Notas iniciais
Neste capítulo e no próximo teremos a participação de um personagem novo, o candidato a reitoria da UFRJ, João Paulo Albuquerque. Ele será representado pelo ator Aílton Graça. Boa leitura!

Ben, Anita e Bernardo conversavam animados enquanto Marcela e Daniel namoravam noutro canto do pátio como eles disseram ...

–- Cara, já que você não tem compromisso nenhum agora de tarde vamos almoçar lá em casa. Tenho certeza que a Meg vai adorar – convidou Ben

–- Ah, não sei ... não quero incomodar! Já são tantas bocas que a Vera tem que dar conta que eu não quero dar mais trabalho. De noite a gente se encontra e comemoramos o aniversário dela – justificou Bernardo

–- Que incômodo? Parece até que não tem convivido com a gente nestes últimos meses, minha mãe adora aquela casa movimentada – ponderou Anita

–- Tá bom, me convenceram. No final da aula vamos todos juntos – falou Bernardo

–- Hum! Garantimos uma carona gatinho! – zombou Anita dando um selinho em Ben

–- Gente mudando de assunto, eu estava muito preocupado com essa mudança no comando na reitoria assim do nada, mas andei pesquisando sobre os candidatos e eles são muito capacitados. O mais cotado então tem uma carreira incrível e é muito estudioso. Estaremos em excelentes mãos, estou bem mais tranquilo – falou Ben

–- Oi pessoas lindas, podemos nos juntar? – perguntou Marcela chegando com Daniel

–- Não...! Aqui nessa rodinha só pode ficar cariocas de nascença, pessoas do interior do Estado não são bem-vindas. Se você quiser pode ficar Daniel – brincou Anita

–- Ih pelo visto o preconceito e a discriminação são os pratos do dia aqui neste campus hoje – falou Marcela se sentando com o namorado

–- E ai do que vocês estavam falando? – perguntou Daniel

–- Eu estava comentando sobre a qualidade dos candidatos a reitor, principalmente este senhor João Paulo Albuquerque. O cara é muito bom, não vejo a hora de acompanhar o trabalho dele de perto – respondeu Ben mostrando a foto do candidato na tela do celular

–- Ih, não sei se vai ser ele não Ben --- falou Marcela

–- Ué, porque você está dizendo isso? – perguntou Ben

–- Então ... eu não comentei que este campus hoje está muito preconceituoso? Acabamos de passar por uma rodinha daquele povinho elitista daqui sabe?

–- O que que tem? – perguntou Anita

–- Tem é que eles estão começando uma mobilização de repúdio a contratação desse reitor que o Ben citou – explicou Marcela

–- Mas porque? Pelo que o Ben leu para gente o cara é altamente preparado, tem um currículo impecável – falou Bernardo

–- Vocês nem desconfiam? – perguntou Marcela

–- Nem ideia – disse Ben

–- Gente que país, ou melhor, que mundo que vocês vivem? Acordem ... o cara é negro! – falou Marcela

–- O que! – exclamou Anita espantada

–- Não acredito que nos dias de hoje e dentro de uma universidade, onde as pessoas deveriam ser esclarecidas, ainda possa existir opiniões tão retrógadas – se revoltou Ben

–- Cara o preconceito racial está enraizado nesse país, muitas pessoas negam, mas fazem discriminação sim. É triste, mas é a realidade – disse Bernardo

–- Aonde está acontecendo isso Marcela? Eu vou lá! – disse Ben

–- Eu vou também ... vamos todos – falou Anita

–- Então vamos eu levo vocês – se prontificou Marcela

Quando chegaram perto da rodinha que planejava o complô contra o provável novo reitor, já não tinha mais quase ninguém. Muitos alunos já tinham voltado para a sala de aula por causa da proximidade do fim do intervalo. Mesmo assim ele puderam escutar parte de uma conversa acirrada que levava a crer que o tema ainda iria render muita discussão entre as correntes opostas

–- Isso que vocês estão armando aqui pelas costas do futuro reitor é uma pilantragem – falava Leonardo alterado – Muito me surpreende você fazer parte disso

–- Não tem nada de escondido não Léo, isso aqui foi apenas um primeiro contato para vermos quantas pessoas compartilham da nossa opinião. Agora vamos nos organizar e fazer um movimento oficial de oposição a essa indicação – falou uma aluna do curso de arquitetura

–- Até agora só ouvi palavras soltas. Será que você pode ao menos me apresentar uma razão razoável para ir contra a essa indicação? – pediu Leonardo

–- Léo nós temos os nossos motivos e estamos nos organizando, mas aceito a democracia, reúna pessoas que compartilhem da sua opinião e faça um movimento também e vamos ver quem ganha. Tenho uns amigos da Comunicação Social e eles estão responsáveis por fazer as publicações com as nossas ideias, você poderá ler. Não preciso ficar me explicando, ainda mais com plateia – disse ela observando a presença de bem Anita e companhia

–- Eu já entendi o real motivo de vocês e posso te garantir que com eles ninguém ganha, só se perde. Pode ter certeza que esse movimento preconceituoso e vazio de vocês não ficará sem resposta – disse Leonardo

–- Bom já vi que estou gastando saliva a toa, não vou perder meu tempo argumentando. Você estava aqui mais cedo e escutou as nossas idéias. Agora essa rodinha mais parece algo intimidador, vocês querem me jogar numa arena e eu não participarei, tchau – falou a estudante

