Um amor improvável

24 Briga no estúdio


Fabinho acreditava que agora tudo daria certo. Malu passaria a gravação da câmera para o computador, e enviaria a Plínio por e-mail. Assim, Plínio ficaria sabendo que Bárbara armou para separá-lo de Irene. Plínio ficaria sabendo que Fabinho era mesmo seu filho. Ficaria sabendo de tudo o que ele passou, se compadeceria dele e lhe daria a vida que ele merecia.

Fabinho acreditava que em breve ficaria rico. Natan jurou que iria queimar seu filme, que no que depender dele, não conseguiria mais emprego. Fabinho não se importava com isso. Não precisaria mais trabalhar, pois receberia a herança. Mas tinha algum dinheiro guardado e ainda receberia tudo o que a Class Mídia lhe devia. O dinheiro não duraria muito tempo, é claro, mas seria o suficiente por algumas semanas. Faltava pouco para ele se tornar o mais novo milionário. Levaria uma vida maravilhosa. Ficou esperando o pai entrar em contato. Estava no banheiro, lavando o rosto, quando ouviu um barulho de seu notebook. Enxugou o rosto com a toalha e foi olhar. Havia recebido um e-mail de Plínio: “Fábio, venha a minha casa, assim que puder. Plínio”. Fabinho achou a mensagem fria. Esperava receber uma mensagem mais afetuosa, afinal, agora Plínio tinha certeza de que ele era seu filho. Mas ainda iria conquistar o afeto do pai.

— É, não foi lá muito carinhoso... Mas é hoje que eu viro o jogo!

Foi direto ao apartamento de Plínio. Malu também estava lá. Plínio estava no escritório. A primeira coisa que Plínio fez foi lhe dar uma bronca:

— O truque que você usou pra conseguir a confissão da Bárbara foi degradante e injustificável.

Quando concordou com o plano, Plínio não sabia o que o rapaz iria fazer. Sabia que Fabinho pretendia conseguir a confissão de Bárbara, mas não imaginava que o rapaz iria fazer um jogo de sedução para isso. Se ele soubesse o que Fabinho pretendia, não teria permitido e não deixaria que o garoto envolvesse a Malu nisso.

— Tudo bem, Plínio. — disse Fabinho. — Mas se eu não tivesse feito isso, você não saberia a verdade agora.

Para Plínio, os fins não justificavam os meios. Fabinho não precisava jogar sujo. Havia várias maneiras de se conseguir a confissão da Bárbara, e Fabinho escolheu o meio mais sórdido e degradante. O garoto foi capaz de seduzir a ex-mulher do pai, a mãe da irmã.

— E se eu soubesse o que você pretendia, eu não teria deixado que a Malu te ajudasse. — disse Plínio.

O garoto chegou à conclusão de que Plínio só o chamou ali para dar sermão. Pelo visto, se Fabinho esperava receber algum gesto de carinho do pai ou da irmã, estava redondamente enganado.

— Plínio, eu entendo que você queira poupar a Malu das mazelas do mundo. — disse Fabinho. — Mas eu não tive quem me protegesse. E uma coisa que eu aprendi é que, se você tem que encarar alguém como a Bárbara, você precisa descer no nível delas. Então, se essa sujeira toda acabou respingando no seu mundo correto, no seu mundo limpo, eu te peço perdão. Mas, de novo, você não saberia da verdade se eu não tivesse feito isso. Se era só isso. Até logo.

Fabinho havia aprendido muito com os marginais com quem se envolveu. Podia não ter aprendido nada que prestasse, mas aprendeu. E ele só andava com delinquentes porque eram as únicas pessoas que o aceitavam. As pessoas politicamente corretas não o queriam por perto.

Plínio não sabia o que pensar. Ainda estava chocado com toda esta história da Bárbara ter armado para separá-lo da Irene, e também com o fato de ter um filho do qual até pouco tempo atrás não sabia da existência. Ele não viu o filho nascer, crescer. Mal conhecia o rapaz. Sua relação com o filho teria de ser construída. Agora entendia por que Fabinho se aproximou da Bárbara e tentou se aproximar dele e de Malu. Embora a maneira como o rapaz se aproximou de sua família fosse bastante questionável.

