Um amor inesperado

24 Fazendo ciúmes


No dia seguinte, Giane e Bento estavam na estufa, trabalhando. Giane acordou animada. Ela não conseguia tirar de sua cabeça o beijo que roubou de Bento na noite anterior. Foi uma sensação maravilhosa.

Bento percebeu que a amiga estava diferente. Ela estava feliz, suspirando. Normalmente ela andava sempre de cara amarrada.

— Vem cá, porque você tá toda felizinha de manhã, hein? — perguntou o rapaz. — É por causa daquele carinha lá?

Bento viu que ela passou a noite toda dançando com um rapaz, no Cantaí. Pelo menos até a hora em que ele e a Malu foram embora. Ele se perguntou se Giane finalmente iria desencalhar.

— Ih, ficou com ciúme, Bento? — perguntou Giane, feliz, podando a planta.

Giane ficou ainda mais animada. Pelo visto, sua estratégia deu certo. Ela conseguiu fazer ciúmes em Bento. Para ela era um bom sinal. Quem sabe, ela tinha alguma chance com ele. Ainda tinha esperanças.

— Ah, você é minha família, você é minha irmã, Giane. — disse Bento. — Eu quero saber com quem você tá saindo, sim.

Bento esperava que o rapaz fosse boa pessoa. Que não fosse alguém querendo se aproveitar da boa-fé de Giane. Torcia pela felicidade dela. Ele sabia, por experiência própria, que era bom se apaixonar. Mas Giane não tinha vivência, experiência nenhuma e ele se preocupava, não queria que ela quebrasse a cara. A última coisa que Bento queria era vê-la magoada.

Giane não gostou. Não queria que Bento a visse como irmã, e sim como mulher. Quando é que ele ia parar de tratá-la como irmãzinha mais nova? Será que ele era tão cego para não perceber que ela era louca por ele? Giane não se conformava por Bento insistir em vê-la de maneira fraternal, como a amiga moleca, a parceira, a sócia, enquanto outros rapazes, como Caio e Douglas, a enxergavam de outra maneira.

— Ai, Bento, não tô saindo com ninguém, não. — disse Giane, irritada. — Impressionante como você ficou burro depois que cruzou com as filhas da Bárbara.

— Olha, se você vai começar, realmente... — disse Bento, pegando um vaso de planta. Não entendia por que Giane implicava com Malu e Amora.

— E pensar como era nossa vida aqui, né? — disse Giane. — Antes da Malu aparecer pra fazer aquela pesquisa e trazer a Amora de volta. Aí ferrou! Aí o sossego acabou, né?

Para Giane, Malu não tinha nada que aparecer e trazer Amora de volta. Por ela, Amora podia ficar lá nos Jardins. Malu também. Se era para Malu e Amora causarem problemas, confusões, que nem tivessem aparecido. Antes de Amora e Malu aparecerem, Giane tinha Bento só para ela. E Fabinho era outro que nunca devia ter voltado, que ficasse em Ribeirão Bonito. Na opinião de Giane, Fabinho só trazia problemas para o Bento, desde a infância. Só infernizava a vida de todo mundo.

Bento achava que a vida realmente ficou mais movimentada depois que Malu apareceu. Mas no ponto de vista dele, foi bom conhecer Malu, que era uma boa amiga, e ele adorou reencontrar Amora.

— Você sabe que eu sinto falta da tranquilidade que a gente tinha?

— Sente mesmo? — perguntou Giane.

— Uhum. — disse Bento. — Mas acho que faz parte da vida a gente cruzar com outras pessoas, né?

— Hum. — disse Giane, olhando um pequeno vaso de planta.

— Elas desviarem o nosso rumo e até influenciarem nosso jeito de ser. — disse Bento. — Sei lá. A vida é movimento, Giane!

Na opinião de Giane, a vida estava boa do jeito que estava, era tudo perfeito e Amora não tinha nada que reaparecer para estragar tudo.

— É. Algumas coisas não precisavam mudar, não. — disse Giane, largando o vaso de planta e batendo as mãos. — Mas olha o que eu guardei pra você!

Entregou para ele uma caixinha de doces, que estava sobre uma prateleira. Eram uns brigadeiros que haviam sobrado da festa do Lucindo.

— Pega!

— Puxa, obrigado! — disse Bento, olhando para o conteúdo da caixinha. — Sabe que você tá diferente? Não sei, tá mais feminina.

