Um menino no espaço - 2ª parte
16 Susteriano para sempre.
Com aquele monitor ligado, permaneci durante muitas horas, com o senhor Frene, observando o trabalho das enfermeiras e dos médicos, em torno de Paulinho, que continuava dormindo.
— Como o senhor pode salvá-lo?
— Na verdade não sou eu! — Negou ele. — Em Merlin, existe um sistema backup deste nosso e lá, uma junta com três grandes médicos, cuidam de Paulinho pra nós. Aqui, nós apenas o observamos.
— Isso eu não sabia!
— Não havia lhe contado ainda! Desde que fiquei sabendo do ocorrido, já organizei os médicos, que começa-ram a trabalhar imediatamente.
— Enquanto o senhor me chant...
— Chantageava! — Corrigiu ele.
— Enquanto isso, os médicos já estavam cuidando de Paulinho?
— Claro! Eu conheço sua índole menino!
— O que é índole? Minha professora já falou isso!
— O coração! A criação! A personalidade!
— Daqui, tão longe, como os médicos podem curar?
— Eles interferem nos pensamentos dos médicos e enfermeiras da Terra.
— Como assim?
— Os médicos da Terra, agem da forma que nossos médicos determinam, através de um sistema, o qual vocês chamam de telepatia.
— Como é que pode?
— Não se preocupe! — Pediu ele. — Eu também sou médico! Centenas de anos antes de você nascer, eu já havia me formado em medicina. Fique sossegado, seu maninho vai sobreviver.
— Acredito no senhor!
— Dentro de no máximo uma hora, ele vai acordar.
Olhei confiante para aquele homem. Ele até parecia um deus. Podia até salvar uma vida; sabia de tudo…
— Ajudei a fazer seu parto, garoto! — Insinuou ele. — Sua mãe não lhe contou, que não deu tempo de ir ao hospital?
— Não senhor! Mas sei que todos meus irmãos e eu nascemos em casa.
— Pois é! Seu pai demorou muito e você acabou nascendo em casa. Mas graças a nossos cuidados, tudo correu bem! Qualquer dia, lhe mostro!
— Por que vocês precisam de médicos, se aqui não existem doenças, nem sofrimentos?
Ele me olhou sério e disse:
— Na verdade, aqui também existem muitas mortes. Existem até cemitérios. Nós somos considerados imortais, pois não existem doenças e não envelhecemos. Mas se um atrapalhado, desrespeitar as leis de trânsito e se envolver em um grave acidente, com certeza, não há imortalidade que resista.
— Isso quer dizer que…
— Para sermos imortais, também temos que cumprir nossas obrigações. Caso contrário, adeus!
— Então, com o passar do tempo, sua população pode desaparecer?
— Tem lógica! Mas nossos cidadãos se amam muito, pra viverem se envolvendo em acidentes de qualquer espécie. Por isso eles são raros.
— O senhor vai viver por toda eternidade?
— Pra falar a verdade, não sei quanto tempo vou viver! Imortal ninguém é! Nem mesmo os vampiros de seus pesadelos são!
— Claro que não! — Ri, dando de entendido. — Com estaca de aroeira, faca de prata, luz solar ou água benta, adeus vampiro!
— Nem mesmo nosso planeta é imortal!
— Como assim?
— Suster está condenado a morrer torrado pela Estrela Brina!
— Verdade! — Me espantei.
— A Estrela Brina também está condenada!
— Também?
— Mas não se preocupe que isto não é um privilégio triste só nosso! Sua Terra, também será torrada por seu Sol!
— O senhor só quer me assustar! — Neguei preocupado.
— Não quero te assustar! O Sol... Brina... Kristall e qualquer estrela do universo vivem graças a uma grande quantidade de combustível, chamado nitrogênio. Esse combustível vai se acabar um dia, então estas estrelas irão inchar, aumentando muito seu tamanho real, até engolir os planetas mais próximos, depois elas também morrerão. O Sol, por exemplo, se transformará em uma estrela, chamada por seus astrônomos e cientistas como anã branca; seu núcleo se transformará em um gigantesco diamante. Estas coisas são muito complicadas pra explicar à você. No futuro, nenhuma estrela brilhará nos céus e o universo voltará a ficar no escuro.