Mas Plínio não saberia se conseguiria amar Fabinho como filho. O rapaz era um estranho para ele. Além disso, tinha dúvidas se Fabinho se aproximou dele por ser rico e famoso, ou por ele ser o pai. Fabinho parecia gostar da ideia de ser filho de um cineasta famoso. Será que se ele, Plínio, fosse pobre, uma pessoa anônima, Fabinho o teria procurado? Em sua vida, muitas pessoas se aproximavam dele por interesse. Ou por dinheiro, ou por fama, status. Este parecia ser o caso de Fabinho. Plínio não achava que Fabinho gostasse dele, afinal, o rapaz só soube quem eram seus pais recentemente. O rapaz não iria amar os pais biológicos do dia para a noite. Já percebeu que o rapaz tinha um caráter duvidoso. Era um sujeito sem escrúpulos, capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos, inclusive recorrendo a meios condenáveis. A maior prova disso era ele ter seduzido a Bárbara para arrancar uma confissão dela. Além do mais, Fabinho havia aprontado muito com Malu e com Bento. Fabinho mentiu, intrigou, envolveu Malu e Bento em um escândalo. Fabinho não era nenhum exemplo de ética. Na verdade, Plínio não simpatizou com o rapaz desde a primeira vez que o viu, e cada vez gostava menos dele. Mas era seu filho com a Irene, e também havia sido uma vítima do golpe da Bárbara.

E de qualquer forma, Irene ainda lhe devia explicações. Como ela podia não acreditar no amor dele? Ele não teve nada com a Bárbara enquanto estava com Irene. Como Irene podia ter acreditado em uma imagem tão frágil, e por que não lhe cobrou explicações? Tudo seria esclarecido e Irene saberia que Bárbara armou para separá-los. Ela estar doente explicava, mas não justificava ela não o ter procurado, nem dito nada sobre o filho. Independentemente do que ocorreu entre eles, ele tinha direito de saber que tinha um filho. Plínio nunca imaginou que Irene seria capaz de esconder um filho dele. Ele estava casado com a Bárbara, que estava esperando a Malu, mas ainda assim, nada impedia Irene de procurá-lo, contar que tinha um filho dele. Talvez ela tivesse medo do escândalo, não quisesse ser exposta, nem expor o filho. Ainda assim, no ponto de vista de Plínio, não justificava. Será que Irene quis puni-lo? Mas Bárbara apenas havia ocupado o lugar vazio que Irene deixou. Não era difícil para uma mulher esperta seduzir um homem só e abandonado. Ele caiu na armação da Bárbara porque na época não a conhecia direito, não sabia do que ela era capaz. Somente com o tempo ele foi vendo quem ela realmente era.

Plínio impediu Fabinho de ir embora.

— Espera, espera. — disse Plínio. — Não era só isso, não. Eu tenho mais uma coisa pra te dizer. — levantou-se. — Você não está mais sozinho. Conte comigo pro que precisar.

Fabinho emocionou-se. Ainda tinha esperanças de conquistar o afeto do pai. O que ele mais desejava era ter o amor de sua família.

— A única coisa que eu quero agora, Plínio, é um abraço. — disse Fabinho. — Um abraço de pai.

Plínio hesitou, mas acabou se aproximando e abraçando-o.

— Eu esperei tanto por isso, pai.

Plínio achava estranho Fabinho já se sentir filho dele. Isso soava meio hipócrita. Eram pai e filho, mas eram estranhos um para o outro. Malu viu que o pai não estava exatamente à vontade com a situação. Ela também não sabia o que pensar e sentir. Afinal, era um irmão do qual não soube a existência até pouco tempo atrás. Um irmão com o qual nunca tinha convivido. Era um estranho para ela. Além do mais, o rapaz era um mau-caráter. Fabinho havia aprontado muito com ela e com Bento. Principalmente com Bento. Ela não sabia se algum dia iria conseguir gostar de Fabinho, mesmo sendo seu irmão. Ainda achava que Fabinho havia se aproximado dela e do pai por interesse.

Fabinho afastou-se do pai e se aproximou de Malu.

— E da minha irmã, será que eu posso ganhar um abraço?

Malu deixou-se ser abraçada. Fabinho afastou-se.

— Olha, eu sei que eu não vou fazer parte da família de vocês do dia pra noite, mas eu queria que vocês ficassem sabendo que eu tô muito feliz por vocês acreditarem em mim. — disse o rapaz.

— Como você mesmo disse, a nossa relação precisa ser construída aos poucos. — disse Plínio. — E eu ainda insisto num exame de DNA.

