Um clichê
1 Ho-hou
— A gente fez algo de errado? – Perguntei talvez pela 10º vez para a Carolzinha. Era estranho terem nos chamado para uma conversa com a diretora.
— Brini, eu vou lhe dizer mais uma vez: A gente NÃO fez nada de errado. – Respondeu num tom rude. Ok, eu sabia que ela estava perdendo a paciência comigo, afinal, eu sou uma das poucas pessoas que conseguem tira-la do sério (palavras dela própria). Mas sei que está curiosa também, apenas não quer admitir.
— Céus Carolzinha! Como consegue ficar tão calma nessa situação? Eu, aqui, aflita e você na maior tranqüilidade! Como fica o meu histórico de aluna exemplar? Como fica a nossa imagem de alunas perfeitas? – Soltei tudo de uma vez. Talvez eu esteja exagerando, mas nós temos uma imagem a zelar nessa escola.
— Brini, tem que manter a elegância, eu sei que você não tem então finja um pouco pelo menos. – Disse ela com um olhar de reprovação para mim.
— Manter a elegância. – Repeti para mim mesma. Estava conseguindo por um tempo e até me senti confiante de que nada de mal ia acontecer com a gente. Errado. No momento que a porta da diretoria se abriu, aquela confiança toda foi embora num segundo. Lá estava ela, com seus cachos perfeitos e invejáveis. Usava um terninho no tom de azul marinho. Ah! Parece que percebeu a nossa presença.
— Oh, meninas! Podem entrar, desculpem a demora – A diretora falava enquanto fazia sinal para que entrássemos na sua sala.
Sua sala resumida em: Paredes da cor marfim, do lado esquerdo via-se um espelho com margem em dourado, após o espelho encontrava-se uma estante cheia de livros (já tinha lido a grande maioria), continuando, e uma folhagem. Agora o lado direito, um sofá num tom creme, ao seu lado uma pequena mesa com três xícaras e um bule. Indo mais adiante um armário cheio de diferentes conjuntos de xícaras e bules. E a nossa frente, duas poltronas na mesma cor do sofá, a escrivania cheia de papéis dispersos sobre ela e atrás dela, a diretora com um papel especifico em mãos.
— Acredito que estejam curiosas para saber o porquê de eu tê-las chamado aqui – Começou dizendo.
— Da parte da senhorita Mendes, talvez – Disse Carolzinha – Curiosidade não é uma qualidade muito admirável. – Completou olhando de soslaio para mim e dando seu sorriso de lado que se me permitem dizer, é maligno.
— Isso não me surpreende vindo de uma moça como ela – Disse a diretora. Eu não gosto dela, ela sabe disso. Ela também não gosta de mim. É um sentimento mutuo.
— O que a senhora queria falar com a gente mesmo diretora? – Disse dando o meu melhor sorriso, porém no fundo estava “entrando em erupção”, por assim dizer.
— Certo certo. Não é hora de falar dos seus defeitos Senhorita Mendes, apesar de muitos. – “Se controle Sabrina, não dê esse gostinho para ela.” Pensei.
— Hoje de manhã, recebemos essa carta – Ela levantou o recebido para que enxergássemos melhor – É de um renomado internato. O “Internato Professor Alonzo”.
— Eu já ouvi falar nesse internato, ele é realmente bom. Tenho vontade de conhecê-lo. Suas pesquisas são bem avançadas, dizem que lá só tem pequenos gênios – Carol falou se voltando para mim.
— As pesquisas devem ser bem avançadas mesmo para que encontrassem a gente.
Esse papinho de internato estava acabando comigo e sem perceber solto:
— O que a gente tem haver com isso? Nada. Podemos voltar pra sala agora? – Perguntei já sem paciência.
— Mal educada como sempre. Tão diferente da Senhorita Machado. Ela sim, é um exemplo a seguir, agora você...Não sei o que viram.
— Sou muito inteligente diretora e a senhora não pode negar — Dei um sorriso ao ver a cara de desgosto dela.
— ENFIM, diretora o que a senhora quer dizer com “Não sei o que viram”? – Perguntou Carolzinha, sem esquecer-se de me mandar uma mensagem de “Eu vou matar você” antes de virar para a diretora.
— Eles estão interessados em vocês.
— Como assim? – Carolzinha se fazia de desentendida, mas ela sabia o que estava rolando. Essa escola é reconhecida por causa de nós duas. Já trouxemos muitos prêmios pra cá e com eles vinham colégios nos querendo como suas alunas.
— Resumindo, já dei a transferência. O vôo de vocês é na quarta-feira, ou seja, vocês têm dois dias já que hoje é segunda.
— Eu não vou – Simplesmente eu disse.
— Quem disse? – Ela me fuzilou com seus olhos.
— Eu disse e vou repetir caso a senhora não tenha limpado os ouvidos essa manhã, eu não vou. – Respondi
— Vai beneficiar o colégio.
— Eu não quero saber. Eu to pouco me lixando pra esse colégio. A senhora não tinha esse direito
— Não é questão de você querer ou não, você vai e ponto final – Disse ela se levantando rapidamente do seu tinha lugar.
— Sabe diretora, eu ainda tinha um misero respeito pela senhora. No passado sabe? Porque acabou nesse mesmo instante. – Falei me levantando também e indo em direção a porta.
— E quem disse que eu ligo para a sua opinião? Eu sou a diretora e você a aluna, é sua obrigação me obedecer.
— Ho-hou – pronunciei. A Carolzinha sabe o que isso significa. Alguma coisa muito “má” ainda está para acontecer, antes de sair disse uma coisa nada haver com o assunto pra quem não me conhece – A senhora deve cuidar muito bem do seu cabelo. – Abri e logo em seguida fechei a porta, sem paciência para babaquices como essa.
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