Um coração dividido
1 Não vale apena negar
Notas iniciais
Adrien encontrava-se deitado na sua enorme cama. Ele encarava o teto, perdido em pensamentos, enquanto que o seu kwami comia uma deliciosa fatia de camembert mesmo ao seu lado.
A única imagem que vinha à sua mente era a de uma moça bastante feliz ao lado de alguém que não era ele. E isso, de algum modo, fazia-o sentir-se... Estranho...
— Aff... — o Agreste suspira pesadamente. — Plagg... Não sei o que se passa comigo...
O pequeno olha para o rapaz com um ar de quem não estava minimamente interessado no que estava a ouvir, mas mesmo assim respondeu:
— Talvez estejas apaixonado.
Os olhos do Agreste arregalaram-se por um instante e em seguida, uma risada muito alta preencheu o cómodo.
— Plagg, não digas disparates! A Marinette é só uma amiga — ele deu mais uma gargalhada, mas desta vez, mais pequena.
"Só uma amiga"...
Depois de ter dito isto, o silêncio regressa ao quarto. Será que ela era apenas uma amiga?
Aquelas palavras nunca lhe pesaram tanto como agora. E a culpa... Essa era do aluno novo. Luka era o seu nome. Sendo irmão mais velho da sua colega de classe, Juleka, o rapaz causou grande furor ao chegar à escola com uma guitarra às costas. Para além de que ele tinha muito estilo... Aliás, só no primeiro dia, o Luka já tinha conquistado diversas fãs.
Mas não pensem que o Adrien odiava o aluno novo. Não... Nada disso! Até porque na primeira vez que o conheceu (no barco em que a família Couffaine vivia) eles tornaram-se logo amigos.
Mas... Havia algo nele que deixava o Adrien confuso. Nomeadamente, quando o moreno estava ao pé da sua amiga, Marinette Dupain-Cheng.
E agora, dois meses depois, o Agreste via que o Luka e a Marintete estavam cada vez mais próximos. A cada dia que passava, era como se aqueles dois descobrissem mais coisas em comum. E isso incomodava o nosso herói.
Ele leva uma das suas mãos até junto do coração e respira profundamente.
Será que o Plagg estava certo? Será que ele estava apaixonado pela Marinette? E consequentemente com ciúmes do Luka? Mas... e a sua Lady? Como ficariam os seus sentimentos pela LadyBug? O loiro tinha a certeza de que a amava. Ou pelo menos, era isso que ele pensava.
Mas agora estava tudo confuso. O Agreste mais novo já não tinha certeza de nada. E ainda por cima... Não sabia o que fazer dali em diante.
Será que ignorar aquele sentimento em relação à Marinette era a melhor opção? Ou devia ele de fazer exatamente o oposto?
Perante aquele enorme dilema, o loiro levantou-se e suspirou pesadamente, decidido a convidar o seu amigo Nino para jogarem o novo jogo que o seu pai lhe comprara. Jogo esse que era mais um pedido de desculpas por não ter comparecido a mais um evento da escola que o seu filho frequentava.
— Plagg, fica aqui quieto que eu já volto.
— Ok...
O jovem desceu as escadas e encontrou a Nathalie à porta do escritório do seu pai. Decidido a entrar, o rapaz pediu licença.
— Peço desculpa Adrien... Mas o teu pai está muito ocupado agora e não pode falar com ninguém.
— Não pode ou não quer? — indagou com certa ironia na sua voz.
— Adrien! — a secretária do seu pai repreendeu-o de imediato. — O Sr. Agreste está a trabalhar numa coleção muito importante e não quer distrações.
— Distrações? — questionou, magoado. — Mas eu sou o seu filho... Só preciso de lhe fazer uma pergunta! Porque é que é sempre a mesma coisa? O meu pai nunca pode falar quando é preciso! — disse, bastante chateado.
A Nathalie, por sua vez, suspira pesadamente.
— Adrien, por favor volta para o teu quarto.
— Mas...
— Nada de mas.
— E-eu... Só queria perguntar se o Nino podia vir um pouco cá a casa... — respondeu o Agreste mais novo, cabisbaixo e num tom triste. — Estou farto de estar sozinho...
A secretária pensou durante alguns segundos.
