Um amor inesperado

39 Mutirão na Toca do Saci


Giane foi até à sede da Crash Mídia. Gilson havia cedido um espaço nos fundos do Cantaí para Érico, Sílvia e toda a equipe trabalharem e receberem os clientes. Quando chegou, Giane ouviu alguém falar seu nome:

— Fica com Karmita que é melhor que Giane. Vai por mim, vai. — disse Maurício.

— É impressão minha ou estão falando de mim aí? — perguntou a garota, entrando na sala e aproximando-se de Caio.

Caio estava conversando sobre a agência que iria montar. Ele pensou em colocar o nome de Giane na agência, para homenagear a namorada, porém, Camilinha queria colocar o nome da avó, Karmita. Camillinha era a principal sócia da agência. Maurício achou melhor colocar o nome de Karmita na agência, afinal, o namoro de Caio com Giane podia não durar para sempre. Nunca se sabia o dia de amanhã. Os pais de Maurício se separaram e a mãe dele estava namorando Érico. Porém, no ponto de vista de Caio, ele e Giane ficariam juntos para sempre, no que dependesse dele.

— Eu estava falando que você é a mulher da minha vida! — disse Caio, beijando-a. — E eu vou te amar pra sempre!

— Ô Caio, você sabe com quem você tá se metendo, hein? — perguntou Jonas. Afinal, Giane era osso duro de roer.

— Ei! — disse Giane, abraçada a Caio.

— Sei, sei, sei! — disse Caio, dando um beijo no rosto de Giane. — Vem cá, e o Bento, como é que tá? — perguntou Érico.

— Ele tá melhor que eu e você juntos. — disse Jonas.

— E foi muita sorte a Amora ter aparecido na Toca pra salvar a vida dele, né? — perguntou Maurício.

— É. Sorte até demais, pro meu gosto. — disse Giane.

Nada tirava da cabeça de Giane que foi Amora quem provocou o incêndio. Aquela não dava ponto sem nó. Era capaz de tudo para conseguir o que queria, e não mediria esforços para ficar com o Bento. Fabinho não era flor que se cheire, mas Giane acreditava que desta vez ele estava sendo acusado injustamente. Além disso, Fabinho não era assim tão ruim como pensavam.

— Peraí, o quê que você tá querendo dizer com isso? — perguntou Érico.

— Que esse negócio de que foi o Fabinho é história. — disse Giane.

— Ué, como assim, Giane? — estranhou Jonas. — Você tá defendendo o Fraldinha?

Jonas não estava entendendo nada. Nunca pensou que algum dia veria Giane defender Fabinho. Ela odiava Fabinho. Fabinho tentou matar o Bento, e Giane estava defendendo o bandidinho? O que ela tinha na cabeça? Como ela, logo ela, que sempre gostou tanto do Bento, sempre foi a maior defensora do florista e era quem mais detestava Fabinho, podia defender o cara que estava sendo acusado de matar o Bento?

Giane sabia que Fabinho tinha feito muita coisa errada. Continuava não simpatizando com ele. Afinal, não era por ele ter devolvido o Pixinguinha que ela iria canonizá-lo. Mas acreditava na inocência dele, no caso do incêndio. Ela achava que ele devia pagar pelo o que fez, e não pelo o que não fez. No ponto de vista dela, era uma questão de justiça. Giane não achava justo Amora armar para incriminar o Fabinho, posar de heroína para o Bento, prejudicar a Malu e ainda se dar bem com isso. Ela continuava se preocupando com Bento também. Aliás, para ela, Bento era a questão principal. Se Amora realmente tacou fogo na Toca, então ela era uma criminosa. E Bento estava sendo feito de trouxa mais uma vez, pois achava que Amora havia salvo a vida dele. Giane não gostava nada disso.

— Quer saber? A Malu também cismou que não foi culpa dele. — disse Maurício.

Giane ficou pensativa. Então Malu pensava da mesma maneira que ela. Também acreditava que Fabinho era inocente, pelo menos nesse crime. Com certeza, Malu também suspeitava de Amora. E se Malu suspeitava de Amora, era porque havia realmente alguma coisa que não se encaixava nesta história. Malu conhecia a Amora, sabia do que ela era capaz. Pelo visto, Giane não estava errada. E não estava ficando maluca. Ela não conseguia esquecer da reação estranha da Amora, quando Malu ligou para questionar o Bento a respeito de uma mensagem que ele teria mandado. Bento não se lembrava de ter mandado mensagem nenhuma. Mas Malu garantiu que havia recebido uma mensagem do celular do Bento, dizendo para ela ir à Toca urgente. Se não foi o Bento quem mandou, quem teria mandado a mensagem? Só podia ter sido o Fabinho. E se foi o Fabinho que mandou a mensagem, com certeza ele não incendiou a Toca. Se não foi ele, só podia ter sido a Amora. A Amora viu a mensagem no celular da Malu, apagou e resolveu ir no lugar da Malu. Só assim para ela ter ido na Toca. Era mentira que ela havia tido uma intuição. Se tivesse sido o Fabinho o incendiário, Amora não teria conseguido chegar a tempo de salvar o Bento. Dos Jardins até a Vila Guilherme era uma distância enorme.

Mais tarde, Giane foi na casa do Bento, trazer um prato preparado por

Silvério. Bento estava em seu quarto, deitado na cama.

— Ei! Meu pai fez isso aqui pra você e me pediu pra trazer. — disse Giane, antes de colocar a bandeja sobre a mesinha de cabeceira.

— Opa, que maravilha! — disse Bento. — Obrigado, Giane.

— Você sabe que o seu nome está na boca do povo, né? — disse Giane, sentando-se na cama, pegando o controle e ligando a televisão.

Na televisão, as jornalistas estavam entrevistando Malu a respeito do incêndio na Toca do Saci. Não se falava em outra coisa no mundo dos famosos. O incêndio era assunto em qualquer programa de celebridades. Malu e Amora estavam sendo entrevistadas na sala de estar da mansão onde moravam. Sueli Pedrosa disse:

— Malu, conta pra gente como é que a Toca do Saci pegou fogo.

— Na verdade, foi um incêndio criminoso. — disse Malu.

— Jura? Mas... Mas quem que atentaria contra uma ONG tão bonitinha, que cuida de criancinhas desfavorecidas? — perguntou Sueli Pedrosa.

— Bom, as investigações, elas estão correndo em sigilo, mas eu já tenho uma suspeita. — disse Malu.

