Um novo The Big Four
14 Domingo!!!!
Notas iniciais
Domingo
– Amor... – uma voz me chama, distante, e turva – querida... – a mesma voz continua, num sussurro calmo – vida... – essa voz solta risinhos. Mas eu não respondo – Beterraba! – grita ela.
– O que foi? – solto risos.
– Tá na hora de acordar – fala ela baixinho.
– E se eu não tiver afim de acordar? – gemi. Domingo era o único dia que meu corpo me deixava ficar mais tempo na cama.
Eu sinceramente esperava uma resposta, mas o que recebi foi um balde de água fria, literalmente!
– MÃE! – gritei, ela bolou de rir – já falei pra não me acordar assim!
– Você fez uma pergunta, eu respondi – ela ria – vem, tem que se aprontar.
– Vamos sair? – ainda estava meio desorientada.
– Falamos sobre isso ontem, Beterraba – ela foi saindo do meu quarto, falado cada vez mais alto, para que eu escutasse – andei pesquisando pontos turístico, e achei um legal. Tem uma estátua, do tempo da monarquia, no centro, tem mais ou menos a idade da revolução francesa. Fica perto da prefeitura, e do parque natural – falou – o que você acha?
– Acho perfeito – falei, entrando no banheiro.
– Quem sabe não damos sorte de entrar no antigo castelo? – ela passou pelo corredor. Parecia animada.
Tomei um banho, fiz o que tinha que fazer, e saí. Mais uma vez, o clima de Corona é uma surpresa! Estava um nublado úmido, não parecia que ia chover, mas ia ser uma manhã de cardigãs.
Abri a janela por um instante, e senti o vento frio, de uma manhã perfeita.
– Pronta? – apareceu minha mãe na porta. E tenho que acrescentar que estava linda.
– Acho que sim – respondi sem muita certeza.
O dia estava menos confuso do que o normal, mas depois de ontem a noite... acho difícil achar uma coisa mais confusa. Tentando cada vez mais, pensar cada vez menos, na noite anterior. Mas...
*FlashBack*
“ Você não poderia ser, nem que eu quisesse, apenas mais uma na minha lista... você é única Beterraba...”
Sacudo a cabeça rápido, a vontade é de... fugir de tudo.
Desci as escadas, minha mãe estava na cozinha. O cheiro era perfeito, e não tem como confundir! O cheiro de café, ovos e bacon, tomavam conta da cozinha.
– Você não me falou nada sobre ontem – disse minha mãe, pondo meu prato na mesa, e pegando minha xicara.
– Não tem o que falar sobre ontem – falei sem jeito, em quando ia até o outro armário pegar os pães.
– Não tem? – ela vira pra mim, pondo uma mão na cintura – você sai daqui as sete da noite, num carro estranho, com um carinha estranho.
– Ele não é estranho – eu ri.
– Não é para você, que já o conhece! – ela estava seria, mas não com raiva – você só trouxe aqui o albino e o moreninho – contou nos dedos – e o mine Lerman, que não conta. Ai você chega com o um ruivinho, com mó pinta de desocupado-sem-futuro, e diz que “não tem nada pra falar sobre ontem”? – eu apenas ria – Beterraba Alli Donovan!
– O nome dele é Deny, ele não é um desocupado-sem-futuro, (acho) e só fomos ao parque – respondi.
– Porque não me falou nada antes?
– Um: eu esqueci. E dois: eu nem estava botando fé em ir – pegamos os respectivos cafés da manhã, e fomos para a sala.
– Mesmo assim, não pode sair sem avisar – ela deixou a cara de séria, e estava se segurando para não rir também – poderia ser um sequestrador!
– Ele tem dezesseis anos! – ri descontroladamente – e é da minha turma de historia!
– E daí? – ela olhou para mim, eu olhei para ela, e caímos na gargalhada, sem motivo algum!
...
– Ok – disse minha mãe, entrando no carro – você pegou tudo?
– Sim – fechei a porta depois de entrar – a menos que eu tenha esquecido alguma coisa...
Ela estirou a língua, brincando. Jogou a bolsa no banco de trás, e encaixou a chave no carro, ligando-o.
– Você pegou a máquina fotográfica? – perguntei, depois de mexer toda a bolsa.
Ela não respondeu, desligou o carro e saiu em direção a casa. Eu apenas ri. Quando voltou, jogou a máquina no meu colo, e arrancou com o carro.
