Um menino no espaço - 2ª parte
18 Se robô tivesse o tal coração/alma.
Notas iniciais
— Regis não está feliz conosco! — Insinuou Luecy.
Deu a impressão de que, até a voz metálica do robô, soou com um tom muito triste.
— Ele ainda vai ser feliz, Luecy. — Afirmou o senhor Frene. — Isso eu garanto!
— Duvido muito! — Caçoou Luecy.
É! Eu também não acreditava nada nisso. Até já estava arrependido, em ter aceitado a tal proposta, imposta para salvar meu irmão caçula.
— Regis, eu gostaria de fazer aquela cirurgia cerebral em você.
Assustei-me.
— Pra que eu me esqueça da Terra? Nunca!
— Você prometeu não querer mais voltar! Então será melhor pra você!
— Prometi não amolar o senhor, pra me levar de volta! Não prometi me esquecer de lá!
— Será melhor!
— Não!
— A cirurgia é muito simples! Nada de cortes ou injeções! Você apenas tomará um remédio líquido pra dormir, então injetaremos uma sonda muito fina em sua narina, que será conduzida até o cérebro e inibiremos apenas um de seus milhões de neurônios, te privando de lembranças passadas.
— Nada de injeções no traseiro! — Ironizou o robô.
— Você só sabe falar isso?! Robô idiota!
— É pro seu bem, meu filhinho! — Insistiu o senhor Frene.
— Não quero!
— Regis!
— Estou até querendo pedir ao senhor, pra me deixar ver a Terra, todos os dias!
— Outra hora a gente fala sobre isso!
— Por que não, agora?
— Porque agora estamos passeando!
— Pois é! Não existe lugar melhor pra falarmos sobre isso! Dentro de uma nave fechada, sem ter muito o que se fazer!
— Temos o que fazer! Admirar a paisagem e nos deliciarmos com uma viagem inédita pra você!
— Que paisagens? — Ironizei. — Nuvens?
— Seja um pouco grato, menino!
— Tá! — Fiquei nervoso. — Obrigado por me roubar de minha mãe!
Calamo-nos.
Luecy também, apesar de gozador, acho que se solidarizou comigo e quase não falou durante toda a viagem. O senhor Frene, exigente, só conversava assuntos que a ele interessava.
— Você se lembra de quando você foi à NASA? — Perguntou-me ele.
Balancei os ombros como a dizer: “Como iria esquecer?”
— Se lembra de Angra dos Reis? Laboratório de a usina nuclear?
— Não me esqueceria daquilo! — Insinuei lacônica-mente.
— Fizeram teste em seu sangue! Pra ver se você tinha radiação! Lembra?
— Um simples exame de sangue. — Balancei os ombros.
— Por que será que tiraram duzentos eme ele se bastava apenas dez?
— Exagero. Eu acho.
— Não Regis! Eles resolveram fazer experiências genéticas em outras crianças.
— Como assim? — Admirei. — Pra quê?
— Aplicaram seu sangue na veia de outras crianças, pra ver se elas também deixariam de envelhecer.
— Nããão! Não é tão maravilhoso assim.
— Alem disso, eles não foram muito justos com você! Usaram de sua inocência e da ignorância de seu pai e fizeram um teste perigoso em seu corpo!
— Como assim? — Me assustei.
— Não é tão grave! Mas eles deveriam ter pedido permissão à seu pai para tal exame!
— Meu pai não é ignorante! — Me ofendi.
— É sim! Em medicina é!
— O que eles me fizeram? — Estava deveras preocupado.
— Eles usaram Isótopos Radioativos Tálio, para analisarem seus vasos sanguíneos...
— Isóooo... Isso é grave?
— Nem tanto! O organismo das pessoas acabam expelindo o que não lhes convém. Se injetarmos be aga ce[1] em seu organismo, assim mesmo ele tentará te salvar a vida, batalhando uma guerra violenta contra tal veneno. Mas em seu caso, suas células não envelhecem e seu sangue também, tem alguma diferença entre o sangue de uma outra criança normal. O fato é que eles agiram de má fé! E se seu organismo não expelisse tal substância nociva?
— Eles nem acreditaram muito em mim! — Aleguei. — Se bem que estou me lixando pra eles!
— No que eles não acreditam?
— Disseram que se uma nave pousasse em minha cidade, a radiação mataria toda a população de lá!
— Tem certa lógica essa ideia! Mas eu não tenho intenção de levar morte à seu mundo, portanto tenho me precavido sobre isso. Depois, o próprio espaço do vácuo sideral, onde a temperatura é muito baixa, mata qualquer tipo de vírus com que minha nave possa estar carregando.
— Será? — Duvidei.