— Você está dizendo que é uma mulher? — perguntou Mônica, a jornalista da revista Vida em Família.

— Eu estou dizendo que eu tenho uma suspeita, mas eu ainda não vou falar quem é. — disse Malu. — Ou seja, a verdade, ela vai vir à tona de qualquer forma. E vocês podem esperar por isso! Com licença!

Malu levantou-se do sofá e saiu da sala. Sueli Pedrosa disse:

— Nossa! Parece que a pobrezinha ficou bastante perturbada, né, Amora?

— Também não é pra menos. Essa ONG é a vida da minha irmã. — disse Amora. — Impressionante até que ponto chega a crueldade humana, não é mesmo? Mas, o mais importante é que o bem é mais forte, ele sempre vence no final, não é? Por isso, não deixem de participar do meu bazar de sapatos. Ajudem a ONG da minha irmã.

Giane achou que Amora era mesmo muito cínica. Estava na cara que Malu suspeitava que tinha sido Amora quem botou fogo na Toca, mas não podia acusar sem provas. Ou seja, Amora botou fogo na ONG e agora se fazia de boazinha, de santa para a mídia, e ainda pedia para as pessoas ajudarem a Toca do Saci. Giane desligou a televisão.

— Docinho, né? — disse Giane, olhando para Bento.

— Quer parar de implicar com a Amora, Giane? Ela salvou a minha vida!

No ponto de vista de Bento, Giane devia parar de implicar com Amora e ser grata a ela, por ter salvo a vida dele. Para Bento, não podia haver maior prova de que Amora mudou. Ela estava voltando a ser aquela garota meiga e simples por quem ele se apaixonou quando era pequeno.

— Ahã! Mas tem alguma coisa nessa história que não se encaixa, né? — disse Giane.

Giane não falou mais nada para Bento. Mesmo porque não tinha provas, e nem adiantaria falar, porque Bento iria achar que era implicância dela. Resolveu deixar o assunto para lá, pelo menos por enquanto. Foi praticar fotografia. Tirou mais algumas fotos, e resolveu mostrar para Caio e para Maurício.

— Olha ali, ó! — disse Caio.

— Você leva jeito, Giane. — elogiou Maurício, apontando para umas fotografias na câmera. — Essa aí está boa.

— Tá boa. — disse Caio, apontando para a fotografia.

— Muito bacana. — disse Maurício.

— Olha essa! — disse Caio.

— Fotógrafa. — disse Maurício.

Giane virou-se, os rapazes também, e viram que o carro de Amora estava na rua. Amora já havia descido do carro e estava falando ao celular com a mãe:

— ... Não faz pergunta, ele sabe o que tem que fazer. Agora eu não posso falar.

Amora mandou Bolívar, o mordomo, instalar uma escuta, uma espécie de equipamento de espionagem, no quarto da Malu. Malu disse ter certeza de que foi ela quem tacou fogo na toca do Saci, e que podia provar. Só não disse como iria provar, de que maneira. Amora queria saber qual prova Malu podia usar contra ela. Amora havia contado para a mãe que botou fogo na Toca para posar de heroína e assim ter o Bento de volta de maneira definitiva, incriminar o Fabinho e ainda dar o troco por tudo o que a sonsa da Malu havia feito para ela e para a mãe. Ela quis se vingar da Malu por todas as humilhações que a sonsa fez a ela e a mãe passarem. E Bárbara a havia alertado de que esse tipo de coisa deixa rastro. Fabinho podia ter um álibi provando que não foi ele. Algum vizinho da Toca podia tê-la visto entrar antes do fogo começar. Alguma câmera de segurança podia tê-la filmado. Ela não havia pensado em nada disso ao incendiar a ONG. Ela precisava dar um jeito de fazer com que ninguém acreditasse na Malu. Eliminaria as provas. Ninguém podia descobrir que ela havia tacado fogo na Toca. Todos tinham de acreditar que ela havia salvado a vida do Bento. Se alguma câmera filmou, ela daria um jeito de destruir a imagem. Se houvesse testemunha, ela ofereceria dinheiro para a pessoa falar que se enganou, que não a viu entrar na Toca antes do incêndio. Havia também a mensagem no celular do Bento. Mas de nada adiantaria apagar a mensagem, se alguma câmera da Toca a filmou. Amora precisava saber o que Malu pretendia fazer, antes de agir.

Giane continuou tirando fotos, e viu que Amora parecia irritada.

— Irritada, né? — Giane comentou com os rapazes.

Amora ficou furiosa ao ver que Giane estava fotografando-a.

— Ô garota! Você nunca ouviu falar em direito de imagem, não?

— E você não sabe o que é uma figura pública, nojentinha? — perguntou Caio. Sempre defendia sua amada.

Amora não gostou nada da maneira como Caio a tratou.

— Oi, Maurício. — disse Amora. — O Caio fala assim comigo e você não diz nada?

Maurício achou que Amora estava fazendo tempestade num copo d'água. Não precisava ficar tão brava só porque Giane estava fotografando. E Caio só estava defendendo a Giane. Amora devia parar de implicar com Giane. E ele é que não iria brigar com o Caio. Não havia razão para isso. Amora não devia brigar por causa de uma bobagem dessas.

— Eu escolho bem as minhas brigas, Amora. — disse Maurício. — E eu acho que você devia fazer o mesmo.

Deu para ver que Amora ficou chateada. Afinal, antes Maurício comia na mão dela. Ela achou que Maurício iria defendê-la. Caio e Giane riram. Giane surpreendeu-se. Antes, Maurício vivia que nem cachorrinho atrás da Amora e a defendia com unhas e dentes. Será que Maurício havia mudado? Giane disse para Maurício:

— Tá aí, cara, você subiu uns pontos no meu conceito, hein? Vamos lá, Caio?

— A gente está indo ver a exposição do Carlito Carvalhosa no Mac. — disse Caio.

— Olha só, legal! — disse Maurício. — Caio, sabe que você me deu uma boa ideia? Vou convidar a Malu.

Giane percebeu que Maurício estava muito interessado na Malu.

— Hum! Aproveita e manda um abraço pra ela. — disse Giane.

Maurício surpreendeu-se. Giane sempre implicou com a Malu.

— Ah, não! — disse Maurício. — É isso mesmo? A Giane mandando um abraço pra Malu?

— É, ué! — disse Giane.

