Um amor inesperado
12 Celebridade instantânea
Bento ligou para Silvério. Giane ouviu quando o pai atendeu à ligação:
— Sério? Qual site? — perguntou Silvério, diante do computador. — Ah, eu tô entrando aqui, ô famosão. Depois eu te ligo, tá? Boa noite, Bento. Fica com Deus!
— O que o Bento queria essa hora, pai? — perguntou Giane, sentando-se no sofá.
— Ele deu uma entrevista e saiu na TV a cabo. — disse Silvério. — Eu estou tentando entrar no site do programa aqui. — esfregou as mãos. — Pronto. Abriu. Agora é só esperar. Lançamento, Artur Bicalho. Vamos computador. Vamos. O computador é muito lerdo. Está muito velho. Bom, quer saber de uma coisa? Eu vou embora. Eu vou dormir. Amanhã, eu vejo. — Levantou-se. — Boa noite, filha! Fica com Deus, tá?
— Boa noite, pai. — disse Giane.
— Não demora, tá? — disse Silvério, indo se deitar.
Giane deu uma olhada no computador, que continuava ligado. Olhou para o site do Luxury, uma página com o vídeo da entrevista que Bento havia dado ao programa, ao lado de Malu. O vídeo estava demorando a carregar. Giane não estava nem querendo ver a entrevista. Ela nunca se interessara por fofocas da vida de ricos e famosos. Até gostava de novela, mas não se interessava em ficar fuçando a vida de celebridades. Ela só cuidava de pessoas próximas, de quem ela gostava, principalmente de Bento. Seu foco estava em cuidar dele. Giane sabia muito pouco sobre a vida dos famosos. No entanto, o entrevistado foi o Bento, e ela estava morrendo de curiosidade de ver como ele havia se saído na entrevista. Mas ele estava ao lado de Malu, e Giane não suportava vê-lo ao lado da outra.
— Esse Luxury é muito ridículo, viu? Não quero nem ver.
A princípio ela não quis ver mesmo, procurou ficar longe do computador. Mas acabou não resistindo e assistindo ao vídeo. Bento parecia estar bastante à vontade ao dar a entrevista. O problema, para Giane, é que Lara falava de Bento e Malu como se eles fossem um possível casal.
— Eu e a Malu somos apenas bons amigos. — disse Bento à Lara.
— Ah, entendi, vocês estão naquele momento se conhecendo melhor, né? — disse Lara.
Giane chorou. Ela não gostou nada de ver Bento dando entrevista ao lado daquela patricinha, tirando uma onda de empresário das flores, que estava conhecendo melhor a Malu Campana. Além do mais, Giane morria de medo de que a fama subisse à cabeça de Bento e ele começasse a esnobá-la, virar a cara para ela. Ela não queria perdê-lo, de jeito nenhum. A ideia de perdê-lo era insuportável. Giane também achava que Bento estava diferente na entrevista. Não parecia ele mesmo. Giane achava estranho e forçado. Não parecia o Bento que ela conhecia. Parecia outra pessoa. Alguma coisa não lhe descia. Ela não queria que Bento mudasse. No ponto de vista dela, Bento não precisava mudar.
No dia seguinte, Giane acordou bem cedo e foi tomar café. O pai resolveu assistir à entrevista, e chamou-a:
— Filha! Filhota! Corre aqui! Vem ver como o Bento ficou bonito no vídeo! Vem cá! Vem cá!
— Depois eu vejo. Depois eu vejo, pai. — disse Giane, mal-humorada.
Ela já tinha visto o suficiente e não queria ver de novo.
— O que é isso? — disse Silvério, estranhando a reação da filha.
— Bom dia! Bom dia! — disse Bento, entrando na casa.
— Ô Bento! — disse Silvério, contente, indo abraçá-lo. — Parabéns pela entrevista, hein? Tá bonitão, tranquilo, parece até um galã de novela.
— Valeu, tio Silvério! — disse Bento. — E aí, Giane? Bora trabalhar?
Giane levantou-se da mesa, pegou a xícara e o pires e levou à pia.
— Trabalhar? Não sabia que famoso pegava no pesado, não. — disse Giane.
— Onde é que você está vendo famoso aqui? — perguntou Bento. — Foi só uma entrevista, sua boba. Aposto que hoje ninguém se lembra mais.
— Será? — disse Giane. — Agora, você anda cheio de celebridades em volta, né?
Bento e Silvério acharam graça. Silvério até fez uma careta, e Bento sorriu. Giane era uma boba mesmo.
— Vai que surge um monte de entrevistas. Aí você esquece dos amigos. — disse Giane.
Bento riu. Uma única entrevista não mudaria a vida dele tanto assim, e ele também não mudaria em nada a maneira de pensar.
— Você está vendo essa, tio Silvério? A sua filha está achando que cinco minutos de fama vão mudar a minha cabeça. — disse o rapaz.
— A sua vida pode ser até que mude, mas você, eu duvido. — disse Silvério para Bento. Dirigiu-se à filha. — Ô, filha, deixa de besteira. Até parece que você não conhece o seu amigo.
