Um amor inesperado

38 Incêndio na Toca do Saci


No dia seguinte, Caio e Giane haviam combinado de irem para a praia. Caio apareceu na rua logo cedo, montado em sua moto, e cumprimentou Silvério, que estava ajudando Bento a levar as flores para a van:

— E aí, sogrinho, tudo bem?

— Ah, “sogrinho”! — disse Silvério, achando graça.

— A Giane tá aí? — perguntou Caio.

— Deve estar chegando. — disse Silvério. — Vocês vão descer pra praia, né? Vão passear. Olha, cuidado com a estrada, hein! Pelo amor de...

— Ele já disse isso várias vezes. — comentou Giane, rindo, acabando de chegar, antes de dar um selinho em Caio. — Tudo bem, Bento?

— Tudo. Vem cá, vocês não acham perigoso, não, ir daqui até o litoral de moto? — disse Bento, preocupado. Ele tinha medo de acidente.

Giane deu de ombros. Nunca andou de moto antes, mas confiava em Caio.

— Não se preocupa, não, cara. Eu já cansei de fazer isso. — disse Caio, procurando tranquilizar Bento.

— Hum. — disse Giane.

Caio dirigiu-se à Giane.

— Já te contei que o meu sonho era ser piloto de teste de moto?

— Não. Ô, pai, olha só, relaxa que a gente volta de noitinha pra jantar com o senhor, tá? — disse Giane, procurando tranquilizar o pai, que morria de medo de acidente. Tinha certeza de que ela e Caio voltariam com vida e iriam jantar com Silvério, como haviam combinado. Isso depois de irem a seus compromissos. Caio tinha de ir trabalhar, e ela também tinha coisas a fazer.

— Tá bem. — disse Silvério.

— Chegando lá eu te ligo, valeu? — disse Giane, subindo na garupa da moto.

— Tá legal. Mas cuidado, hein, pelo amor de Deus! — disse Silvério.

— Cuidado! — disse Bento.

— Caio, vai devagar! — disse Silvério, preocupado.

— Relaxa! — disse Giane.

— Vai devagar, hein! — pediu Silvério.

— Relaxa! — disse Caio, entregando o capacete extra a Giane.

— Tá bom. Cuidado. — disse Silvério.

— Bora lá. — disse Giane, enfiando o capacete na cabeça.

— Vambora. — disse Caio.

Silvério viu que Giane não havia fechado direito o capacete.

— Aperta direito o capacete, aperta aí! — pediu Silvério, enquanto Caio dava a partida na moto. — Cuidado! Cuidado! Fecha! Fecha aqui! Fecha!

Porém, Caio e Giane partiram e não deram ouvidos. Foram direto para a praia. Assim que chegaram, Giane desceu da moto e tirou o capacete. Caio fez a mesma coisa. Giane viu que Caio estava com o cabelo bagunçado pelo vento. Ela colocou as mãos sobre a cabeça dele e riu, divertida.

— Gostou ou teve medo? — perguntou Caio.

— Adorei! É muito bom andar de moto, né? — disse Giane. — Sei lá, tudo parece mais vivo. Até que você manda bem.

— Vambora, que o dia tá lindo. Vamos. — disse Caio.

Desceram. Entraram na praia. Tiraram as roupas. Giane estava usando maiô por baixo. Definitivamente, Giane não gostava de biquíni. Ela não se sentia confortável para usar um. Não gostava muito de exibir seu corpo. Não estava acostumada. Caio também estava apenas de sunga.

— Sabia que tem um monte de coisa que eu faço bem? — perguntou Caio.

— Nossa! Mas a modéstia passou longe, hein? — disse Giane, jogando areia nele, brincalhona. Saiu correndo, e Caio correu atrás dela.

Divertiram-se correndo na areia, na beira do mar, brincando como crianças. Até que resolveram parar um pouco. Compraram água de coco e deitaram-se na areia. Caio tomou um gole da água, e ofereceu para Giane. Ela bebeu. Em seguida, Caio lascou um beijo. Passaram horas agradáveis na praia, nadando, correndo na areia. Na volta, Caio parou a moto na frente da casa dela. Giane desceu, tascou um beijo em Caio, e depois outro.

— Obrigada! Adorei o passeio, tá? — disse a garota, despedindo-se.

Caio já havia ido embora, e Giane andava na rua, quando viu Fabinho na frente da casa do Nestor, carregando o Pixinguinha, o cachorro perdido.

— Pixinguinha, vai pra casa, garoto. — disse o rapaz, deixando o cachorro na entrada da casa, antes de ir embora.

