Um lampejo Libertário

1 Capítulo único - Um lampejo libertário


Ele apenas soltava frases curtas que estimulasse o condenado a iniciar sua defesa, Lúcifer não queria falar muito, sabia que o silêncio era o som mais inteligente a se emitir, limitando-se a dedilhar sobre a mesa de julgamento, emitindo um som impaciente. Há séculos fazia aquele mesmo julgamento, mas poucos eram realmente interessantes. Julgamento? Sim. Por mais que fosse o dono do inferno, por mais que fosse dito o pior ser da face da terra ou mesmo do universo, ele era justo. Mas claro, quando necessário usava sua coesão para garantir seu poder. Todos os julgamentos daquele dia foram semelhantes, as almas tentavam justificar seus erros em vida para amenizarem sua sentença, estupradores, homicidas, suicidas, ladrões, os que acreditavam ter mais afinidade com o inferno como os satanistas e etc. Era a vez do próximo culpado: Friedrich Nietzsche. A estrela da manhã já ouviu muito sobre ele, um defensor do conhecimento clamado de gênio e de louco por legiões de humanos, muitos outros gênios passaram por ali, ele não era o único ou mesmo não era diferente de ninguém daquele reino. Manteve o olhar sobre os próprios dedos dedilhando sobre a madeira da mesa de julgamento, parecia que ele não se interteve faz muito tempo, e ainda esperava pela vinda de Morpheus que queria passar pelos portões do inferno. Limitou-se ao falar:

- Primeiramente, todos que estão aqui são semelhantes a você, diga-me, qual a sua defesa? -

- E o que te faz diferente de mim então? Tu ousastes questionar o teu deus, e eu, um mero humano, questiono tudo a minha volta inclusive a existência de Deus e mesmo a tua. -

Todos ali em volta olharam estremecidos com a ousadia do condenado, inclusive Samael. Ele finalmente ergueu o olhar, passando a ter um estranho interesse pela alma do insolente. O julgado comparou-se ao próprio diabo, e isso era uma visível ameaça ao seu poder sobre o inferno, mesmo sabendo que ninguém conseguiria controlar aquele lugar como ele faz.

- Vejo que foi isto que te trouxe ao inferno... Sou eu que faz as perguntas aqui. – Disse em tom firme. Olhou para um livro velho e empoeirado sobre a mesa por alguns segundos e voltou a encarar o acusado, pensou consigo mesmo: “Você possui muitas acusações, mas... Não cometestes nada contra o que julgo ser vulgar, por que te jogaram aqui...? Deus deve estar tentando me testar?” — Limite-se a responder minha pergunta, tu carregas sua vida sobre as costas, conhece tua acusação, mas qual a sua defesa? –

- Minha defesa é a mesma da sua para com Deus, e não vamos sair tão cedo deste lugar... –

Mais uma vez aquilo provocou murmúrios dos condenados ali em volta. Samael não estava muito satisfeito de ter que fazer aquele trabalho por tanto tempo, e ainda tinha que ouvir os que se julgavam inteligentes, mas não se irritou e resolveu entrar no jogo do defensor do conhecimento, afinal, Marte era um ser que apreciava o conhecimento. — Pretende passar sua eternidade sendo torturado no inferno? – “Atire-o do poço das lamentações!” Gritou um demônio carrasco louco por mais almas para suas torturas. – Cale-se. – Falou preguiçosamente a Estrela D'alva e o demônio teve instantaneamente a boca pregada por pregos e arame.

- ... Isto é apenas um sonho. Quando eu acordar, estarei entre Zaratustra. –

- E se eu lhe afirmar que isto não é um sonho? –

- Se realmente não for um sonho, eu enquanto suposto ser mal, aceitarei e me agitarei durante a eternidade nas trevas... Mas não posso ser julgado condenado ao inferno apenas por ter boa conduta e questionar.