–- Ué medo de público? Exponha seus argumentos, quem sabe não nos convença? – falou Ben irônico se intrometendo na conversa

–- Desculpe, mas eu nem sei quem é você, as duas meninas eu já vi e acho que são minhas calouras ... Mas você!-- disse a garota

–- Eu sou um aluno da UFRJ que nem você e posso vir a ser útil na sua revindicação -- explicou Ben

–- Léo o que está acontecendo? – perguntou Marcela

–- São essas patricinhas e filhinhos de papai que estão se reunindo para impedir que o novo reitor seja um negro, precisamos fazer alguma coisa para freia-los. Gente “Maria vai com as outras” e que nunca deu duro na vida – falou Leonardo

–- Epa quem está partindo com ofensas aqui é você, com licença! – falou a aluna

–- Toda! – disse Leonardo

–- Eu vi e ouvi esse burburinho quando passei por aqui mais cedo, mas se acalme isso não vai dar em nada. Esse bando vai espernear, mas o conselho da UFRJ é sério e não vai dar ouvidos a essa baboseira. Vai ser feito o melhor pela instituição – ponderou Marcela

–- Não ... Não podemos ficar de braços cruzados. Pode até ser que você tenha razão e esse movimento racista não tenha influência lá em cima, mas nós não podemos ficar quietos e deixar que pensem que a voz dos alunos da UFRJ é essa que se apresentou hoje. Me recuso que pensem que compartilho deste pensamento e você sabe que quem cala consente. – falou Leonardo

–- Eu concordo com você – disse Ben

Nesse momento se fez um silêncio e os amigos se entreolharam sem entender o apoio que Ben acabara de dar ao rival, até Leonardo se surpreendeu. Apenas Anita compreendeu a posição de Ben e lançou um olhar cúmplice ao namorado que continuou

–- Eu compartilho da sua indignação Leonardo, agora a pouco eu estava vendo o histórico do professor João Paulo e o cara é de longe o mais capacitado. Eu quero brigar por ele também, porque eu quero o melhor para mim e para a faculdade onde eu estudo – explicou Ben – Essa luta é também por uma causa muito maior

–- Justamente isso cara, eu na verdade ainda não tinha me dado o trabalho de ler sobre ele e nem sobre nenhum outro candidato. O que me irritou neste primeiro momento foram os comentários desrespeitosos e racistas. Agora sabendo que o cara é bom estou com mais garra ainda para a briga – disse Leonardo

–- Então eu acho que acaba de nascer um movimento – falou Ben olhando diretamente para Leonardo que concordou balançando a cabeça ainda não acreditando na trégua que o destino tinha preparado para os dois

–- Podem contar comigo – disse Anita orgulhosa

–- Com todos nós eu creio – falou Marcela recebendo o apoio de Daniel e Bernardo

–- Ótimo, já temos um núcleo por onde começar. Agora precisamos arrumar simpatizantes para a nossa causa – disse Ben

–- E tem que ser logo porque pelo que eu entendi o outro grupo já quer começar a fazer barulho amanhã – falou Anita

–- Que ridículo até panfleto o pessoal de comunicação social vai fazer. Porque as pessoas se dão ao trabalho de escrever coisas apenas para humilhar e atrapalhar o próximo? Que coisa mais mesquinha! – falou Leonardo

–- São baixos mesmo, mas nós vamos contra atacar com palavras e inteligência – concordou Ben

–- Bom o dever de casa para hoje é contatar as pessoas que conhecemos e tentar reunir todos que estão a nosso favor amanhã aqui – pediu Anita

–- Combinado! Agora vamos voltar para aula que o intervalo já terminou. Vamos nos falando durante o dia – falou Ben

–- Bom eu posso dizer que eu sou uma pessoa popular neste campus, posso dar vários telefonemas e tenho certeza que a maioria vai atender ao meu pedido – falou Daniel

–- Sei bem qual a sua popularidade – retrucou Marcela séria

–- Loira queremos números, não é? – perguntou Daniel

–- Me desculpe, mas não! Queremos qualidade, número quem quer é esse povo cabeça oca que estava aqui fazendo barulho. O que nós precisamos são de pessoas esclarecidas e que saibam argumentar. Não importa o quantitativo e sim a qualidade – falou Leonardo

–- “Toda unanimidade é burra.Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”, já dizia Nelson Rodrigues. Não precisamos disso, deixe que eles sejam e ajam como um bando – disse Ben

–- Bom eu já ia pro casarão mesmo, lá de tarde eu posso ajudar a Anita com os telefonemas. Eu também conheço muita gente que estuda aqui e sei selecionar as esclarecidas – se prontificou Bernardo

–- Assim está ótimo, vamos nos falando então – se despediu Leonardo

–- Tchau até amanhã – disse Marcela saindo com Daniel

–- Ben!? – chamou Leonardo

–- Sim – ele se virou abraçado a Anita

–- Obrigado por se propor a ajudar!

–- Não foi nada, eu não consigo ver injustiça, vou estar sempre do lado do que eu acho correto – disse o rapaz

–- Está certo! Até amanhã então – disse Leonardo que abortou da pretensão de estender a mão em cumprimento percebendo que ainda não era o momento

Autora: Carol

Notas finais
Esperamos que estejam gostando,até o próximo!