— Imagine você de repente sair de um congelador com mais de duzentos graus Celsius negativo e cair em uma fornalha com duzentos graus positivos.
Dei de ombros.
— Isso acontece com nossa nave, ao deixar o vácuo do cosmos e entrar na sua atmosfera terrestre. Será que algum vírus sobrevive a isso?
— No vácuo, como o senhor diz, não existe nada?
— Pra explicar melhor, nos espaços que existem entre nossos dois mundos, seu Sol e minhas estrelas Brina ou Kristall, não existe esse tal vácuo que lhe disse; o que existe mesmo é algo pelo qual seu povo chama de energia negra. Graças a isso, o espaço não é plano como a gente imagina, formando uma força denominada de onda gravitacional.
— Onda do mar?
— Isso! Imagine as ondas formadas em um mar calmo; ou em um rio largo, em dia com vento. Nós aproveitamos este efeito de ondas do espaço, pra podermos viajar a uma velocidade impossível no cosmos. É como se encurtássemos o espaço à nossa frente e alongássemos-lo no que já passou. É o que seus escritores de ficção científica chamam de velocidade de dobra.
— O Universo é doido! — Fiz careta.
— Não! O Universo é algo maravilhoso e de tamanho inimaginável. Quem nos dera podermos realmente viajar entre galáxias diferentes! Aí sim, você conheceria o verdadeiro vácuo, que só existe separando esses verdadeiros monstros, onde realmente não há nada!
— Senhor Frene, nós já viajamos pelo cosmos! — será que ele se esquecera de que pertenço à Terra.
Diante da grandeza do Universo, nossas viagens são como se você fosse a pé, na casa de sua amiguinha do lado.
— Regina!?
— O vácuo entre as galáxias, pode ter mais de vinte milhões de anos luz de diâmetro.
Enchi a boca de ar, assoprando tudo a seguir e passando a mão sobre a cabeça como a dizer, “não entendi nadinha de nada”.
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Após cinco horas e setenta minutos, a nave pousou suavemente em um grande campo denominado astródromo, de Orington, uma das gigantescas cidades eletrônica do planeta (outra, como já mencionei, é Merlin), onde os prédios eram todos baixos, também construídos em metal, aço ou níquel.
Já havia me despido daquele macacãozinho Susteria-no, ficando apenas de short cinza escuro, camiseta amarela, sem cavas, boné preto e tênis preto com solado branco. A estrela Brina, devido ao fuso horário, acabara de aparecer, conservando uma temperatura de trinta e cinco graus, às primeiras marcações do relógio: estávamos as zero horas e quarenta minutos daquele dia; ou seja: era como se tivéssemos feito uma viagem ao passado, chegando ali antes do horário em que saímos de Malderran.
Usando um carro de duas rodas, iguais os de Malderran, seguimos para a parte central daquela gigante e bonita cidade. O motorista, aparentando uns trinta anos, conhecia muito bem o caminho e conversava muito, principalmente comigo, que lhe perguntei:
— O senhor trabalha pro senhor Frene?
— Trabalho pra todo mundo, garoto! Mas pra você não estou trabalhando! É um prazer enorme levá-lo à cidade! Não vou cobrar o trabalho!
— Graças a você, Regis! — Insinuou o senhor Frene.
— Puxa saco! — Caçoou Luecy.
— Sem educação! — Chamei sua atenção.
— Sincero! — Tornou caçoar.
— Não sou puxa saco! — Negou o motorista. — Estou dizendo a verdade!
— Só não entendi: graças a Regis! — Insinuei.
— Porque ele é seu amigo, ora! — Exclamou o senhor Frene.
— Um de meus pais! — Insinuei rindo.
— Não! — Negou o motorista. — Seu amigo! Acho que você já tem muitos pais!
— Dizem que tenho! Mas não conheço nenhum!
— Seria melhor ter amigos do que pais! — Alegou o motorista.
Mas eu não entendi o que ele quis dizer. Pra mim, pai tem que ser amigo também! Pelo menos o meu pai, é meu eterno amigo.
— Falando nisso senhor Frene, acho que precisava ganhar alguma mesada! — Falei sério.
— Pra quê? — Se admirou ele. — Lhe darei de tudo o que você quiser!
— De repente eu possa querer alguma coisa muito cara e o senhor não puder ou não querer me dar! Se eu tiver um tipo de mesada, posso juntar e nessas emergências... Sabe como é!
— Bom de papo, menino! — Brincou o motorista.
— Se é meu pai! Em minha casa, apesar de pobres, papai sempre nos dava algum dinheiro!
— Vou pensar nisso! — Riu o senhor Frene.