– Certo – falou ela – é o seguinte: vamos na estátua, tiramos a foto, tentamos entrar no castelo “Coroniense”...
– Coronês – corrigi.
– Mas não é Coronense?
– É? Eu sei que “Coroniense” é que não é!
– Ah! Dane-se o nome! Tentamos entrar no castelo da pessoinha lá, depois passamos no shopping, almoçamos no restaurante mais próximo, e voltamos pra casa! – sim, ela realmente estava animada – gostou?
– Eu tenho que responder? – segurei o riso. E ela, como sempre, estirou a língua, brincando.
...
– “Ronald Makeovery Corona Denjoris III” – mamãe leu a estátua em voz alta – “Fundador de Corona e Segundo Monarca — 1168-1253”
– Que nome enorme! – exclamei.
– Você tinha que ver o proclamador da independência do Brasil!
A estátua era enorme! O tal de Ronald, estava montado em seu cavalo, extravagantemente se exibindo, com uma capa, botas enormes, e cara de mau.
– Vamos acabar logo com isso – riu minha mãe, pegando a máquina na bolsa.
Eu subi na pedra de mármore que sustentava a estátua, e apontei para onde ele apontava, eu não tinha um cavalo, mas tentei ficar no mesmo nível de extravagância. Minha mãe segurou a câmera, posicionando-a certinho, depois pôs a mão livre na frente da boca, e fez cara de surpresa. Assim que o flash da foto saiu, um guarda, grande e gordo, veio em nossa direção.
– Senhorita – chamou minha atenção – não pode subir ai em cima!
Desci imediatamente! Minha mãe se aproximou dele, e explicou que era apenas para uma foto, ele a explicou o porquê de não poder subir. Discutiram um pouco, mas nos liberou em consequências.
– Acho que depois dessa, não vamos poder entrar no castelo – disse minha mãe, rindo do guarda. Eu ri também.
– Bom... – falei – sem castelo, então... partiu shopping?
– Partiu shopping!
Dentro do carro, mamãe parecia que sempre escolhia o caminho mais longo! Acho que damos a volta na ilha antes de achar o shopping. Mas, finalmente chegamos, e para quem nunca foi ao maior Shopping de Corona, minha mãe parecia estar em casa!
E como tudo com minha mãe é uma maratona, começamos pelas lojas do primeiro andar: ela comprou um sapato, e eu um laço (não me julguem, laços são minha vida). No segundo andar, a coisa ficou mais séria: aproveitamos uma queima de estoque de blusas, e umas calças jeans. No terceiro andar, estávamos em uma loja adolescente, e minha mãe procurava a “camiseta perfeita”.
– Mas filha! – gritava ela a cada cinco minutos – a do Super Man é muito mais bonita!
– Sim, mas a do Batman é preta. E o Super Man é um babaca!
Ela deu um tapa na minha cabeça, e colocou a do Super Man de volta no cabide. Na mesma hora, o celular dela tocou dentro de bolsa, e quando ela atendeu...
– Sim?... Hoje?... Mais ou menos... Estávamos tendo um dia em família... Acho melhor não... – ela tampou a escuta do celular, e perguntou para mim – senhor Lerman quer que almocemos com ele. O que você acha?
– Achei que estava de folga – respondi emburrada.
– Marcamos para outro dia... – falou ao telefone – Não há necessidade... Não creio que isso vá ajudar... – ela voltou para mim – ele insiste – a cara dela era de “não quero dizer NÃO ao meu patrão”.
– Você pode ir – falei – eu volto para casa e te espero – ela fechou os olhos suspirou, e falou:
– Foi Italian que pediu para nos convidar...
Ferrou.
– Não quero almoçar com os Lerman, mãe – e realmente não queria. Ela suspirou, e voltou ao telefone.
– Receio que terá que ficar para outro dia... Sim, marcamos!... Até breve... – ela desligou, e olhou para mim – tem uma razão especial para dispensar os Lerman?
– É nosso dia em família, só temos um por país – sorri.
– Corona é uma ilha – tentou me corrigir.
– Cuba também, e nem por isso tivemos dois dias em família – estirei a língua, ela fez o mesmo.
E no final das contas, eu levei a camisa do Batman!
...
