Notas iniciais
Boa Leitura :)

Dizem que quando está prestes a morrer você pode sentir. Eu não senti nada.

— Está me escutando? – Perguntou com a calma ocasional de sempre.

— Uhum.— Limitei-me a responder com um som qualquer.

O fato de eu ficar olhando pela janela enquanto ela está falando comigo não significa que não ouço cada palavra que ela fala. As pessoas tem esse terrível costume de pensar que ouvimos com os olhos.

— Seus quadros estão cada vez melhores, é um consenso, seu futuro é brilhante e você está entre nossos maiores talentos atualmente, já ouvi de alguns que dentre todos os talentos que saíram dessa escola o seu nome será o mais conhecido. – A mulher sempre tem o mesmo tom calmo e analítico.

— Uhum.— Geralmente quando ela para de falar devo emitir algum som para dar-lhe a certeza de que ainda estou ouvindo.

A ouvi expirar e nesse mesmo momento uma brisa balançou as arvores do lado de fora, podia ver a cena ainda que em momento algum tenha voltado meu olhar a ela. Percebi quando levou a mão direita aos óculos e os tirou suspirando longamente, cruzou os braços e bateu de leve o objeto no cotovelo.

Já me acostumei com Helena, ela sempre me pareceu uma boa mulher, alta, magra e loira, parece que nunca compra a armação de óculos correta e ele sempre fica escorregando pelo nariz pontudo, se eu pudesse chutar diria que ela é uma artista frustrada que cursou psicologia e hoje trabalha em um colégio de arte dizendo às pessoas o que elas devem fazer para não se transformarem em artistas frustrados.

— Apenas pare de sumir durante as aulas. – Falou franzindo a boca, ela é tão previsível. – Você está sob nossa responsabilidade e não queremos que aconteça outro acidente enquanto perambula por ai.

— Uhum.— Murmurei mais uma vez.

“Outro acidente.” Eles sempre tentam amenizar meus momentos de atenção, não faço de propósito, mas, infelizmente não consigo prever quando algo vai acontecer, simplesmente ignoro as palpitações estranhas e sigo em frente, gostaria de tranquiliza-la e dizer que não vou morrer no corredor da escola, se pudesse chutar diria que vai ser eutanásia, acredito cegamente que vou ficar ligada a maquinas e que elas serão desligadas, é quase como se eu pudesse ver a cena toda, se bem que, eu vi como acontece. O problema é que procuro inspiração em outros lugares, há tempos aquela sala é inútil, ela é demasiadamente colorida e isso prejudica meu estilo, então simplesmente ando pela escola atrás de algo que manche minha cabeça e depois passo isso pra tela.

— Não pode evitar olhar alguém que fala com você. – Finalmente podia notar o tom de desaprovação nítido. – Vai ter medo dos olhos das pessoas pra sempre?

Li em algum lugar que os olhos são as janelas da alma e devo admitir que é a verdade, pode descobrir muito sobre uma pessoa olhando fundo essas duas esferas e com o tempo elas refletem pensamentos impossíveis de serem expressados por meios mais sólidos, sinceramente cansou-me saber o quanto os outros sentem pena de mim, cansou-me ver as palavras que eles não tem coragem para dizer, cansou-me ver meu reflexo em seus olhos e não quero que ninguém veja o que escondo nos meus.

Dessa vez eu não tinha nada a responder.

Como de praxe ela passou alguns minutos fazendo anotações e me dando indicações, assim que ela anunciou o fim balancei a cabeça e me levantei, coloquei as mãos no bolso do casaco e sai.

A escola de artes Utopia é especializada em identificar e auxiliar no desenvolvimento do talento de crianças, logo depois que foi atestado minha condição uma amiga da minha mãe indicou esse lugar e aqui estou eu pintando a cerca de nove anos. Eu simplesmente amei esse lugar, desde passei por aquela enorme porta branca tinha apenas oito anos, mas soube exatamente que aqui seria minha segunda casa e ali sobrevivi durante todo o tratamento que não acaba nunca.