Giane ficou feliz. Parecia que Bento estava finalmente reparando nela.

— E quem sabe essa sua mudança não me fez mudar um pouquinho também, né? — disse Giane.

— Que bom! Continua assim, tá ótimo! — disse Bento.

No ponto de vista dele, se Giane queria arrumar um namorado, já estava mais do que na hora de se mexer para ser notada pelos homens. Na opinião de Bento, Giane tinha de se arrumar mais, ser mais vaidosa, cuidar mais da aparência. Tinha de parar de se esconder.

— Que tal um beijinho pra comemorar? — perguntou Giane.

A garota pegou uma caixinha com beijinhos. Esfregou o doce na cara dele.

— Ah, não! Não acredito que você fez isso de novo, Giane! — protestou Bento, e Giane gargalhou. — Para com isso!

O celular de Bento começou a tocar.

— Caramba! — disse Bento, tentando limpar o rosto com a mão.

— Ah, Bento!

— Ajuda aí, vai! — disse Bento.

— Não vai atender, não? — perguntou Giane.

— Claro que não! Você me lambuzou inteiro. Pega aí, ajuda aí pra mim.

Giane pegou o celular do bolso dele.

— Vai lá se lavar, vai.

Bento foi lavar o rosto. Giane olhou o celular e viu que era Amora quem estava ligando. Desligou o celular, com raiva, e largou-o sobre uma mesa. Ela não permitiria que a Amora incomodasse o Bento com os problemas dela. Ninguém havia mandado Amora namorar escondido, nem esconder da mídia que havia rompido com Maurício. Ela que se virasse sozinha. Se Amora tivesse assumido o namoro com Bento antes, e contado que havia rompido o noivado com Maurício, Fabinho não teria chance de difamá-la, não poderia espalhar por aí que ela era uma traidora.

Horas depois, Giane e Bento continuavam trabalhando na loja, quando Jonas chegou.

— E aí, mano, belê? — perguntou Jonas, cumprimentando Bento.

— Fala aí, Jonas! — disse Bento, batendo com a mão aberta na de Jonas.

— Tô indo com o Douglinhas lá na casa da Rosemere. — disse Jonas. — Fazer uma reforma lá, que ela pediu.

— Ah, então, vocês arrumaram carona. — disse Bento. — Tô indo lá fazer o jardim da avó do Filipinho.

— Ah, demorou! — disse Jonas. — Mas que cara é essa, mano? Tá de ressaca?

— Não, cara. Eu tô aqui, lembrando... — disse Bento. — Eu tive um sonho muito estranho essa noite. Uma mulher me beijava, depois desaparecia. Foi uma sensação tão real que eu até acordei.

Giane estava por perto, ouvindo a conversa entre Bento e Jonas. Estava espirrando água nas plantas. Ficou feliz ao ver que Bento lembrou do beijo que ela deu nele, mesmo que ele achasse que havia sido apenas um sonho. Sorriu.

— Nossa, mano! — disse Jonas. — Mas qual das tuas minas aí? A Amora ou a Malu?

— Não consegui ver o rosto. Foi uma sensação muito boa. — disse Bento.

— Que isso, hein, Giane? — disse Wesley, trazendo um buquê de flores. — Olha só, o que deixaram pra você!

Giane pegou o buquê da mão de Wesley.

— Quem que te mandou isso, hein? — perguntou Bento.

Giane olhou o cartão que veio junto com o buquê. As flores eram do Caio.

— Ah, o carinha de ontem à noite.

— Abre o olho, hein, Giane? — disse Bento.

Ele se preocupava, porque ela mal conhecia o cara. Giane tinha de tomar cuidado e não confiar cegamente em um homem que acabou de conhecer. Ela era como se fosse sua irmã e ele sentia necessidade de protegê-la. Ele sempre cuidou dela, sempre a protegeu, desde quando eram crianças. Giane era diferente das outras meninas, e era alvo frequente de zombaria. Ele e Giane sempre cuidaram um do outro, desde pequenos. Sempre foram muito unidos.

A garota ficou animada. Bento parecia estar com ciúmes, e ela estava adorando isso.

— Abre o olho você, Bento. Vê se enxerga alguma coisa. — disse Giane, ajeitando as flores.

— Depois a gente conversa sobre isso. — disse Bento.