Giane não conseguia acreditar no que acabou de ver. Surpreendeu-se ao ver Fabinho tratar tão bem o cachorro. Fabinho, que tratava a todos com desprezo, não demonstrava respeito nem afeto por ninguém, descontava nas pessoas o ódio que sentia do mundo, acabou de tratar um animalzinho com carinho. Certamente, ele viu o cartaz com a foto do Pixinguinha e ficou sabendo que o cachorro havia desaparecido. Nestor fez cartazes e espalhou por todo o bairro, na tentativa de encontrar o cão. O anúncio até prometia dar uma recompensa em dinheiro para quem encontrasse. Mas Fabinho devolveu o cachorro sem pedir recompensa, o que era ainda mais surpreendente. Fabinho era muito egoísta, interesseiro e sem escrúpulos. O negócio do Fabinho sempre foi grana. Sempre foi obcecado por dinheiro. Tudo o que fazia era com o objetivo de obter riqueza e poder. Agora, ele acabou de fazer algo bom para uma família que prejudicou. Ele ameaçou, quase matou a mãe da Renata e ex-esposa do Nestor. Agora estava devolvendo o cachorro deles. E ainda falou mansinho com o cão, de um jeito que Giane não o viu falar com ninguém. Giane concluiu que talvez, bem lá no fundo, Fabinho não fosse tão mau assim. Ele tinha coração. Quem sabe ele agora estivesse se dando conta de todo o mal que fez. Quem sabe ele ainda tinha jeito, se empenharia em melhorar. Pela primeira vez, ela viu que ainda restava alguma humanidade em Fabinho.

— Fabinho! Quem diria? — murmurou Giane, para si mesma.

Ela passou em casa, trocou de roupa, arrumou-se e foi até a Acácia Amarela, dar uma mãozinha para o pai. Apesar de agora estar trabalhando como modelo, sempre que possível ajudava na loja. Afinal, a loja continuava sendo sua. Silvério contou que Amora apareceu na casa do Bento.

— Quer dizer que a Amora chegou carregando saco de adubo? — disse Giane, sem conseguir acreditar, levando um vaso de flores para dentro da loja. — Uau, dessa vez ela se superou! Tá apelando, hein? Pra mim, isso é desespero! — começou a podar as flores.

Para Giane estava difícil de engolir a súbita bondade da Amora. Depois que foi adotada, Amora nunca mais plantou uma muda de flor que fosse. Amora, depois de virar it-girl, não gostava de sujar as mãos, agora aparecia com saco de adubo para cuidar da amoreira. Ela estava era desesperada para reatar com Bento. Amora não brincava em serviço.

— Filha, todo mundo tem seu lado bom! — disse Silvério. — E o lado bom da Amora é esse amor que ela sente pelo Bento.

— Ô! — disse Giane, irônica. Pensou consigo mesma que, se o que Amora tinha de melhor era o amor pelo Bento, então não era grande coisa. Porque o amor da Amora era bem estranho. No ponto de vista de Giane, o inferno estava cheio de amores como o da Amora.

— Oi, gente! — disse Caio, entrando na loja.

— Oi, Caio! — disse Giane.

— Vocês não sabem da última: o Maurício se mudou pra casa da Lara! — disse Caio.

— Será que é por que o Érico tá namorando a dona Verônica? — disse Silvério.

À essa altura, todos haviam descoberto que Palmira Valente, uma cantora misteriosa que se apresentava no Cantaí, com quem Érico havia se envolvido, na verdade era Verônica, mãe do Maurício e ex-patroa da Renata. Quando vinha se apresentar como Palmira, Verônica se disfarçava. Renata, sentindo-se enganada por Verônica, deixou a Para Sempre e agora estava procurando um novo emprego. A princípio, Érico ficou chateado. Sentiu-se enganado por Verônica. Mas acabaram se entendendo.

— Ah, pode até ser. Mas ele podia ter escolhido alguém melhor, né? — disse Caio, que não ia com a cara da Lara Keller, que estava envolvida com seu pai.

— Vai ver depois de tanto tempo namorando a Amora, ele se acostumou a viver no meio das lacraias. — disse Giane. Para ela, Lara era outra cobra que não valia nada e vivia em função de aparências e de mídia.

— É. Sabe onde eu tô indo? — perguntou Caio. — Fotografar a exposição da Maria Martins no MAM. Quer ir comigo?

— Pode ser. Bora lá. — disse Giane, sorrindo.

— Vambora. — disse Caio.

Giane foi à exposição com Caio. À noite, ela foi ao Cantaí, como sempre, e conversou com Bento e Odila. Giane já sabia que Fabinho agora estava trabalhando na Toca do Saci como faxineiro. Giane surpreendeu-se quando soube. Só mesmo estando na pior para Fabinho aceitar ser faxineiro. Logo ele, tão arrogante, tão cheio de si.