Tombei a cabeça para trás enquanto caminhava olhando o teto até ouvir a inconfundível melodia da ala musical, quase inconscientemente segui até parar bem de frente com a porta da sala de dança.

— Kyara. – Alguém chamou. – Kyara. Você está escutando? É sua vez de mostrar.

Meu olhar seguiu para onde uma menina mantinha o olhar vago até ser desperta e tomar o lugar a frente. Kyara. O colan lhe serviu muito bem e o cabelo castanho é longo e tem um movimento natural, posicionou-se e a melodia voltou a invadir o lugar, uma musica suave típica de balé.

Nunca fui fã dessa dança. Digamos que para mim ela é apenas um espetáculo bonito que oculta a doença por trás de tal perfeição. Sofrimento, angustia e temor, tudo escondido atrás de uma roupa perfeitamente alinhada e uma maquiagem impecável seguido de movimentos repetitivos com absoluta certeza de que é possível alcançar uma perfeição. O problema é que não dá pra chegar lá porque quando alcança esse ponto você consegue vislumbrar um mais adiante, uma linha mais perfeita, um movimento mais firme e então você desaba simplesmente por ver a verdade.

Não existe perfeição em nada, essa é apenas mais uma coisa que reflete a vida real e enquanto eu divagava inocentemente ela continuava a dançar.

Seus movimentos saiam delicados e belos como se pudesse controlar cada centímetro do seu corpo com absoluta precisão, até mesmo eu que não tenho o mínimo conhecimento sobre dança podia afirmar que era tudo perfeito até que ela girou sobre o pé esquerdo e quando seu olhar cruzou com o meu ela caiu batendo a cabeça no chão.

Olheiras profundos, corpo magro sem forma, roupas escuras, pele mármore e cabelo curto bagunçado. Sei que minha aparência não é das melhores, mas não acho que é motivo pra alguém se assustar dessa maneira.

As pessoas rapidamente a socorrem e eu apenas saio dali. Já causei problemas o bastante. Como sempre.

~xxx~

Hoje o dia estava ótimo.

Assim que cheguei em casa tive que ir ao hospital para fazer exames regulares, nada fora do comum, apenas precaução. Agora estou sob a maca aguardando os resultados, o sonho de qualquer pessoa com 17 anos e sair da escola e ter atenção dos país. Realizei os dois. Me formei aos 14 anos e agora só me dedico a arte e meus pais sempre estão de olho em mim. Sou a personificação do sonho adolescente americano. Em momentos assim eu gostaria de voltar ao Brasil.

Não tenho muitos motivos para esperar inerte e não tenho a intenção de chamar a enfermeira para ter um simples copo de água por isso levanto-me e sigo até o bebedouro habitual que deve estar perto da porta do quarto ao lado, enquanto ando devagar por ali me certifico de não estar usando aquele avental ridículo que eles tentam me obrigar a usar.

Todos os meus sentidos tentavam me alertar para não espiar o quarto ao lado, a verdade é que não quero saber, de doente já basta eu, mas é claro que acabo olhando de relance e percebo que a garota de mais cedo está ali parada, sentada na maca olhando através da janela.

— Me desculpe. — Falei quase sem querer parando em sua porta aberta.

Ela voltou seu olhar e a mim e por um momento era como se me analisasse, desviei meus olhos para um canto qualquer dali e me repreendi mentalmente por ter dito aquilo. Era quase um pecado falar com aquela garota.

— Pelo que? – Perguntou um tanto confusa. – Acha mesmo que cai por sua culpa? – Tombou levemente a cabeça para o lado esquerdo.

Por um momento pensei mesmo que não tinha me visto ou que não se lembrava de mim. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e pigarreei.

— Fico feliz de não ter assustado você.— Comentei sorrindo discretamente. — Já vou indo se precisar de algo me avise, conheço esse lugar melhor do que a palma da minha mão.