A garota não disse nada, e foi colocar as flores em um vaso.

Giane passou as horas seguintes trabalhando, cuidando das flores. Bento foi para a casa da avó do Filipinho, cuidar do jardim. Giane não conseguia mais tirar da cabeça o beijo que deu em Bento. Passou as horas lembrando da conversa que ouviu entre Bento e Jonas, de manhã. Estava distraída, sonhando acordada, sorrindo, cuidando das flores, quando Bento chegou. Ele veio mais cedo do que o esperado.

— Oi, Giane. Já tá tudo aí? — perguntou o rapaz.

— Ainda não, Bento. — disse Giane. — Mas por que você voltou tão cedo?

— Acabei de descobrir que armaram pra cima de mim e da Amora.

Giane sabia do que ele estava falando, e de quem. Pelo visto, a fofoca se espalhou mesmo. Até o pessoal da casa da avó do Filipinho já devia estar sabendo do romance entre Bento e Amora, e certamente a cobra da Amora entrou em contato com Bento. Amora não parava de ligar para ele.

Silvério e Salma apareceram. Acabaram de descobrir informações importantes sobre a origem de Bento. Descobriram que o filho de Wilson com a falecida Lívia, namorada de Wilson na juventude, sobreviveu. Ao contrário do que pensavam, o filho do Wilson não havia morrido ao nascer e havia sido entregue nas mãos do Silvério pela avó materna da criança, Glória. Somente Lívia havia morrido no parto. Silvério viu a foto de Glória em uma revista e a reconheceu. Salma e Silvério achavam que Bento precisava saber que era filho do Wilson. Ele tinha o direito de saber.

— Bento! Preciso falar com você! — disse Silvério.

— Depois, tio Silvério. Eu... — disse o rapaz. Estava cheio de coisas para fazer, e cheio de preocupações na cabeça também.

— É urgente e do seu interesse! — disse Salma.

Neste exato momento, Amora apareceu, com um papel na mão. Ela havia ido até a Class Mídia e conseguiu o endereço de Fabinho.

— Bento, eu consegui o endereço dele!

Giane logo concluiu que Amora só podia estar se referindo a Fabinho. Bento pegou o papel e deu uma olhada.

— Rua Abarás. Eu acho que sei onde fica. — disse Bento.

— Bento, espera, filho! — disse Salma, indo atrás dele, porém, Bento não deu ouvidos. Silvério também foi atrás dele. Tinham um assunto muito importante a tratar com ele. Bento precisava ouvi-los.

Bento não estava com tempo para conversar com Silvério e Salma. Precisava ir atrás de Fabinho, tirar satisfações com ele. Faria Fabinho desmentir todos os boatos. Amora não estava traindo Maurício com ele, e ele não estava traindo a Malu com a irmã dela.

Giane não estava gostando nada disso. Pelo visto, o trabalho sobrou todo para ela. Mais uma vez, Bento deixava o trabalho de lado para resolver assunto dele e da Amora. Amora só trazia problemas para o Bento, e para ela, Giane, também.

Silvério e Salma continuavam atrás de Bento. Silvério disse:

— Bento! Bento, escuta! Bento!

— Bento! Bento, espera, filho! — disse Salma.

Bento parou de andar e virou-se. O que Salma e Silvério queriam com ele? O que podia ser tão urgente, para eles não quererem esperar?

— A gente tem uma coisa muito importante pra te dizer! — disse Salma.

— Escuta com atenção! Isso vai mudar sua vida! — disse Silvério.

— Pode ser mais tarde, tio Silvério? — perguntou Bento.

— É muito importante pra você. — disse Silvério.

Amora estava fuçando no celular. Foi logo atrás de Bento, e Giane a seguiu.

— O Maurício soltou uma nota desmentindo que houve traição! — disse Amora.

Giane aproximou-se de Salma e colocou as mãos sobre o ombro dela.

— Precisava pedir ajuda pra ele, Amora? — disse Bento, furioso, enciumado.

— Nossa! Mas ciúme a essa hora? — perguntou Amora.

O celular de Bento tocou e ele atendeu. Era Malu.

— Oi, Malu! Não, isso tá fora de cogitação, Malu. — disse Bento, indo em direção a van e abrindo a porta. — Depois desse escândalo, minha imagem não vai ajudar em nada a campanha. Ao contrário.

