Um copo vazio e sede.
1 Um copo vazio e sede.
A princípio você me deu um copo, vazio e pequeno, mas cada palavra dita gotejava e o preenchia de ‘afeto’, você chamou assim.
Com o tempo, as palavras foram muitas, ele encheu e até transbordou.
E eu estava sedenta.
Não fiz cerimônia, resolvi tomar pelo menos um gole.
Um gole e- urgh…
Que merda era aquela?
Bom, era afeto, você chamava assim, e você não era tão ruim.
Talvez eu apenas precisasse limpar o palato. O próximo de certo seria bom.
Apenas mais um gole, porque esse não era o tipo de coisa que se joga assim fora.
Um gole apenas e- meu Deus…
E todo mundo gostava disso?
Você continuava enchendo o copo, muito natural, devia ser algo errado comigo.
Talvez eu tivesse paladar infantil. E beber seria amadurecer.
Com o tempo eu sabia o que esperar, e também não havia outros copos por aqui.
Então só mais um golezinho…
Continuou ruim, mas eu estava me acostumando.
Era ruim, mas pelo menos era constante.
Era ruim, mas pelo menos você continuava dando seu tal de afeto.
Você continuava enchendo o copo.
E eu continuava bebendo.
Mas então por que eu continuava sedenta?
Eu não bebi daquela vez.
E você não entendeu o porquê, já que sempre tinha feito assim.
— Não tem outra coisa?
— Tipo o que?
— Sei lá, talvez respeito, ou interesse genuíno…
— É que está tudo aí.
— Mas é que eu não estou sentindo.
— Mas isso é só o que eu tenho.
— Certo. E se eu colocar e você beber?
— Não, eu não faço as coisas assim.
— Entendi. Bom, então eu já vou.
— Já vai? Quer que eu deixe marcado?
Eu mentiria se dissesse que não sabia que, mesmo não gostando de nada, aquilo ainda me geraria uma dívida.
— Não, pode fechar minha conta, por favor.
— Está bem, então, está aqui. Sabe, eu também não gostava do jeito que você bebia.
Você não ia sair por baixo mesmo, né?
— De que jeito eu bebia?
— Do seu jeito. Com todo respeito, talvez só não fosse pra mim.
— É, talvez seu afeto também não fosse pra mim.
— Justo. E pra onde você vai?
— Para outro bar, provavelmente.
— E eu posso ir junto?
Que atrevimento. Não podia. E você sabia que não podia! Em todo bar que entro, torço para não te encontrar de novo. Você ou copos iguais aos seus, mesmo que eu continue sedenta.
E olha que você nem era tão ruim assim.
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