Bento contou a confusão que Fabinho armou. Plínio e Irene haviam visitado a Toca do Saci. Fabinho não suportou ver Bento perto de Plínio e Irene. A gota d'água foi quando Irene resolveu dar o anel para Bento. Fabinho partiu para cima do Bento, o ameaçou. Felizmente, Malu conseguiu contornar a situação. Chamou a atenção de Fabinho na frente de todo mundo, disse para ele baixar a bola, senão ela o botava na rua. Assim, o rapaz desistiu de brigar. Saiu com o rabo entre as pernas. Bento continuava achando uma péssima ideia a Malu ter dado uma chance a Fabinho. No ponto de vista de Bento, Fabinho ainda iria fazer alguma coisa para prejudicar Malu, porque Fabinho só ferrava quem o ajudava. Odila disse:

— Quer saber? Eu acho que a Malu foi muito burra de ter colocado o Fabinho dentro da Toca do Saci.

— A Malu não é burra, tia Odila. — disse Bento. — Ela só enfiou na cabeça que ela é capaz de transformar o Fabinho em gente.

— Ué, você não acha que a Amora pode mudar? Por quê que o Fabinho não pode mudar também? — perguntou Giane.

— Porque é diferente, Giane. — disse Bento.

No ponto de vista de Bento, Fabinho nunca teve um gesto de bondade, de generosidade com nenhum ser humano. Nunca demonstrou afeto nem respeito por ninguém. Não que ele se lembrasse. Fabinho vivia mentindo, fazendo intrigas, armando e já cometeu uma série de crimes. A vida toda, Fabinho só infernizou todo mundo, e não fazia outra coisa que não perseguir ele, Bento e Amora. Na opinião de Bento, gente assim não mudava nunca. Diferente da Amora, que podia ter seus defeitos, mas já provou ser generosa. Amora não se cansava de mostrar seu lado bondoso. Ela se dispôs a ajudar a Toca do Saci. Amora resolveu mudar de vida, se tornar uma pessoa mais humilde. Se ela resolveu vender todos os sapatos a preço simbólico e doar a renda para a ONG de Malu, isso significava que ela tinha resolvido enfrentar seus fantasmas e deixar para trás os traumas e as mágoas. Bento tinha certeza de que Amora voltaria a ser a menina carinhosa e parceira que ele conheceu na casa do Gilson. Além disso, Amora nunca havia cometido nenhum crime, apenas usava de chantagens e ameaças para derrubar suas rivais na mídia. No entanto, Amora havia decidido largar o mundo da fama e não usaria mais das mesmas armas.

Giane não conseguia entender. Diferente por que? Se Amora, que era uma víbora, podia mudar, então qualquer pessoa podia mudar, bastava querer. Antes, ela achava que Fabinho era tão mau-caráter quanto Amora. Porém, naquele mesmo dia ela viu algo bom no rapaz, que nunca notou antes. Ele aprontou muito, foi cruel, fez muita gente sofrer. Mas ela viu que ele foi capaz de um gesto de bondade, de generosidade. Ele tinha desvios de caráter, sim, mas não era psicopata. Ela percebeu que Fabinho podia mudar, se tornar uma pessoa melhor, se ele quisesse. Só precisava repensar suas atitudes. Quem sabe, agora que estava sozinho, sendo humilhado, chutado por todo mundo, levando porrada de tudo o que é lado, ele não parasse para refletir sobre o que estava fazendo da vida dele.

— Por quê, Bento? Eu acho que... Eu acho que foi muito duro pra ele ver você com o Plínio e a Irene, sabia? Eu acho que deve ter sido uma facada no coração do cara aquele negócio do anel. — disse Giane.

Giane chegou à conclusão de que o anel era importante para Fabinho. Talvez tivesse um valor sentimental. Do contrário, ele não surtaria daquele jeito, não partiria para cima do Bento. Fabinho jamais teria uma reação dessas apenas por não ter conseguido vender o anel. Ele não insistiria em pegar o anel de volta, se não fosse importante para ele. Certamente, era importante para Fabinho encontrar os pais de sangue. Não devia ter sido nada fácil para Fabinho a história do exame do DNA. E não era apenas porque ele havia perdido uma fortuna. Não era apenas porque o Bento havia ficado rico. A questão era muito mais profunda. Fabinho achava que havia encontrado os pais, que havia ganhado uma irmã, uma família e, no fim, tudo foi um engano. Devia ter sido muito duro para ele. Ele na certa se sentiu rejeitado pela família Campana, e esta mesma família recebeu Bento de braços abertos. Com certeza, Fabinho se sentiu preterido.