Ela sorria e eu dei um passo para trás, aquela não era minha zona de conforto e sinceramente não estava em condições psicológicas para entender o que estava fazendo.

— Tudo bem Charlie. – E foi nesse momento que eu parei. – Fico feliz em poder contar com você.

— Como sabe meu nome?— Perguntei em súbito e uma leve perturbação se apoderou de minha mente.

— Fui a sua exposição. – Falou como se não fosse nada demais. – É assim que assina, não é mesmo? Seus quadros são lindos.

— Obrigado.— Falei com menos relutância. — A sua dança parecia estar indo muito bem. — E como o esperado não pude devolver um elogio.

Tenho lidado muito bem com eles, até certo ponto quando não consigo acreditar e começo a despejar ironias e criticas, só que aquele elogio simples pareceu ser tão sincero quanto a verdade.

— Obrigada. – Notei um leve tom de animação em sua voz. – Só que só vou poder voltar a dançar em duas semanas, pra não prejudicar o tornozelo então acho que só volto a escola daqui a um tempinho. – E lá estava uma leve tristeza.

— Se quiser poder ir ver meus novos quadros, tenho uma nova exposição em breve e gosto de saber as opiniões dos interessados.— Olhei em volta e vi a enfermeira se aproximar.

— Seria maravilhoso. – A tristeza se dissipou.

— Então está combinado.— Comentei por fim e sorri mais uma vez. — Até amanhã.

Voltei-me para a enfermeira e caminhei em sua direção, ela não disse nada apenas me guiou até a sala do cardiologista que estava com meus pais. Apesar de tudo o lugar até que era aconchegante e a cadeira mais confortável do mundo me aguardava sem demorar me lancei nela e senti meu corpo afundando.

— Temos algumas noticias importantes pra você. – O medico falou com o mesmo sorriso de sempre enquanto eu olhava o furo em seu queixo. – O seu nome subiu e está quase no topo da lista de transplantes.

Não conseguia nem mesmo murmurar algum som. São quase dez anos de espera nessa lista e dificilmente meu nome subia, já havia perdido qualquer esperança há tempos.

— Está em terceiro lugar Charlie. – Comentou com entusiasmo. – Suas chances aumentam em noventa e cinco porcento.

Meus pais estavam afoitos e o doutor Mackenzi parecia extremamente satisfeito, foi por isso que nos mudamos para os Estados Unidos. Foi exatamente por esse momento que nós resolvemos viver na terra do meu pai.

— Por isso é melhor lhes explicar o procedimento que vamos adotar assim que recebermos um coração disponível...

— Qual é o meu numero?— O interrompi sentindo minha respiração se alterar.

— Três. – Respondeu cortado e logo voltou a sorrir.

— Quanto tempo eu tenho?— Provavelmente eles achavam que eu não perceberia, mas ficou nítido minha situação assim que ele começou a falar.

A doença evoluiu e agora eu estava em estagio terminal.

— Charlie você...

— Quanto tempo eu tenho?— Levantei imediatamente e bati as mãos na mesa olhando fundo em seus olhos.

— Vinte e nove semanas. – Respondeu desviando o olhar. – Seus últimos exames demonstraram um avanço inesperado em sua cardiopatia, ela evoluiu quatro estágios em tempo recorde. – O homem mexeu em alguns papeis enquanto eu voltava a afundar na cadeira. – Por isso nós vamos retirar parte do seu coração e uni-lo ao do doador. Precisamos que ele se adapte ao seu corpo e que haja total compatibilidade.

— Entendo. — Murmurei recuperando meu ritmo cardíaco habitual. — Oremos para que alguém morra e eu possa viver.

Levantei-me e coloquei as mãos nos bolsos caminhei em direção a porta e voltei meu olhar a eles.

— Espero vocês no carro.— Comentei por fim e sai dali.