Caio e Giane foram à exposição. À noite, Giane e Silvério foram à casa de Bento, que contou que ele e Amora voltaram.

— Quer dizer que você voltou com a Amora? Ela não perde tempo mesmo, né? — perguntou Giane.

Giane havia prometido não mais se meter nos rolos do Bento com Amora. E não pretendia mais se meter. Só que tudo mudou depois do incêndio da Toca. Agora a coisa estava ficando séria. Amora era uma criminosa. Bento não sabia com quem estava lidando. Giane estava preocupada.

— Ê, o quê que você tem com isso? Você não tá com o Caio, menina? — disse Silvério.

— Não tenho nada, pai. Só que o Caio é bom caráter. A Amora...

— A Amora salvou a minha vida, Giane! — disse Bento.

Para ele, não podia haver maior prova de amor. O carinho que ele tinha por Malu era eterno, independentemente de laços de sangue. Seria sempre amigo dela. Mas resolveu dar outra chance para Amora. Amora estava dando várias provas de que havia mudado. Aos poucos, ela estava voltando a ser o que era na infância. Ele acreditava que a essência da pessoa não mudava. E a paixão dele por Amora estava renascendo. Agora que Amora resolveu mudar de vida, as diferenças entre eles diminuiriam. Ele sabia que aquela menina meiga e simples que Amora foi não havia desaparecido completamente, estava apenas soterrada debaixo da futilidade.

— É verdade. Ninguém pode negar, né? — disse Silvério.

— Pois eu duvido que o Fabinho quisesse te matar. — disse Giane.

— Eu sei o que eu vi! — disse Bento.

Ele viu Fabinho com o fósforo aceso na mão, prestes a atear fogo. Fabinho o odiava, sempre teve inveja dele, o perseguia desde criança. Bento acreditava que Fabinho era capaz de tudo para destruí-lo, inclusive atentar contra sua vida. Fabinho era um marginal, um criminoso, um assassino. Fabinho tinha histórico. Tinha passagens na polícia. Fabinho destruiu a estufa, por pouco não matou Odila, roubou moto, tentou subornar policiais, deixou a mãe adotiva pagar por um crime que ele cometeu. Também tentou dar um golpe no Plinio. Bento não entendia como Giane podia defender Fabinho, achar que Amora tacou fogo na Toca. Amora não era criminosa, incendiária. Onde Giane estava com a cabeça? Na opinião dele, a implicância da Giane com Amora estava ultrapassando os limites.

Giane achava Bento um bobo. Bento não viu Fabinho atear fogo na Toca, porque desmaiou. Ele era um otário para acreditar na versão da Amora. Quando se tratava de Amora, Bento virava um perfeito imbecil. A paixão não o deixava raciocinar direito. Giane pensava que Bento estava obcecado pela ideia de resgatar a garotinha meiga do passado. Ela não engolia esta história de Amora sair como heroína. Não tinha provas, mas sentia que havia alguma coisa errada. Fabinho não era flor que se cheire, podia ter mil defeitos, podia ter aprontado para caramba, mas assassino ele não era. Fabinho não era tão ruim e a Amora não era o anjo que o Bento pensava. Bento não percebia que era mais uma armação da Amora, para incriminar o Fabinho, se valendo da má fama dele, prejudicar Malu e ainda se fazer de santa. Tanto que Amora se vangloriou para a mídia. Giane tinha ódio de Amora. Amora quase matou o Bento para posar de salvadora e ainda ficava se vangloriando para o Brasil inteiro, para limpar sua imagem, ganhar admiradores. Amora fazia de tudo para voltar para a mídia. Giane entendia que o objetivo da Amora não era matar o Bento, era posar de heroína, para ele comer na mão dela. Mas Amora não pensou que a armação dela podia ter dado errado, que Bento podia ter morrido?

— E eu sei o que eu sinto, Bento. Minha intuição não falha!

— Para de pensar na Amora com essa raiva toda, menina! — disse Silvério. Para ele, o rancor que Giane tinha da Amora já estava comprometendo a capacidade da garota de raciocinar.

— Deixa, tio. Não adianta! Não adianta! — disse Bento. — Não conhece a mula empacada?

— Melhor ser mula empacada do que aquela lacraia da Amora, né, Bento? — disse Giane, impaciente. — Mas se você quiser pensar que o Fabinho te matou, Amora te salvou, você pensa.

— Tá bom, Giane. — disse Bento.

— Pensa, Bento! Faz o que você quiser da sua vida. Ah! — disse Giane.

— Teimosa! Mula empacada! — disse Bento. Giane já tinha ido embora. Silvério continuou na casa de Bento. Estava fazendo um chá para ele. Mais tarde, Giane estava em casa e Caio apareceu. Ficaram na sala.

Caio percebeu que Giane estava pensativa, com a cabeça longe dali. Então começou a estalar os dedos, para chamar atenção dela e trazê-la para o mundo real:

— Alô! Alô, planeta Terra chamando Giane. — disse Caio.

Giane riu.

— O que você está pensando? — perguntou Caio.

— Tô pensando que a Amora armou pra incriminar o Fabinho e pagar de salvadora da pátria pro Bento. — disse Giane.

— Não! Não, você não vai ficar falando nesse assunto outra vez. — disse Caio.

— Não consigo tirar isso da cabeça, Caio.

— Vamos dar uma voltinha de moto, pra arejar a cabeça? — sugeriu Caio.

— Topei! — disse Giane.

— Vamos! — disse Caio, levantando-se do sofá.

— Vamos! — disse Giane, levantando-se em seguida.

Foram dar uma voltinha de moto. No dia seguinte, bem cedo, foram tomar café na padaria.

— Tem coisa melhor do que pão saído do forno? — perguntou Giane.

— Tem coisa melhor do que a gente ver o dia amanhecer juntos? —perguntou Caio.

Giane riu, olhou para o lado e surpreendeu-se ao ver Fabinho. Desde a noite do incêndio da Toca, Fabinho havia sumido. Ninguém sabia dele. Agora ele apareceu. Ela precisava falar com ele, tirar a história a limpo, saber o que exatamente havia acontecido na noite do incêndio. Fabinho estava olhando as tortas nas vitrines, nem notou a presença dela e de Caio.

— Fabinho? — gritou Giane.

O rapaz olhou para ela e assustou-se.

— Peraí, peraí, cara, não... — disse Giane, levantando-se da mesa.

