Um conto de amor e tristeza num trem de Paris

1 Um conto de amor e tristeza num trem de Paris


Passava uma paisagem esverdeada com casas antigas que, da janela, pareciam-se com uma maquete.

Ela é linda, pensava Antoine enquanto olhava a belíssima Madeline, que estava sentada à sua frente. Seus olhos brilhavam ao ver os longos fios loiros e ondulados que contrastavam com os proeminentes olhos esmeralda.

A jovem Madeline e o esbelto Antoine saíam de Paris num trem que os levaria para Munique. Eram amigos faziam dez anos. Haviam se conhecido na escola quando precisaram se juntar num trabalho em grupo. Madeline e Antoine tinham entrado no mesmo dia na mesma escola e essa foi a razão pela qual viraram amigos.

Ela morava próximo à Catedral de Notre-Dame, e todos os finais de semana passeava na pequena praça que havia logo em frente. Comia croissant uma vez a cada duas semanas e tomava um café numa padaria ao final da primeira rua de frente com a Catedral. Tinha um bom estilo de vida.

Ele morava próximo ao Louvre, onde o trânsito era mais movimentado. Seus passeios de final de semana costumavam ser com a mãe pela Champs Elysées, onde entravam em lojas caras e de grife como a Nike ou a Louis Vuitton para experimentar roupas caras e rirem das pessoas que gastavam uma fortuna com aquelas roupas que não valiam um euro do que eram.

Quando se conheceram, criaram laços e laços, alguns fortes e alguns mais frouxos e alguns por serem feitos. Antoine começou a visitá-la de patinete para passearem pelas redondezas de Notre-Dame. Madeline visitava-o de bicicleta e andavam juntos pelos Jardins do Louvre.

A maior aventura dos dois foi ir e voltar a pé da Torre Eiffel. Nos primeiros trinta minutos de caminhada suas pernas doíam e diziam não querer mais ver a Torre de lá de cima.

“Ela é linda daqui”, dissera Madeline, “será que precisamos mesmo ir todo o caminho?”

“Realmente”, contemplou Antoine, “é maravilhosa”, respondeu, mas não total e completamente em referência à Torre Eiffel.

“Podemos ao mesmo atravessar a próxima ponte para pararmos em algum café?”, indagou a garota.

Antoine deu de ombros e os dois atravessaram por uma ponte cheia de cadeados como todas eram de costume. Um homem negro vendia souvenires da Torre e cadeados ali por um euro cinco chaveiros da Eiffel e três um cadeado. Abordaram o homem e compraram dois cadeados e uma boina cada.

Não prenderam seus cadeados na ponte. Coincidentemente, tinham pensamentos iguais em mente.

Quando chegaram na torre, foram abordados por três mulheres de lenços amarrados na cabeça. Antoine pediu para Madeline aguardar na fila para entrar enquanto ele conversava com uma das moças. Descobriu que elas eram ciganas e foi roubado. Levaram vinte e cinco euros seus e seu cadeado.

Madeline ficou super irritada ao descobrir sobre o roubo. Estava frustrada na fila do caixa para comprar o ingresso.

Quando subiram a torre, compraram macarons no segundo andar e prenderam o cadeado de Madeline em uma das grades da Torre sem que nenhum oficial visse. Fizeram ali um desejo. Cada um fez o seu mentalmente.

Eu quero que Antoine seja feliz inclusive nos momentos mais tristes, desejou Madeline.

Eu quero me casar com Madeline, Deus, ela é tão incrível, desejou Antoine.

Naquele trem de Paris, Antoine estava completamente apaixonado por Madeline já havia anos. Houveram demasiadas idas e vindas na vida de cada um deles, mas uma coisa nunca veio à tona: a paixão de Antoine por Madeline.

Tinham quase trinta. Ela era sonhadora e ambiciosa e ele era romântico e carinhoso.

— Munique deve ser linda! — exclamou Madeline.

— Você é linda… — suspirou Antoine.

Madeline desviou o olhar da janela e franziu o cenho.

— O que você disse? — perguntou ela.

Antoine então reparou nas palavras que saíram de sua boca. Começou a ficar nervoso e a gaguejar. Nenhuma outra palavra lhe saiu e então ficou claro para Madeline o que o rapaz estava sentindo.

Havia algum tempo algo estranho aconteceu.