Vinte nove semanas. Esse era o tempo que eu tinha pra arrumar um coração novo, bem, se ele não apareceu em dez anos não acredito que vai aparecer em sete meses, mas a esperança é a ultima que morre não é mesmo? Vamos esperar que uma das centenas de pessoas que morrem todos os dias seja doador e que esse seja compatível comigo, até lá vamos fazer esse tempo valer a pena. Sorrindo cruzei os braços e me encostei-me ao carro.

~X~

Os dias iam passando devagar e Kyara me acompanhava nas aulas de arte, tornou-se divertido e habitual ter a presença dela ali, em uma semana fiz um quadro tendo ela como modelo e até esse momento não sabia sobre essa funcionalidade, era bom fazer algo pra alguém e somente pela simples convivência nasceu uma forte amizade entre nós.

Na semana seguinte ela sugeriu que eu desenhasse algo que falasse um pouco mais sobre mim, disse algo sobre me conhecer através de meus quadros e aqui estou eu, ela volta a dançar amanhã e eu ainda não sei o que desenhar, até que minhas mãos começam a falar e sem repreendê-las deixo o meu novo quadro se formar devagar.

No final do dia já estava quase pronto e eu sou o único que está no ateliê da escola em pleno domingo até que ouço um barulho em atrás de mim.

— Ficou perfeito. – A voz dela invadiu a sala.

— Acha mesmo? — Respondi ainda encarando o quadro.

— Você tem um coração enorme Charlie. – Disse com a típica doçura que sua voz carregava.

— Na verdade ele é fraco e seco.— Rebati sem pensar muito.

— Não deixe a doença dizer quem você é. – Ela apoiou o queixo em meu ombro. – Só quem pode decidir isso é você.

E assim ficamos, observando um coração em uma tela. Era bem realista e os tons de cinza deixaram a pintura mais profunda. Aquele era o meu melhor trabalho.

No dia seguinte ela continuou a ir as aulas de arte comigo e decidi não questionar seus motivos, a verdade é que sou egoísta e estava amando ter ela comigo, em meu intimo esperava que ela tivesse desistido de dançar.

Mais algumas semanas se passaram e já tinha quadros suficientes para minha próxima exposição, toda a verba sempre ia para pesquisas relacionadas a doação de órgãos e de uma certa maneira eu me sentia útil ao fazer isso.

Nada em minha vida se comparavam aquelas semanas, Kyara finalmente voltou a dançar e de uma maneira estranha me senti feliz por ela, sendo assim a acompanhei em sua volta, seus movimentos estavam fracos e sua precisão diminuiu consideravelmente, ainda assim ela parecia perfeita, depois disso nossas vidas quase voltam a ser como eram antes, porém agora ela sempre me encontrava na sala de pintura e de lá íamos a outros lugares e assim eu cheguei a vigésima segunda semana.

Os exames ainda eram periódicos e eu passei para a primeira posição da lista, dos dois antes de mim um morreu durante o transplante e o outro tenta se recuperar, só que eu não conseguia perder as esperanças e desejava viver, ainda assim senti que deveria conversar com Kyara e assim a convidei até minha casa.

~X~

Não demorou para ouvir os passos silenciosos dela vindo pela escada, a porta estava aberta e ela simplesmente a empurrou, minha situação não era muito deprimente, estava no parapeito da janela e vestia uma camisa preta e uma causa de meia preta, voltei meu olhar a ela e sorri ao vê-la em seu habitua vestido primavera, mesmo no inverno ela amava usar essas roupas leves e coloridas.

— Ainda vai morrer de frio Kyara.— Comentei me levantando e esticando os braços.

— Se assim for, prometo que morrerei feliz. – Caminhou até a cama e lá sentou.

— Que assim seja então.— Me aproximei e sentei ao seu lado. — Hoje te chamei aqui pra tratar de um assunto delicado.— Decidi ir direto ao ponto.