— Pra completar, ela ainda deu uma bronca nele na frente de todo mundo. — disse Bento, referindo-se à Malu.

— É, ele tá apanhando de todos os lados. — disse Giane.

— Mas eu acho que ele vai receber isso como humilhação. — disse Odila. — Porque um cara como ele, quando se sente por baixo, ainda se mantém calado... E ele não vai deixar barato, não. Ele vai aprontar.

— Eu também acho. — disse Bento.

Horas mais tarde, Caio apareceu para jantar na casa de Giane. Sentaram-se à mesa para jantar, como sempre. Conversaram sobre futebol.

— Seu time tá bem por baixo, hein? — disse Silvério para Caio. — Tá mais por baixo que plantação de melancia.

— Tá nada, cara. — disse Caio. — Meu time ganhou do teu nesse fim de semana.

— Quem? — disse Silvério.

— O meu, o seu. — disse Caio.

— Você tá louco? Você enlouqueceu? — disse Silvério.

— Claro que não. — disse Caio.

— Ah, para com isso! — disse Silvério.

— Ah, seu Silvério! — disse Caio.

Giane, porém, mal ouvia a discussão entre o pai e o namorado, porque começou a sentir uma sensação ruim. Não sabia bem por que, mas ficou preocupada com Bento. Pensou nele nas últimas horas. Aonde será que ele estava àquela hora? A última vez que o viu foi no Cantaí.

— Ai! — a garota gemeu, colocando a mão no peito.

— O que foi? O que foi, filha? — disse Silvério.

— Não sei, pai. — disse Giane. Não sabia explicar. Sentia-se esquisita.

— Tudo bem? — disse Silvério, e Giane colocou a mão no peito novamente.

— Uma sensação ruim. Como se alguma coisa ruim tivesse acontecendo. — disse Giane, levantando-se da mesa. Saiu correndo.

— Giane! Giane! — chamou Caio, e correu atrás dela.

Giane saiu e encontrou Salma na rua.

— Tia Salma! Tia Salma! Você viu o Bento?

— Saiu, filha, tem uma meia hora. — disse Salma. — Não sei onde é que ele foi. Por quê?

— Não, nada. Deixa pra lá. — disse Giane.

Continuava inquieta. Caio aproximou-se.

— Ei! — disse o rapaz. — O quê que foi? O quê que aconteceu?

— Não sei. — disse Giane. Ela não sabia explicar o que sentia.

Voltou para casa com Caio. Sentaram-se no sofá. Silvério disse:

— Mas se esse teu pressentimento é de que alguma coisa ruim vai acontecer com o Bento, é melhor você ligar pra ele.

— Não sei, pai. Não sei da onde veio isso. — disse Giane. — Nem entendi direito, mas deixa pra lá. É besteira minha.

— Giane é sempre assim, é? — perguntou Caio.

— É, ela tem esses pressentimentos de vez em quando. — disse Silvério, antes de sair da sala e deixar a filha e o namorado a sós.

— O que a tua intuição diz sobre a minha agência? — perguntou Caio.

Giane levantou as mãos, como se estivesse tentando adivinhar, e riu.

— Diz que esse negócio de você e Camilinha trabalhando, não vai dar certo, não. — brincou Giane.

— Ué, então você entra no lugar dela. O quê que você acha?

— Ih, não. — disse Giane.

— Eu te falei que a Verônica cedeu uma sala pra gente se instalar?

— Você e a Camilinha juntos no Para Sempre. — disse Giane. — Ou isso é deboche, ou é muita ironia, né, Caio?

— Ou é muito ciúme da sua parte, né? — disse Caio, esperançoso.

Caio se perguntou se Giane estava gostando dele. Desde o início do namoro, ele esperava que Giane correspondesse aos seus sentimentos.

Giane riu. Ela não tinha um pingo de ciúmes do Caio. Ele podia ser seu namorado, mas ela não sentia nada além de carinho e gratidão por ele. Reconhecia que Caio era um cara bacana, além de bonito. Era um gato: tinha cabelos castanhos, a pele clara, os olhos azuis. Giane estava cansada de saber que por aí estava cheio de garotas que dariam tudo para ficar com ele. Mas ela não gostava dele do jeito que gostou do Bento. Não era apaixonada por Caio. Ela adorava Caio, até porque ele era muito bom para ela, a valorizava, a apoiou no momento em que ela mais precisava, fez muita coisa por ela. Mas Giane não sentia por ele um amor avassalador.

— Vai nessa. — disse Giane, rindo, antes de beijá-lo.

Meia hora depois, continuavam namorando na sala, abraçados.