Estavam sentados nas escadas em um dos corredores no pátio da Pirâmide do Louvre. Era inverno, mas naquele final de tarde e início de noite não estava ventando tanto. Conversaram durante uma meia hora sobre tempos difíceis e relacionamentos complicados na família quando Madeline deitou sua cabeça no ombro de Antoine após a conversa. Ficaram em silêncio. Ela tinha uma lágrima nos olhos e ele tinha o coração palpitando.

“A noite está agradável hoje”, confessou ele.

“Realmente”, concordou.

Quando se desfizeram, Antoine não hesitou em levar seus lábios de encontro ao dela e ela não pensou em retribuir o afeto.

“Desculpe”, pediu ele, se levantando e indo na frente.

“Você não vai chorar, né?”, perguntou ela, com um sorriso de boas intenções esboçado em seu rosto.

Eles riram e foram cada qual para sua casa.

No dia seguinte não comentaram sobre o beijo e nem em nenhum outro dia depois daquele.

Antoine foi capaz de compreender logo após que não conseguiria nutrir uma paixão recíproca pela amiga Madeline, que não queria se apaixonar por ninguém e que era muito independente e, no entanto, muito insegura sobre si mesma.

A amizade deles continuou. E nunca souberam o que o outro achava daquela noite no Louvre com a Pirâmide e a Torre Eiffel, por mais que pequena, iluminando a noite.

— Olha, Antoine… — disse ela. — Eu… Eu… Realmente…

— Não diga nada, por favor — pediu ele, colocando o rosto entre as mãos. Burro, burro, burro!, pensava ele.

Não há maneira de não dizer nada, pensava ela. Não dá pra romantizar esse sentimento que não é e que você não acredita que será recíproco.

— Eu preciso dizer, Antoine…

— Mas…

Cale a boca, idiota! Deixa ela falar… Pode ser seu dia de sorte, considerou ele. Ou pode ser que isso seja o erro que vai estragar a viagem de vocês.

— A gente precisa ter essa conversa, acredito, porque você deve saber, eu sou meio emotiva e aconteceram alguns problemas na minha vida recentemente… Não sei. Um coração partido nunca mais será o mesmo antes de se ter quebrado. As coisas mais importantes na vida, e incluo os sentimentos nisso, são como vidro. Às vezes você olha e não vê nada além do que há através dele, ou talvez você veja você mesmo, mais gordo, mais magro, alto ou baixo, torto, deformado, ou pode ser que se veja o reflexo de tudo exceto de si próprio, e pode ser que você não veja nada. Mas no momento em que ele cai, ele será estilhaçado e mesmo que você junte os pedaços e os cole, não estará inteiro ainda, mas vai aparentar estar bem. As pessoas que o olharem achá-lo-ão feio, mas talvez não liguem porque não é da conta delas e o deixarão como está e irão agir de modo a perguntar se está tudo bem sabendo que você dirá que sim mesmo sabendo que não e então será apenas uma maneira de não se sentirem egoístas...

Antoine não sabia como agir. Todas aquelas palavras eram belas e magníficas e se encaixavam num contexto meio melancólico. Tinha esperança de duas possibilidades, sendo uma boa e outra ruim e temia por ambas. As palavras dela eram bem escolhidas e ditas com convicção, ela parecia uma mulher forte dizendo o que dizia e não deixava de ser realmente. Um coração partido nunca mais será o mesmo, e um coração várias vezes partido por pessoas diferentes, com quedas cada vezes mais altas era difícil de ser reconstruído.

— Madeline…

— Antoine, eu amei muitos garotos e quebrei a cara e não só isso com eles e nunca reparei no quão incrível é a pessoa que sempre esteve ao meu lado. Você sempre foi meu melhor amigo e sempre esteve ali por mim… Mas

— … por que você não disse nada depois do beijo? — perguntaram ao mesmo tempo.

Seus olhos se encontraram de verdade dessa vez. Mesmo que estivessem se olhando antes, pareciam querer não olhar, mas não conseguiam desviar os olhos ou virar a cabeça. E naquele momento estavam se vendo. Olho no olho.

A surpresa foi inesperada para ambos. E foi ali que realmente começaram a pensar na resposta. Por que não agiram depois? Por que não disseram nada? Não expuseram seus sentimentos? Talvez agora naquele momento fosse tarde para falar daquilo, talvez não valesse mais a pena… mas e se?