— Eu sei que está completando vinte e duas semanas hoje. – E pela primeira vez foi ela quem desviou o olhar.

— Logo eu vou ficar no hospital e não sei se vou sair. — Falei respirando fundo, era mais difícil do que eu esperava. — Só queria que soubesse que essas foram as melhores semanas da minha vida e...

— Criei um laço muito forte com você Charlie. – Ela voltou seus olhos brilhantes para mim. – Eu não posso deixar você, nossa amizade é o que há de mais importante pra mim.

— Se o pior acontecer...— Segurei firme em seus ombros. — Quero que viva Kyara, viva e me deixe morrer.

Ela fixou os olhos nos meus e vi um medo crescente ali, devagar ela se aproximava e eu não podia afasta-la, éramos da mesma altura e eu não sabia para onde deveria correr então quando estava prestes a fechar os olhos e me entregar ao momento o celular dela tocou.

Parecia desperta de algum transe e apenas abaixou a cabeça procurando o objeto barulhento, não demorou muito para atende-lo.

— James. – Falou em súbito. – Eu sei. – Ele parecia ser bem impaciente. – Estou na casa de Charlie. Sim. Também te amo. – Ela desligou o celular e abriu um sorriso.

— Acho que foi melhor assim. — Comentei levantando-me e indo até o computador.

— Meu irmão está vindo me buscar. Eu não deveria ter saído de caso com esse tempo ruim. – Parecia um tanto desconcertada e mesmo assim se aproximou de mim. – Nós vemos amanhã na escola. – Falou rápido e beijou minha bochecha.

Assim que ela saiu resolvi deitar um pouco e antes do sono vir decidi contar-lhe a verdade sobre mim. Ela não deveria tentar se aproximar de novo dessa maneira, isso vai custar nossa amizade.

~X~

Um belo dia de chuva, dias assim me trazem inspiração sem igual e por isso voltei a dar algumas voltas pela escola ser que me peguem, agora me deparo com o jardim, fica tão cinza em dias assim e isso me mostra novas maneiras para retratar flores, acredito que um casaco e o capuz do moletom sejam o suficiente para me livrar de uma gripe.

Vejo uma rosa em destaque no meio do jardim em suas pétalas algumas gotas se fixam perfeitamente, a observo e me aproximo visualizando o belo contraste com o céu cinza, não percebo minha respiração mudando e minha vista começa a escurecer, ao longe vejo Kyara e lembro-me que tenho que lhe contar a verdade, mas meu corpo deixou de me obedecer e devagar eu caio entre as flores, ela corre até mim se enquadrando perfeitamente com a rosa, o céu e um belo raio.

Aquilo seria um quadro perfeito.

...não senti nada.

~X~

Acordei devagar no hospital ao meu redor as maquinas me controlavam através de tubos e fios, não conseguia me movimentar e até respirar tornou-se difícil. Não demora e o quarto é invadido por uma equipe de pessoas vestindo branco.

— Quanto... — Minha boca está seca e não tenho certeza se minha voz está nítida. — Tempo?

Minha vida se basei no tempo que perdi.

— Uma semana. — Reconheci o doutor Mackenzi que falava devagar enquanto fazia anotações em sua prancheta.— Está dormindo há uma semana e essas máquinas mantêm a tua vida. Vamos retirar os tubos de alimentação, mas esse é o único que podemos tirar por enquanto.

Depois que ele terminou de falar a vista escureceu e como esperado fiquei apenas alguns segundos de olhos fechados, o problema é que no mundo exterior o tempo continua correndo.

— Charlie... – Ouvi a voz da minha mãe.

— Char... – Dessa vez ouvi meu pai.

— Charlie. – Kyara também me chamava.