— Posso lhe dar mesada, garoto Regis! — Caçoou o robô. — Ou cintada! Ou chinelada!
Em poucos minutos, descemos no centro da cidade, sem pagar o motorista de praça, que nada quis receber do senhor Frene. Observados por todos, entramos na primeira loja, à nossa direção. O senhor Frene conversou com uma moça, que apanhou uma pequena filmadora, do mesmo tamanho das existentes em sua emissora de tevê, parecendo ser de brinquedo, injetou-lhe um minúsculo cartão de metal e me entregou dizendo:
— Experimente Regis! Se gostar será sua!
— Como sabe meu nome?
— Todos sabem! — Exclamou ela com bonito sorriso.
Embora sem nenhuma prática, apoiei a máquina na mão e comecei a filmar Luecy, a moça e todos na loja.
— Gostou Regis? — Perguntou-me o senhor Frene.
— Muito!
— Então é sua! Pra quê mesada?
A máquina era excelente e pequena. Tinha uma objetiva ajustável eletrônica ou manual para mil metros, o que permitia filmar alguma coisa que estivesse a um quilômetro, como se estivesse a um passo. Um teclado com caracteres em susteriano[2] e um sistema de edição de legenda, o que permitia legendar antes ou depois das filmagens. Diversos efeitos que poderiam ser inseridos na gravação, com um simples toque e muitas outras vantagens em relação às filmadoras da Terra.
Alem da filmadora, o senhor Frene adquiriu uma tevê de quarenta polegadas, da espessura de um quadro de fotografia, com a qualidade da imagem em terceira dimensão tão real, que, como os já conhecidos, era como se estivéssemos olhando por uma janela e que nos permitia pictures-in-pictures de até seis canais, embora só o central tivesse áudio, coisa que na Terra, ainda não existia.
Um vídeo cassete do tamanho de um de meus cartuchos de jogos Atari, que possuía um teclado externo, com o dobro de seu tamanho, para legendar qualquer cartão, mesmo que já estivesse gravado e mais a vantagem de serem dois vídeos em um, o que na Terra as pessoas apelidam de combo[3], ótimo para copiar cartões, que para facilidade, eram do mesmo tipo usado em minha nova filmadora.
O senhor Frene deixou um endereço para a moça e sem levarmos nada, seguimos para outra loja ao lado, onde conversou com outra moça, que depois de me mimar muito, inclusive com beijos, como se eu fosse um grande galã (só faltou pedir autógrafo), entrou por um corredor e voltou a seguir com algo pequeno nas mãos. Entregou ao senhor Frene, que passou para minhas mãos dizendo:
— Se você gostar será seu!
Era um pequeno e lindo relógio de pulso, com um visor de cristal e as horas em digital. Sua cor era níquel e seu visor, puxando para um vinho transparente e a hora, indicada em verde. Havia quinze pequenas teclas, indicando uma calculadora, porém, orientado pela vendedora, fiquei sabendo que aquele relógio era um protótipo e fôra fabricado especialmente para mim e que aquelas teclas tinham outras funções, como:
Tecla 1 – Acertar o mostrador.
Tecla 2 – Hora Susteriana local.
Tecla 3 – Hora Susteriana com fuso horário, podendo determinar +1, +2, + xis...
Tecla 4 – Hora terráquea.
Tecla 5 – Cronômetro Susteriano.
Tecla 6 – Cronômetro terráqueo.
Tecla 7 – Calculadora.
Tecla 8 – Data terráquea: dia, mês, ano e semana.
Tecla 0 – Temperatura ambiente e umidade relativa do ar.
Tecla 9– Data susteriana: Dia, mês e ano (em Suster, o ano não é — dividido em meses)
Tecla + — Despertador terráqueo.
Tecla — — Despertador Susteriano para hora local.
Tecla x – Entre a identificação do proprietário.
Tecla : — Dispara um bip em hora cheia
Tecla = — Demonstração.
Já com o relógio no pulso e super exibido, acompanhado por Luecy e o senhor Frene seguimos a um hotel, anteriormente reservado.
[1] O BHC é um inseticida e sua sigla advém do nome inglês — Benzene Hexachloride — é um produto que combate pragas na lavoura e ao entrar em contato com a pele tem efeito cumulativo, causando danos irreverssíveis ao sistema nervoso central. A absorção pelo organismo pode ocorrer por via oral, respiratória ou simples contato com a pele. Entre os sintomas estão convulsões, dores-de-cabeça, tremores, arritmia e até óbito em casos mais graves. O BHC foi bastante usado nas lavouras de café no Paraná.
[2] Não me serviria para nada.
[3] Abreviatura do inglês para combination. Em Português: sequência.
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