restava, mas ela ainda saiu tremula.
Eles não mudaram de posição, só viraram os rostos, com olhos surpresos, para mim.
– Soluço! – Minha voz era de repreensão, em conjunto com meu olhar de desgosto – Itan...! – Agora, minha voz continuava com um toque de raiva, apesar de meus olhos pedirem desculpas. Olhei mais uma vez para Soluço, fechei os olhos, respirei fundo, ultrapassei os dois com raiva, e corri para fora da sala.
P.V.O. Autora:
Beterraba saiu pela porta correndo, com o dorso da mão em seu olho direito, tentando (falhamente) cessar suas lágrimas. Seguindo pelo corredor que fica à frente da sala.
– Bete, espera! — Gritaram os dois, no pé da porta. Que logo se encararam quando perceberam que faziam algo juntos, fazendo caretas, e virando para o lado oposto, seguindo por corredores opostos. Nem um foi atrás da Beterraba.
Mas a mesma nem ligou, na verdade, estava contando com isso. Mesmo com os olhos embaçados com água, Bete achou o caminho para o dormitório, fechando a porta atrás de si, e caindo de bruços na sua cama, afundando o rosto em seus próprios braços. Sua cabeça estava tão embaçada quanto sua vista, embaralhada como nunca, mil e uma perguntas sem respostas, perguntas que a perseguiam e não era de hoje! Todas eram assustadoras para ela, "como deixou isso acontecer?" "O que viria em seguida?" "Será que é agora que vai ter que escolher um lado?" Mas a mais importante "será que o Itan merece mesmo passar por isso outra vez por causa dela?"
Seu estomago roncou, mas ela não deu ouvidos. Assim como Itan, que apesar de estar com fome, precisaria esperar sua rotina, esperar que todos saiam da cantina, para evitar olhares e cochichos.
Ele caminhou lentamente pelos corredores vazios, pesando no acontecido, quando chegou ao Jardim auxiliar, não se sentou no lugar de costume, o banco atrás da fonte, ele continuou andando até chegar no muro coberto por uma cortina de folhas. Bom, pelo menos ERA para ser um muro. Acho que quase ninguém sabia disso, mas o Itan descobriu a passagem secreta dentre as folhas. Ele olhou para os lados e para trás antes de abrir a cortina de folhinhas perfeitamente verdes, quando a luz das luminárias do jardim auxiliar entrou naquele lugar... parecia coisa de conto de fadas!
A partir do momento em que você entra, pode enxergar a grande arvore, ilhada numa porção de terra, que só pode ser atingida por meio da ponte de madeira, localizada bem no meio do lago que sapara as “ilhotas” do lugar. O lugar era mais complexo do que parecia, os galhos da grande arvore eram que segurava a cortina de folhas. As únicas luminárias dentro do lugar, eram postes de luz que só eram ligados manualmente. Não que o lugar precisasse de iluminação artificial, já que a luz da lua que passava dentre as folhas, e os vagalumes que piscavam, faziam o bom trabalho. O lago, apesar de sem peixes, haviam várias vitorias regias. As flores, coloridas e com uma grande biodiversidade, pareciam cintilar no quase-escuro. A ponte curva, de madeira branca, dava um toque de humanidade ao lugar. Era, simplesmente, perfeito!
Itan caminhou lentamente, passando pela ponte, acendendo as luzes manuais, voltando para o centro de arvore, sentando na grama, sacando sua flauta portátil e soprando, formando uma melodia não muito famosa, mas mesmo assim linda.
Soluço foi o único que decidiu seguir o caminho habitual: cantina; perto da cozinha; terceira mesa da direita; com seus amigos habituais; com sua vida habitual; com sua rotina, chata, e inexpressivamente habitual. Mas ele não ligava, gostava de ser monótono, apesar de ter que sempre pensar nas partes que iria contar, e nas que iria omitir.
Chegando na mesa habitual, soluço cumprimentou os amigos, e por fim, decidiu não falar nada.