— Essa conversa está me deixando ainda mais triste! — Insinuei com o coração assustado.
— Não se preocupe! — Riu o senhor Frene. — Isso ainda vai demorar pelo menos cinco bilhões de anos!
— Mas outro dia, o senhor me disse que a vida na Terra está condenada nos próximos anos.
Ele se lembrou do que me dissera em momento de desespero por eu querer voltar à meu lar e então resolveu me explicar:
— O homem... Terráqueo, é um verdadeiro irresponsável com sua própria descendência; vive criando bombas letais, capazes de destruir a pobre Terra por várias vezes... Mas isso não é o mais grave! Vocês são irresponsáveis, no desmatamento desordenado das florestas nativas, das fontes de água potável, que não é renovável, da destruição da camada que protege o próprio planeta[1]. Infelizmente a vida na Terra está realmente condenada nas próximas décadas. Seus descendentes morrerão de sede e doenças de pele.
Ouvindo seu comentário real, meu coraçãozinho infantil, pulsava triste.
— Pra Terra escapar de trágico destino, — Continuou ele. — os terráqueos deveriam retroagir em respeito ao progresso, pelo menos uns cem anos.
Quase uma hora de espera e Paulinho deu sinal de que sua vida continuaria. Balançou levemente a cabeça e um bracinho, pois o outro estava amarrado a um frasco de soro. Começou a chorar e foi socorrido por uma enfermeira, enquanto a outra se retirava; talvez a procura de um médico.
Vendo Paulinho chorar, eu e o senhor Frene sorrimos. Assim como em um recém-nascido, Aquele era o choro da vida, do milagre…
O médico apareceu apressado e vendo o menino chorando, também sorriu. Deu para perceber, que aquele médico, realmente trabalhava por amor à profissão e ao próximo. O senhor Frene, ficara sério, mas deu para ver através de seus olhos, que ele se sentia vitorioso. Era o meu sacrifício e acho que valeria à pena: mamãe recuperaria Paulinho e também não me perderia para sempre. Muito pelo contrário: através dos anos que se passasse, ela saberia que eu ainda continuava sendo uma criança. O que mudaria em mim, seria apenas o mais importante; conhecimentos por exemplo. Pois a cada dia que passasse, eu aprenderia mais e mais e quem sabe, tão logo, ensinado pelo senhor Frene, aprenderia telepatia e através do espaço, enviaria mensagens para mamãe e papai.
Naquele mesmo dia, duas horas depois, eles estiveram no hospital e puderam ver Paulinho na UTI, acompanhado pelo médico, que lhes explicava com sinceridade, o milagre da recuperação do pequeno, já que seu quadro clínico era muito grave. Ele, porém, estava dormindo.
Naquele momento, tive a oportunidade de, depois de muito tempo, rever meus queridos pais, sem que eles soubessem, é claro. Deu para notar o quanto mamãe estava sofrendo, embora ali, ela sentira um grande alívio, em saber das novidades, a respeito do filho caçulinha.
Nem precisava contar que ali, diante daquele monitor, eu, novamente estava chorando. Estava feliz com Paulinho e em rever meus pais, mas me emocionei ao vê-los e a saudade, naturalmente aumentou muito. Eles, porém, não ficaram nem cinco minutos, naquela breve visita, pois o médico os aconselhou a sair, pela saúde do menino. Mamãe porem, antes de se retirar, entregou ao médico e ele colocou uma chupeta na boca do maninho, me fazendo até rir emocionado. Eu e o senhor Frene, embora, praticamente calados, continuamos durante muitas horas, sem sair da sala do computador e mesmo, quando ele resolveu sair, excepcionalmente me autorizou que eu permanecesse ali o tempo que quisesse.