Porém, Fabinho já havia fugido. Giane bem que notou o estado lamentável do garoto. Estava sujo, esfarrapado. Devia ter dormido na rua. Giane ficou com pena dele. Apesar de não simpatizar com o rapaz, não queria o mal dele. Queria ajudá-lo, fazer alguma coisa por ele. Ele não podia conti-nuar na rua.

— Meu Deus, você viu, Caio? — disse Giane. — O menino parece um mendigo, todo sujo. Parece um fugitivo.

— Você quer pegar a moto e ir atrás dele? — perguntou Caio. Afinal, Fabinho não devia ter ido muito longe.

— Ah, até a gente pagar a conta, ele já sumiu, né? — disse Giane. — Ele deve estar pensando que eu vou chamar a polícia, né? Coitado!

Afinal, Fabinho podia não ter botado fogo na Toca do Saci, mas havia tentado. E tentar incendiar uma ONG era crime. Com certeza, Fabinho não queria mais um processo nas costas dele. Por isso fugiu. Mas Giane jamais chamaria a polícia. Não deixaria Fabinho ser acusado de um crime que não cometeu e Amora se safar dessa. Giane acreditava que a verdade iria aparecer cedo ou tarde.

Giane passou em casa, arrumou-se, trocou de roupa. Quando estava subindo a rua, viu Amora sair da casa do Bento e se dirigir ao carro estacionado. Pelo visto, ela havia passado a noite na casa do Bento.

— Dormiu na casa do Bento! — comentou Giane. — Tanto fez que conseguiu garfar o coitado, né, Amora?

Bastou ver Giane para o humor de Amora, que já não estava bom, ficar péssimo. Mas não era seu dia mesmo. Havia começado mal. Ela tinha acabado de ter uma briga feia com Malu. A sonsa tentou fazer a caveira dela para o Bento, a acusou de tacar fogo na Toca do Saci. Felizmente, ela havia detonado o celular, assim ninguém mais veria a mensagem. Ela se antecipou e, através da esculta, descobriu que Malu pretendia usar o celular como prova. Malu não conseguiu provar a acusação, passou por louca. E ela, Amora, ainda usou a rivalidade que tinha com Malu em seu favor. Amora sabia que Bento iria acreditar nela, que ele iria achar que Malu estava implicando com ela, colocando coisas na cabeça. Como se não bastasse a Malu, havia a Giane. Ela não tinha um minuto de sossego. Por que Giane não cuidava da própria vida, em vez de se meter na vida dela? Além do mais, Amora continuava não suportando olhar na cara da Giane. Aquele lugar, aquelas pessoas, a faziam lembrar de ter passado toda a infância descalça. Só se sentia mais segura quando estava com Bento.

— Giane, você não virou modelo? Você não tá namorando o Caio? — perguntou Amora. — Então, o quê que falta pra você me deixar em paz, hein?

— Tem razão, né? Por que a gente continuar nessa briguinha? Já que, agora, a gente vai ser vizinha, né? — perguntou Giane, irônica.

— Mais cedo do que você imagina! — disse Amora.

— Então, ó, se prepara pra curtir de montão. — disse Giane, sarcástica. — Porque aqui continua tudo daquele jeitinho, aquele que você gosta, sabe? Quarta, a gente assiste futebol. Sábado, tem aquela feijoadinha na tia Odila. Ah, e domingo tem a macarronada na tia Salma. Fala sério, era disso que você tava com saudade? Fala pra mim, Amora!

— Você acha que o Bento vai continuar nesse buraco, garota? — disse Amora, abrindo a porta do carro. — O Bento agora é rico, pentelha, se liga!

Amora acreditava que cedo ou tarde convenceria Bento a sair dali. No que dependesse dela, ela e Bento não ficariam muito tempo na Casa Verde.

Giane não pensava assim. Somente a Amora para pensar que Bento iria mudar a vida dele só porque ficou rico. Acontecia que Giane conhecia Bento muito bem, melhor do que a Amora. Não que Bento não desse valor ao dinheiro. O problema, para Bento, não estava no dinheiro em si, e sim na origem do dinheiro. Bento tinha orgulho do dinheiro que era fruto do trabalho dele. Bento não iria querer receber nada de mão beijada, só por ser filho de pai rico. Bento era cheio de princípios e jamais gastaria um centavo da herança para bancar a vida de princesa que a Amora achava que merecia. Bento até podia usar o dinheiro, mas para outra finalidade. Para bancar o projeto que ele tinha com a Malu, por exemplo. Mas por enquanto Bento não queria mexer na parte dele da herança. Era capaz de esperar a morte do Plínio para decidir o que fazer com o dinheiro. Se Amora ainda achava que iria se dar bem, que Bento ia fazer as vontades dela, estava enganada. Bento não gostava de ostentação. Independentemente da herança, Bento continuaria sendo quem era. No pensamento de Giane, se Amora achava que Bento iria entrar para o mundo dela e se corromper, que ela iria conseguir moldá-lo, o tiro havia saído pela culatra.

Amora ia entrar no carro e fechar a porta, porém, Giane segurou a porta.

— Você achou que o Bento ia mudar, né? Só porque ele é filho do Plínio. — disse Giane. — Mas você se ferrou bonito, porque o Bento não muda, cara. — deu de ombros.

— Será que você pode soltar a minha porta, por favor! — disse Amora.

— Sabe quem eu vi hoje cedo? Fabinho! — disse Giane.

— É? Por quê que você não chamou a polícia, hein? — disse Amora. — É isso que a gente faz com bandido. Solta a porta!

Giane fechou a porta e disse:

— É isso que eu vou fazer um dia, mas é com você, patricinha!

Giane foi para a agência, conversar com Érico sobre a campanha da You. Érico, Sílvia, Jonas e Caio estavam presentes na reunião.

— E a campanha do Nelson fez tanto sucesso na internet, que agora ele quer fazer um comercial pra TV, com você, é claro. — disse Érico para Giane. — Então, nós estamos pensando num roteiro bem jovem, sabe?

— Eu posso dirigir? — perguntou Caio.

— Ué, você não tá começando uma agência de modelos, Caio? — perguntou Sílvia.

— É. Ele agora tá querendo fazer tudo, tá se achando! — disse Giane, brincando, fazendo cócegas na barriga dele.

— É, ué, por que, é proibido? — perguntou Caio.

— Não, eu acho ótimo! — disse Sílvia, assentindo.

Giane riu e tomou um gole d’água. Sílvia perguntou:

— Vem cá, você topa fazer mais essa campanha?