— Você não quer dar mesmo uma passadinha no Cantaí? — perguntou Caio, dando um beijo no rosto de Giane. — Eu vou só falar pro Vitinho que eu vou sair do programa. Vai ser rapidinho.

— Ai, melhor não. — disse Giane. — Eu tô com o coração apertado, desde aquela hora, sabe? Melhor você ir embora.

— Me dá mais um beijo? — pediu Caio.

Giane revirou os olhos. Já deram vários beijos. Ele não se cansava?

— Você é beijoqueiro, hein? — disse a garota, antes de beijá-lo.

No dia seguinte, Giane acordou bem cedo e foi regar as flores na praça. Ela não conseguiu dormir, de tanta ansiedade.

— E aí, filhota? Caiu da cama, é? — perguntou Silvério.

— Nem consegui dormir, pai. Aí eu vim procurar o que fazer.

— Ih! O quê que foi, hein? Ainda é por causa daquele pressentimento, é?

— Ai, pai, sabe, eu fiquei com a sensação de que alguma coisa... — disse Giane, largando o regador. — Ai, deixa pra lá. Vou falar palavrão, não, que o senhor não gosta. Não vamos começar o dia assim, né? — pe-gou a pá de jardinagem da mão do pai.

— Filha, não fica assim não, tá? — disse Silvério, acariciando o rosto da filha.

— Tá bom. — disse Giane.

Giane continuou lidando com as flores na rua. Sabia agora que Bento não dormiu em casa. Bento saiu à noite e não voltou. Giane estava angustiada, sem notícias do Bento. Tentou ligar no celular dele, porém, ele não atendia. Aonde ele tinha ido? O que foi fazer? Até que viu Bento descer do carro da Amora. O que será que tinha acontecido? Giane aproximou-se.

— Ô Bento! Está tudo bem com você, cara?

— Estou bem sim, Giane. — disse Bento.

Porém, Giane achou que Bento não parecia muito bem.

— Está tudo bem? — insistiu Giane.

— Tá. — disse Bento.

— O que aconteceu? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Giane.

Amora já havia descido do carro e atendeu ao celular.

— Alô? Malu, o Bento acabou de voltar do hospital! Não vai dar...

Ela achava que não era hora para Malu encher o saco do Bento.

— Hospital? Como assim hospital? — disse Giane, espantada.

— Foi só pra fazer um curativo. Peraí. — disse Bento, e dirigiu-se à Amora. — É a Malu? — pegou o celular da mão de Amora. — Oi, Malu. Mensagem? Que mensagem? Eu não te mandei mensagem nenhuma. Ô, Malu, impossível! Eu cheguei na Toca era sete e pouco e há essa hora eu já deveria estar desmaiado.

Amora não entendia como Malu podia ter visto a mensagem. Ela havia apagado a mensagem do celular da Malu. Será que Malu estava com o celular do Bento? Ela não se lembrou de apagar a mensagem do celular do Bento. Também achou que o celular havia sido destruído no incêndio.

— Bento! Bento! Por favor! — disse Amora, tomando o celular dele.

Ela havia dito que foi até à Toca por ter tido uma intuição. Disse que passou o dia todo com o coração apertado, com uma sensação ruim, pen-sando no Bento e no Fabinho, como se alguma coisa a estivesse chamando, pedindo para ela ir para a Toca. Ela sabia que Bento e Fabinho haviam brigado, e achou que Fabinho iria aprontar. Quando ela chegou na Toca, a Toca estava pegando fogo e Bento estava desmaiado lá dentro. Foi esta história que ela contou, e sustentaria esta versão até o fim. Até porque ela não podia se contradizer, dizer uma coisa e depois outra. Isso seria um indício indireto de culpa. Ninguém podia descobrir que foi ela quem tacou fogo na Toca do Saci. Ela achou necessário dar uma prova de amor. Bento ainda não estava totalmente convencido da mudança dela. Ele achava que ela não iria conseguir mudar tanto em tão pouco tempo, se adaptar ao que ele tinha para oferecer. Então ela resolveu posar de heroína, mostrar que seria capaz de dar a vida por ele. Só assim Bento iria se convencer de uma vez por todas que ela mudou e que ela o amava de verdade. Amora sentiu necessidade de convencer Bento de que a ligação deles era tão forte, tão especial, que ela intuiu que alguma coisa ruim iria acontecer com ele e foi o que a levou a fazer um gesto heroico.