Fabinho já havia pensado em um modo de trazer a mãe de volta. Ele não precisava mais de Irene para montar na grana do pai. Afinal, a Bárbara já confessou tudo. E ele faria o exame, pois tinha a mais absoluta certeza de que era filho do Plínio. Mas ele se importava com a mãe. Fabinho queria encontrar Irene, queria a mãe por perto e queria que ela e Plínio se entendessem e ficassem juntos. Assim ele teria a família completa, como sempre quis. Para sua felicidade ser completa, só faltava encontrar Irene. Então a melhor forma de trazer Irene de volta era publicar na internet o vídeo em que a Bárbara confessava, entre outras coisas, a armação que fez para separar Plínio de Irene. Irene iria entender que ela e Plínio foram vítimas de uma armação da Bárbara. Assim, Irene voltaria e a imagem da vadia da Bárbara estaria arruinada para sempre. Os filhos adotivos da Bárbara seriam expostos, Malu também. Mas com o tempo tudo cairia no esquecimento, ninguém mais se lembraria dessa história. O público esquece rapidinho. Os filhos adotivos da Bárbara sempre poderiam contar com Plínio para o que precisassem. O importante era destruir a Bárbara.

— Tudo bem, Plínio, mas falta a minha mãe. — disse Fabinho. — Eu acho que se a Irene ficar sabendo que a Bárbara confessou tudo e que eu tô aqui com você, ela volta correndo pra gente.

— Mas a gente não sabe onde a Irene está. — disse Malu.

— Então, vamos botar esse vídeo na internet. — disse Fabinho.

— O quê? — disse Plínio, chocado.

Não, o rapaz não podia expor a família desse jeito. Plínio não permitiria.

— É, a gente bota esse vídeo na internet, a gente denuncia a Bárbara publicamente, e a minha mãe vai ficar sabendo de tudo. Assim ela volta. — explicou Fabinho.

Plínio jamais concordaria com uma coisa dessas.

— Nem pensar em colocar esse vídeo na internet! Você ficou maluco? — disse Plínio. — E os filhos da Bárbara? E a sua irmã? Você não pensou no tipo de exposição que eles teriam? Isso seria um massacre.

Fabinho entendia que Plínio queria proteger a Malu e os irmãos adotivos dela. Não era nada contra eles. Nada pessoal. Mas na opinião de Fabinho, era preciso dar porrada em quem merecia. Bárbara tinha de pagar. Se fosse necessário prejudicar um pouco os filhos dela, incluindo a Malu, paciência. Bárbara não se importava com os filhos, só os usava para se fazer de boazinha, para posar de heroína salvadora de crianças carentes. Ela continuava fazendo maldades e não pensava nos filhos antes de agir.

— Mas, Plínio, se a Bárbara errou, não é justo que ela pague?

— Uma coisa é justiça, a outra é vingança. — disse Plínio. — E humilhar a Bárbara pra se vingar dela está completamente fora de cogitação.

— Tudo bem, perdão. É que eu tô pensando só em trazer a minha mãe de volta. — disse Fabinho. — Não sei, a gente pode dar uma entrevista, então. A gente fala tudo, de repente seja uma alternativa.

— Alternativa pra quê? — disse Malu, impaciente. — Ai, ó, eu tenho que ir, que eu tenho reunião com meu orientador e... Fabinho, eu entendo que você tenha raiva da minha mãe, mas eu não vou deixar que você prejudique os meus irmãos, tá bom?

Malu saiu do escritório e caminhou até a porta de saída. Estava arrependida de ter ajudado Fabinho a desmascarar sua mãe. Não cabia a ela desmascarar a mãe, além do mais, Fabinho só pensava em si próprio e não se importava em prejudicar seus irmãos e ela própria para atingir um fim. Plínio foi atrás dela. Acabaram deixando Fabinho sozinho no escritório.

— Malu. Você tá muito nervosa. — disse Plínio.

— Se arrependimento matasse, eu já estava morta. — disse Malu.

— Ele não tem esse vídeo, tem? — perguntou Plínio.

— Não, graças a Deus, só a gente tem. — disse Malu. — Ô, pai, a gente vai dar um jeito de lidar com essa história e poupar meus irmãos. Não vai?

Plínio assentiu.