Lúcifer entendia muito bem este pensamento, foi como parou ali à milhões de anos atrás. – Quer dizer que agora decidiste fazer sua defesa? Prossiga. –

- Não é uma defesa propriamente, Arimã... Sinto... Sinto que fui enviado para lhe passar uma mensagem ao invés de julgado. –

Samael sorriu com sua dentição perfeita, em um piscar de olhos o cenário em volta alterou-se completamente, tudo ficou estático como se o tempo houvesse parado. O ser alado bateu algumas poucas vezes as belas asas e pousou próximo de Nietzsche, cruzou parcialmente os braços e apoiou uma das mãos no maxilar anguloso, andando em volta do julgado enquanto as asas se fechavam atrás de si. – Francamente, o que você pensa é irrelevante para mim. Você está em meu reino e em meio a um julgamento, irei julga-lo ou mesmo fazer nada contra você, só não garanto que consiga sair daqui sem ser estilhaçado por um desses cães do inferno... A menos que consiga me convencer de deixá-lo partir. –

- Como posso acreditar nas palavras do Diabo? Dizem que tu és o maior mentiroso de todos. – Disse, começando a acreditar que aquilo realmente pudesse ser real; E em como era incômodo o cheiro do enxofre dilacerando aos poucos seu pulmão.

- “Aquele que diz uma palavra injusta pode enganar seu semelhante, mas não enganará a Deus.” Se Deus estiver com paciência, ele te protegerá, não? Zaratustra. – Depois desta frase Masdeísta, Friedrich ficou desconcertado e pareceu pensar mais do que o normal. Calou-se por um tempo pensando no que deveria falar. — ... Temos toda a eternidade para esta resposta. – Disse o Diabo cheio de cinismo.

- Está bem, aceito a condição, mas se isto realmente for real, quero retornar ao mundo dos humanos e ao morrer, ser julgado por Deus. –

- Isto é ele quem decide por intervir, ouviu ó todo poderoso?! Acredito que tudo esteja certo, agora, sua mensagem. –

Friedrich suava nervoso, estava diante do próprio “Mal”, o que dissesse poderia ser seu fim. Abriu os lábios e a as palavras saíram um pouco trêmulas no começo: — Há um passo para conseguir o que se quer na vida: Saber o que quer. Já parou pra pensar o quanto tempo perdestes por não ter tido tempo para pensar no que você quer? As coisas não mudam, nós mudamos, por isso só existe um sucesso: Ser capaz de viver da sua própria maneira, libertar-se do seu próprio eu. Liberte-se do ontem ou do amanhã para usar seu tempo hoje. –

Lúcifer pensou um pouco sobre o solilóquio do pensador julgado, aquilo pareceu realmente perdurar na mente do Arcanjo, de fato estava tão enfadado de ter que cuidar de seu reino por tanto tempo que cogitou algumas vezes abandonar tudo e experimentar um pouco a própria existência no universo. Impossível. Tinha que continuar regendo aquele lugar, manter seu poder e ordenar aqueles cães sanguinários e criaturas horrendas que lhe eram seguidores. Parou mais à frente e ficou encarando o julgado. Sorriu de forma um tanto quanto sádica e respondeu àquilo com uma frase do próprio Nietzsche enquanto em vida: — “O idealista é incorrigível: Se é expulso do céu, faz um ideal do seu inferno.” –

- Fico admirado pelo próprio Diabo apreciar meus pensamentos. –

- Deves ficar orgulhoso mesmo. Aliás, é contra as regras tirar alguém do inferno, meu caro. – Retomou seu assento atrás da mesa de julgamento.

- Pensei que não cometerias injustiça! –

- Não cometerei, tomarei como um adiamento de seu julgamento, como você nunca houvesse estado aqui. – E num estalar de dedos tudo em volta deles retomou ao movimento das dimensões e ouvia-se o urrar dos demônios clamando por sangue. O solvido ficou perplexo, conseguira convencer o Diabo com um pensamento libertário? Talvez fosse aquilo que Lúcifer realmente queria ouvir para encorajá-lo, talvez realmente estivesse enfadado daquela rotina e lugar, mas como poderia afirmar aquilo?

- ... Antes de ir, poderia eu saber o motivo de ter apreciado minha fala? –

O belo Arcanjo o mirou imponente e respondeu: — Havia esquecido do meu princípio de autoafirmação, exaltação da mente, foi interessante relembrar minha essência. Portanto, eu o declaro inocente. – E assim o filósofo foi retomado à humanidade, sem memória do ocorrido, enquanto a Lúcifer... Ele continuou regendo seu reino como sempre.

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