Naquele exato instante, o cobrador do trem entrou no vagão e começou a checar os bilhetes. Os olhares se perderam ali.

Que vontade de ir no banheiro, tentou pensar Antoine, apenas querendo sair dali para ter mais tempo de ponderar sobre sua resposta. Nenhuma reação tinha vindo à tona.

Eu preciso sair desse trem, falava Madeline histericamente em sua cabeça. Preciso sair, preciso acordar, preciso voltar no tempo.

— Bilhetes — pediu o cobrador.

Cada um dos mancebos entregou o seu para o homem e esperou.

O bilhete de Antoine estava correto, o de Madeline deu problema, mas o rapaz não prestou atenção. Tinha se levantando para ir ao banheiro e correu em disparada para o vagão seguinte.

— Desculpe, mademoiselle, mas o seu bilhete é falso — disse o cobrador entregando o papel para Madeline e estendendo a mão para a mesma. — Se por gentileza você puder me seguir…

O quê!?

Madeline levou um choque. Teve que pôr a mão na cabeça para que esta parasse de rodar. Começou a se sentir mal repentinamente. Se virou para chamar Antoine, mas ele já não estava mais ali.

O que eu vou fazer?

— Não é, eu juro! Comprei-o com dois meses de antecedência — explicou ela.

— Se você puder me acompanhar, por favor, poderemos resolver isso com mais calma em outro vagão — pediu ele, gentilmente, tomando-a pelo braço.

Madeline se levantou agressivamente.

— O MEU BILHETE NÃO É FALSO! — gritou ela e todos no vagão se viraram para ver o que estava acontecendo.

Sentia-se mais quente, talvez fosse a raiva subindo pela cabeça.

O que estou fazendo, Deus? Eu não ajo dessa maneira…

Mademoiselle…

— EU NÃO VOU TE SEGUIR PARA A PORRA DO OUTRO VAGÃO!

O que você está dizendo, sua idiota!

Estava nervosa e com medo, agia emocionalmente e não pensava mais direito. O que faria agora? Teria perdido a razão toda até aquele ponto. Como faria para não ser presa em Munique?

Antoine, onde você está?

Enquanto isso, Antoine estava na fila para usar o banheiro. À sua frente havia um senhor idoso. Antoine estava ansioso e temendo por encontrar Madeline novamente, o que ela pensaria e o que ela diria, se ainda quereria alguma coisa.

Por que você tem que ser tão covarde?

O senhor à sua frente percebeu a ansiedade e puxou assunto:

— Está nervoso, filho?

Antoine assentiu com a cabeça.

— Por que isso? Tem medo de andar de trem?

— Bem, não. É complicado explicar para você que nem conheço o porquê da minha ansiedade e do meu nervosismo.

— Quando jovens falam assim normalmente tem a ver com amor. Alguma garota que está nesse trem muito provavelmente, porque não há sinal de celular nessa região.

Como ele sabe de tanto?

O senhor usava um sobretudo cinza com calças social da mesma cor e sapatos pretos. Na cabeça levava um boina e debaixo do braços um rolo abundante de jornais.

— Independente do que aconteceu entre você e essa garota, vá em frente. Lute todas as batalhas e todas as guerras e desvie todos os obstáculos. Encare tudo o que estiver na sua frente.

O coração de Antoine parecia bater cada vez mais lentamente e sua garganta pareceu entalada. Seus olhos começaram a lacrimejar quando pensaram naquilo.

— Se estiver no fundo do poço, olhe para cima e procure qualquer maneira de sair dali. Escale as pedras, nade até o fundo onde terá uma passagem secreta, voe se for preciso, mas encontre um meio de sair. Nunca desista. Sempre terão momentos difíceis. E pior do que esses momentos, terão escolhas que você terá que fazer. Então esteja sempre preparado, até mesmo antes de querer um relacionamento.

As palavras faziam todo o sentido. E para Antoine, aquele senhor foi um milagre de Deus. É como se o Senhor colocasse as pessoas certas nos momentos mais adequados para cada um, pensou ele. Queria tirar um sorriso do rosto, mas o sentimento de culpa o seguia e os pensamentos de repente não queriam mais sair da sua mente.