– E-Eu perdi a noção do tempo, procurando a Beterraba... depois do clube de química... – foi a única coisa que disse. E, para um Nerd, ele disfarçava bem.
Beterraba, nem tanto. Seus olhos, ainda vermelhos e inchados, tentavam enxergar o quarto, sem sucesso aparente, ela sentou na cama, e retirou suas lentes de contato (em geral elas meio que incomodavam quando ela chorava compulsivamente), depois, pôs seus óculos, levantou da cama, e seguiu para a janela mais próxima. A luz, da única luminária fora do quarto, era o suficiente para os olhos cansados de Bete, para clarear suas ideias, seus pensamentos, e suas especulações. É claro que queria debater com seu subconsciente sobre seu triangulo problemático, mas também era claro que teria que dar explicações para certas colegas de quarto...
Diferente de soluço, que estava dando arrodeio, por cima de arrodeios, para não ter que explicar nada para sua turma. Felizmente conseguiu mudar de assunto.
– O fim de semana vai ser sem graça – disse Merida, afundando o rosto nos braços, em cima da mesa.
– Ninguém deu sinal de festa – concordou Jack, dando um peteleco em um grão de arroz na mesa.
– Parem de drama – falou Punze – a vida não é só festa.
– Soluço – chamou Jack, acordando soluço dos seus pensamentos – não vai dizer nada?
– Eu... Ahmm... temos... que estudar – falou – tem teste semana que vem.
Eles se entreolharam, sabiam que “estudar” era desculpa para “ficar sozinho”. Não fazia sentido nem um, ficar apreensivo com isso, a culpa nem era dele! Eles avisaram, não avisaram?! Não foi culpa deles. Mesmo assim... parecia culpado, talvez porque não contou a história, ou por motivos que desconhece. O importante é que tinha que fazer algo.
O jantar acabou, todos foram para seus respectivos dormitórios, Itan foi jantar, Bete já estava dormindo quando as meninas chegaram (foi o modo de escapar que ela achou). Estava tudo bem.
Sexta-feira
P.V.O. Beterraba:
Hoje acordei, mais cedo do que de costume, por ter ido dormir mais cedo do que de costume. Levantei, andei até meu guarda-roupa, e escolhi uma roupa (era sexta, não precisava de farda). Fiquei me perguntando o que faria nesse fim de semana, se mamãe me deixaria ficar em casa, se teria como me livrar dos pensamentos, o que faria com Itan e TB4, se... A não! O Deny! Esqueci do Deny! Vou ter que falar com Jack sobre isso. Vai ser bom, para me despreocupar um pouco.
Entrei no banheiro e fechei a porta, o despertador não tocou quando fechei a porta, e não escutei ele tocar depois disso, acho que o chuveiro abafou o som, mas isso não era importante. Quando saí, as meninas estavam de pé, Punze arrumando a cama, e Merida no guarda-roupa, escolhendo sua roupa. Fui direto para o espelho, penteei o cabelo e prendi em duas tranças, chequei o celular (para o caso de uma mensagem atrasada de mamãe), mas quando ia desbloquear, o alto-falante me interrompeu.
– Queridos alunos, aviso: devido ao começo dos clubes, vocês continuaram na escola na sexta-feira, até a hora do almoço, pelo menos. E devido à falta de aula no início da semana, teremos que ter aula hoje. Não precisam colocar os fardamentos. Os pais já foram avisados. Tenham um bom dia. – falou, e se desligou em seguida.
– Tem clube de que hoje? – Perguntou Punze, para o vento.
– Para vocês eu não sei – respondeu Merida – mas para mim tem vôlei.
– Acho que perdi meu papel com os horários – disse Punze.
– Achei que os horários ficassem no pátio auxiliar – falei.
– Não sei. Vou ver – retrucou ela – Merida, você vem?
– Preciso falar com a coordenadora – respondeu Merida.
– Beterraba?
– Pode ser – falei — espera – peguei uma pasta pequena que tinha o que eu precisava, meus horários, minhas partituras e etc. deixei minha bolsa para pegar quando fosse sair – vamos.