— Eu sou a única família deles, e eu vou poupá-los até o resto da minha vida. — disse Malu. Afinal, quem cuidava de Luz, Kevin e Dorothy era ela. Ela e Emília, quando ainda era a governanta. Bárbara dedicava toda a sua atenção para Amora. Os outros filhos só serviam para ela se exibir diante da mídia. Bárbara não dava muita atenção para eles. Malu só não foi morar com o pai, quando Plínio e Bárbara se separaram, para proteger os irmãos da influência nefasta de Bárbara, evitar que seguissem o exemplo de Amora. Plínio pediu várias vezes para ela vir morar com ele, porém ela não quis. Ela não podia deixar seus irmãos com a louca da Bárbara Ellen.

— Tá. — disse Plínio, assentindo.

— Olho no Fabinho. — disse Malu.

— Tá, pode deixar, vou ficar de olhos bem abertos. — disse Plínio.

Malu deu um abraço no pai. Plínio deu um beijo na filha e abriu a porta para ela.

Sem que Plínio e Malu percebessem, Fabinho havia ido até o notebook do Plínio. Assim que Plínio e Malu saíram do escritório, Fabinho encaminhou o vídeo para o seu e-mail. Aproveitou um momento de distração deles, quando estavam se despedindo.

Fabinho já se antecipou e pensou em um modo de chantagear Amora para que se casasse com ele. Usaria o vídeo para isso. Sabia que não era correto, mas não se importava. Não que ele gostasse de ameaçar, chantagear, mas não havia outro jeito. Amora não aceitaria se casar com ele sem ser coagida. Fabinho queria Amora, não importava o que tivesse de fazer, nem o preço a pagar. Ele era homem para ela, não o Bento, nem Maurício. Na opinião dele, Bento e Maurício eram dois otários, dois bananões, não estavam nem jamais estariam à altura da Amora. Claro que Amora não iria gostar de ser chantageada, mas Fabinho acreditava que conseguiria conquistá-la com o tempo. Afinal, os dois eram da mesma laia. Assim como ele, Amora também gostava de dinheiro, luxo e jogava pesado para conseguir o que queria, a qualquer preço. Faria Amora ver isso. Mostraria para Amora que ela não teria partido melhor do que ele. Fabinho sabia que Amora gostava do Bento. Mas uma hora ela teria de se dar conta de que o romance dela com Bento não tinha futuro. Não daria certo. Ela e Bento não tinham nada em comum e queriam coisas diferentes da vida.

Só que Fabinho iria usar somente a parte em que Bárbara contava como fizera para separar Natan de Verônica. Fabinho ameaçaria botar o vídeo na internet caso Amora se recusasse a se casar com ele. E ainda ameaçaria dizer à mídia que Amora sabia da armação da mãe para separar Verônica de Natan, era cúmplice dela e que também pretendia dar um golpe em Maurício. Isso arruinaria a imagem de Amora. Ele tinha certeza de que Amora cederia à chantagem, porque o que importava para Amora era a imagem, que era seu ganha pão. Amora não iria querer ficar com imagem de golpista. Ela vivia em função de aparências. A última coisa que Amora iria querer era ver arruinada sua reputação de boa moça. Mesmo gostando do Bento, Amora aceitaria se casar com ele, Fabinho, nem que fosse para salvar sua imagem. Por mais que Amora gostasse do Bento, ela não iria querer abrir mão de tudo o que conquistou. Não arriscaria perder tudo. Fabinho tinha certeza de que conseguiria fazer Amora esquecer o Bento. Em breve ele seria rico, portanto, teria condições de casar com Amora. É claro que não deixaria rastros. Enviou o vídeo para seu e-mail, depois excluiu a mensagem da lista dos enviados. Plínio não podia saber que ele tinha uma cópia do vídeo, e que pretendia usar o vídeo para chantagear Amora. Do contrário, seus planos estariam todos arruinados. Plínio ficaria decepcionado. Plínio pensaria mal dele, o acharia um mons-tro e não permitiria mais que ele se aproximasse. Nem liberaria a grana.

Plínio voltou para o escritório e o flagrou mexendo no notebook.

— O que está mexendo aí? — perguntou Plínio.

— Perdão, Plínio, é que eu precisava entrar no e-mail do trabalho.

— Ah. — disse Plínio.

— A gente almoça junto? Queria conversar mais com você.

— Desculpe, Fábio, eu preciso trabalhar. — disse Plínio.

— Tudo bem, então, eu vou nessa. — disse Fabinho.

Plínio estendeu a mão. Fabinho apertou a mão de Plínio e abraçou-o. Deu-lhe uns tapinhas no ombro.

— Licença. — disse Fabinho, saindo do escritório. Plínio o acompanhou.