— Você jura que vai continuar tudo igual? — Giane perguntou para Bento.
— Olha, se você não deixar de bobagem, a gente vai brigar e vai ser pior. — disse Bento, levantando o queixo da garota. — Agora, vambora, vai, sua molengona, que as flores estão esperando!
— Já pegou tudo? Cadê as flores? — disse Giane, indo atrás de Bento.
— Claro que eu já peguei tudo... — disse Bento.
— Será que você já levou tudo lá pra fora? Olha só... — disse Giane.
Bento e Giane saíram de casa tagarelando, prontos para pegarem no batente. Os dois começaram a carregar as caixas cheias de flores.
— Vambora, Giane! Está muito molenga hoje, hein? — disse Bento.
Giane resmungou, e levou a caixa para dentro da van. Bento também.
— Licença! Falta só mais essa, hein! — disse Bento, referindo-se a uma caixa que Giane já estava levando para a van.
— Bento! — chamou Malu, de dentro de seu carro, que ela havia acabado de estacionar.
— Malu! — gritou Bento.
— Bom dia! — disse Malu, descendo do carro.
Ela foi até ali conversar com Bento sobre Amora. Amora havia ficado possessa com a entrevista que Bento dera ao Luxury, ao lado dela, Malu. Malu achou que Bento precisava saber que ele mexia com Amora. Amora não tinha ficado tão alterada nem quando soube que ela, Malu, havia se declarado para Maurício e beijado ele. Malu não lembrava de alguma vez ter visto Amora daquele jeito.
— Tudo bem? — perguntou Bento.
— Tudo joia! — disse Malu. — Bom dia, Giane! Tudo bem?
— Tudo bom? — cumprimentou Giane, mal-humorada. Dirigiu-se à Bento. — Eu vou buscar mais caixas lá dentro. — entrou no quintal de Gilson.
Giane deixou Bento conversando com Malu e foi buscar outras caixas na casa dele. Mais ou menos uns dez minutos depois, quando Bento entrou no quintal para ajudá-la com as caixas, Giane ficou sabendo que ele discutiu com Wilson. Bento contou tudo o que havia acabado de acontecer. Wilson veio buscar Vinny, que estava hospedado na casa de Gilson e Salma. Vinny, como sempre, escapara para a casa dos tios.
Wilson aproveitou para lembrar Malu do convite para levar as crianças ao parque. Bento não queria levar as crianças ao parque e explodiu com Wilson, fez questão de dizer que não aceitaria esmola dele. Porém, Malu aceitou a oferta. Ela lembrou-se que estava com o dia livre no dia seguinte, logo, levaria as crianças ao parque. Malu estranhou a reação de Bento. Bento, porém, continuava desconfiando das intenções de Wilson. Bento ainda não superou o trauma de infância. Ele não suportava nem mesmo olhar para Wilson, pois lhe trazia uma lembrança dolorosa. Não esquecia a humilhação que passara. Ele também não tinha a menor vontade de entrar no parque do Wilson. Não queria nenhum contato com Wilson. Detestava aquele parque, odiava aqueles brinquedos. Por ele, o parque seria fechado. Ele não faria nada contra Wilson, mas na visão dele, Wilson tinha de fechar aquela porcaria de parque, cheio de brinquedinhos cretinos.
Giane continuou carregando as caixas, e Bento continuava sentado, em frente à casa dele.
— Me dá só um minutinho, tá, Giane? Que eu já tô indo. — disse Bento.
— Ô Bento, eu sei que foi horrível o dia que aquele imbecil expulsou a gente do parque. Mas você precisa esquecer isso, né, cara? — disse Giane.
— Eu sei, Giane, eu sei! — disse Bento, levantando-se. — Eu não entendo porquê que isso me dói tanto até hoje! Parece que foi ontem, sabe?
Bem que ele gostaria de esquecer, mas bastava olhar para Wilson para reviver a humilhação que passara, logo no dia do seu aniversário. Bento se esforçava para esquecer, mas não conseguia. Nem ele entendia o porquê. Ele já fora ofendido por outras pessoas, e geralmente não ficava remoendo, logo perdoava e esquecia a raiva. Por que com Wilson era diferente? Quando ele estava perto de Wilson, virava outra pessoa. Wilson mexia com um lado dele que ele não gostava, mobilizava o que ele tinha de pior.
Giane teve uma ideia para ajudar o amigo a superar o trauma. Ele não ficaria curado do trauma do dia para a noite. Não seria assim tão simples, mas enfrentar seus fantasmas seria um bom começo.
— Ô, Bento, o que você acha de acompanhar as crianças amanhã no parque, hein? É uma boa, né? Pra você virar essa página, hein?
— Você ficou doida? Nunca mais eu ponho os pés naquele lugar.
Bento não queria nem passar em frente ao Kim Park. Só de ver aquele parque, ele tinha vontade de sair correndo.