A própria Nathalie não gostava de ver o rapaz tão triste e sozinho. Por diversas vezes, a morena tentou convencer o Sr. Agreste a fazer uma pausa e passar algum tempo com o seu filho. Mas este recusava, sempre. E quanto aos eventos escolares? Ela já tinha perdido a conta a quantas vezes o Gabriel tinha faltado em prol do seu trabalho como designer de moda e, também, por culpa do seu alter-ego (Hawkmoth). Afinal de contas, aterrorizar Paris era .aos importante do que o seu filho...
A secretária balançou a cabeça, para tentar espantar aqueles pensamentos, porque ela sabia o verdadeiro motivo por detrás das ações obscuras do Hawkmoth. Mas convenhamos, o filho também precisava de atenção.
Sendo assim, desta vez, a tutora do Adrien decidiu fazer-lhe a vontade.
— Muito bem. Podes convidá-lo. Eu assumo a responsabilidade. Só peço que não façam barulho... O Sr. Agreste---
— Já sei, já sei... O Sr. Agreste não pode ser incomodado... — respondeu o mais novo, um pouco mais contente. -Obrigado Nathalie! — e sorriu, dirigindo-se para o seu quarto.
A secretária deu um mínimo sorriso quando ouviu a porta do quarto a ser fechada.
(...)
Adrien e Nino pousaram os seus comandos de jogo. Havia feito uma hora e meia desde que tinham começado a jogar. O Agreste mais novo venceu o seu amigo e o Nino, que não gostava muito de perder, disse que fizera de propósito.
— Mano! Eu estou a falar a sério! Perdi de propósito só pra alegrar o teu dia!
— Ahahaha! Pois claro! — o loiro riu em resposta.
— Sabes que mais Adrien? Estou com fome. — desconversou o amigo. — Por acaso há algo que se coma?
— Hã hã... E é claro que há. Pedi ao nosso chefe que preparasse um lanche para nós antes de tu teres chegado.
Os dois dirigiram-se à sala, onde uma enorme mesa estava colocada bem ao centro, e à sua volta, estavam posicionadas diversas cadeiras que valiam mais do que um simples mortal podia imaginar.
E na parede, encontrava-se um bonito quadro pintado a óleo. Nele estava representado a família Agreste: Gabriel, Adrien e também, Emily. A mãe do jovem.
Nino nunca se cansava de olhar para aquele quadro. Era como se a simples presença da Senhora Agreste trouxesse alguma paz e conforto àquela casa, mesmo que o próprio Lahiffe não conseguisse explicar o porquê.
O moreno nunca havia perguntado ao seu amigo a questão que lhe assombrava a mente, de tempos em tempos. Onde estaria a sua mãe? A senhora Agreste?
O Adrien só havia comentado uma vez que a sua mãe tinha desaparecido há um ano atrás. E o Nino, como reparou logo na tristeza do seu melhor amigo, decidiu não fazer quaisquer perguntas. E mesmo ali, naquele dia, também não tencionava tocar naquele assunto.
Os dois sentaram-se de frente um para o outro, e começaram a comer o delicioso bolo de laranja preparado pelo chefe da mansão Agreste. Chefe esse que o Nino nunca tinha visto. Nem uma vez sequer! Ele perguntava-se quem era essa pessoa misteriosa. Mas... Também resolveu deixar isso de lado.
O rapaz de óculos pegou num jarro de *sumo e despejou um pouco do seu conteúdo num copo e o Adrien fez o mesmo.
Enquanto comia um pedaço de bolo, Adrien questionava-se se devia, ou não, de perguntar ao seu melhor amigo, aquela dúvida que estava na sua mente (e consequentemente, no seu coração).
Conhecendo o seu amigo e irmão de consideração melhor do que ninguém, Nino pergunta:
— Adrien... Passa-se alguma coisa?
O loiro engasga-se e começa a tossir.
— Tem calma! Bebe um pouco de sumo!
Uns segundos depois, o mesmo pergunta:
— Melhor?
— S-sim...
O loiro respira fundo e tenta elaborar, com cuidado, o que queria dizer.
— Nino, eu quero perguntar-te uma coisa... Mas... Promete que não te vais rir de mim!
Com os olhos arregalados, o Nino assente positivamente.
— Afff...
Depois de um suspiro lento e longo, o Agreste finalmente toma a coragem necessária para dizer:
— Eu a-acho que... G-gosto de uma... pessoa.
Os olhos do Nino estavam ainda mais arregalados (se é que isso era possível). De repente, o moreno levanta-se e bate com as mãos na mesa, assustando o Adrien. Em seguida, inclina-se um pouco para a frente e pergunta, num sussurro:
— É a Marinette, não é?