— Sabe, senhor, é que, na verdade, eu quero ficar com ela, muito mesmo. Eu gosto dela tanto quanto gostei de outras garotas antes de conhecê-la. Mas ela não vai querer ficar comigo se descobrir as coisas que eu já fiz. Digo, eu nunca a persegui e nunca a fotografei escondido, mas eu… bem… é vergonhoso, não quero contar para alguém que eu nem conheço, entende?

— Independente do que seja, ela deve saber se você acha que pode estragar a relação de vocês. Todo mundo merece ter as respostas que precisam caso essas respostas possam acarretar em um caminho alternativo na vida de cada um.

Eu engravidei uma garota de programa que se parecia exatamente com ela porque eu fui incapaz de colocar uma camisinha de maneira correta e agora eu tenho um filho perdido que eu não sei o que fazer em relação a ele.

E era verdade. Aconteceu há alguns anos, quando Antoine entrou em um bar para encher a cara e conheceu uma garota de programa. Ela se parecia exatamente como Madeline e depois de algumas cervejas e pingas, Antoine pensou que fosse a amiga. Eles foram juntos para um motel e então aproveitaram a noite e madrugada inteira fodendo e sem nem se tocarem sobre a camisinha.

Três meses depois, a garota avisou Antoine que estava grávida. Antoine deletou o contato dela e a bloqueou em todas as redes sociais. Desapareceu do mapa para a moça e se arrependeu depois. Descobriu onde ela morava e todo mês enviava por correio €300 para ajudar nas despesas do bebê.

Agora pensava na criança e em como ela deveria estar crescendo. O senhor na fila estava ficando impaciente com o homem que estava usando o banheiro.

— Escute, filho, conte para ela a verdade e siga em frente com qualquer que seja a resposta dela. Agora, se me dá licença, vou tentar tirar esse cara do banheiro.

No momento em que ele encostou a mão na porta do banheiro, ela se abriu e ele se revelou vazio. O senhor ficou bem irritado e reclamou demais quando entrou. Antoine então reparou que o senhor tinha as pernas bambas.

— Senhor, tem medo de andar de trem? — questionou Antoine.

— Tenho. Há dois meses, minha esposa embarcou num trem em que terroristas colocaram uma bomba. Mas eu precisei pegar este, senão, nunca teria embarcado.

Quando Antoine retornou ao vagão, encontrou o banco de Madeline vazio. Um rapaz passou no corredor, Antoine segurou seu braço e perguntou:

— Você viu a moça que estava sentada aqui?

O rapaz tinha uma barba espessa e crespa e olhos escuros. Não parecia falar francês. Ele franziu o cenho e seguiu em frente.

Antoine sentou-se, mas ficou erguendo o pescoço por sob o banco para procurar qualquer evidência de Madeline.

Onde ela pode estar?

A senhora do banco ao lado se virou para Antoine e disse:

— A moça que estava com você foi levada pelo agente de bordo, o bilhete dela era falso, pelo que entendi.

O coração de Antoine disparou e então ele saiu correndo até o vagão de segurança.

Escutou em sua cabeça uma música que dançou com Madeline no baile de formatura então, cantada por Billy Joel, Vienna. E sentia os olhos lacrimejando e o coração acelerando.

Quando Madeline viu as portas do vagão sendo abertas seu rosto abriu um sorriso enorme e cheio de sentimentos. Seus olhos ao encontrarem os de Antoine diziam: eu te amo!

Os olhos de Antoine, entretanto, diziam o contrário. Eles também diziam: eu te amo!, mas queriam dizer tudo o que teriam para dizer. E eles diriam, contariam a verdade para ela. Madeline arregalou os olhos e ficou nervosa de repente. Antoine estava chorando. Abriu a boca agora dizer a verdade, mas nunca chegaria a dizer.

Virou a cabeça em tempo quando percebeu que Madeline olhava para trás e não para ele.

O grande clarão laranja tomava conta do trem e em segundos estariam ambos mortos e um dia e quatorze horas depois seus corpos seriam encontrados lado a lado pela polícia e seus óbitos chegariam para suas famílias que chorariam em seus funerais.

E assim, Antoine sabendo toda a verdade e Madeline não tendo o desfecho de tudo, morreram tragicamente, porque nem todas as histórias de amor são felizes. Algumas terminam sem finais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!