Notas iniciais
Faltam apenas dois capítulos para o final desta aventura/drama.

Quinze de fevereiro de um mil novecentos e oitenta e quatro, Quarta-feira na Terra, sete e meia da manhã; Grupo Escolar Marcos Trench, a sala da bonita professorinha de vinte e três anos, dona Regina, recebera trinta novas crianças com idade média de nove anos; dezesseis meninos e quatorze meninas. As aulas estavam recomeçando e embora ela não soubesse, eu também era seu aluno. Dois anos seguidos, por um pequeno período, eu fôra seu aluno; um ano no período da manhã e o outro, no período da tarde. Agora voltava a ser e iria estudar com fervor. Não sei por decisão de quem, ou por que, mas a escola voltava a misturar as crianças, tendo novamente crianças pequenas, no período vespertino e crianças maiores, no segundo período. Sabia que na Terra, o horário seria sempre sete e meia da manhã. Em Suster, porém, o horário iria sempre variar. Estávamos no dia quarenta e cinco, do ano cinco mil, duzentos e sessenta e seis, quinze horas e dezessete minutos. Orientado por Luecy, sabia que às sete e meia da manhã seguinte, na Terra, seria ainda, vinte e oito horas e cinquenta e sete minutos, daquele mesmo dia em Suster. Eu teria praticamente, que ir à aula duas vezes por dia. Mas era o que eu queria e estava muito feliz; já havia apertado a tecla “+” de meu relógio e acertado para que ele despertasse, todas às sete horas da manhã, na Terra.

O senhor Frene, havia reprogramado o computador, para ser ligado por mim. Porem, por um único comando: liga e ele mostraria minha sala de aula.

Naquele mesmo primeiro dia de aula, quando soara o sinal e as crianças saíram para o intervalo de recreio, dona Regina permaneceu sentada diante de sua escrivaninha, ajeitando seu material escolar e foi então, que aproveitei para chamar sua atenção por telepatia, com a ajuda do senhor Frene; pois eu ainda não dominava esta arte, de interferir nos pensamentos das pessoas, sozinho. Concentrei-me e em pensamentos lhe pedi:

— Dona Regina, a senhora ainda me deixa ser seu aluno?

Ela me ouviu e se espantou. Olhou para todos os lados da sala.

— A senhora não me verá! Mas eu posso ser seu aluno?

— Quem é? — Perguntou ela em voz alta.

— Eu, dona Regina! Regis! A senhora não se lembra de mim?

— Como eu posso te ouvir, Regis? Se eu não o vejo!

— Posso assistir suas aulas?

— Claro que pode! Você está invisível, ou eu estou maluca?

— Nem uma coisa, nem outra! — Ri. — A senhora não está maluca! Mas a senhora se lembra de mim?

— Claro! Como poderia me esquecer? Você sabe que era meu aluno preferido!

— Obrigado!

— Onde você está, Regis? Por que estou sonhando com você, acordada?

— A senhora não está sonhando dona Regina! Está falando comigo de verdade!

— Mas como?

— Nunca ouviu falar em telepatia?

— Sim! Já! Mas…

— Posso assistir a suas aulas? Todos os dias!

— Claro que pode! Mas onde você está?

— Voltei praquele planeta que lhe falei! Continuo criancinha de nove anos de idade! Mas não quero ficar burro! Por isso é que eu quero assistir a suas aulas!

— Será um prazer, Regis, tê-lo como meu aluno novamente! Mas como saberei que você está na aula?

— Estarei todos os dias e a senhora saberá! Agora eu também vou tomar meu lanche!

— Você pode me ver?

— Lógico! Estou vendo à senhora! Bonito vestido verde! Agora posso ir tomar meu lanche?

Ela estava emocionada e desconsertada e eu muito feliz. Segui para a copa, onde encontrei Leandra e pedi:

— Leandra, eu estou de recreio! Cadê meu lanche?

— Recreio! De que? — Se espantou ela.

— Da escola! Eu estou estudando!

— É verdade! As aulas já começaram?

— Hoje!

—Pode ir à cozinha apanhar seu lanche.