Amora achava que foi Bento quem tinha enviado a mensagem, mas acabou de descobrir que podia ter sido o Fabinho. Se não foi Bento, só podia ter sido Fabinho quem mandou a mensagem pelo celular do Bento. E se foi o Fabinho, era óbvio que ele não tacou fogo na Toca. Do contrário, não teria pedido ajuda para Malu. Claro que Bento podia ter mandado a mensagem e não lembrar, por ter batido a cabeça e ficado um tempo desacordado. Mas ainda assim, mesmo que o autor da mensagem tivesse sido o Bento, logo todos concluiriam que ela mentiu, que não intuiu nada e que na verdade tinha visto a mensagem no celular da Malu e apagado em seguida. Qualquer pessoa podia ter mexido no celular da Malu e visto a mensagem. Mas se fosse qualquer outra pessoa que não ela (Luz, Kevin ou Dorothy, por exemplo), teria avisado a Malu e não apagado a mensagem, nem teria ido no lugar da Malu. Logo concluiriam que ela tinha ido na Toca no lugar da Malu. Concluiriam também que ela não teria chegado na Toca a tempo de salvar o Bento. E que se tivesse sido o Fabinho o incendiário, era para o Bento ter se machucado gravemente, tido queimaduras, até morrido. Era para o incêndio ter sido maior. Não acreditariam na versão dela, veriam que não batia. Mas ela queria que todos pensassem que ela salvou a vida do Bento e que foi Fabinho quem tacou fogo na toca. Amora jamais iria confessar tudo o que fez. Bento jamais a perdoaria. Ela não botaria tudo a perder, ainda mais de pois de todo o trabalho que teve para fazer o Bento ficar rico. Ela tinha certeza de que Deus iria ajudá-la, e que ninguém iria descobrir o que ela tinha feito. Afinal, Deus estava sempre do lado dos justos, e não de canalhas como o Fabinho.

— Peraí, Amora! — disse Bento.

Amora atendeu ao celular:

— Malu, o Bento precisa descansar. Agora não dá pra ficar falando sobre mensagem. Tchau!

— Amora, podia ser importante. — disse Bento.

— O importante agora é você se cuidar. — disse Amora. — Bento, você quase morreu. — acariciou o rosto dele.

— E você me salvou, né? — disse Bento. Estava emocionado com o gesto de Amora.

— É. Mas como é que eu ia ficar, se acontecesse alguma coisa com o meu amor? — disse Amora. — Você é a minha vida! Você é tudo pra mim, Bento! Vamos entrar, vai?

No ponto de vista de Amora, Bento era mais do que um namorado: ele era tudo o que ela tinha de mais precioso. Ele era o homem de sua vida, seu porto seguro, a pessoa mais especial e incrível que ela havia conhecido, e que a inspirava. Ela se sentia uma pessoa melhor ao lado dele. Era o único homem que ela amava, que sempre amaria. Bento a amava pelo o que ela era de verdade, não pela imagem que ela vendia para a mídia, ou por ela ser famosa. Até porque ele era o único homem que a conhecia antes de ela se tornar Amora Campana, a maior it girl do país. Ele cuidou dela, a protegeu, foi seu amigo na época mais difícil da vida dela.

Giane achou estranha a reação de Amora. Bento acabou de chegar do hospital, precisava descansar, mas nada o impedia de falar com a Malu. Por que Amora não deixou Bento falar com a irmã? Primeiro Amora não queria deixar Bento atender, depois, quando ele estava falando com a Malu, Amora logo deu um jeito de interromper a conversa, tomou o celular dele. Muito estranho. E que história era aquela de que Amora havia salvado a vida do Bento? Para Giane, aí tinha coisa. Estava parecendo armação.

Giane não tinha provas, não podia afirmar nada, mas estava achando tudo muito suspeito. Amora já foi capaz de fingir ser atropelada. Para quem forjava o próprio acidente, bancar a heroína era moleza. Amora não tinha escrúpulos, era capaz de tudo para casar com o Bento. Agora ela iria bancar a salvadora e o Bento comeria na mão dela. Bento acreditava que Amora estava se esforçando para mudar, mas ainda hesitava em voltar com ela, pois ainda tinha dúvidas se ela conseguiria se adaptar ao que ele tinha a oferecer. Mas Amora queria voltar com Bento o mais rápido possível. Por isso resolveu dar um empurrãozinho, bancar a heroína. Ela armou para Bento reatar com ela. Bento ficaria agradecido e casaria com ela.