Como ele faria a campanha da ONG Salve a Cantareira? As fotos dele aos beijos com Amora foram espalhadas pela internet, o Brasil inteiro estava pensando que ele traiu Malu com a irmã dela. Como ele faria a campanha ao lado de Malu? Não havia a menor condição.

Silvério e Salma continuavam atrás dele.

— Bento, quer me ouvir? Pelo amor de Deus! — insistiu Salma.

— Malu, depois a gente se fala com calma, tá bom? Beijo! — disse Bento, desligando o celular. Dirigiu-se à Salma. — Tia Salma, depois a gente conversa. — dirigiu-se à Amora. — Amora, pode deixar que eu resolvo isso.

Amora jogou um beijo para ele. Bento entrou na van e partiu.

— Afinal, o que foi que o Fabinho aprontou dessa vez? — perguntou Giane.

Giane sabia, ou melhor, suspeitava que foi Fabinho quem espalhou na internet as fotos de Bento e Amora, mas queria ver se Amora iria confirmar sua suspeita.

— Ai, postou umas fotos minhas com o Bento, como se a gente estivesse tendo um caso e eu, traindo o Maurício. — disse Amora.

— Quem mandou namorar escondido? Agora aguenta. — disse Giane.

Socorro estava passando por ali. Estava indo trabalhar. Amora disse:

— Socorro, ainda bem que você chegou. Eu tentei te ligar...

— Amora, desculpa. Tô atrasada. — disse Socorro.

— Espera... Socorro me virou a cara? — disse Amora, espantada.

Ela havia destratado a Socorro na última vez em que a viu, mas achava que a esta altura a Socorro já teria perdoado ela. Socorro sempre perdoava. Socorro havia aparecido em sua casa na pior hora. Amora estava uma pilha de nervos, pois Sueli havia aparecido em sua casa para falar a respeito das fotos. Amora também havia tido uma briga feia com Malu. Acabou sobrando para Socorro. Na opinião de Amora, Socorro era uma chata, a criticou por estar com Bento e disse que sabia que essas coisas iriam acontecer. Socorro tirava qualquer um do sério.

Giane também se surpreendeu ao ver Socorro destratar Amora. Nunca pensou que veria Socorro virar a cara para a musa dela. Será que Socorro estava começando a se dar conta de que Amora não prestava, que só a tratava mal?

— É. Já não era sem tempo, né? Plantou, colheu. — disse Giane, deixando Amora sozinha.

— Despeitada, invejosa, feia, mocoronga. — murmurou Amora.

Giane voltou para a loja. Bento voltou mais ou menos uma hora depois, e contou tudo para ela. Bento não havia conseguido encontrar Fabinho no endereço que ele havia deixado. No endereço não funcionava um hotel, ou

uma pensão, um lugar qualquer onde Fabinho poderia ter se hospedado, e sim uma sapataria. E por causa do escândalo, Bento ficou com a imagem suja, e por isso não faria mais a campanha da ONG Salve à Cantareira com a Malu.

— Quer dizer que só por causa do bafão você abandonou a campanha do Salve a Cantareira? — perguntou Giane.

— É. Também não imaginei que o escândalo ia tomar essas proporções. — disse Bento. — Sei lá, Giane. Parece até que eu perdi o controle da minha vida.

— E perdeu mesmo, né, Bento? — disse Giane. — Enquanto estiver com a Amora, você só vai ter controle da sua vida nos seus sonhos.

Bento sorriu e mexeu no cabelo dela.

— Quê que isso? — perguntou Giane, também mexendo no cabelo dele. Bento riu. — Que sorriso é esse?

— Engraçado você falar em sonho. — disse Bento. — Eu tive um sonho tão gostoso, essa noite.

— Ué, me fala. — disse Giane, derretida. — O quê que foi?

— Bento! Poxa, por que você não me ligou? — perguntou Amora, entrando na loja.

Giane ficou furiosa. Sempre que parecia estar rolando um clima entre ela e Bento, aparecia uma das patricinhas para atrapalharem. Se não era Amora, era Malu. Giane afastou-se e deixou os pombinhos conversando.

— Porque eu fiquei sem bateria no celular, Amora. — disse Bento.

— Podia ter ligado de um telefone público! Não me deixava nessa agonia!

— É que eu não tenho uma notícia muito boa pra te dar. — disse Bento.

— Como não? Você não foi procurar o Fabinho? — perguntou Amora.