Desta vez, são os olhos verdes do modelo que ficam arregalados pelo espanto.
— C-como é que sabias? — indiga o loiro, com as bochechas ligeiramente coradas.
— Mano... Tu és mesmo lento... — diz o Nino, num tom que continha uma mistura de desapontamento e cansaço. — Tanto eu quanto a Alya já tínhamos reparado nisso. Só tu é que continuavas a enganar-te a ti mesmo!
— O quê?! Vo-Vocês dois já sabiam?
O Adrien estava ainda mais constrangido.
— I-isso quer dizer que...
— Não meu... A Marinette não sabe de nada. Aliás, ela nem desconfia. Nem um pouco! — diz o moreno de óculos, bastante frustrado. — Porque é que demoraste tanto tempo a entender o que sentes em relação a ela?
O loiro demorou uns segundos a responder.
— Bem... É que... Há está *rapariga... — o Agreste começou a fazer gestos com as mãos, claramente nervoso. — Eu já gosto dela, e muito, já há um bom tempo. Mas... Estou sempre a ser rejeitado. — conta o modelo, escondendo o facto de que isto se passa quando ele assume o seu alter-ego, Chat Noir. O herói que salva Paris juntamente com a sua amada Ladybug.
— E a Marinette... Ela é muito especial para mim. Foi a minha primeira amiga de verdade... E apesar de que no princípio eu a achava um pouco estranha, agora já estou habituado à sua maneira de ser, quando está ao pé de mim. Aliás, eu até cheguei a pensar que a Marinette me odiava!
— O quê?! Odiar?
— Ah... Tu sabes... Por causa do que se passou no primeiro dia que compareci às aulas.
— Ah... Isso... — o Nino fez uma cara desgostosa ao se lembrar do que a Chloé e a Sabrina fizeram. Colaram *pastilha elástica no assento da Marinette e da Alya.
— Naquele dia, a Marinette pensou que eu era o culpado, pois era supostamente "amigo" da Chloé.
— Eu lembro-me bem desse dia... Mas ainda bem que fizeste novas e melhores amizades, não é verdade meu amigo? — indagou o Lahiffe, com os braços cruzados e um sorriso orgulhoso no rosto.
O Adrien riu em resposta, mas concordou com ele.
— Adrien... Já agora... Essa rapariga que te está sempre a rejeitar... Quem é ela?
— Uh?
Os olhos verdes do jovem arregalaram-se mais uma vez. Não podia dizer a verdade.
De repente, uma figura pequena e preta, aparece atrás do Nino. Era o Plagg. O kwami fazia gestos para chamar a atenção do portador do anel da destruição.
E então, o Adrien confirmou o que já temia. Ele não podia, sob nenhuma circunstância, contar a verdade ao seu melhor amigo.
— Nino... Eu... — o rapaz olhou de novo para o seu kwami, que acabara de se esconder atrás de um vaso de flores. — Não posso contar.
Nino fica um pouco desapontado mas decide confiar no seu melhor amigo.
— Tudo bem. Deves ter os teus motivos... — Perante o olhar culpado do loiro, o moreno tenta aliviar aquele ar pesado que estava à sua volta. — Se calhar é alguma modelo famosa...Faz sentido tu não puderes dizer quem é.
Aquilo fez o Agreste sentir-se ainda pior. Mas ele não confirmou nem desmentiu.
— Mas... Isso quer dizer que gostas de ambas... Certo?
— É isso que me está a deixar confuso... Não pode ser normal... digo... gostar de duas pessoas ao mesmo tempo...
— Bem, quanto a isso não posso dizer muita coisa. Só tenho olhos para a Alya.
Aquele comentário fez o Adrien sorrir por breves instantes.
— Nino, tu achas que eu devia de esquecer de vez esta rapariga e concentrar-me nos meus sentimentos pela Marinette? — indiga, agora cabisbaixo. Ele já não conseguia negar que possuía sentimentos (maiores que amizade) em relação à sua colega de classe.
— Isso é contigo meu amigo!
— Por mais que eu diga que a Marinette "é só uma amiga"... Já não me consigo convencer a mim mesmo.
Desta vez, é o Nino quem sorri.
— Então acho que já tens a tua resposta.
O loiro levanta a cabeça e sorri, um pouco mais confiante.
— É... Eu acho que sim...
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