Abri os olhos e vi minha mãe ali, ela sorria abertamente e parecia controlar o impulso que tinha em me abraçar, ao lado dela meu pai e no outro lado da cama Kyara também sorria, tentei me acomodar melhor para ver eles e notei alguém diferente na porta do quarto, era um garoto e estava encostado ali permanecendo de braços cruzados, se bem me lembro já o vi de relance. O irmão de Kyara parece não gostar nada de mim, deve ser a única pessoa que não sente pena alguma por minha atual situação.

— Estávamos tão preocupados. – Minha mãe foi a primeira a falar.

O quarto estava repleto de balões e flores e ainda assim não parecia colorido.

— As pessoas gostam mesmo de você. – Meu pai comentou ao perceber meu olhar interrogativo. – Os seus colegas de escola sempre querem saber noticias suas e te enviaram muitos presentes.

— Tem muitos fãs e admiradores amor. – Minha mãe se manifestou.

Isso era deveras uma surpresa, sempre pensei estar paralela aquele lugar, não posso crer que as pessoas gostem mesmo do meu trabalho, voltei meu olhar a Kyara que limpava algumas lagrimas.

— Fiquei tão preocupada. – Disse sorridente.

— Seu cabelo... — Falei sem muita força. — Está... Mais escuro.

— Não é nada. – Respondeu rapidamente e ficou apreensiva.

A visita correu normalmente, conversamos e recuperei um pouco da força. Meu tempo estava acabando. Os dias se passaram e mais algumas pessoas me visitaram, se identificavam como fãs e uma grande campanha estava se formando em torno de mim, assim se passaram mais duas semanas.

Em um mês eu morreria.

Minha consciência se esvaia devagar e já sentia o esforço me consumir, não conseguia nem mesmo falar sem precisar respirar fundo e descansar muito depois. A esperança tornara-se como fumaça e apenas se esvaia entre meus dedos magros, sentia que não podia sentir mais nada e até o medo de perder aqueles que amo se dissipava, as visitas foram cortadas e só membros da família podiam entrar ali, os dias passavam e a presença deles se tornava mais rara e a melancolia apenas crescia, eles queriam estar comigo o tempo todo o problema é que eu passava a maior parte do tempo dormindo e assim se foram mais duas semanas.

A partir daí começou a contagem regressiva, meu coração era uma bomba relógio.

Respirar, comer, falar e sorrir já não podiam ser feitos com facilidade e meus olhos insistem em fechar a todo momento e foi ai que alguém entrou, já não consigo diferenciar as pessoas, meus sentidos estão todos adormecidos.

— Oi Charlie. – Ouvi a voz doce de Kyara e sorri. – Eu preciso mesmo falar com você, então meio que entrei aqui escondida.

Gostaria de ter acenado com a cabeça, mas o único sinal de que estava a ouvindo vinha do meu estranho sorriso e de meus olhos semi abertos.

— Eu sempre soube o teu segredo. – Ela disse passando a mão na minha testa. – Desde que vi você na exposição eu soube quem você é, em pensar que nem me viu ali, me repreendo todos os dias por não ter falado com você naquele dia, assim nosso laço teria mais tempo.

Ela estava se despedindo? Será que nem mesmo ela tem esperanças?

— Eu preciso que saiba meu segredo. – Falou baixo em tom choroso. – Eu te amo, eu sempre te amei, te observo desde que te vi chegar à escola, eu queria tanto me aproximar de ti, queria tanto estar contigo. Eu te amo tanto.

Ela levou a mão até a boca como se estivesse controlando o volume do choro que insistia em sair.

— Porque essa história tem que ser tão injusta conosco? Porque não tivemos mais tempo? – Ela baixou a cabeça e limpou os olhos. – Eu amo você, Charlotte.

E assim ao som do meu nome ela se aproximou pressionado os lábios contra os meus, senti seus movimentos tímidos e descompassados e o calor que conseguiu transmitir naquele pequeno momento, até que se afastou devagar e sorrio.

— Eu vou te amar pra sempre. – Disse colocando a mão em meu peito.