Eu não me lembrava perfeitamente do caminho, e Punze não parecia interessada nele, seus papeis coloridos pareciam muito mais importante.
Me pergunto se ela tinha teorias sobre a noite passada, se Soluço falou algo, se ela pensava como ele ou se sabia mais da história original. Me questiono se perguntar a ela pegaria mal, se ela concordava com tudo aquilo, se eu poderia mudar o pensamento deles, e se sim, se poderia começar por ela.
– Você tem clube de que hoje? – Falou ela, tipo, do nada.
– Música – respondi sem mais nem menos.
– Só?
– É – dei de ombros – em que clubes você se escreveu?
– Artes – não tirou os olhos dos papeis – desenho, pintura, escultura, essas coisas.
– Nem uma matéria diferente de artes?
– Matemática – olhou para mim, depois virou para os papeis – precisa-se saber matemática para aprender Artes. E eu não sou nem uma “gênia” da matéria. E você?
– Em matemática? – Fiz uma careta — Acho que vou bem.
– Não – ela riu (ou da careta ou da resposta sem-noção) – falo de quais clubes você se escreveu – (foi da resposta).
– Ah – falei, sem jeito – além de música, só Poesia e Química.
– Não é boa em Química? – Estranhou ela.
– Na verdade sou – ela olhou para mim como quem diz “me confundiu toda agora”. Eu ri – por isso mesmo me escrevi: Para ter mais tempo estudando Química.
– Não tem dificuldade em nem uma matéria? – Voltou os olhos para o chão.
– Acho que o Breu não vai com a minha cara – brinquei, nós duas caímos na risada. O que era bem irônico, já que eu sou ótima na matéria do Breu.
Quando chegamos, ela foi direto para a cartolina de ARTES, que ainda estava lá. Eu não a segui, apenas esperei na porta. Quando ela anotou os horários num papel, correu de volta para a porta.
– Vamos? – Perguntou.
– Vamos!
Andamos um pouco, caladas o tempo todo, até que resolvi que precisava quebrar o silêncio. Mas quando fui abrir a boca, ela falou primeiro.
– Eu... – ela pareceu estar pensando – eu acho que devíamos falar... Mas... Eu não sei sobre o que... Então... Você tem alguma ideia? – Eu ri.
– Hummm... Jack? – Sorri maliciosa.
– Não! – Ela não gritou, mas ficou alarmada. Percebeu que “exagerou” e fez o que a Rapunzel sempre faz – eu... Só acho que não seja importante falar dele – ela ficou vermelha.
– Ok – mentira, não tinha nada ok – sabe dizer como vai nosso casalzinho encrenca?
– Melhor do que a três anos atrás! Pode ter certeza! – Rimos – mas não está tão bem assim. Soluço está meio que no mundo da lua... – ela flertou o chão — Merida acha que a culpa é sua.
– Mereço – falo baixinho, mais para mim do que para ela. Mas parece que ela escuta, pois dá de ombros em resposta.
Calamos por um breve instante, até parar de andar, quando Punze falou:
– Bom... eu acho que já estão todos na cantina – ela virou para mim e sorriu, eu correspondi do mesmo jeito, mas o meu não era tão verdadeiro.
Ela voltou a andar, mas eu não saí do lugar. Ela parou não muito longe, e me observou.
– Você não vem?
– Tomar café? – Fiz uma careta.
– É – concordou, relutante.
– Tipo... com a turma? – Fim uma careta. Não estava afim de sair com eles no momento.
– Bom... É.
Não respondi, apenas olhei para o chão.
– Tem algo de errado? – Perguntou, se aproximando.
– Não? Não! Não. Nada de errado... eu só... não estou com fome.
– Bete... não precisa mentir para mim – sua voz era calma e tranquilizante – se não está afim de ficar com a gente... está tudo bem... sabemos... bom, EU sei... que não somos as melhores companhias do mundo... – ela ficou cabisbaixa, e eu morri de pena, desgosto, arrependimento, duvida, e vontade, vontade de tentar resgatar os corações puros que restavam naquele quarteto.