Num piscar de olhos, estávamos de volta ao centro! Mamãe falou que conhecia um restaurante perfeito para esse tipo de dia. Quando chegamos, o garçom foi rápido, levando em conta que minha mãe não parava de falar.
Eu não sei se eu já falei isso aqui, mas, a parte boa de viajar o mundo todo, é pela cultura, a arte, e culinária (principalmente a culinária), Corona é perfeita em tudo! Fora a parte que ela não possui cultura.
– Eu acho isso um absurdo! – fala minha mãe, pela milionésima vez – como pode não ter cultura?! Todo o mundo tem cultura!
– Literalmente – completei, mordendo um tipo de pãozinho que fica em cima das mesas.
– Em compensação – continuou ela – parece que foi colonizada pelo mundo todo!
– Parece que todos os países do mundo passaram por Corona, e deixaram seu pedaço – falei – deve ser uma história e tanto!
– Tanto faz! A parte boa, é que ela nos lembra o resto do mundo. Por todos os lugares que já passamos...
– Sim, mas a parte ruim... é que quando formos embora, não teremos nada para nos lembrar dela...
– Teremos o cérebro, Beterraba – rimos – até agora, Corona foi perfeita. Você até fez amigos!
– Pois é... – pensei, pensei... sempre quis perguntar, acho que é uma boa hora – mãe! O seu contrato, ele... – fui interrompida pelo garçom.
– Senhoritas... – ele deixou os pratos e saiu.
– Um... parece delicioso! – falou ela, empolgada.
– Sim... – concordei sem muito ânimo.
Depois de comer o prato principal, minha mãe pediu uma sobremesa, um tal de “Pavlova”, parece que é um prato australiano, ou sei lá. Claro que não era normal comer sobremesa depois do almoço, mas era quase uma tradição nossa, todo dia em família fazemos isso.
Depois da pavlova (que, por sinal, é uma delícia), voltamos para casa. E é claro, que no trajeto de volta (como somos muito normais), fomos cantando “I’m Yours – Jason Mraz” o caminho todo.
...
Finalmente em casa!
Quando chegamos, mãe foi para a cozinha, e eu subi para meu quarto. Joguei minhas botas em qualquer lugar, e tirei a blusa quadriculada, largando-a na cama. Me joguei na cama, de barriga para cima, com os braços abertos, e as pernas sem rumo. O teto estava menos legal do que ontem... era branco demais... talvez eu pregasse uns pôsteres, como fiz em Roma... se tivesse mais tempo em Corona, com certeza colocaria algo nesse gesso, talvez adesivos, ou fotos... seria uma boa ideia.
Fiz um esforço, e peguei meu fone de ouvido na mesinha do lado da cama, tirei o celular do bolso da calça, e coloquei as músicas no aleatório, tocando em primeiro lugar “Soap – Melanie Martinez”, fechando os olhos e esvaziando a mente, tentei apenas escutar, mas quando a música acabou, colocando o aleatório para funcionar, tocou “There’s your Trouble – Taylor Swift”, a musica instantaneamente me lembrou da noite passada, nunca vi combinar tanto! Com raiva do FlashBack, acabei por pegar o celular, e mudar e música rápido. Mas acabou sendo pior, pois a próxima do aleatório foi “Little Bird – Ed Sheeran”, que me bombardeou com lembranças do Itan, e de todo o resto. Peguei o cecular, e apertei com força o botão de pause. Tirei o fone, e joguei a cabeça para trás. Respirei fundo.
– Beterraba, querida, ta acordada? – minha mãe parou na porta do meu quarto. Gemi em resposta, sem a minima vontade de formular uma palavra – que animação – ironizou ela – enfim, pode ir na lavanderia pra mim?
– Pensei que tinha lavado roupa ontem – falei, sem me mecher.
– Lavei, mas meu vestido ficou, para uma lavagem especial (tinha caido molho de tomate nele).
– Claro – levantei com esforço – pode deixar – sorri.
– Ótimo! E compra sorvete quando voltar – ela me jogou a chave do carro, e segiu o corredor, indo para o quarto – não demore! – ela gritou de lá.
Me virei, sentando na borda da cama, esfeguei os olhos, pasei a mão pelos cabelos e me levantei, calsei as botas, amarrei minha blusa quadriculada na cintura, e, só de charme, pus o chapéu na cabeça. Peguei a cahve na ponta da cama, e desci as escadas.