A notícia se espalhou rapidamente. Todos na rua ficaram sabendo que Bento foi até a Toca do Saci, e encontrou Fabinho com o fósforo aceso na mão, prestes a incendiar a ONG. Bento tentou impedi-lo. Bento e Fabinho lutaram, Bento bateu com a cabeça em algum móvel e desmaiou. Quando Bento acordou, a Toca havia pegado fogo e Fabinho havia desaparecido. Apenas Amora estava lá. Foi um incêndio pequeno. Não foi preciso chamar os bombeiros. A vizinhança da Toca apagou o fogo. De acordo com a versão de Amora, ela pressentiu que algo de ruim iria acontecer. Ela sabia que Bento e Fabinho haviam brigado, que Malu chamou a atenção de Fabinho na frente de todo mundo. Amora achou que Fabinho iria aprontar. Por isso foi até à Toca, e quando chegou, a Toca estava pegando fogo e Bento estava desmaiado lá dentro. Agora, estava todo mundo achando que Fabinho havia tentado matar o Bento, e que Amora havia salvado a vida dele.

Todo mundo sabia que Fabinho não era flor que se cheire. Mas ainda assim, Giane achou difícil acreditar na versão de Amora. Amora, intuindo que alguma coisa ruim estava acontecendo para aparecer na Toca? Giane duvidava. Mesmo que Amora tivesse intuído algo, foi sorte demais ela aparecer na hora certa, em que estava acontecendo o incêndio. Além disso, Malu ligou para Bento perguntando sobre uma mensagem que ele disse não ter mandado. E Amora teve uma reação estranha quando Malu ligou para Bento, para perguntar da mensagem. Giane achava tudo muito suspeito. E é claro que Amora ganharia alguma coisa com essa história toda: a eterna gratidão do Bento. Para Giane, só podia ser armação.

Mas ela deixaria para se preocupar com isso depois. Primeiro queria saber como Bento estava. Foi até a casa dele. No caminho, encontrou Salma e Irene, que haviam ido visitar o Bento. Salma disse que Bento estava bem. Não foi nada grave. Ele nem precisou ficar internado. Não se queimou, nem inalou muita fumaça. Foi apenas uma pancada na cabeça, sem consequências sérias. Ele teria de descansar e tomar analgésicos. Irene foi até à farmácia comprar os remédios. Estava levando a receita consigo. Mesmo assim, Giane quis verificar se estava tudo bem com Bento.

— Bento. — disse Giane, entrando e fechando a porta em seguida.

— Oi, Giane. — disse Bento, sentado no sofá.

— Como é que você tá, hein? — perguntou Giane, aproximando-se.

— Tô bem. — disse Bento.

Giane sentou-se no sofá, ao lado de Bento. Amora também estava pre-sente, de pé.

— Bem que eu senti uma sensação estranha ontem à noite, sabe? — disse Giane. — Como se fosse acontecer uma coisa ruim com você.

— Nossa, sensitiva você, né? — disse Amora, enciumada.

Para Amora, Giane não era uma ameaça ao seu relacionamento com Bento. Ela tinha a mais absoluta certeza de que Bento a amava. Mas ela não gostava de ver outras mulheres gravitando ao redor dele. Ela queria ser a única mulher na vida do Bento. Ela era a amiga, a amante, a parceira, a confidente, tudo. Bento já a tinha, não precisava da Giane. Para Amora, Bento jamais iria ter uma amiga melhor do que ela.

— E aí, você tá melhor? — perguntou Giane, abraçando Bento, aper-tado.

— Tô, tô bem, sim. — disse Bento.

— O Bento só precisa descansar, tá? — disse Amora, com ciúmes. Para ela, era impressionante como Giane não desgrudava dele.

— Eu te perguntei alguma coisa? — respondeu Giane.

— Grossa! — murmurou Amora.

— Fica tranquila, Giane. Você não vai se livrar de mim tão fácil, tá? — disse Bento.

— Assim eu espero. — disse Giane, e continuava abraçada a ele.

Depois de ver que estava tudo bem com o amigo, Giane voltou para casa. Silvério e Odila ainda conversavam a respeito do ocorrido. Os dois adoravam Bento e estavam muito revoltados com Fabinho.

— Gente, o Fabinho não é incendiário. — disse Giane. — Foi outra pessoa que fez isso, com certeza!

Giane suspeitava de Amora. Aquela era capaz de tudo para ficar com Bento, até mesmo de bancar a heroína. E ela não se importaria de colocar a vida do Bento em risco, pois era muito egoísta, não tinha escrúpulos, nem limites. E, de qualquer forma, Bento não saiu tão machucado. O que era mais um motivo para Giane desconfiar. Era tudo muito suspeito, parecia armação. Se realmente tivesse sido tentativa de homicídio, era para Bento ter saído mais machucado do incêndio. Além do mais, Giane não achava que Fabinho fosse assassino. Fabinho não ia com a cara do Bento, tinha inveja do Bento, mas daí a matá-lo, ia uma grande distância. Fabinho nunca chegou a matar ninguém de verdade. Com certeza, Amora seria bem capaz de se valer da má fama do Fabinho para incriminá-lo.