— Bora lá! — disse Giane.

— Quem diria que você ia gostar do negócio, hein? — perguntou Sílvia.

— É, pois é. — disse Giane, pendurando a bolsa no ombro. — Agora eu tenho que ir, galera. — levantou-se. — Beijo, beijo.

— Beijo, Giane, valeu! — disse Érico. — Pode deixar, Caio, a gente liga.

— Valeu, tchau! — disse Caio, despedindo-se.

— Tchau, tchau, Caio. — disse Érico.

Mais tarde, Maurício teve a ideia de organizar um mutirão para arrumar a Toca do Saci. Jonas fez a campanha na internet e mandou para todo mundo que conhecia. Logo todos se juntaram para arrumar a Toca, lixar as paredes, pintá-las e arrumar, colocar no lugar tudo o que estava jogado, espalhado. Muita gente foi participar do mutirão. Maurício ajudou um pouco, porém logo teve de ir embora, pois tinha de trabalhar. Giane foi com Bento levar a comida para todos os que estavam participando do mutirão.

— E aí, gente? — gritou Giane, cumprimentando todo mundo.

— E aí? — disse Bento.

— E aí, galera? Chegou o rango! Ê! — gritou Giane.

Malu foi ao encontro de Giane e Bento, feliz.

— Não acredito! — disse Malu.

Ela achava que Bento não iria ajudar na reconstrução da Toca, depois da briga feia que tiveram. Ela havia ficado magoada com Bento. Ele só faltou expulsá-la quando ela acusou Amora de ter tacado fogo na Toca. Amora conseguiu envenenar Bento contra ela. Ficou parecendo que ela era a mentirosa e mau-caráter, e Amora ainda saiu de vítima. Além disso, era óbvio que Amora iria fazer de tudo para convencer Bento a não participar do mutirão. Malu também não esperava que Giane viesse ajudar. Giane sempre implicou com ela, e nunca havia se interessado pela Toca antes.

— A gente pode discordar em muitas coisas, Malu, mas a Toca não é uma delas. — disse Bento.

Realmente, Bento e Malu discordavam sobre Amora e o incêndio na Toca. Haviam até discutido porque Malu havia acusado Amora de ter tacado fogo na Toca do Saci. Malu havia ido até a casa dele para mostrar a mensagem no celular dele. Porém, o celular não estava funcionando, e Malu acusou Amora de detonar o celular para ela não mostrar a mensagem para mais ninguém. E disse que Amora fez isso porque tinha culpa no cartório. Malu disse que se ele não havia enviado mensagem nenhuma, só podia ter sido o Fabinho. E se Fabinho enviou a mensagem, era porque havia desistido de incendiar a Toca. Se não foi Fabinho, foi Amora quem tacou fogo. De acordo com Malu, Amora chegou na Toca, viu o circo armado e terminou o serviço. Amora ouviu Malu falar com ele, e acusou Malu de mentir para derrubá-la, e de tentar destruir a relação deles. Ela disse para Malu provar as acusações. Foi uma briga feia.

Só que Bento não acreditava que Amora seria capaz de colocar a vida dele em risco, para posar de heroína, incriminar o Fabinho e atingir a Malu. Amora o amava. Ele acreditava que o amor dela era sincero. Ele sabia que Amora havia feito muita besteira, mas daí a botar fogo na Toca com ele dentro, era demais. Ela não arriscaria a vida dele e dela própria só para botar a culpa no Fabinho ou atingir a Malu. E ela não precisava posar de heroína. Não precisava nem dar provas de amor, porém, o fez. Além disso, ele acreditava que Amora havia mudado, se arrependido. E ela não era uma criminosa. Não tinha ficha na polícia. O histórico dela era impecável. Fabinho era o bandido da história. Ele viu Fabinho com o fósforo aceso na mão. Quanto à mensagem, ele podia ter mandado, só que não lembrava, por ter batido a cabeça e desmaiado. Qualquer pessoa podia ter visto a mensagem no celular da Malu e apagado. Amora não viu mensagem nenhuma. Bento acreditava que Malu estava imaginando coisas e havia acusado Amora por pirraça. Malu realmente implicava com Amora. Bento achava que o ódio da Malu pela Amora estava ficando irracional. Malu estava transformando a rivalidade com Amora em um cavalo de batalha. Malu não tinha como provar as acusações que fez contra Amora. Malu ficou magoada com ele. Até ficaram sem se falar. Mas a poeira já havia abaixado.

— Viemos. — disse Giane.

— E aí, como é que a gente pode ajudar? — perguntou Bento.

— Me dando um abraço. — disse Malu, abraçando Bento e Giane.

— Ah, meu Deus! Eu não gosto de grude, hein? — disse Giane, animada.

Bento deu um beijo no rosto de Malu. Não gostava de brigar com ela.

— Meu filho, que bom que vocês vieram. — disse Irene, aproximando-se e abraçando-o.

— E a gente ia faltar na reconstrução da Toca do Saci? — disse Bento, e anunciou para todo mundo. — Ainda mais agora, que a Toca do Saci ganhou o apoio do Criança Esperança!

— É mesmo! — disse Giane.

Bento inscreveu a Toca do Saci para receber apoio do Criança Esperança, e a ONG foi selecionada.

Malu ficou muito feliz. Era mesmo uma notícia maravilhosa.

— É, gente, depois da tempestade vem a bonança, tá? — disse Celinha.

— E falando em coisa boa, quem tá com fome? Chegou o rango! — disse Giane, levantando as sacolas.

— Pô, ainda bem. Meu estômago tá urrando de fome. Me dá aqui, me dá aqui. — disse Jonas, aproximando-se de Giane e pegando as sacolas.

— E o meu está colando nas costas! — disse Madá.

— Vamos lá, galera! — gritou Giane.

As quentinhas foram distribuídas para todas as pessoas ali na Toca. Bento entregou a comida para Emília e Celinha, e elas levaram para a mesa. Malu aproximou-se de Bento.

— Que notícia boa! — disse Malu, abraçando-o.

— Não é, Malu? — disse Bento, rindo. — Eu não quero perder a sua amizade nunca, viu? Nunca! — soltou-a. — Você é uma das pessoas que eu mais amo nessa vida.