©©©

A partir de então, era rotina e eu comecei a seguir as horas da Terra, para dormir e acordar, com o relógio despertando. Usava meu próprio material escolar e quando a professora acabava de fazer sua chamada, sem mencionar meu nome, por telepatia eu dizia:

— Regis está presente, dona Regina!

Ela dava um leve sorriso, confirmando que me ouviu.

Durante todo aquele ano, minha rotina em Suster continuava igual antes, apenas sendo incluído o espaço de aulas escolares. Brincava, passeava, ia à piscina, sentia saudades da Terra, chorava e ia à escola.

©©©

Um ano escolar se passou muito rápido e então, dona Regina, fizera uma prova oral comigo. Como eu me saíra muito bem, ela disse:

— Parabéns Regis! Sua nota é dez! Mas como saberei que você não colou?

— A senhora tem a minha palavra! — Ri.

— Você poderia ter passado de ano; mas temos um probleminha: no ano que vem, a professora de quarta série será outra e ela não conhece você.

— Fale sobre mim pra ela! Eu falarei também! Assim que recomeçar as aulas.

— É diferente, Regis! Eu conheço você! Ela não te conhece!

— Vai ter que conhecer!

— Quando recomeçarem as aulas, a gente fala sobre isso! Tá bom?

— Promete falar com ela?

— Tentarei convencê-la, de que não estou louca!

— Se ela achar que a senhora está louca por falar comigo, como se eu fosse um fantasma. Ela também será louca! Pois eu falarei com ela.

— E seus pais? Você tem falado com eles?

— Não senhora! — Neguei triste. — Nem sequer os tenho visto!

— Por que não?

— O senhor Frene não deixa!

— E quando irá retornar à Terra?

— Ele não quer que eu volte jamais!

— Você não é feliz aí! É?

— A senhora vai falar com a professora do quarto ano?

— Por que você muda de assunto, todas as vezes que falamos sobre sua família?

— Dona Regina, obrigado por ter me dado aulas durante todo este ano! Agora eu preciso ir! Está chegando gente aí em sua sala…

— Regis, espere!

©©©

O tempo foi passando… Passando… Dona Regina, com minha ajuda, convenceu dona Elza em me deixar estudar em sua sala de aulas e com isso, fiz a quarta e a quinta série.

Na Terra era mais da metade do mês de fevereiro de um mil novecentos e oitenta e sete; o senhor Frene me colocou a bordo se sua gigantesca espaçonave e viajamos por um espaço escuro no Universo, a pelo menos metade de um ano luz distante de seu planeta sem trevas.

— Onde está me levando senhor Frene?

— Vou lhe mostrar um espetáculo mortal, porém muito bonito!

— O quê? — Franzi o nariz.

— A morte de uma estrela!

— Jura!

Praticamente desligou a espaçonave e a deixou orbi-tando um espaço neutro no vácuo. Preparou um telescópio poderoso, apontando-o para a tal escuridão e sincronizando-o com uma grande estrela em uma pequena galáxia, a qual, na Terra, lhe batizaram por “Nuvem de Magalhães”.

— Teremos que ficar atentos. — Alegou ele. — Esta estrela vai se transformar em fogos de artifício, em poucas horas. Morrerá e se transformará em estrela de nêutron.

— Causará radiação?

— Que pergunta Regis? — Riu o homem. — Os raios cósmicos provocados por esta explosão, serão os mesmos que alteraram toda a vida de meu planeta.

— E o que acontecerá agora?

— Pra nós, nada! — Riu ele. — Esta estrela está a cento e setenta mil anos luz daqui e tais raios radioativos não chegarão até nós.

— Os astrólogos da Terra, conseguirão ver a explosão?

— Sim! Eles conhecem essa estrela melhor do que eu!

— Como o senhor pode saber tanto sobre estrelas e Universo, se o senhor vive em um mundo onde não se vê estrelas?

— Quando me sinto estressado, me apodero desta espaçonave e passo dias por aqui, observando o milagroso espaço de meu Deus.

