Um conto cinza
2 Bandeiras de revolução
O mensageiro entrou no grande salão, apreciando a beleza dos pilares. O Castelo Alto com certeza tinha seu encanto. Era uma boa troca de ares, ter a chance de apreciar outras arquiteturas, além do claustrofóbico “ninho” Real, o Castelo Superior. As enormes portas de madeira e ferro fundido estavam abertas, sem nenhum soldado armado para guardar a entrada, uma vez que o mensageiro não era nenhum intruso, mas um convidado. Orgulhoso, carregando a palavra do único e verdadeiro governante, atravessou os pilares e toda a bela arquitetura, para entregar pessoalmente o decreto ao antigo membro do conselho dos quatro castelos. Seus olhos brilhavam com intensidade, pela oportunidade de demonstrar grandeza uma vez mais. Os grandes pilares sustentavam um teto decorado, uma bela e grandiosa pintura, enegrecida e deteriorada pelo tempo. Nenhuma manutenção era feita nos castelos que não fossem o do Primogênito. O homem apreciou a danificada pintura e as nuances arquitetônicas todo o breve caminho até o antigo trono.
O grande salão não era mais usado para recepcionar os necessitados e suas suplicas. O Castelo Alto, bem como os outros, era uma sombra de uma época onde realmente tinham algum significado. Pedras tomadas por vinhas, pinturas desvanecidas, móveis mofados e, agora, bandeiras vermelhas, dançando segundo as ordens do tempo.
O arauto percorria seus olhos curiosos, por entre os elementos do cenário, até repousá-los sobre a figura melancólica tomando o lugar do falso trono.
O senhor dessas ruínas se sentava no trono, depois de muitos anos sem se atrever a pensar sobre. Imponente e igualmente orgulhoso, acompanhava o convidado com os olhos. Algumas poucas tochas e a coloração cinzenta faziam companhia para estes dois homens. O mensageiro, com os olhos postos sobre o antigo senhor, parou ao alcançar uma distância o suficiente. Mesmo sem a necessidade de demonstrar respeito, o arauto do Primogênito era um homem cortês de nascença. Esperou, paciente, pela permissão de falar.
A figura melancólica suspirou.
— Vá em frente, anuncie minha sentença. — pronunciou-se sem energia.
O mensageiro ponderou sobre todo o cenário e hesitou, por um breve período. O grande salão úmido e vazio, lar de um homem enferrujado. Mesmo que nada disso signifique algo no novo governo, ainda pesava ver mais um monumento histórico ruir.
— Carrego comigo as ordens e o aviso daquele que possui direito de sangue. Mas antes, senhor, estaria disposto a responder uma pergunta?
A cadavérica luz da lua iluminava através do mosaico de vidro, atrás do palco real. O dono do Castelo Alto sabia o que o pequeno arauto perguntaria. Muitas pessoas perguntariam o mesmo, se tivessem a oportunidade.
— Vá em frente.
— Por que ergueste as bandeiras de morte?
Com não mais do que uma insinuação de sorriso no rosto, o velho nobre responde:
— Os farrapos vermelhos, que agora tremulam nas minhas arruinadas torres, não são apenas presságios de morte. São bandeiras de revolução.
— Tais palavras saíram da boca do Lorde do Castelo Baixo, com ainda mais bravura e firmeza. Não foi ele feito de exemplo? A atrocidade e desonra que sua família sofreu não foram o suficiente para prevenir que tal ato de completa insanidade viesse a se repetir?
— O conselho vive governando ou veste-se da mortalha, cedo ou tarde.
— Assim seja, velho Signord. Mesmo sabendo que é o certo, ainda sinto um peso em ser o arauto das más notícias. Em decretar o golpe de misericórdia no vazio que vocês, senhores, caíram. Me pergunto se, após sua queda, o Pigmeu também escolheria a “mortalha”.
O emissário ominoso sentia a repulsa emanar dos olhos de Darius Signord, o velho deposto do segundo trono. E Signord sabia que ele o enxergava como um monumento antigo, inútil, mas artístico, de uma forma doentia.
— Pouco me interessa as ações do recluso. Ergui as bandeiras e lá elas permaneceram, até meu lar e meu sangue queimarem, assim como todos os outros rebeldes.
— Pois então: Em nome do único e verdadeiro governo, como arauto dos maus presságios e com título dado pelo próprio Sangue Real, sentencio Darius Signord, e todos aqueles que compartilham seu sangue, a serem anfitriões do Executor.
— E vossa majestade mencionou quando me encontrarei com meus antepassados?
— Três dias.
— Assim seja, arauto. Seu trabalho está completo, sua sentença está dada. Algo mais?
— É um belo castelo. Deve ter sido desesperador ver a ruína lentamente rastejar entre as pedras. Em sua posição eu também ansiaria pelo fim, como citei, por um golpe de misericórdia. Adeus, descendente de Signord, vou deixá-lo a sós. Espero que seja um anfitrião tão agradável para com o Executor, como foi comigo. Uma pena ele ser um convidado nem tão cortês.