Quando Punze saiu correndo corredor a fora, virei na direção contraria e segui para lugar-nem-um.
Chegando em lugar-nem-um, senti a brisa fresca do dia úmido que se passava. A vontade era de sair pelo portão da frente, e ser feliz em lugar-nem-um, pelo menos até a segunda-feira. Mas eu não podia, eu não devia, e no fundo eu nem queria.
Senti o celular tocar no bolsa, peguei e atendi rápido.
Ligação on.
– Oi, mãe.
– Bete, aonde você tá?
– Tô na escola ainda, era pra estar em outro lugar?
– Não. É que a escola ligou, vai ter clube hoje, não é isso?
– É.
– Então, por isso perguntei. Não vou poder ir te pegar hoje. Pode arranjar uma carona por aí?
– Claro que posso tentar arranjar uma carona, mãe.
– Ótimo! Se não conseguir, me liga, que eu dou meu jeito. Mas tenta ok? Beijo, te amo.
– Beijo, tchau.
– Tchau.
Ligação off.
Desliguei meu celular, pus a cabeça para trás encarando o céu, e suspirei. Longo e demorado suspiro.
– Como é que eu vou arranjar carona agora? – perguntei para mim mesma. E realmente não achei que alguém iria responder.
– Como? – Ironizou a pessoa – pensei que o Soluço tivesse um carro – me virei assustada. Mas fiquei aliviada em não ser um desconhecido completo.
– Em primeiro lugar, eu não estou em posição de pedir favores ao Soluço. E em segundo lugar, não era para você estar na cantina, senhor Denyel?
– Era sim, senhorita Beterraba, e você também – por algum motivo, não me senti desconfortável perto do Deny dessa vez. Não cheguei a pensar em sua proposta, mas agora, acho que deveria, pelo menos pensar... – o que foi com você e Soluço?
– Rolou umas paradinhas aí – olhei para o chão – não tô afim de mexer nesse assunto.
– Tudo bem para mim – olhei para ele, que estava sorrindo, um sorriso descontraído e contagiante – podemos falar de outra coisa?
– Tudo bem para mim – sorri, ele fez o mesmo.
Ele colocou as mãos no bolso dianteiro da calça Jeans, e eu fiz o. E ficamos vagando por lugar-nem-um, conversando sobre assuntos aleatórios, sem olhar para a hora, nem para o caminho, nem nada.
Eu queria continuar assim, falar sem assunto, andar sem rumo, deixar de ser quem eu nunca fui... mas não dava, eu tinha clube.
– Você tem clube de que hoje? – Perguntei a Deny.
– Só futebol, mas é o tempo equivalente a um clube e meio – eu olhei para ele com cara de “Gato-do-Shrek” e ele caiu na risada – eu levo você Bete, não se preocupa – sorriu, eu fiz o mesmo.
Ele foi comigo para a sala de música, depois partiu para o ginásio. Essa foi uma das poucas vezes que cheguei atrasada na vida, me senti como no primeiro dia de aula novamente. Respirei fundo, olhei para a porta, respirei outra vez, suguei a última gota de coragem que sobrou em mim, e entrei.
Todos olharam para mim, meu estomago revirou, o professor sorriu para mim, e me incentivou a sentar em uma das cadeiras que estavam ali, o obedeci, e escutei.
Depois de dar muita explicação, ele começou a falar sério.
– Olhem – disse ele – eu sei o que a escola disse. Mas eu já explique para a diretora: eu não trabalho com iniciantes! Nada de 0%, 10% no mínimo, ou fora da sala – ele suspirou – peço, por favor, que quem não saiba tocar nada se retire.
Por incrível que pareça, um grupinho meio grande saiu pela porta da frente, sem dizer nada, apenas com as cabeças baixas, alguns reclamando, outros se lamentando. Agradeci por minha professora de piano por nunca desistir de mim.