– Tô saindo! – gritei da porta.
– Juízo! – gritou do quarto.
Passei pela porta, fachando-a atrás de mim. Eu não tinha carteira de motorista, mas sabia dirigir, minha mãe dizia que precisaria de mim um dia, e preferia estar preparada. Minha mãe também não tinha carteira de motorista, pelo menos não oficialmente, ela tirou a carteira quando viajamos para o Reino Unido, mas foi barrada na Australia por isso, desde então ela não anda com carteira, mas sim com uma declaração, assinada pela empresa onde trabalha, afirmando que ela era ápta para dirigir, e logo eu vou precisar de minha própria declaração.
Estacionei na frente da lavanderia, desci do carro, peguei o vestido (incrivelmente fabuloso) da minha mãe, e voltei. A sorveteria ficava na esquina da minha casa, então pensei que talvez tivesse sido mais inteligente ter comprado o sorvete primeiro, mas tá.
Eu estacionei na frente da sorveteria, porque eu não queria deixar o carro em casa, e depois voltar (sou preguiçosa mesmo). Quando passei pela porta da frente da sorveteria, eu não sei bem o que aconteceu com meu corpo, eu só sei que ele não queria responder. Ele estava de costas para a porta, sentado em um dos bancos do balcão, com a cabeça baixa, eu não precisei ver seu rosto, pois suas madeixas douradas o denunciaram de cara. Me sentei num banco ao seu lado, e me forcei a não olhar para ele. A moça não demorou a me atender.
– O que vai querer? – seu sorriso largo não parecia forçado pra mim.
– Uma vasilha de três litros, pra viagem, o combo de chocolate, morango, creme e uva – falei – por favor – sorri para ela, que me sorriu de volta.
– Tudo bem – ela saiu.
– Oi – eu disse sem jeito, mas a moça do balcão voltou.
– E o senhor? – ela perguntou, ainda sorrindo.
– A conta, por favor – sua foz foi fria, e sem emoção. Estranhei imediatamente. Então ele virou pra mim e disse: — addio.
A moça voltou logo depois, entregando um papelzinho à ele, a transição foi rápida, tanto que quase não vi quando ele se levantou a foi em bora. Eu não tenho muita certeza do que meu corpo fez, eu sei que, quando dei por mim, eu estava de pé logo atrás de Itan (que já se encontrava na porta). Quando estava na calçada, ele parou, pareceu sentir minha presença. Não tirou as mãos dos bolsos, apenas esperou minha reação.
– Addio? – incrédula, foi a única coisa que eu consegui falar.
– Sim – ele respondeu, frio – uma despedida em italiano…
– Eu sei o que é “addio” – falei, rápido.
Ficamos parados assim, até que ele se virou para mim. Ele não ficou com uma postura de quem queria estar por cima, na verdade, aparentava estar para baixo…
– Por que está com raiva de mim? – perguntei devagar.
– Não estou com raiva – ele respondeu na mesma velocidade.
– Então porque agir assim?! – ok, posso ter me exaltado um pouco – certo que o Soluço…
– Soluço? – ele também se exaltou um pouquinho – ele é o menor dos seus problemas agora!
– Meus problemas? – parei. Como assim?
Eu não conseguia parar de olhar nos olhos dele, enquanto ele me observava como se quisesse ter certeza de que eu falava a verdade. Então, ele desviou os olhos dos meus, e olhou para o chão.
– Só não achei que você fosse dessas – ele falou baixo, mas eu entendi bem.
– Eu sinceramente, verdadeiramente, de coração, não faço a mínima ideia do que você está falando – dei um passo em sua direção, ele continuava sem olhar para mim.
– Deixa eu esclarecer – ele me lançou um olhar de raiva. Eu me assustei – eu, sinceramente, verdadeiramente, de coração, não achei que você fosse dessas que ficam com qualquer um, dessas que não se importam com o preço da popularidade, dessas que só querem ser conhecidas a qualquer custo! – dei um passo para trás, mas do que ele estava falando? Ele deu poucos passos em minha direção, e seu olhar não tinha mais raiva, apenas decepção… — acho que me enganei sobre você. Achei que fosse diferente… — aquelas palavras me bombardearam como mil bombas atômicas. Ele se virou, e voltou a andar com as mãos nos bolsos.