Os passos ecoaram pelo salão silencioso. O mensageiro se foi, mas as portas continuaram abertas. Mais um convidado era esperado naquele dia. Um convidado que sempre se encontrava em péssimo humor.
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Algum tempo se passou desde a saída do arauto dos maus presságios. Darius suspirou e desabotoou sua capa, deixando-a cair por entre seus ombros, junto com sua imponência, desfazendo-se de todo o papel glorioso. Encarava o chão com um olhar preocupado e pensativo, mas acima de tudo, com medo. Sempre foi um homem controlado, muito mais do que a maioria dos homens. Como o dono do segundo trono, era sua obrigação, em eras mortas, ser o mais racional possível. Contudo, agora sentia medo, pavor. Épocas passadas, honras, misericórdia, nada isso significava para a névoa de morte que o Executor trazia consigo apenas por existir. Seus cabelos castanhos, caindo até seus ombros, estavam desbotados de nervosismo. Não compartilhava o tipo de ira incontrolável que seu parceiro sentia, mas sim um nervosismo por não ter o controle do futuro. Não ter a capacidade de prever o desfecho dessa trama era o que fazia Signord perder o sono.
Levantou-se e, em passos brutos, se posicionou onde o emissário real estava, minutos atrás. Olhou para a pintura desgastada e estudou seus detalhes descorados. A lembrança retratada foi o momento onde seu pai, o verdadeiro Signord, se sentiu mais vivo. Em sua infância, Darius nunca havia perguntado a verdadeira história. Se sentia no dever de estudar e sabê-la apenas por observar a glória de seu pai, descrita em imagens do teto da sala do trono. Entender a história, entender a glória, isso provaria que seu sangue era o mesmo que corria nas veias de seus antepassados. Tanto tempo gasto em olhar para o teto que, se Darius houvesse talento para pintura, poderia recriá-la com perfeição. As mãos brotando da terra conquistadas por cinzas, os barcos naufragando no horizonte. As velas vermelhas e o demônio queimando. Quando era garoto, sonhava em ver esse dia misterioso, onde chovia cinzas e o orgulho dos verdadeiros heróis estava em jogo. O dia em que os justos se levantariam sobre os estandartes certos e, fiéis, não à homens, mas à justiça e honra, dariam suas vidas pelo Sonho. Se perguntou inúmeras vezes se isso seria o fim ou o começo de uma história amaldiçoada. Só quando mais velho foi entender que quadros mentem, manipulados pelo simbolismo poético e falso dos artistas.
Se sentiu jovem uma vez mais, ao perder tempo olhando para mentiras. Tão imerso no mundo fantasioso de seus pensamentos, diante da odisseia, não notou seu segundo convidado entrando. Não notou a barulhenta bengala castigando o silêncio e as reclamações ofensivas murmuradas da boca suja do torturador.
— Darius? Vai olhar para a porra do teto a noite toda?
Os pensamentos se desfaziam, trazendo Signord de volta a realidade. O frio na barriga, um dos sintomas do medo, retornou a fazer-lhe companhia, ao passo que a trama ressurgia. Elmyrod Van Evergold estava de volta ao seu lar, para, como sempre, assuntos desagradáveis. Um homem de uns 53 anos, com cabelos grisalhos e muitos fios faltando, resmungando sobre dores, com aparência tão velha e surrada como suas vestes. Um olhar amedrontador que expressava nada, além de ódio.
— Tomou alguma chuva no caminho? — perguntou, ao notar o casaco úmido de seu convidado.
— Estou mais interessado em pormos as coisas em dia, do que falar sobre isso.
Darius pôs-se a andar, até o interior do castelo. Alguns corredores e portas depois, entrou com seu convidado em uma sala de reuniões, distante e suficientemente confortável. Uma mesa de madeira, redonda, permanecia no centro da sala. Signord, sem cerimônias, se sentou logo ao entrar. Elmyrod não ficou nem um segundo atrás.
— Carrasco, antes de começarmos, eu tenho uma pergunta. Teria feito o mesmo em minha posição?
Elmyrod fitava Darius com um incomodo visível, em relação ao questionamento.
— Está me perguntando se eu não fosse alguém sem nada, se eu ainda arriscaria tudo? Vocês, malditos, tem um costume extremamente deselegante de achar que eu desejo morrer. Não faço isso porque tenho repulsa da minha vida e de como eu sou, faço isso porque, mesmo sendo um tremendo filho da puta, ainda sei o que é justiça, assim como nossos pais. Seu pai soube como era arriscar tudo quando seguiu o meu, e o desgraçado morreu com um sorriso no rosto por tê-lo feito.
— Sempre ponderei se teria feito o mesmo que meu pai. Também sempre achei que só o fato de ter essa dúvida, já era prova que eu nunca fui digno de ter seu sangue ou nome.