— Tá bom, tá bom. Você tem o dia todo pra pensar nisso. — disse Giane. — Agora, vamos lá. Vamos lá me ajudar com as caixas que desde que a patricinha chegou, tô fazendo tudo sozinha, né? Anda, molengão! Bora! Bora lá! Levanta esse astral!
— Já vou, chefa. — disse Bento, andando atrás dela.
Logo os dois estavam trabalhando na Acácia Amarela. Giane ficou observando Bento por algum tempo. Pensava no quanto gostava dele, e não queria perdê-lo. Ele era muito importante para ela. Bento estava podando um arranjo de flores, e nem percebeu que ela olhava para ele. Giane resolveu ir até ele. Precisava falar com ele. Ela estava segurando um borrifador.
— Ô Bento.
— Hum. — disse o rapaz.
— Você... — disse Giane, e fez um estalo com a boca. — Você gosta da vida que a gente leva, cara?
Bento riu. Claro que ele gostava de sua vida simples e tranquila. Mas não entendia a razão pela qual Giane estava fazendo esse tipo de pergunta.
— Que raio de pergunta é essa, Giane? — disse Bento, indo em direção à pia. Começou a lavar as mãos.
— É que... É que as coisas podem mudar, assim, de uma hora pra outra, entendeu? Rápido. — disse Giane, indo atrás dele.
— Hum. — disse o moço.
— E eu não quero que nada mude. — disse Giane, colocando o borrifador sobre o balcão. — Eu quero que continue assim. Você promete que vai ser sempre assim?
— Olha, eu prometo que se a nossa vida mudar... — Bento virou-se para olhá-la. — Vai ser pra melhor.
— Mas eu não quero que mude. — disse Giane. — Eu quero... Eu quero que seja assim, entendeu? Nem mais, nem menos. Perfeito.
Ela não suportaria perder Bento e não queria que nada mudasse entre eles. Por ela, tudo continuaria como sempre foi.
Bento não conseguia entender o que Giane tinha contra mudanças. Ele se questionou se ela ainda estava com medo de que ele a esnobasse, caso ficasse famoso. Na opinião dele, Giane era uma boba mesmo. O medo dela era infundado. Giane era sua amiga de infância, sua parceira. Era como se fosse sua irmã. Ele jamais viraria a cara para Giane. Nem para ela, nem para o restante dos seus amigos, como Charlene, Renata, Jonas, Érico, Lucindo, nem as pessoas que o criaram e o acolheram, como Salma, Gilson, Silvério, Nestor, Odila e Lili. A fama não o faria esquecer o afeto, a gratidão, a amizade. Eram coisas que ele mais prezava. Na verdade, ele nunca teve interesse em ser famoso. Giane podia ficar despreocupada.
— Ô, Giane, tudo isso é medo de eu ficar famoso e te virar a cara? — disse Bento, olhando para ela. — Pô, se toca, meu! Sou eu, Bento! Lembra? O Luxury já foi, já passou. Ninguém mais lembra disso. — bateu as mãos uma na outra, em um gesto de que não se importa. — E eu tô aqui, continuo o mesmo, tá? Então, para de coisa. — fez cócegas nela.
Neste momento, os dois notaram a presença de duas clientes.
— Ih, é ele! — disse uma das clientes, uma morena de cabelos curtos.
— Você que é o genro do Plínio Campana, não é? — disse a outra cliente, loira.
— Perdão? — disse Bento, sem entender nada.
— Nós vimos ontem o Luxury. — disse a morena. — Ficamos loucas pra conhecer a sua floricultura.
— Pois não. Em que posso ajudá-las? — disse Bento, gentil.
— Você ainda atende pessoalmente? — perguntou a loira.
— Eu e minha parceira Giane. — disse Bento, colocando a mão sobre os ombros de Giane. Foram até o balcão da frente. — Nós somos, basicamente, produtores. Como vocês podem ver, a loja é pequena, mas as flores são lindas.
— É verdade, são deslumbrantes. — disse a morena.
— Aliás, seus olhos também. — elogiou a loira.
Giane não gostou nada. Fechou a cara imediatamente. Pensou que era só o que faltava, a cliente paquerando o Bento.
— Sabe que você é muito mais bonito pessoalmente? — disse a loira.
— Obrigado. — disse Bento, abrindo um sorriso.
— Oi! Você é o Bento que apareceu na TV? — perguntou outra cliente, uma senhora que acabou de entrar, em companhia de uma jovem.
— Sou eu, sim. Então, que tipo de flores vão querer? — perguntou Bento.
— Ah, eu quero essa aqui. — disse a morena, apontando para um vaso.
Giane ficou com a cara amarrada, ao ver Bento dar atenção para as clientes. Apareceram um monte de clientes, e levaram vários vasos de flores.
— Deixa que eu ajudo a senhora. — disse Giane, oferecendo-se para ajudar a cliente a carregar os vasos de flores. — Vamos lá. Quanta flor, hein? Parece até que vai abrir uma floricultura.
— É, pra enfeitar a casa toda! — disse a cliente, a morena, de cabelos curtos.
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