— O Universo é tão extenso, porém cheio de galáxias, buracos negros, poeiras cósmicas e tantas outras coisas. —Depois de tanto tempo falando sobre Universo, eu já estava sabendo muito sobre tal. — Dizem que o Universo está se expandindo cada vez mais. Então não sobra lugar para o Céu ou o inferno. Onde fica Deus nessa história?

— Que tal um Universo paralelo!? — Insinuou o homem com jeito de convicção.

— Como assim?

— O meu Céu está em Suster! O seu Céu está na Terra! Um junto ao outro! Em perfeita harmonia! Quando a vida corporal deixar de existir, a alma, ou espírito sairá deste corpo e transpassará um portal para este céu, sendo recepcionada com alegria por Deus e sua legião de anjos, arcanjos, serafins e querubins, neste Universo paralelo.

— Eu estou fora da Terra! — Analisei. — Ou seja: longe de meu Céu. Caso me aconteça algo e meu corpo morra, minha alma se perderá e não conseguirá encontrar o portal para meu Céu.

— Não te preocupeis! — Colocou a mão direita sobre meu ombro. — Sua alma encontrará seu Céu com certeza. Mas isto ainda vai demorar milhares de anos.

Durante dezenas de horas, passamos ali, conversando e observando o negro espaço cósmico, com olhos atentos a uma única estrela naquela imensidão.

Observara em meu relógio de pulso especial, que na Terra, estávamos em uma segunda feira, vinte e três de fevereiro do ano oitenta e sete.

Também descobrira que na Terra, tal estrela recebera o nome de SK-69202[1] e então, transpassada por uma luz que brilhou mais do que um milhão de sóis juntos, se descon-figurou em bilhões de pequenas partículas, lançando por trilhões de quilômetros, os tais poderosos raios cósmicos, em fração de poucos segundos.

— Nossa! — Me espantei admirado com tamanha beleza.

— Muito lindo! Não acha?

— Sim! Nunca tinha visto algo igual.

— Lindo Regis. Porem triste e cruel.

— Como assim?

— Como te disse junto com essa linda morte dessa estrela, centenas de outros astros do Universo, também deixaram de existir em questão de poucos segundos.

— É! Cruel!

— Mas não se preocupe. Embora a gente só esteja vendo isto agora, tudo não passa de um tipo replay. Como se fosse uma imagem de cinema.

— Ãh? — Não entendia patavina.

— Na verdade essa explosão magnífica já aconteceu a mais de cento e setenta mil anos.

— Como assim?

— Vou lhe explicar de um jeito mais fácil para entender.

Virou a nave em quase cento e oitenta graus e me disse, apontando para as centenas de luzinhas de estrelas distantes:

— Veja esse aglomerado de estrelas.

Como permaneci calado, ele continuou:

— Sabe o que é?

— Estrelas muito longe. — Respondi com ajuda dos ombros.

— Os terráqueos dizem se chamar Constelação de Plêiades. Sabe o que significa?

Acenei negativamente.

— Essa estrela de tonalidade branca bem fraquinha que você vê aqui — Apontou uma das quase apagadas no visor da nave — Sabe o nome dela?

— O Soool? — Perguntei indiferente.

— Muito experto — Riu senhor Frene — Seu Sol.

Meu coração bateu de um jeito triste.

— Parece tão longe.

— E está.

Percebendo meu jeito sofrido, ele me abraçou.

— Mas esta luz solar que você está vendo não é de agora — explicou-me — Na verdade ela é mais velha do que seu pai. Aliás, ela vem de antes de seu avô.

— Não compreendo.

— Nessa luz, você ainda não nasceu. Imagine quando mostro suas imagens lá na tela de meu computador. Assim vemos seu Sol... a explosão da estrela que acabamos de assistir e todas as estrelas do vasto Universo. É tudo como um vídeo tape... Tudo é passado.

Meus olhos estavam cheio de lágrimas.

[1] Foi rebatizada depois da explosão de supernova para SN1987a.

Notas finais
Falta apenas um capítulo para chegarmos ao final desta trama. Espero que você esteja gostando. Porém, só saberei que você existe caso gaste um tempinho e faça um pequeno comentário. Mesmo que seja crítica. Lembre-se: as críticas ajudam a consertar erros na estória.