Ele falou mais um pouco sobre como a aula funcionaria, as práticas e as teóricas, os solos e os conjuntos, as possíveis apresentações para as outras turmas ou até para fora da escola. Tudo parecia muito animador, tirando a parte que eu não conseguiria tocar na frente de alguém, as apresentações seriam ótimas!
Clube.
Clube.
Clube de Química (que por acaso estamos vendo explosões químicas).
Clube.
Clube.
Aula.
Aula.
Casa!!!!!!
O Eyes in the future foi o único colégio que me fez gostar de casa, geralmente eu adoro a escola, mas isso não se encaixa a essa escola. Não vejo a hora de fazer um nada bem grande, o fim de semana inteiro!
– Olá senhorita! – Uma voz conhecida me cumprimenta, no fim do corredor. Com um sorriso de malicia, e um olhar de alegria, Deny brinca comigo – vai um carona para casa? – Nós rimos imediatamente.
– Se não for muito incômodo... – respondi. Ele estirou a língua, sorrindo.
– Demorou!
Andamos até o estacionamento da escola, e entramos no carro vermelho, que já me conhecia. Até saímos da escola, ficamos calados, mas depois de um tempinho, o Deny decidiu conversar um pouco.
– Bom... É... Eu... Tô sem ideia... – ele falou, e eu ri. Ele queria conversar, talvez o silencio não o agradasse, mas não fazia ideia de como falar, ou o que falar.
– Que tal... – olhei para cima (talvez por ser automático pedi ajuda divina na hora de bolar um assunto que gere conversa) – ...me falar sobre você? – Ele tirou os olhos da pista, para olhar para mim (acho que para ver se eu estava falando sério) – vamos sair no sábado, e eu ainda não sei nada sobre você.
– Verdade... e que bom que você lembra do nosso encontro – seu conhecido sorriso malicioso, brotou sem ser chamado – e por falar nele... você gosta de comida italiana?
– Está fugindo da pergunta – falei, não quero que ele fuja do assunto. Ele respirou fundo.
– OK – disse por fim – o quer saber?
– Não sei – dei de ombros – um pouco de tudo... encare isso como um programa de entrevista – ele riu, e eu não pude deixar de fazer o mesmo.
– Tudo bem, por onde começo?
– Talvez deva começar do começo – falei irônica.
– OK – disse rindo – nasci na Florida, em 24 de setembro de...
– Não acho que os mínimos detalhes sejam mesmo necessários – interrompi. Ele riu.
– Tá bom, a parte importante, tive uma infância normal, fui amado mais por minha mãe do que pelo meu pai, por ser um menino trabalhoso vivia de castigo, o que não era problema na época por que mamãe sempre ajudava a enrolar meu pai. Tinha muitos amigos, e coisa e tal... me mudei para corona quando tinha 14 anos, nunca mais saí, e nem quero. Meus pais ainda estão juntos, mesmo que não pareça, já que meu pai ama mais o trabalho do que a própria vida, e mamãe odeia isso. Tenho dois irmãos mais velhos, em países diferentes, ambos a trabalho, que só voltam para cá nas datas especiais. Quase nunca paro em casa, primeiro pela escola, e depois por que não gosto de casa. Tenho uma reputação que não é muito diferente da do Jack, mas que...
– Não – interrompi – para tudo – ele me olhou incrédulo – qual a reputação de vocês dois?
– Você anda com o TB4, pensei que sabia da história de cada um.
– Também achei que sabia – flertei o chão do carro.
– É menos complicado do que parece.
– Parece ser bem complicado.
– O TB4 tem um passado conturbado... e não acho que eu seja a melhor pessoa para te contar a história.
Não falamos mais nada depois disso. Mas não demorou muito para chegarmos a minha casa.
– Te vejo no sábado? – Perguntou, quando eu saí do carro.
– Claro – sorri.