Certa vez percebi que estava sendo confundida com um garoto, cabelo curto, olheiras, roupas largas e pretas, essa não era a intenção eu apenas não me importava com isso e graças ao meu estado seria bom evitar a aproximação com o sexo oposto e então ela aparece e me faz sentir o que evitei a vida toda.

Obrigado Kyara.— E com esse pensamento eu apenas dormi.

As luzes passavam acima de mim, a maca era arrastada pelo corredor do hospital e eu apenas era levada até meu destino, entramos em uma sala e eu já não sentia nada. Não havia medo, receio, culpa ou dor. Eu estava em paz.

Reconheci os olhos do doutor Mackenzi e vi apreensão e ternura , respiro devagar e deixo os sons daquela sala mergulharem em minha mente até que escuto o som continuo que anuncia a morte.

Dizem que quando está prestes a morrer você pode sentir. Eu não senti nada.

A aproximação, o frio, o filme que passa diante dos olhos. Nada. Apenas ouvi o bip continuo anunciando que um coração parou de bater, meus olhos estavam fechados e de bom grado abracei a morte. Meu rosto deveria estar sorrindo, não vi mais os médicos e nem aquela sala.

Tudo estava em paz.

“Charlie eu sei quem você é e você precisa saber quem eu sou, logo você vai perceber o quanto te amo...”

O que era mais? O que está dizendo Kyara?— Mais uma vez senti seus lábios nos meus.

E foi quando acordei. Abri os olhos e o bip intercalado anunciava um coração que batia, respirei fundo e tive a certeza. Não estava no inferno e muito menos no céu. Conheço bem o quarto de um hospital e era lá que eu estava.

Mais uma vez a equipe de médicos invadiu o quarto. Aquilo foi um sonho? Não conseguia falar ou gesticular tudo que eu fazia era tentar respirar.

— Está me escutando? – Um médico desconhecido perguntou. – Entendo o que eu falo?

Apenas balancei a cabeça em afirmativa. Ficaram algum tempo fazendo testes e passei por alguns exames, em algumas horas fui liberada para receber visitas e finalmente pude ver meus pais.

— Meu amor. – Minha mãe me abraçou.

— Quanto tempo?— Perguntei enquanto ela afagava meu cabelo.

— Três dias. – Respondeu alegre. – Está tudo bem querida. Você tem um coração novo.

Eu sorri encostando minha cabeça em seu ombro. Essa história não tinha sido cruel conosco afinal, conseguimos mais tempo.

Eu me recuperava com entusiasmo sem igual e somente familiares podiam me visitar, já contava os dias ansiosa para ver Kyara e falar-lhe meus sentimentos, no quarto dia vi alguém familiar passar pela porta do meu quarto e olhar-me rápido, parecia um garoto vestindo uma jaqueta de couro, não dei muito importância e continuei esperando ansiosa, no dia seguinte poderia voltar pra casa.

Finalmente chega o tão esperado dia e meus pais vieram par buscar-me, finalmente vesti uma roupa descente, aquele avental ridículo do hospital seria esquecido para sempre, assim que eles se aproximaram eu não podia deixar de fazer um pedido.

— Vocês podem ligar para a Kyara e pedir pra ela me esperar em nossa casa?— Falei sorrindo e não recebi o olhar esperado.

— Querida... – Minha mãe assumiu um tom melancólico. – Você precisa ser forte.

Assim que ouvi essas palavras me sentei na maca e olhei para o meu pai, ele entenderia minha pergunta silenciosa.

— Filha a sua amiga morreu. – Meu pai respondeu e segurou meu ombro. – Ela estava com um tumor no cérebro em estagio terminal, ela morreu e pediu para que o coração dela fosse doado a você.

E assim a bomba relógio explodiu em meu peito.

Estava morrendo e podia sentir tudo. As pessoas estavam certas afinal, você pode sentir quando está prestes a morrer.

Notas finais
Espero que tenham gostado :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!