Um espinheiro em meio a tempestade
18 Precioso escarlate
Notas iniciais
Assim as coisas permaneceram pelo resto do dia e por toda noite, Atsu não tinha coragem de enterra–la.
No vilarejo a notícia do sumiço de Yuna e Mishiro já havia se espalhado e boatos surgiram por toda parte, falavam até que eles poderiam ter fugido juntos, sem motivo aparente, ninguém se importou muito em procura–los exceto os pais de Yuna e Orochi que estavam inquietos, este último já planejava uma pequena investigação para esclarecer as coisas.
Yuri, preocupada com a amiga, foi até o templo perguntar a Shin se ele sabia onde ela poderia estar e se surpreendeu ao ouvir dos outros monges que ele também tinha sumido já a alguns dias. "Que diabo" Estão todos sumindo!".
Na caverna, por volta do meio dia e ainda na mesmo situação, Atsu continuava com o olhar morto, sentado próximo ao corpo dela, quando de relance pensou ter visto algo, por um instante pareceu que ela tinha se mexido, mas não podia confiar nessas faíscas de esperança que surgiam de repente, o mesmo havia acontecido com seu pai e este estava morto!
Os galhos retorcidos continuavam a sangrar e pingavam sujando toda a caverna, quase tudo estava coberto com um véu vermelho, ele não conseguia parar de pensar no que fizera, logo quando pensou que estava progredindo...Logo quando achou que poderia recomeçar, como uma pessoa normal...Tinha feito de novo...Deixou que acontecesse de novo...Matou de novo.
Como se não bastasse ter tirado a vida de seus pais, destruído sua própria família, ainda a vida do garoto jogado do lado de fora da caverna e de sua família também...Muitas outras pessoas haviam morrido por sua causa. Se culpava por ter deixado que acontecesse com ela, a única que havia lhe estendido a mão desde que havia se tornado aquilo, a única que o ajudou sem se importar com quem ele era...Ou o que ele era...Parecia uma maldição do destino fazendo–o destruir tudo que era importante pra ele, assim se destruindo também, acabando com todos que eram especiais e ficando sozinho...No escuro novamente.
Atsu não queria pensar no que faria agora, mesmo porque sabia que não encontraria resposta alguma pensando sobre isso, apenas permaneceu lá por horas, de novo surgiu a sensação de que ela havia se mexido e ele se rendeu, se aproximou esperançoso colocando a cabeça sobre o peito dela. O coração batia!! Fracamente, mas ela estava viva! Mesmo depois de perder tanto sangue como podia ser possível? Bem...Aquilo não importava, ele tentaria salva–la de qualquer jeito, e se não desse certo, pelo menos daquela vez não se sentiria tão culpado! Tentaria o seu máximo para isso!
Os galhos se deslocaram ruidosamente pela caverna, antes que ele os recolhesse, em um solavanco não muito forte Yuna se virou de lado, tossindo, tentou levantar–se e caiu, ele a ajudou a se sentar, o coração batia rápido e não acreditava muito bem no que via, não acreditava que tinha essa segunda chance que sempre foi–lhe negada pela vida até agora.
Ela continuou tossindo ruidosamente quase sem poder tomar folego até que uma gosma verde saiu com um espinho de quase 5cm e ela pode puxar o ar pra dentro dos pulmões com força novamente.
Naquele momento ninguém entendeu aquilo direito mas depois de um certo tempo Atsu soube que se tratava de um espinho inteiramente feito de veneno, o que aconteceu foi que o sangue dele, que pingava dos galhos rachados, de alguma forma entrou em contato com o sangue dela, talvez pela ferida exposta do braço, e condensou todo o veneno de seu corpo em um único espinho que foi expelido. Foi o sangue dele que a salvou.
Os olhos de ambos se encheram de lágrimas e ele colocou a mão por entre os cabelos afastando a franja dos olhos, aliviado, sorriu.
— Finalmente a vida foi piedosa comigo!
— Eu falei pra continuar tentando, não falei? – Ela respondeu sussurrando com os olhos fechados, estava fraca.
Atsu respirou fundo e lentamente recolheu os galhos espinhosos, agora a prioridade era cuidar dela, talvez assim também pudesse, de certa forma, retribuir o que ela fez por ele...Os próximos dias seriam difíceis mas o pior já havia passado.
Fale com o autor