Silvério estranhou. Nunca pensou que veria a filha defender Fabinho. Ela odiava o rapaz. Além do mais, só podia ter sido o Fabinho. Ele sempre odiou o Bento, sempre teve inveja do Bento, desde pequeno. Fabinho era um marginal, um bandido da pior espécie. Bento o viu com o fósforo aceso na mão. Bento e Fabinho haviam brigado. Malu chamou a atenção de Fabinho na frente de todo mundo, e ele resolveu se vingar. Aproveitou para matar o Bento também. Só podia ter sido assim. Silvério não sabia de mais ninguém que esteve na Toca na hora do incêndio. Bento estava desmaiado, logo, não foi ele que tacou fogo na Toca. Bento seria incapaz de cometer um crime, ele não prejudicaria a Malu. Amora não podia ser. Amora podia não ser flor que se cheire, mas o histórico dela era impe-cável, até onde Silvério sabia, Amora nunca cometeu crimes. Ela podia ter intuído, pressentido que algo ruim iria acontecer. Ou podia ter visto a mensagem que Bento mandou para o celular da Malu. Bento disse não se lembrar de ter enviado mensagem nenhuma, mas devia ser porque ele havia batido a cabeça. E Amora podia não valer nada, mas gostava do Bento de verdade, não colocaria a vida dele em risco. O incendiário era o Fabinho. O que Giane tinha na cabeça? Será que ela estava com ciúmes?

— Filha, como é que você pode dizer uma coisa dessas? — disse Silvério. — Tudo indica que foi o Fabinho.

— Mas é por isso mesmo, pai. O Fabinho não ia ser tão burro. — disse Giane. — Eu também acho que ele não é tão mau assim.

— Ah, não! Fabinho é um fofo, gente! — disse Odila, irônica. — Giane, alô, acorda! Ele tentou me matar e você ainda continua defendendo esse marginal?

Porém, até onde Giane sabia, Fabinho ameaçou Odila de morte para arrancar dela informações sobre sua origem. Foi o que ele disse, que não pretendia matar. Devia estar revoltado, porque ninguém contou a ele que foi Odila que trouxe o filho do Plínio ao lar do Gilson. Odila sempre soube quem era a mãe dele, melhor dizendo, quem ela achava que era a mãe dele, e não disse nada. Aí o rapaz quis obrigá-la a dar informações, claro. Ele devia ter achado que Odila se negaria a dar informações.

Giane duvidava que Fabinho iria matar Odila depois de conseguir o que queria, que era arrancar informações dela. Ele quase esganou Amora, e quase esganou Odila também, mas estava surtado, senão não faria isso na frente de outras pessoas. O que Fabinho fez foi cruel, injustificável sim, ele não devia ter atacado Odila naquele dia, no hotel. Isso simplesmente não se fazia. Mas, pensando bem, ele não a matou. Fabinho podia ter caráter duvidoso, mas Giane não achava que ele fosse um assassino. No caso da Toca era diferente, certamente ele pretendia tacar fogo, mas podia ter desistido. Ele não era tão mau. Ele devolveu o Pixinguinha. Fabinho foi capaz de um gesto de bondade. E se ele devolveu o cachorro do Nestor, devia estar arrependido. Talvez fosse um modo que ele encontrou de pedir desculpas pelo que fez à Odila. Pela primeira vez, Fabinho quis ajudar alguém, e agiu de maneira desinteressada. Nem quis recompensa.

— Tia Odila, você sabe quem devolveu o Pixinguinha?

— Hum. — disse Odila.

— Eu vi o Fabinho entrar na sua casa. Falou mansinho com o cachorro e deixou ele lá. — disse Giane.

Para Odila, essa história era difícil de engolir. Para ela, Fabinho não prestava, era incapaz de um gesto de generosidade.

— Não acredito, você tá inventando isso!

— E eu sou lá de inventar? — disse Giane, furiosa, e quase falou um palavrão, porém, desistiu. — Que saco!

Giane entrou. Silvério acreditou na filha. Giane não era de inventar histórias, e se fosse há algum tempo atrás, ela não defenderia Fabinho. Será que o rapaz estava arrependido de ter atacado Odila? Se era verdade o que a filha dizia, então talvez Fabinho não fosse tão ruim assim. Quem trata bem um animal, e o devolve ao dono, no fundo tem coração.

— Pense bem, se ele fez mesmo isso... — disse Silvério.

— Se ele fez isso, pra mim pouco importa. — disse Odila. — Mesmo que ele tenha devolvido o cachorro do Nestor, pra mim, ele continua sendo um canalha. Pronto, falei! E tchau pra você também, Silvério. Ah, que coisa que tá hoje!