Bento ficou mal por causa da briga com Malu. Ele acreditava que pela lógica, Amora era inocente. Para ele era mais provável que o Fabinho fosse o culpado pelo incêndio da Toca. Ele havia visto Fabinho com o fósforo aceso na mão, pronto para tacar fogo. Foi por isso que eles lutaram. No raciocínio de Bento, quem destrói uma estufa é capaz de incendiar uma ONG. Fabinho era o bandido, o vândalo, o incendiário. Era um assassino, pois havia tentado matar Odila e depois tentou matá-lo. Bento estava com ódio de Fabinho, e agradecido por Amora ter salvo sua vida. Porém, Malu estava defendendo a versão na qual ela acreditava. Malu acreditava na bondade intrínseca das pessoas e ela havia decidido acreditar na capacidade de Fabinho se redimir. Bento até entendia, embora ele também achasse que Malu estava era se deixando levar pela raiva e pela mágoa que sempre sentiu da Amora. Malu tinha raiva da Amora, achava que Amora não prestava, por isso não engolia a história de Amora sair como heroína. Além disso, Malu certamente morria de ciúmes dele com Amora. Até outro dia, ele e Malu estavam apaixonados. Bento achava que não devia estar sendo fácil para Malu enxergá-lo como irmão. Os sentimentos não mudam de um dia para o outro por causa de um exame. Além disso, não devia estar sendo fácil para Malu vê-lo ao lado de Amora. Mas Malu era uma boa pessoa. Ela podia estar equivocada, mas não mal intencionada. Além disso, Malu era sua irmã. Bento quis dar um ponto final neste clima ruim. Ele não queria perder a amizade de Malu.

— Também te amo muito. Te amo! Te amo! — disse Malu, abraçando-o novamente. — Ai, como é ruim brigar com você, Bento!

— É. — disse Bento.

Malu estava feliz por ter feito as pazes com Bento. Também estava feliz por contar com a ajuda de tanta gente. Principalmente de Maurício, que foi quem teve a ideia de fazer o mutirão. Maurício estava sendo maravilhoso com ela. Estava fazendo de tudo para ajudá-la, apoiá-la. Ela e Maurício estavam próximos, desde a história dos exames de DNA. Maurício a consolou, deu a maior força quando o exame de Fabinho deu negativo e ela descobriu que Bento podia ser seu irmão. Era bom saber que podia contar com Maurício tanto nos bons quanto nos maus momentos. Ele era o melhor amigo que ela podia ter. Era uma pena ele não estar ali. Maurício até ajudou um pouco, mas logo teve de ir embora, pois estava com um cliente esperando-o no estúdio.

— Vem cá, boa essa notícia, hein? — disse Malu para Bento. — Quem sabe a gente não consegue aí fazer o nosso projeto de ampliar a toca com esse apoio do Criança Esperança?

— É. — disse Bento.

Giane foi até Bento e Malu. Giane queria participar do projeto, e ficar amiga de Malu. Já estava mais do que na hora de parar com a briga. Ela já não era mais apaixonada pelo Bento, nem vivia mais em função dele, apesar de continuar se preocupando com ele. O que era natural, afinal, Bento era seu amigo de infância. Era e continuaria sendo seu melhor amigo. E Malu era irmã dele. Parecia ser gente boa.

— E eu quero ajudar também. — disse Giane. — Aliás, eu queria te pedir desculpas, Malu.

Bento, atrás de Giane, fez cara de espanto, apontando para ela, antes de se afastar. Malu sorriu.

— Por eu ser tão chata com você, às vezes. — disse Giane. — Se você quiser ser amiga de uma casca-grossa...

Malu abraçou-a.

— Eu vou adorar. — disse Malu. — Vamos fazer suco?

— Vamos, vem! — disse Giane.

Giane ajudou Malu a fazer o suco. Depois foi almoçar. A essa altura, Charlene e Wilson já haviam chegado. Giane havia mandado uma mensagem para Charlene, convidando-a para o mutirão, e Charlene veio junto com Wilson. Giane sentou-se ao lado de Jonas, e em frente ao Bento e à Renata. Bento começou a distribuir o empadão da Salma para as pessoas mais próximas a ele. Jonas colocou suco no copo de Giane.

— Obrigada. — disse Giane. — Que delícia, hein, esse empadão da tia Salma?

— É isso mesmo que eu entendi, Renata? — disse Bento, entregando um pedaço do empadão para Irene. — Você vai trabalhar pro Wilson?

Bento não gostava nada da ideia de Renata trabalhar para Wilson.

— Ahã. Vou. E eu tô com o pressentimento que vai dar muito certo. — disse Renata.

— Lógico que sim. Eu vou cuidar pessoalmente disso. — disse Vinny, que estava sentado ao lado da Renata.

Madá levantou-se da mesa e disse:

— Gente, gente, a comida está uma delícia, mas nós viemos aqui para trabalhar! Então, bora lá, bora lá, bora lá, bora lá!

Giane levantou-se e começou a ajudar a tirar as coisas da mesa.

— Pô, que bom que você e a Malu se acertaram, né? — disse Jonas.

— É, ela é gente boa. Só é meio patricinha, mas tudo bem, que agora eu sou modelo, patricinha, não posso falar nada. — disse Giane, levando os pratos. — Vem.

Malu e Bento foram dar uma olhada nos brinquedos. Entre eles, estavam os brinquedos que Wilson trouxe.

— Foi o Wilson que fez, você acredita? — disse Malu, olhando alguns dos brinquedos de madeira feitos por Wilson.

Para Bento, era difícil de acreditar.

— Não é possível, Malu. — disse Bento, dando uma olhada em um aviãozinho feito de madeira. — Um cara como o Wilson não teria sensibilidade pra fazer uma coisa tão linda.

— Mas por que essa implicância com esse homem, meu filho? — perguntou Irene, que ouviu a conversa e aproximou-se.

— É uma longa história, Irene. — disse Bento. — É assim desde que eu era criança.

Vinny, que estava por perto e ouviu parte da conversa, aproximou-se.

— Mas quem faz brinquedos assim tem salvação. — defendeu Vinny, cruzando os braços. — Você não acha?

Bento achava que as pessoas eram surpreendentes. Nunca imaginou que Wilson fosse capaz de fazer aqueles brinquedos.

— Ai, eu acho! — disse Malu. — Eu acho. Ainda mais vendo o seu pai assim, tão desprendido.