— Fui. Mas no endereço que ele deu, funciona uma sapataria.

Agora Giane tinha a mais absoluta certeza de que Fabinho estava por trás dos boatos. Só isso explicava ele querer se esconder, dar endereço errado. Estava na cara que não queria ser encontrado. Fabinho sabia que as pessoas viriam atrás dele tomar satisfações, exigir que se retratasse, desmentisse. E ele se escondeu também para ter mais liberdade para difamar. Mas Fabinho não valia nada mesmo, na opinião de Giane. Giane podia apostar que Fabinho estava adorando ver o circo pegar fogo. Não estava nem aí se as pessoas estavam sofrendo com as calúnias, as fofocas que ele andava fazendo. Ela não conseguia compreender por que tanto rancor e amargura. Fabinho parecia incapaz de ter sentimentos positivos.

— Peraí. O Fabinho mora numa sapataria? — estranhou Amora.

— Não. Ele deixou uma encomenda com o sapateiro, caso alguém procurasse por ele. — disse Bento. — E ele achava que esse alguém ia ser você.

— E cadê essa encomenda? — perguntou Amora.

— Acho que você não vai gostar muito disso, Amora. É melhor deixar... — disse Bento.

— Eu quero ver. Me mostra. — pediu Amora.

Bento pegou uma caixa de debaixo do balcão. De dentro da caixa, ele tirou um par de sapatos enormes, furados, horríveis.

— Foi isso que o Fabinho te mandou. — disse Bento.

Amora pegou os sapatos e olhou para eles, horrorizada.

— Isso só pode ser uma brincadeira, né?

— E ainda tem um cartão. — disse Bento, e leu o cartão. — “Para a minha cocotinha não perder a pose quando for pra sarjeta”.

Giane riu. Achou graça. O bilhete era bem a cara de Fabinho mesmo. Giane não simpatizava com Fabinho, e ela não estava vendo a cara da Amora, pois Amora estava de costas para ela. Mas Giane bem podia imaginar a cara de tacho da patricinha, e estava adorando.

Amora ficou furiosa. O dia dela estava péssimo. Ela perdeu a campanha da joalheria, brigou com Natan, Maurício se recusou a ajudá-la a limpar sua imagem e ela ainda ficou sabendo que Maurício andou se encontrando com Lara no Rio de Janeiro. Maurício continuava magoado com ela, por ter rompido com ele e corrido para os braços de Bento, e resolveu se consolar com Lara. Como senão bastasse tudo o que ela estava passando, Fabinho ainda fez uma brincadeira de mau gosto com ela. No ponto de vista de Amora, Fabinho foi cruel, a atingiu em um ponto sensível.

— Não fica assim, Amora. — disse Bento.

— Esse cara me humilha e me agride da maneira mais cruel, você quer que eu fique calma? — disse Amora, colocando os sapatos na caixa. — Sou humana, sabia?

— Você deu a cara a tapa porque quis. Não foi falta de aviso. — disse Giane, espirrando água nas plantas.

Giane pensava que se Amora tivesse assumido lá atrás o namoro com Bento, nada disso estaria acontecendo.

— A gente vai dar o troco no Fabinho! É uma questão de tempo! — disse Bento.

Só que para Giane era evidente que Fabinho não daria um minuto de paz. Ela acabou de ver pela internet, no celular, uma notícia sobre Bárbara Ellen. De acordo com a notícia, Bárbara foi a responsável pela separação de Plínio e Irene e pela orfandade de Fabinho. Para Giane, só podia ter sido Fabinho quem espalhou esta notícia. Era ele o maior interessado, pois o escândalo faria a mãe biológica dele aparecer. Ela sabia que Fabinho queria que a tal da Irene Fiori aparecesse, para ajudar no golpe. Giane sabia de tudo por Bento, que por sua vez, sabia de tudo por Malu ou por Amora. Além do mais, um escândalo destas proporções não era bom para a imagem da Bárbara Ellen, e era do interesse de Fabinho destruir a imagem da Bárbara, para se vingar dela. Porque ele cresceu longe dos pais biológicos por causa dela. Se não fosse pela Bárbara, Fabinho teria sido criado pelos pais e teria levado uma vida de príncipe.

— Enquanto vocês estão indo, ele já tá voltando, galera. — disse Giane. — Se prepara. Se prepara porque o Fraldinha não vai dar sossego.