— Ter essa dúvida não te faz inferior ao seu pai, só mais inteligente.
Uma sugestão de sorriso começou a se formar no rosto do herdeiro do segundo trono, mas o pavor o matou antes. Desejou ter algo para molhar os lábios, entorpecer a fraqueza. Era incrível como eles se encaixavam no cenário, tanto quanto a poeira, que reinava sobre todas as coisas. O homem a sua frente, o torturador, instigava-lhe — ou sempre instigou — grande curiosidade. O que se passava em sua mente açoitada?
— Elmyrod, que razão você teria para recusar o trono? É quase inadmissível você não ter possuído essa ambição.
O torturador se ajeitou na mesa e seus ossos estralaram de maneira violenta. Algumas veias saltaram, evidenciando a dor e o esforço, mas Elmyrod os ignorava. O semblante severo encarou Darius, como que pensativo, resgatando algo da memória.
— Nunca senti que fosse o certo e, no fundo, meu pai sempre soube também. Em nenhum momento disse nada sobre, mas era perceptível seu desejo de que a herdeira do primeiro trono fosse Nereonor. Nunca o cobicei também, não sou nenhum governador.
— E o que você é, Elmyrod?
— Um velho desgraçado — respondeu com um sorriso odiável. — Minha juventude, meus títulos, eu deixei do outro lado do mar, sob as botas do Caçador.
Signord sentiu que era hora de mudar o rumo da conversa. Evocar as memórias de seu parceiro era uma péssima ideia, ele nunca foi — e nunca será — capaz de superar isso. As dores, as perdas, foram muitas em muito pouco tempo. As cicatrizes, incuráveis. Toda vez que o torturador adentrava no mundo das memórias, ele se perdia e voltava com algo faltando.
— Assim que garantirmos nossas vidas aqui, então pensaremos no que há no outro lado do mar. — respondeu Signord, com voz calma e compreensiva.
Elmyrod notou o desconforto no rosto de Darius. Guardou seus sentimentos ainda mais fundo, sempre soube que para os outros isso nada significava.
— Visitei o monstro. Suas abomináveis crias estão “famintas”, como ele mesmo diz. Se tem algo em que ele confia, é em seus próprios truques nojentos.
Signord sentiu frio e reagiu a uma corrente de vento, mesmo que não houvesse alguma. Acariciou suas próprias mãos, macias como de alguém que nunca tivesse brandido uma espada. “Três dias” — ecoava pela sua cabeça, com um semblante apreensivo.
— Trancafie sua família o mais fundo no castelo o possível — continuou Elmyrod. — Dê-lhes uma adaga, caso o plano falhe. Que o sangue vaze de suas veias e morram pela lâmina, ao invés daquilo. O Executor te buscará primeiro. Se mantenha fixo no salão principal, como um animal atado ao ferro. — falou, enquanto traçava rabiscos imaginários nos cortes da mesa.
— E antes que o Primogênito se dê conta, Danmor rolará a roleta?
— A espada enferrujada é o melhor meio de acertar o fedelho medroso. Se a roleta cair em Danmor, eu irei continuar o jogo do sangue. Se nós dois cairmos, você pelo menos ainda terá sua vida e família. O que acontece depois, é seu para decidir.
Darius havia posto sua família em perigo, mas por causa nobre. Repetia para si mesmo: “Se não fosse por isso, morreríamos todos mais tarde.”. Isso havia se tornado seu mantra. Olhar o carrasco lembrava-o o que perder a família faz com um homem, o quão ainda mais solitário isso poderia se tornar. Fora das paredes esburacadas, além das torres e fundo no coração do Sonho, pessoas viviam, comiam e contavam histórias, mas, mesmo assim, a solidão que atingia os rebeldes era desumana.
— Elmyrod, se no final do jogo o Primogênito ainda respirar, abaixarei as bandeiras e me renderei em troca de misericórdia. — disse Darius, sério, mas com um leve fraquejo de incerteza.
O torturador cessou o magnífico desenho invisível que, tão habilmente, traçava sobre a mesa e encarou o homem a sua frente, com semblante desdenhoso.
— Uma pena. Seria com grande prazer que veria, do inferno, o grande Signord rasgar a garganta da prole defeituosa que rastejou para fora do útero de minha irmã. Contudo, eu entendo. Quando verdadeiros homens morrem, os que sobram se escondem em saias.
O herdeiro do segundo trono suspirou, sem forças para começar uma discussão. Coçou o queixo e se levantou, afastando a poeira de suas roupas velhas com as mãos. Cruzou os braços nas costas e olhou para Elmyrod de cima.
— Já sabe a saída, creio.
Não tinha porquê alongar a conversa. Com muito esforço, o torturador se levantou, ainda com sorriso repulsivo. Encarou os olhos de Darius Signord uma vez mais, antes de deixá-lo a sós, em seu lar decadente.
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