Giane, que ouviu parte da conversa, aproximou-se e ficou ao lado de Malu. Neste momento, viu Amora chegar e não gostou nada disso, porque ela não era sincera. Na cabeça de Giane, com certeza, Amora ficou sabendo que Bento estava participando do mutirão e resolveu posar de santinha, mais uma vez. Amora fazia de tudo para impressionar o Bento, para mostrar para ele que ela havia mudado. Estava fazendo de tudo para fisgá-lo.

— É, já umas e outras, eu acho que não são tão desprendidas assim não. — disse Giane. — Olha aí.

— Amora! O que você tá fazendo aqui? — perguntou Bento, feliz, aproximando-se. Ele achava que Amora não viria por estar brigada com a Malu. Ela havia até pedido para ele não ir no mutirão.

Amora não suportava a Toca do Saci. Era muito difícil para ela botar os pés na ONG, olhar para as crianças, que a lembravam da infância descalça, do lar de adoção. Doía demais. Não suportava. Olhar para aquelas crianças era como olhar para si mesma, para a menininha abandonada e desamparada que ela foi um dia. Não gostava de ter contato com nada que lembrasse sua infância. E agora ela não queria olhar na cara da sonsa da Malu também, ainda mais depois da briga que tiveram. E achava um absurdo Bento querer ajudar a Malu depois do que houve. Até pediu para ele não ir no mutirão, mas ele foi mesmo assim. Mas mais uma vez, ela estava ali por causa do Bento. É claro que não deixaria de fazer alguma coisa para impressioná-lo. Assim, conseguiria casar com Bento depressa. E fazia questão de mostrar ao Brasil que Amora Campana podia ser generosa. Ela pretendia reconstruir a carreira e limpar sua imagem. Faria de tudo para ficar bem com a mídia. Por isso mostraria ao país inteiro que ela estava ajudando crianças carentes. Mas faria Bento acreditar que não foi ela quem chamou Sueli Pedrosa. Bento tinha de acreditar que ela deixou a vida de celebridade para trás, pelo menos por enquanto. Depois ela o convenceria a botar a mão na herança, comprar uma casa no Jardim Europa. Era uma questão de tempo. Com jeitinho, aos poucos, ela mudaria aquela cabeça dura e conseguiria reconstruir a carreira. Bento acabaria se convencendo de que o mundo da fama não era tão ruim assim.

Malu, Giane, Irene e Plínio ficaram com a cara amarrada ao verem Amora. Irene e Plínio trocaram olhares. Irene não simpatizava com Amora, e não gostou nada de saber que Bento havia voltado a namorar com ela, e que pretendia se casar com a víbora. Para Irene ainda era difícil enxergar Bento como filho. Afinal, ela passou a vida inteira acreditando que Fabinho era filho dela. Mas tinha um carinho enorme por Bento e não queria vê-lo sofrer. Ela tinha certeza de que Amora faria Bento sofrer. Amora não era flor que se cheire. Além disso, Irene acreditava que por mais que Fabinho tenha aprontado, ele não chegaria ao ponto de incendiar a Toca com o Bento dentro. A sua intuição lhe dizia que Fabinho não seria capaz. Se não foi Fabinho, só podia ter sido Amora. Irene não gostava da ideia de o filho se casar com uma criminosa. Porém, Plínio achava que Bento tinha de descobrir sozinho que Amora não era a mulher certa para ele, e que se opor ao casamento só iria servir para aproximá-lo ainda mais da Amora.

Malu, por sua vez, não queria nem olhar na cara da Amora. Amora tacou fogo na Toca do Saci, se fez de vítima para o Bento, colocou o Bento contra ela e agora veio ajudar na reconstrução da ONG. Ainda fazia cara de santa, como se não tivesse feito nada. Na opinião de Malu, era muita cara-de-pau da parte da Amora aparecer ali depois de tudo.

— Então, Amora, o quê que você veio fazer aqui? — perguntou Bento.

— Eu que te pergunto. O quê que você tá fazendo aqui depois de quase ter morrido ontem? — perguntou Amora.

— A Malu é minha irmã. E eu não ia deixar ela sozinha num momento desses.

Bento achava que Amora estava exagerando no cuidado. Ele estava ótimo. Nem se machucou muito. E ela devia parar de implicar com Malu. A Toca do Saci era muito maior do que a picuinha entre as duas.

— Tá bom, já que é assim. — disse Amora, e falou mais alto. — Ô Jonas, você pode me ajudar? Eu deixei o carro aberto e tem umas coisas pra trazer. Eu comprei uma estante nova, linda.

— Sério? — disse Bento, surpreso.

— Não quero nada dessa aí. — disse Malu, indignada.

— Não é pra você, filha, é pras crianças da Toca. — disse Plínio.

Para Plínio, Malu devia parar de implicar com Amora. Malu cismou que Amora tacou fogo na Toca, mas não tinha provas. Ele acreditava que foi Fabinho, não Amora, quem incendiou a Toca. Para Plínio, Malu estava se deixando levar pela mágoa e pela raiva que tinha da Amora. Ainda mais agora que Bento e Amora voltaram, devia estar sendo muito difícil para Malu. Até outro dia, Malu e Bento estavam apaixonados, namorando, fazendo planos para o futuro. Não estava sendo nada fácil para Malu enxergar Bento como irmão, e ela ainda tinha de vê-lo ao lado da Amora. Plínio podia compreender que Malu ainda sofria, que era difícil para ela. Mas Malu também tinha de entender que a Toca do Saci era muito maior do que a picuinha entre ela e Amora. Além do mais, Amora estava se esforçando para melhorar. Plínio acreditava que Amora estava mudando.

— E tem também duas caixas de livros infantis. Estão lá no carro. — disse Amora.

Giane não conseguia engolir essa bondade da Amora. Amora nunca se importou com as crianças carentes da Toca do Saci. E com certeza ela chamou a imprensa para divulgar a bondade dela para todo o Brasil.

— Ai, meu Deus, como ela é fofa, não é não, Bento? — disse Giane.

— Para com isso, Giane! Se desarma um pouco! — disse Bento.

— E com certeza tem uma razão pra... — disse Giane. Viu que Sueli Pedrosa chegou neste exato momento. — Bingo!

Giane afastou-se. O Bento era muito otário mesmo. Estava na cara que Amora iria se fazer de boazinha para a mídia e ainda aproveitar para anunciar seu casamento com Bento. É claro que a Amora estava adorando a ideia de ser a nora do Plínio Campana.

