Notas iniciais
Boa Leitura!!

Era de noite, a praça do vilarejo era um lugar bem iluminado pela lua, Arashi estava lá, de pé, amarrado no mesmo poste de antes, já faziam dois dias, ele não recebeu comida alguma, para beber deram-lhe apenas óleo de linhaça e já tinha apanhado como um saco de pancadas, ficava o tempo todo acorrentado no sol quente e nas noites congelantes, suas costas se rasgavam mais cada vez que o deixavam nervoso e ele tentava revidar ou fugir e a dor provocada pelas adagas era latejante, algumas vezes de lhe tirar o fôlego.

Yuna não havia mais aparecido, ele não a culpava, realmente...A tinha feito passar por muita coisa, mas...Aquelas palavras...

Flashback

— [...] Tudo estaria melhor se você não tivesse aparecido...Eu odeio você!!

Flashback

No começo Orochi pareceu desconfiado a respeito daquilo, mas agora, fazia questão de relembrar a ele a cada segundo que a única pessoa que estava com ele agora o odiava, dizia que a única coisa que ele conheceria era o ódio até sua morte. Obviamente Arashi ficou se sentindo um lixo abandonado mas...Não mais...

Ele jurou que se saísse de lá vivo não confiaria mais em ninguém, nunca mais, um dia ele definitivamente devolveria a humanidade todo o ódio que ela havia lhe dado, era uma promessa...Todos que o humilharam...Todos que o julgaram...Todos que o traíram...Todos pagariam!

E enquanto todas essas coisas passavam pela cabeça dele, duas sombras se moviam nas trevas, atrás das casas, rápidas e cuidadosas, ele foi o único a perceber a presença delas, um a um os guardas que vigiavam o lugar foram derrubados e arrastados para um canto escuro, em segundos os poucos sons sessaram mas ele sabia que as sombras ainda estavam lá, rodeando o local, o observando.

Luzes se acenderam num armazém ali perto, houveram uns breves barulhos de vidro sendo estilhaçado e madeiras jogadas e então o lugar ficou escuro de novo, Arashi já estava ficando apreensivo quando Yuna surgiu correndo de um canto escuro em direção a ele. Ela carregava um cantil de couro cheio de água e uma pequena bacia de barro com pedaços de carne de cordeiro assada e bolo de milho. A surpresa dele ao vê-la ali daquele jeito foi enorme...E a expressão dela...Era totalmente diferente do olhar de ira de antes.

— Me perdoe. – Ela disse rápido, destampando o cantil e derramando sob a boca dele, o ajudando a beber, estava tão fraco que a visão falhava. – Me desculpe Arashi...Mesmo.

Ela continuou se desculpando, parecia de certa forma desesperada e seus olhos estavam molhados, ele sentiu alguém se aproximar por trás e retirar as correntes, Yuna o entregou a bacia com a comida e Yuri se juntou a ela.

— Me desculpe também...A-Arashi. – Disse Yuri, ele não sabia o que fazer, estava ofegante e não conseguia pensar direito, mais uma das sombras veio se juntar a eles, era uma mulher alta e ruiva com os cabelos presos num rabo de cavalo e com um bastão em mãos.

— Ele está bem? – Ela perguntou.

— Parece que sim. Obrigada pela ajuda Momo. – Yuri respondeu.

Arashi e Yuna até agora apenas se encaravam, ele parecia incrédulo demais e ela estava eufórica.

— E-Eu...Precisava que...Orochi acreditasse que o odiava. – Ela disse o olhando nos olhos, ele tinha o mesmo olhar desconfiado de quando ela tentou lhe oferecer comida pela primeira vez.

Antes que Arashi pudesse responder sentiu uma pontada nas costas e caiu ajoelhado, eram os galhos, era uma confusão tão grande na cabeça dele, era...Doloroso. Momoe se aproximou pra ver o que estava acontecendo, Yuna arrancou as adagas das costas dele, rapidamente os três galhos espinhosos se expandiram para fora das costas dele, se contorcendo, elas correram e ele gritou alto.