Normalmente ele não me deixava ter contato com a Terra, pois, talvez acreditasse, que se eu não à visse acabasse me esquecendo dela e me habituando à seu mundo. Não dava para acreditar que um homem tão evoluído, com cinco mil anos de experiência, pudesse ser tão ignorante em questões do coração.
Eu, naturalmente, permaneci ali, observando, até que me sentindo cansado, acabei adormecendo, debruçado na escrivaninha.
Quando acordei, muitas horas depois estava de pijamas, deitado em minha cama. Saltei rapidamente da cama, troquei de roupas, corri ao banheiro para esvaziar a bexiga e mesmo sem lavar as mãos, corri de volta à sala do computador, onde reencontrei o senhor Frene e permanece-mos de plantão, observando.
Ao perceber meu olhar muito triste, ele acionou uma tecla de sua poderosa máquina e em vídeo tape apareceu na tela: papai, montado no cavalo acinzentado Hércules, com meu irmão Carlos na garupa e abraçado à Leandro, em sua frente. Por outro lado, apareceu mamãe, montada ao cavalo Bainho, comigo aos quatro anos de idade, na garupa e abraçada à minha maninha Leticia, aos dois anos. Os dois cavalos, seguiam a pequenos trotes pelo estradão de terra batida, seguindo de nosso sítio no Bairro Córrego dos Pintos, em direção à cidade.
Fiquei em silêncio admirando aquela cena perdida na memória da existência, depois insinuei:
— Não me recordo deste dia!
— Agora você recordará! — Riu ele.
— Nem sabia que eu já tivesse andado à cavalo algum dia!
— Menino aventureiro do sítio, que nunca andou à cavalo! — Riu ele. — Isso não existe!
©©©
Com os dias passando, a recuperação de Paulinho fôra sentido com muita rapidez. No dia seguinte, ao recuperar os sentidos, ele fôra transferido para um quarto comum e então mamãe ou papai, passava quase todo o tempo com ele e eu, aproveitava para curtir um pouco, desse convívio perdido. Só chorava algumas vezes, mas era de emoção, ou até certa alegria. Mas sabia também, que não seria nada fácil, cumprir a promessa que fizera ao senhor Frene. E ele também sabia disso.
Mais um dia e Paulinho já conseguia conversar com alguma dificuldade...
...um novo dia, já se levantava, indo ao banheiro, acompanhado...
...mais um dia e ele já podia até mesmo tomar banho sozinho, sempre sendo observado por alguém, inclusive eu e o senhor Frene, sentados na mesma poltrona.
— Você reclama que eu te observava tomando banho na Terra, Regis. — Insinuou o senhor Frene. — Estamos vendo seu irmão. E daí?
— Não tem nada de mais! — Aleguei.
— Quando era você, também não tinha nada de mais! — Ironizou ele.
— Paulinho tem só seis anos! — Expliquei.
— Você tinha no máximo nove! Nada de mais!
Embora ele se recuperasse rapidamente, ainda conti-nuava com algumas escoriações, principalmente no braço direito e no rosto.
Na Terra, meus pais pareciam felizes, com a rápida recuperação do filho caçula e pareciam até conformados com minha ausência. Será que eles sabiam que a recuperação de Paulinho, se dera graças à interferência do pessoal do senhor Frene? Será que eles esperavam que um dia eu fosse voltar? Agora iria ser difícil mamãe! Minha promessa era para sempre. Agora eu faria de verdade, parte do mundo susteriano e embora não conseguisse retribuir, era muito querido ali.
Cinco dias após a recuperação dos sentidos, Paulinho tivera alta hospitalar, retornando ao lar. Eu e o senhor Frene, continuávamos passando horas e horas, o observando em casa. Com isto, já fazia esse tempo que não via outras pessoas, a não ser, muito pouco, Leandra nas refeições e Luecy, que dormia; aliás, ficava em meu quarto, enquanto eu dormia.
[1] Com a destruição da camada de ozônio, os nocivos raios ultravioletas do Sol, penetrara na atmosfera da Terra, causando principalmente o câncer de pele, entre outros mal.
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