– Itan! – gritei, ele parou, mas não virou – do que. Você. Está. Falando? Seja direto.
– Eu não sei, Beterraba – sua voz era sarcástica, ele virou só a cabeça para me olhar, e com a voz mais maldosa que pode, disse: — porque não pergunta ao Deny?
Ele foi em bora.
Eu fiquei ali, parada, sem fazer a mínima ideia do que fazer…
– Senhorita – escutei uma voz feminina na porta da sorveteria – seu sorvete, senhorita!
Me virei de vagar, ele sorria como se o mundo fosse acabar hoje. Eu sorri de volta, entrei na sorveteria, paguei o sorvete, voltei para o carro, sentei no banco do motorista, e pus o sorvete no banco do passageiro. O que diabos tinha acontecido aqui?
Estacionei na garagem, peguei o vestido e o sorvete, e entrei em casa. Deixei o vestido em cima do sofá, pus o sorvete no congelador, e subi as escadas. Minha mãe estava ocupada num telefonema, passei por ela, que quando me viu, sorriu e acenou, fiz de tudo para sorrir, depois, ela voltou ao telefonema, e eu fui para meu quarto.
Jogando o sapato e o chapéu longe. Me joguei na cama mais uma vez.
– Teto idiota – resmunguei. Peguei um travesseiro, e joguei no teto, que me devolveu a pancada quando o travesseiro voltou, acertando minha cara. Peguei o mesmo com raiva, e o taquei na parede – travesseiro idiota.
Meu celular tocou, eu o peguei, Deny… coloquei o celular no silencioso, depois joguei para trás.
– Celular idiota – suspirei.
O que tinha sido aquilo? Porque ele estava com tanta raiva? E que história era aquela de Deny? Me perguntei, fitando o teto. Faria até um pouco de sentido ele estar com raiva de mim, ou do Soluço… mas do Deny? De repente me bateu um momento de clareza, e se o Itan tivesse me visto com o Deny? Mesmo assim, isso não justificaria! Quer dizer… não temos nada… tá, ele pode ter tentado me beijar… duas vezes… mas mesmo assim! Arg!
– Toc toc – minha mãe falou, encostada no portal da porta – sorvete? — Levantei a cabeça para olha-la. Ela segurava uma vasilha, e sorria involuntariamente, quando me viu, seu sorriso se desfez (eu estava tão feia assim?) – ai não! Eu conheço essa cara!
– Jura? Não me diga! – disse, sarcasticamente, tombando a cabeça para trás mais uma vez. Ela andou até minha cama, deixando a vasilha no criado mudo, e se sentou na ponta da cama, e se encostou na cabeceira.
– Venha cá – me ajustei ao seu lado, com a cabeça em seu ombro, ela me acariciava os cabelos – o que aconteceu?
– Uma longa história – eu não queria contar a história toda para minha mãe, principalmente pelo fato de que, um dos envolvidos, seria o filho do chefe dela.
– Você quer falar? – ela não falou como quem pressionava, foi uma pergunta simples, e descontraída.
– Não acho necessidade – na verdade eu não achava palavras, mas melhor não comentar – eu só tô um pouco confusa…
– Eu poderia ajudar… — pude sentir ela sorrir. Suas mãos não paravam de mexer no meu cabelo, eu não me movia.
– Eu duvido – não pude deixar de descer os olhos para nossos pés, seus pés nus roçavam na minha meia colorida, o que contrastava com o verde musgo de suas unhas lindamente pintadas – acho que estou em um quadrado de problemas… todos ligados ao meio, que, no caso, seria eu.
– Quadrado? – minha mãe estava “voando” na minha analogia – não seria um círculo de problemas? Ou, sei lá, uma montanha…
– Mãe – eu não pude deixar de rir.
– Ué, você tem umas ideias esquisitas, e quer que eu entenda? – minha mãe não tinha jeito!
– É um quadrado porque tem quatro problemas principais, e o resto é derivado – eu ri – se fosse um círculo, todos os problemas teriam a mesma proporção. E se fosse uma montanha, o problema do topo desencadearia todos os outros.
Minha mãe parou, respirou umas três vezes, parou mais um pouco, e depois, riu do nada!
– Você não tem salvação! – ela disse, rindo muito. Depois parou e respirou – ok, deixa eu ver se adivinho… as quatro pontas são: O Chofer, o Albino, o Desocupado-sem-futuro…
– Ele não é um desocupado-sem-futuro – corrigi, interrompendo minha mãe.