Para Giane, só mesmo sendo muito idiota para acreditar na mudança da Amora. A Amora dizia que iria levar uma vida simples, anônima, longe dos holofotes, mas continuava dando um jeito de aparecer na mídia. Se Amora tivesse realmente mudado, como dizia, não iria ficar aparecendo na mídia e ainda teria cortado de vez relações com aquela víbora da mamãezinha adotiva dela, que vivia enchendo a cabeça dela de coisas que não prestavam. Mas parecia que Amora não queria mudar.

Giane ficou observando. Seria divertido ver a encenação da Amora.

— Ah não, Sueli Pedrosa, não acredito! — disse Amora.

— Amora Campana e Bento de Jesus, sinto cheiro de remake no ar. — disse Sueli Pedrosa, aproximando-se com toda a equipe. Apontou o microfone para Amora.

— É, você tem razão. Eu e o Bento vamos nos casar. — disse Amora.

— Bento, confirma aqui pra gente. — disse Sueli. — Então você e a Amora vão mesmo...

— Isso é assunto nosso, tá, Sueli? — disse Bento. — Você quer ajudar? Pode começar carregando esses móveis queimados lá pra fora.

Bento afastou-se.

— Não, eu prefiro mostrar o mutirão. — disse Sueli. — Cada um ajuda como pode, não é?

Giane aproximou-se de Amora.

— Coincidência, não é, Amora? Sueli chegar logo depois de você.

— Giane, fala com a minha sombra, fala. — disse Amora, e afastou-se.

Giane passou horas na Toca do Saci. Malu, Irene, Bento, e o restante do pessoal também. Plínio teve de ir embora, pois tinha ficado de ver a coluna dele. Amora também foi embora, pois tinha de terminar de organizar as coisas do bazar. Mais tarde, Giane foi ajudar Malu a arrumar as coisas, a colocar os livros nas estantes. Conversaram bastante sobre o incêndio. Se antes Malu suspeitava de Amora, agora tinha certeza de que foi mesmo a entojada que botou fogo na Toca. Malu tinha certeza de que foi Fabinho que enviou aquela mensagem para ela, pelo celular do Bento. Malu acreditava que Fabinho não era tão ruim, que ele tinha jeito. Ela não teria dado uma chance para Fabinho se não acreditasse que ele podia se tornar uma pessoa melhor. Pena que Malu não havia conseguido mostrar a mensagem para o Bento, porque Amora conseguiu detonar o celular. Estava aí a prova de que Amora tinha culpa no cartório.

E o pior é que estava sendo difícil de conseguir outra prova. A Toca do Saci estava sem câmeras de segurança. O sistema de segurança foi desativado porque Malu ia trocar. Algumas câmeras estavam estragadas, outras com imagem ruim, então Malu resolveu trocar as antigas câmeras por outras melhores. Logo, como não havia câmeras, não havia como saber quem incendiou a ONG. Malu não conseguiu nenhuma testemunha tam-bém. Alguém que tivesse visto a hora em que Fabinho saiu, ou visto a hora em que Amora entrou na Toca. Porém, Malu não estava disposta a desistir. Só não queria acusar Fabinho, nem conseguiu provas contra Amora, por isso não envolveu a polícia no caso. Não prestou queixa, nem nada. Estava investigando por conta própria, e não deixou ninguém denunciar o Fabinho, nem mesmo o Plínio. Giane e Malu também conversaram sobre o namoro de Giane com Caio.

— E o Caio te matriculou no curso de inglês? — perguntou Malu.

— Foi. Mas o que eu gosto mesmo é de fotografia. — disse Giane, sentando-se no sofá.

— Você não sente saudade da Acácia Amarela, não? — perguntou Malu, enquanto arrumava as coisas.

— Ah, sinto, né, Malu? Mas já deu. — disse Giane, pegando um livro e folheando-o. — Eu até tentei vender a minha parte, mas o Bento quer que eu continue sócia.

Malu adorou saber que Giane continuava sócia de Bento, mesmo não trabalhando mais na loja. Não como antes. Giane só dava uma mão de vez em quando. Malu achava importante Giane ficar perto de Bento. Ainda mais agora que Bento voltou com Amora. Sabia que Giane adorava Bento e que iria tentar alertá-lo, abrir os olhos dele para a falsidade da Amora. Malu ainda tinha dificuldade em enxergar Bento como irmão, e não estava sendo nada fácil vê-lo ao lado da Amora. Mas independentemente disso, ela tinha certeza de que Amora faria Bento sofrer. Amora estava enganando-o. No fim da história, Bento iria quebrar a cara feio. Malu achava que Giane era uma opção muito melhor para o Bento. Só que infelizmente Bento gostava da víbora da Amora, e Giane estava com Caio.

— Ah, muito bem! — disse Malu, olhando uns brinquedos. — Não fica longe do meu irmão, não, Giane. A Amora precisa sentir que a gente tá de olho nela.

— Hum! É. — disse Giane.

— Foi aqui que teve um incêndio? — perguntou Caio, entrando na sala.

— Foi. — disse Malu, ajeitando as coisas sobre a mesa de centro.

— Oi, Caio, que bom que você chegou! — disse Giane, abraçando-o e beijando-o. Caio também deu um beijo no rosto dela. — Precisava ver, veio a maior galera, pena que já acabou!

— Olha, Malu. — disse Caio, entregando uma câmera para Malu. — De repente uma das suas crianças pode ser o próximo Sebastião Salgado!

— Ô, Caio, obrigada! — disse Malu.

— Que legal! — disse Giane.

— Vai ter que vir aqui ensinar as crianças a fotografar. — disse Malu.

Giane riu, abraçada a Caio.

— Fechado. — disse Caio. — A Giane vem comigo.

— Com certeza, eu ajudo. — disse Giane. — Agora, vambora que eu marquei com o pessoal lá no Cantaí. — pegou a bolsa.

— Vambora. Tchau, tchau. — disse Caio, acenando para Malu.

— Olha, Malu, você se cuida e cuidado com a tua irmã! — disse Giane, despedindo-se. Ela achava que se Amora foi capaz de incendiar a ONG, e ainda posar de vítima para o Bento, fazendo parecer que Malu era mau-caráter, então Amora era capaz de tudo.

— Pode deixar. Obrigada, Caio! — disse Malu.

— De nada. — disse Caio.

Quando Caio e Giane estavam saindo, cruzaram com Emília.

— Oi. — disse Giane.

— Oi, tudo bem? — disse Caio.

— Tudo. — disse Emília.