Pouco a pouco as casas iam se iluminando, sinal de que todos haviam acordado, os galhos escureceram, secaram e se partiram, separando-se das costas dele, toda a praça estava repleta deles e três ruas tinham sido interditadas.

Yuna correu e o ajudou a levantar.

— Você está bem? – Ele assentiu soltando um grunhido. – Yuri, corra daqui!

Yuri foi rápida, deu um breve abraço em Yuna e desapareceu em uma rua mal iluminada por entre grossos galhos secos.

— Temos de nos apressar...Shin está nos estábulos.

— Está bem.

Momoe alertou e Yuna respondeu, pegou na mão de Arashi e saíram correndo, Momoe foi na frente direto para o estábulo, Yuna fazia um caminho de zigue-zague procurando ir para longe das casas e dar a volta por fora do vilarejo para que não fossem pegos. No meio do caminho ele parou.

— Yuna.

— O que foi? – Disse demonstrando preocupação na voz e se aproximou olhando em volta.

— Porque está fazendo isso?

Ela se surpreendeu com a pergunta a abaixou o olhar.

— "Porque?" você pergunta...Mas eu já te respondi...É porque me importo.

— Mas...Mesmo depois de tudo que eu... – Ele não terminou de falar, nem era preciso...Ela avançou um tanto alterada.

— Eu nunca te culpei por nada Arashi! Nunca! É você quem vive se culpando sempre!

Ele soltou a mão dela, a agitação no vilarejo ficava cada vez maior porém não era uma de suas preocupações no momento.

— Como pode dizer isso depois dos últimos dois dias?! E...E todas aquelas coisas que você disse! Porque não pode simplesmente me odiar como todos os outros!!?

Estava ofegante, disse tudo nervosamente, tudo que ela tinha dito e o que fazia agora se chocavam e era difícil assimilar, ainda mais depois de toda raiva que tinha gerado nele, como podia fazer todos pagarem se continuasse a ver compaixão nos olhos dela? E também não podia continuar olhando-a nos olhos se só a trazia problemas! Não havia rumo que fizesse sentido!

A respostas dela não demorou e suas lágrimas também não.

— Eu não quero te odiar. Eu amo você. – Era como se o coração dele tivesse parado naquele momento. – E se você acreditou quando eu disse que estaria melhor sem você então você não me conhece realmente em tudo...Se você sequer achou que eu não estava pensando em você nos últimos dois dias então você só achava que me conhecia de verdade.

As lágrima desciam rápidas pelo rosto dela, a mesma mordeu o lábio inferior e continuou.

— Mas eu não ligo mais para as suas desconfianças, não me importo se você nunca mais voltar a confiar em mim, desde que vá embora logo...Eu não quero que eles te machuquem mais...Eles não podem entender.

Mais nenhuma palavra foi dita, ela puxou-o pelo braço novamente e voltaram a correr, logo chegaram ao estábulo recebendo broncas de Momoe por terem demorado.

Yuna agradeceu diversas vezes a ela e a Shin, então montaram nos cavalos, ela que não sabia direito como guiar o animal teve pouco tempo para aprender, Shin entregou-lhe algumas moedas num saquinho de pano e avisou que ele e Momoe iriam ficar ali escondidos por um tempo e partiriam a cavalo depois, na direção oposta.

Quando viram que algumas pessoas começavam a se aproximar dali eles partiram, Son havia ficado para trás, a velha Yuna também, no final das contas ela não era mais uma adolescente curiosa e maleável, ela era uma mulher, tão determinada quanto Momoe, ela havia amadurecido muito desde a chegada dele e se tocado de que o mundo era muito mais do que só um vilarejo alienado, ela tinha feito sua escolha, ela queria ser livre de tudo aquilo.

Notas finais
Bjins da tia Yuna!