– Tá – ela me olhou como quem diz “ok espertinha, falamos sobre isso depois” – chofer, albino, ruivinho – ela não ênfase do “ruivinho”, eu ri – mas qual a quarta ponta?
– Corona – respondi sem pensar. Esperei o chilique que minha mãe iria dar, ao perceber que eu estava, mais uma vez, falando da nossa inconstância. Mas ela não fez, ela apenas… suspirou.
– Eu sei… — sua voz passou dor, e vazio ao mesmo tempo.
– Você tá bem? – perguntei com uma certa urgência, saindo do aconchego para olhar nos seus olhos. Ela sorriu, um sorriso que eu conhecia bem… ele queria dizer “eu não sei”. Não em relação a pergunta sobre ela estar bem, mas era o sorriso que ela dava quando recebia um pré-aviso de mudança.
– Ei, eu também me apeguei a Corona, ok? – eu levei isso como um “relaxa, eu não fui abduzida”, então sorri, e voltei para seu aconchego – mas… voltando aos seus problemas… o que você acha que deve fazer?
Tirando a parte que tem que trocar o “albino” por “Italian Lerman”…
– Eu esperava que você me dissesse – falei. Não era para ser engraçado, mas nós duas rimos.
– Tá, am… acho que tenho que dar uma de “mãe sensata”, ne? – ela olhou para mim.
– É, acho que sim – olhei para ela, e nós duas nos seguramos para não rir.
– OK… então… para dar um jeito em tudo – ela não sabia muito bem por onde começar – escute o coração.
– Coração? Serio? Você não tinha nada mais clichê? – perguntei, rindo.
– Ei! Não é fácil ser uma mãe sensata, ok? – ela riu também, e me apertou contra o peito – escute a voz na sua cabeça, ela sempre vai ter razão... – ela falou como uma verdadeira mãe, e parecia saber o que estava falando.
Ela me soltou do abraço, e pegou a vasilha no criado mudo.
– Sorvete?
Minha mãe e sua linda capacidade de fingir que nada aconteceu!
– Claro! – sorri. Não um sorriso de consideração, ou um sorriso de agradecimento, um sorriso de felicidade! Um sorriso de quem acaba de ter uma boa conversa feliz.
Peguei a vasilha de sorvete, já um pouco derretido. Minha mãe levantou da cama, pegou seus sapatos no chão, e foi para a porta, quando estava para sair, ela pegou o trinco para fechar, mas antes, ela parou.
– Juízo – e ela saiu, fechando a porta atrás de si.
O sorvete estava uma delícia!
Olhei para o meu celular, que estava perto dos travesseiros. Ele não tocava, nem vibrava, mas acendia, eu sabia que ele estava me ligando, provavelmente tinha passado a noite bolando uma desculpa para o acontecido…
Me estiquei para pegar o celular, e já estava me preparando psicologicamente para um monte de…
Congelei. Não era o Deny.
Atendi a ligação, mas não disse nada, afinal o que eu podia dizer?
Ligação on.
– Bete? – sua voz era suave, mas relutante.
– O que foi? – eu não soei grossa. Ou pelo menos não quis ser.
– Eu… posso te ver?
– Não acho que tenha necessidade…
– Bete, por favor!
Ai minha santa lua cheia! O que eu faço agora?
– Bete… — ele pareceu estar juntando coragem para falar – eu preciso de você… não sei o que fazer sem você, eu… eu me tornei dependente…
– Soluço, eu…
– Por favor! – ele me interrompeu – preciso pedir desculpas…
Nem um de nós falou nada por um certo período de tempo… depois, ele começou:
– Na sorveteria perto da sua casa?
A lembrança da discussão com o Itan me veio de repente. Eu não queria voltar lá.
– Não. – falei o mais rápido que pude – tem… um parquinho a duas quadras daqui.
– Chego aí em quinze minutos.
Ligação off.
Minha nossa, o que tinha sido aquilo?
Tentei me levantar da cama sem deixar a vasilha cair, mas a colher deu uma de ginasta, e resolveu pintar minha linda blusa branca, e ainda cair em cima da minha blusa quadriculada.
– Ótimo! – ironizei, mais alto do que esperava.