— O quê que você tá falando, garota? — perguntou Amora.

— Ué, você não viu o que saiu da sua mãe na internet? — perguntou Giane.

Ela não gostava de ver Bento envolvido em escândalo. Mas por outro lado, ela estava adorando ver o circo pegar fogo. O namoro de Bento e Amora estava com os dias contados. Bento e Amora iriam acabar brigando e terminando o namoro, porque era óbvio que Amora estava mais preocupada em limpar sua imagem do que em assumir o Bento. Giane estava contando os dias para Bento ficar livre para ela.

Bento e Amora foram conversar fora da loja. Quando Bento voltou, Giane viu que ele estava bem chateado. Amora foi embora. Giane logo imaginou que Bento e Amora discutiram. Certamente, brigaram pelo mesmo motivo de sempre: Bento queria que Amora assumisse para a mídia que estavam juntos, mas ela não queria. Estava mais preocupada com a imagem, com o que o público estava pensando dela. Giane detestava ver Bento triste. Pegou uma pequena flor e ofereceu a ele. Bento pegou a flor.

— Em vez de ficar aí triste, por que você não me conta mais do seu sonho?

Claro que Giane puxaria um assunto do seu interesse.

— Não tô com cabeça, Giane. — disse Bento.

Ele estava chateado, e muito decepcionado com Amora. Na opinião dele, Amora devia aproveitar o escândalo para assumir de vez para a mídia que ele era o homem da vida dela, o cara que ela amava desde a infância. Mas para Amora, o que importava era limpar sua imagem. Para Amora, a imagem, a opinião alheia parecia ser mais importante do que o amor que dizia sentir por ele. Amora se comportava como se o amor deles fosse algo vergonhoso, sujo. Isso o deixava profundamente magoado.

Giane passou a mão no ombro dele. Ouviram alguém chegar. Giane olhou para a porta e viu que era Malu. Ficou furiosa. Resolveu sair, dar um tempo.

— Saco! Quando não é uma irmã, é outra. — disse Giane, andando em direção à saída.

— Boa tarde para você também. — disse Malu, contrariada.

Malu veio falar com Bento sobre a campanha do Salve a Cantareira. Ela achava um absurdo ele desistir de fazer a campanha, e Artur Bicalho pensava da mesma maneira.

Malu não conseguia entender por que Giane a tratava mal. Ela sempre procurou ser gentil com Giane. Porém, Giane sempre fechava a cara cada vez que a encontrava. Malu achava Giane uma chata, uma pentelha. Charlene dissera uma vez que Giane morria de ciúme da sombra de qualquer mulher que se aproximava de Bento. Bento via Giane como uma irmã. Mas Malu suspeitava que Giane não gostava de Bento como irmão.

Giane saiu. Mas não ficou muito tempo fora. Viu que a imprensa estava chegando na rua. Correu para a loja, para avisar Bento e Malu.

— Bento, anda! Sai pelos fundos! Pelos fundos!

— Por quê? — perguntou Bento.

— Sai, Bento! A imprensa tá aí, quer ser visto? Sai, sai, sai! — disse Giane, indo para trás do balcão. — Vai também, Malu.

— Vem, Malu. — disse Bento.

Bento e Malu saíram pelos fundos da loja.

— Não tô acreditando que isso tá acontecendo comigo. — disse Bento.

Era impressionante, ele não tinha mais privacidade. Não tinha mais sossego. Não estava seguro em lugar nenhum. A mídia agora estava enchendo o saco, fazendo da sua vida um inferno. Um monte de gente estava falando mal dele na internet, porque achava que ele havia traído Malu com Amora. Do dia para a noite, ele havia virado uma subcelebridade polêmica, como dissera a Brenda, nora da dona Glória e madrasta do Filipinho. Mais do que nunca, Bento sentia falta da vida tranquila que tinha.

— Isso é um absurdo! — disse Malu.

Giane ficou no balcão. Apareceram vários jornalistas, inclusive a jornalista da revista Vida em Família.

— Você podia chamar o Bento de Jesus? — perguntou a jornalista.

— Até poderia, se ele estivesse aqui. — disse Giane.

— E onde a gente pode encontrar o Bento?

— No inferno. — disse Giane. — Que aliás, é pra onde vocês vão se não derem o fora daqui. Anda! Vaza!

Os jornalistas foram embora.