Um conto de Solidão

1 Capítulo Único


Notas iniciais
História simples com palavras simples que vieram à minha mente em uma manhã de chuva. Agradeço por qualquer leitura e comentário!

A Solidão é uma pessoa. Ou melhor, uma entidade humanóide. Sim, com pernas para caminhar por aí e cabeça para deixar introspectivamente abaixada enquanto anda. O corpo dela não é como o da maioria de nós, contudo; ela é enfaixada dos pés à cabeça com um tecido escuro, tal como uma múmia. Veio assim para o mundo, surgiu quando os humanos se tornaram conscientes de suas emoções. Seu nascimento foi bem menos glamouroso que o da Vênus de Botticelli, claro, mas não é como se houvessem espectadores desse evento na época (nem é como se alguém ligasse para isso também, absolutamente).

Apesar de andar entre nós o tempo todo, ninguém a vê. A Solidão. Ela é invisível aos olhos, mas não ao coração; todo mundo a sente ou já a sentiu em algum momento da vida. Para certas pessoas, a Solidão é mais presente que para outras, segurando suas mãos enquanto estão indo para o trabalho ou deitando ao seu lado durante a noite. Isso é o mais irônico sobre a Solidão: seu propósito aqui é fazer com que outros se sintam sozinhos, mas ela nunca o está assim.

Ou será que não? A solidão não se refere apenas ao espectro físico, isso é fato. Se sentir sozinho em meio a uma multidão é totalmente possível e também acontece muito. Nesses casos, a Solidão anda lado a lado com aqueles que devem se sentir assim e, se houver muitas pessoas solitárias em um mesmo ambiente, a Solidão garante que elas se sintam assim olhando-as de longe, periodicamente. Ainda que seja impossível encarar o olhar dela, tudo o que vem de sua direção emana solidão, desde sua simples presença até seu olhar ou o ar que sai de sua expiração e atravessa o tecido de múmia.

A Solidão não é onisciente e onipresente. Muito ao contrário, ela trabalha o tempo todo, vinte e quatro horas por dia, para manter solitário todo mundo que precisa se sentir solitário. A Solidão não dorme, não come, não descansa. Permanece um pouco com aquele pai de família que está perigosamente bebendo sozinho na cozinha de madrugada; depois, vai ao encontro do jovem desvirtuado que está no motel pós-sessão de sexo com desconhecidas que não significam nada para ele além da distração do abandono de sua amada. Ela também visita periodicamente aquela garota adolescente que perdeu a mãe para o câncer no mês passado, e também a outra jovem que se tornaria mãe esse mês mas perdeu o bebê porque estava teimando com o marido que conseguiria limpar os armários da cozinha e caiu da escada quando tentou fazer isso.

Se a Solidão tivesse Facebook e adicionasse todas as pessoas que conhece, precisaria de alguns milhares de perfis para cumprir essa cota, já que o limite máximo de amigos por conta é de apenas cinco mil. Se fosse uma conta no Instagram, ela já teria passado há muito o lugar de “perfil mais seguido do mundo”, que pertence atualmente à conta do próprio Instagram (isso não é trapaça?) ou, no caso do YouTube, seu canal superaria em números de inscritos e visualizações os de PewDiePie e T-Series. Ela conhece todo mundo que nasceu e passou alguns anos vivendo na Terra; os bebês são os únicos que a Solidão não visita. Se lhe perguntar o motivo, ela dirá que não gosta do cheiro do talco de bebê ou acha irritante os barulhos de balbucio, mas a verdade é que eles ainda não têm consciência o bastante para perceber os efeitos de sua presença invisível. Isso a magoa em algum nível; faz crescer um sentimento de rejeição. Todos, ou pelo menos a maioria, se incomodam, ou deveriam se incomodar, com a Solidão.

Até onde se sabe, a Solidão nunca amou nem foi amada (a história sobre o Amor fica para outro conto). Mas aquelas pessoas que vagam pelo sentimento de solidão há muito tempo ou com muita intensidade receberam dela um beijo: o beijo da Solidão. Não é nada erótico ou de cunho sexual, afinal, a Solidão não é uma assediadora. É mais como o beijo técnico que os atores executam quando estão fazendo seu trabalho de gravar algo para a TV. É uma coisa simples e transparente, e poupa a Solidão de ter que visitar diariamente aquele senhor de meia idade que se tornou viúvo no ano passado. Com um beijo seco e sem o “smack!”, ele irá se sentir solitário por um bom tempo e receberá a visita da Solidão apenas quando for hora da segunda dose, ao menos até que supere um pouco o luto. Algumas pessoas nunca superam; essas têm encontros marcados com a Solidão até o fim de suas vidas.

Muita gente detesta se sentir sozinho, mas alguns ainda conseguem encontrar paz no silêncio e na tranquilidade quando estão bem consigo mesmos. Isso é diferente quando se sentem solitários; a Solidão traz em suas faixas escuras de múmia um sentimento de vazio e isolamento. Ela se sente assim há tanto tempo que considera ser seu estado normal, e talvez realmente seja. Mas ela não é uma cadela, como algumas pessoas a consideram apenas porque se sentem mal com sua presença. Fazer o que ela faz é trabalho duro e precisa ser feito, assim como o coveiro precisa enterrar os mortos para que os vivos não sintam o cheiro fedido da podridão.

Não se sinta pessoalmente atacado quando ela vier te visitar, é tudo uma questão de trabalho. A Solidão não escolhe com quem vai passar o dia ou se encontrar, é designado a ela por forças maiores e inexplicáveis, que nem mesmo ela conhece. Assim como água corrente em um rio, seu trabalho (e também o nosso) envolve sempre continuar o caminho. Jogar o jogo da vida e da existência, embora ninguém saiba as regras nem o prêmio final e muito menos quem foi que nos colocou no tabuleiro. Afinal, as coisas sempre foram assim, não?

A Solidão nasceu Solidão e, assim como o Sol nasce no leste e se põe no oeste, isso é impossível mudar. O passado é uma constante eterna e o melhor que se pode fazer a respeito é aceitá-lo ou encará-lo de novas perspectivas, caso não goste do que vê. O futuro é diferente, sempre incerto e nunca definido (a não ser pelo resultado final, mas a Morte é também história para outro conto). Quanto mais o tempo passa e maior fica o passado solitário da Solidão, cresce nela uma vontade inesperada que nada contra a correnteza de sua natureza. Provavelmente é resultado dos desejos de muitas das pessoas que recebem seus beijos e suas visitas: que ela se liberte daquelas amarras feias e se metamorfoseie, tal como uma borboleta, em Solitude.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!