A curiosidade era de voltar a perguntar sobre o TB4, mas eu sabia que ele tinha razão, eu deveria perguntar a alguém que estava junto deles, alguém que talvez não soubesse o que estava fazendo, alguém que eu sei que pode me contar, alguém... alguém como... Rapunzel.
Abri a porta e adentrei, não tinha ninguém como o esperado. Deixei minha bolsa no sofá, e andei para a cozinha. O micro-ondas me chamou a atenção, tinha um pedaço de papel, pregado com fita adesiva, na porta do micro-ondas. “ Isso é tão a cara dela! ”pensei. No papel estava escrito Sorry. Eu já sabia que o que isso significava, ela não queria mesmo ter ido me pegar na escola...
Abri o micro-ondas, e como previsto, minha comida estava lá. Fechei ele, digitei os números para esquentar a comida, e subi as escadas. No meu quarto, escolhi a roupa mais confortável que achei pela frente, me enrolei com o roupão, e entrei no banheiro. Depois do merecido, longo e confortante banho, desci já vestida. Comida na mão, partiu televisão.
Um filme e meio depois, desligo a TV, lavo a louça, subo as escadas, um dia normal numa casa normal. Sento na mesinha do quarto, ligo o computador, o Breu passou um trabalho no começo da semana, e eu posso tirar nota ruim em tudo, menos na matéria do Breu! (Não que tenha chance de eu tirar nota ruim em qualquer das matérias. ~Lê. Nerd~ ).
...
Algum tempo depois... resolvo descer para fazer um café* (parece anormal, mas eu adoro café). Enquanto a água ferve, meu celular apita, e só quando desbloqueio ele, percebo que tinha mais de 300 mensagens só do grupo do TB4 (que por acaso está no silencioso), quem tinha apitado era o privado da Rapunzel.
Rapunzel: Bete... precisamos conversar...
Eu: Aconteceu alguma coisa.
Rapunzel: Sim e não.
Eu: Onde e quando?
Rapunzel: Pode ser amanhã?
Eu: Tenho o encontro com Deny a noite.
Rapunzel: pode ser de manhã.
Eu: Ok. Tem um parquinho a duas quadras da minha casa.
Rapunzel: Não faço a mínima de onde fica, mas eu encontro... 8h?
Eu: 8h! Combinado.
Rapunzel: Valeu Bete! Até amanhã.
Eu: Bye Punze.
A chaleira apitava alto, mas minha cabeça estava mais preocupada na Punze e seu mistério misterioso. Desliguei a chaleira, antes que ela acordasse os chineses lá na china, mas a Punze ainda me perturbava.
Escuto a porta destrancar.
– Beterraba, amore, você está em casa? – Pergunta a voz da minha mãe, na sala.
– Tô na cozinha! – Grito em resposta.
– Com fome? – Pergunta calam quando chega na cozinha (depois de jogar “delicadamente” a bolsa no sofá).
– Só lanchando – respondi – chegou cedo, achei que viria mais tarde hoje.
– E ainda bem! Se tivesse demorado mais um pouco, tinha queimado o fundo da minha chaleira! – Disse ela olhando em baixo da chaleira – é, cheguei mais cedo graças ao Sr. Lerman...
– Ah... – por algum motivo falar do Sr. Lerman não me deixava bem, talvez por ele me lembrar que eu nunca parei quieta num canto, ou por achar que ele tem alguma coisa a ver com o que minha mãe esconde de mim.
– Bom... – disse minha mãe, depositando “levemente” a chaleira na pia – não estou nada afim de cozinhar hoje! – Ela me olhou sorrindo – que tal comer fora?
– Eu preferiria ficar em casa esse fim de semana... – não queria mesmo sair, basta o encontro com Deny.
– Está bem... pizza, então? – Sugeriu.
– Por mim está ótimo!
– Combinado!
Peguei meu celular, meu café e meus biscoitos, e subi as escadas. Voltei ao quarto, sentai na mesinha, e fiquei lá até a pizza chegar, depois que comemos, não demorou muito para eu dormir. E quer saber? Fazia tempo que eu não dormia bem assim...
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