O aniversário de Sirius já ia longo. Remus não acreditava que uma noite fora do colégio Hogwarts podia ser tão gratificante fora daqueles muros de pedra que até os pátios cercam. Agradecia por não ter quebrado as regras e poder sair naquele fim de semana, nunca pensou que uma festa no campo podesse ser tão divertida e emocionante, mesmo sendo tão isolada e diferente da metrópole de onde ele vinha. Londres era uma cidade movimentada, exentrica, tudo acontecia lá... Ali não. Nada acontecia ali. Havia paz, havia verde. Remus nunca tinha visto tanto verde na vida dele se não ali, na casa de Sirius.

A noite estava alta, já há muito tempo que tinha passado da meia noite. Os pais estavam fora e Sirius tinha a casa só para ele, o que acabou numa enorme festa punk. Sirius não convidou um exagero de gente como pensara antes, estavam apenas cerca de trinta pessoas naquela mansão e só três estavam a pernoitar lá, não podia deixar James, o seu melhor amigo, de fora, nem o Peter, que mesmo não sendo o mais festeiro, merecia estar ali também. Sirius teve o cuidado de trancar o quarto dos pais e o escritório da mãe, para que nada desse errado, também abriu todas as janelas para que o cheiro a tabaco, erva e álcool não se sentisse tanto na manhã seguinte. Ele conseguia convenser o Monstro a não contar nada sobre a festa, mas sabia que tinha limites, afinal, o empregado era da familia Black, mas o ser era fiel à dona da casa. Remus estava pasmado com a quantidade de droga que havia naquela festa e da quantidade de alcool que havia e a sua diversidade.. Mais espantado ainda de não haver ninguém a aparentar uma overdose próxima. Logo, não perguntou. Com o tempo, começou a sentir-se à vontade para beber um gole. Depois outro. E outro, e outro e outro. Quando deu por ele, já não tinha a conta de quantos copos bebeu e estava a falar com uns amigos punk do Sirius sobre uma banda que tinha acabado de surgir nos estados Unidos, os Ramones. Eles tinham oferecido um vinil dos mesmos ao Sirius que tocava no fundo da festa. Remus tentava argumentar de que não havia melhor que o Elton John ou os Queen, mas apenas levava risos em resposta.

Com o passar das horas via algumas pessoas a desaparecer da sala. O seu estado de alteração não era muito avançado, só talvez um pouco solto, então prezumiu onde as pessoas estariam. E não estava enganado. Sirius tinha uma casa grande, com muitos quartos, que deixava os fetiches de qualquer um fluir. Mas os quartos não eram infinitos, sendo que Remus começou a sentir-se desconfortável em estar na sala e sentindo-se obrigado a sair. A rua parecia o sítio indicado para fugir àquela casa de luxuria.

Era madrugada alta, quase seis da manhã. Remus estranhou não ter qualquer tipo de sono ou cansaço depois de uma noite tão pesada. Aquele era o tipo de ambientes que os pais o proibiam de frequentar, por serem exentricos e, maioritariamente, “homosexuais”. E, no entanto, ele estava ali, com o seu amigo gay, no qual tinha uma queda enorme e não conseguia parar de pensar. Mas o mais duro era saber que o amigo era gay e nunca se interessaria por ele. Tantas tentativas... Mas ele simplesmente não pertencia ao mundo dele. Não era punk, não bebia, não fumava... Na verdade, ele era bem pacato e ficava em casa a estudar ou a ouvir música pop, que percebera há poucas horas que era um atentado ao gosto musical de Sirius.

— REMUS! –Sirius gritou aparecendo de surpresa pelas costas do rapaz, abraçando-o pelo pescoço e fricsando o punho contra a cabeça dele.

— Sirius, para com isso! Isso dói! — O mais novo queixou-se lutanto para se libertar do outro. Sirius tinha-lhe pergado um susto de morte. O rapaz tinha esse talento, aparecer enquanto tinha pensamentos sobre ele.

Sirius soltou-o com uma risada tímida, apoiando-se na parede para falar com o menor.

— O que é que fazes cá fora? Vem divertir-te para dentro, Moony. – Sirius pediu com o seu olhar sedutor natural. Ele não sabia como ele podia ser naturalmente sedutor, mas a genética nunca foi a disciplina forte dele.

— Claro. Vou já sentar-me à frente dos teus amigos no sofá e satisfaço-me a olhar para eles. Como é que isso não me ocorreu?

Sirius riu do comentário irónico.

— Nota-se que não estás habituado a este tipo de festas. Por estas horas é costume haver... Bem... Estar mais quente... – Ele piscou o olho para o amigo tentando transmitir a ideia.

Ótimo. “Não estás habituado a estas festas”. Era mesmo isso que ele precisava de ouvir naquele momento. Sentir-se mais deslocado e distante do mundo de Sirius era tudo o que ele queria. Mas porque raio ele ainda tentava estar no mundo dele? Sentia-se mais um empecilho ou um fardo quando o fazia. Ai que treta de vida.

— Anda, Remus. Vamos passear.

Sirius começou a deslocar-se para fora do perimetro da residência, o que era bastante estranho para quem está a dar uma festa.

— Mas vamos onde? – Remus estava confuso, mas muito mais curioso.

— Para longe daqui. – Sirius afastava-se.

— Mas é a tua festa de anos! – O tom foi de espanto e superior ao anterior.

— E por ser o meu aniversário eu acho que posso escolher o que fazer, certo?

...

Remus não acreditava que estava sozinho no bosque com Sirius. Aquilo parecia um romance qualquer em que o rapaz levava a rapariga a passear, perdiam-se os dois no bosque e no final havia uma grande declaração. Mas não era. Eram apenas dois amigos a andar pelo bosque porque um deles se fartou de estar numa festa e o outro fez o favor de o acompanhar num passeio para apanhar ar.

Dito assim, fica muito mais estranho.

— Deixas-te os teus convidados sozinhos em casa, incuindo o James que é o teu melhor amigo! Isso não está certo, Sirius!

Remus caminhava atrás do rapaz por entre as árvores e verde. Naquele ponto já não sabia muito bem onde estava e confiava que Sirius o levasse para um sítio seguro. Sirius, pelo seu lado, caminhava à frente e era muito mais ágil a andar por aqueles terrenos humidos e musgosos. O céu já clareava, o Sol estava prestes a nascer. Por quanto tempo eles tinham andado?

— Eu acho que eles estão bem entretidos, Remus. E eu convidei a Lily também, o James tem com que se preocupar. Não vão ter problemas com isso.

Remus revirou os olhos. Não queria ter de visualizar isso outra vez. Especialmente lembrar-se de que os amigos dele tinham com quem estar naquela noite. E ele estava ali carente, com o rapaz de quem gosta, em vez de estar naquela casa com o rapaz de quem gosta. A vida é muito injusta... Podiam ter sido eles naquele sofá...

Pela cabeça de Remus passavam imagens que o faziam corar... O que ele não dava para poder estar com Sirius... Um rapaz alto, cabelo relativamente comprido, um corpo magro e bem esculpido... Partilhar o quarto com ele sempre foi um problema quando tocava a imaginação. Com certeza Remus tinha feito alguma coisa muito horrível e estava a pagar por isso.

— Chegámos. – Sirius interrompeu os pensamentes de Remus que estavam a chegar a um ponto crítico.