Tirei as duas blusas, sem me importar de ficar só de sutiã no quarto (afinal, o quarto era meu! E não tinha ninguém lá), joguei as blusas no sexto de roupa do banheiro, comi um pouco de sorvete, abri o guarda-roupa para escolher outra blusa, comendo mais um pouco de sorvete, acabei optando pela blusa nova do Batman, me certificando de comer todo o sorvete, a blusa não tinha nada de muito especial, era uma blusa simples, preta, com o símbolo amarelo do Batman, não era como a outra que eu tinha, uma azul com a silhueta do Batman na escuridão, ou a vermelha do Homem de Ferro, que tinha apenas a máscara dele (não olhe para mim assim, eu gosto de Super-Heróis. E o Homem de Ferro é gatinho).
Me olhei no espelho, nossa, eu estava parecendo uma gótica toda de preto. Penteei o cabelo, e prendi ele em um rabo de cavalo. Peguei a vasilha, e desci as escadas.
– Ui! Uma filha gótica! – minha mãe fingiu um susto quando entrei na cozinha. Estirei a língua, e ela riu. Ela ficou olhando eu pôr a vasilha na pia, e quando eu olhei para ela, ela finalmente falou – é, eu estava certa, a do Super Man era muito mais bonita!
– Mãe! – nós duas rimos.
– Estava pensando em fazer biscoitos caseiros – ela soltou do nada – o que você acha?
– Algum motivo especial para fazer biscoitos? – perguntei como quem não quer nada, mas a pergunta pareceu atingir minha mãe.
– Não – ela parecia querer escapar de algo – apenas fiquei com vontade de comer biscoitos. Soltei um “ah”, e peguei uma uva na tigela de frutas em cima da mesa – você… vai passar o dia em casa hoje? – eu estranhei a pergunta, mas respondi.
– Porque? Você quer eu que saia? – levantei as sobrancelhas.
– Ah, Beterraba! Não! – ela não pareceu arrependida de ter perguntado – só…
– Lerman vem aqui – não foi uma pergunta, “fiquei com vontade de comer biscoitos” uma ova! – não vem? – fui mais agressiva dessa vez.
Ela olhou para todos os lados, e todas as coisas, quando seus olhos encontraram os meus, ela os fechou.
– Não – disse por fim, ainda com os olhos fechados – mas outra pessoa vem.
– Ah, é demais para mim! – joguei as mãos para cima, e saí da cozinha.
Poxa! Que cara de pau! Era o dia de folga dela! Ela nunca faz isso! Ficamos feliz nesses dias! Toda aquela história de sorvete... arg! Era tudo um pretexto! Que raiva!
Subi as escadas, peguei meu celular na cama, e desci, não me importava se o Soluço ia demorar, eu queria era sair dali! Quando desci as escadas, ela estava parada na ponta.
– Pra onde vai? – ela perguntou, severa.
– Desde quando você se importa? – rebati, fria. Continuei descendo
– Porque está com tanta raiva? Não foi eu quem convidei! – ela não gritou, mas se exaltou.
– Mas deixou vir! – ultrapassei ela, e cheguei na porta.
– Você nem sabe quem é! – ela continuou parada, mas olhando para mim.
– Eu não preciso saber pra entender que precisam ficar sozinhos! – gritei. Bati a porta com força, e escutei algo de vidro quebrar lá dentro, não dei ouvidos, e segui para o parquinho.
…
Vazio outra vez, absolutamente ninguém. Caminhando devagar, sentei no mesmo balanço de ontem. Olhei para o lado, nada de Punze. Passei a olhar para o céu, não tinha nada demais nele, umas nuvens cinzas, uns pássaros aqui e ali.
Não sei quanto tempo se passou, talvez segundos, talvez minutos, não dava para saber, eu estava perdida. Acordei dos devaneios ao escutar um carro estacionando bruscamente. Mal parou na calçada, e o motorista surgiu. Me levantei automaticamente ao ver Soluço.
Ele parecia altamente urgente, e olhava para os lados, até me ver, quando parou os olhos ele começou a correr, e eu fiquei parada, congelada, enquanto ele corria em minha direção. Quando chegou em mim, parou, tomou meu rosto em suas mãos, me olhou, me olhou muito, então… com um olhar de dor… ele me abraçou.
– Eu sinto muito – cochichou em meu ouvido.
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