Ao chegarem à sala, Celinha estava sentada no sofá, lidando com papéis.

— Até mais. — disse Fabinho.

— Tchau. — disse Celinha, acenando.

Plínio abriu a porta, e Fabinho foi embora. Já que não iria almoçar com o pai, resolveu ir atrás de Amora. Quanto antes falasse com ela, melhor. Primeiro almoçou e passou em uma loja para comprar um novo celular. O antigo havia quebrado. Depois foi direto para o estúdio de gravação onde Amora trabalhava. O programa deveria estar prestes a começar.

— Amora, Amora. — disse Peixinho, o diretor do programa. — A Karmita Lancaster está chegando em 5 minutos, hein?

— Tá bom. — disse Amora.

— Tá pronta? — perguntou peixinho.

— Peixinho... Depois da entrevista, você me dá um minuto livre no ar pra eu falar sobre... A minha vida pessoal? — perguntou Amora.

Amora decidiu contar ao Brasil inteiro que estava com Bento. Já estava na hora. Não podia mais adiar esta decisão. Esperou tempo demais. Quanto mais tempo ela demorasse para assumir o Bento, pior seria. Iria ficar parecendo que ela rompeu com Maurício às vésperas do casamento, e isso não era bom para sua imagem. Ela deu duro para construir uma imagem de credibilidade, não queria botar tudo a perder. Mas ela também sabia que estava arriscando perder trabalhos ao anunciar o namoro com Bento.

— Tá, pode ser. — disse Peixinho. — Você pode falar o que você quiser. Afinal de contas, vai dar audiência mesmo. Então...

— Obrigada. Ai, meu Deus! — disse Amora, ansiosa, indo sentar-se em uma cadeira, em frente ao espelho.

Tomou um gole de suco. Ela sabia que não seria nada fácil. A mídia iria massacrá-la, o seu público não iria gostar de vê-la ao lado de um florista pobre. Além do mais, não iria pegar bem para sua imagem se todos soubessem que ela rompeu o noivado para ficar com o cunhado. Todos achavam que Bento estava com a Malu. Mas ela havia prometido a Bento que assumiria o romance deles para o Brasil inteiro. Além do mais, não era justo ela e Bento ficarem se encontrando às escondidas, como se estivessem cometendo um crime. Não estavam fazendo nada de errado. Ela não aguentava mais disfarçar o que sentia por Bento em público. Era melhor assumir, contar toda a verdade. Seria a fofoca do ano, mas com o tempo o público acabaria esquecendo. Ela poderia perder trabalhos, mas saberia dar a volta por cima. Sempre haveria um jeito para tudo. Se ela não assumisse, Bento iria acabar se cansando e terminando tudo com ela. Amora não queria perder Bento, de jeito nenhum. Não queria perder nada. Mas daria um jeito. Ela não sabia ainda como iria fazer, mas transformaria Bento em um príncipe. Daria um jeito de enquadrá-lo em seu mundo. Só assim seu público aceitaria seu namoro com Bento.

Fabinho acabou de entrar no estúdio. Havia ouvido a conversa entre Amora e Peixinho. Então Amora iria falar sobre a vida pessoal no final da entrevista. Será que ela pretendia assumir o namoro com Bento? Para Fabinho, era difícil de acreditar. Amora realmente estava arriscando perder trabalhos por causa do Bento. Desta vez, Amora realmente o surpreendeu. Ele não achava que ela teria coragem, por mais que gostasse do Bento.

Mas ele não a deixaria fazer uma burrada dessas. Ele era o homem certo para ela. Ao lado dele, ela só teria a ganhar e não precisaria abrir mão de nada. Era mais vantajoso para ela ficar com ele. Mesmo sabendo que Amora estava arriscando ser massacrada pela mídia e perder tudo para assumir o Bento, Fabinho não desistiria de chantageá-la, de ameaçar manchar a imagem dela. Uma coisa era Amora assumir para a mídia que estava com Bento. Outra coisa completamente diferente era ela ficar com imagem de golpista, perder trabalhos por causa da armação da mãe, da qual ela não participou. Amora não iria querer pagar por algo que não fez. Fabinho aproximou-se de Amora e beijou o ombro dela.

— Fabinho? — surpreendeu-se ela. O que ele veio fazer ali? Ela não queria olhar para a cara de Fabinho, depois do que ele fez à sua mãe.

— Amorinha. — disse Fabinho.

Amora suspirou. Ela não aguentava mais a marcação dele.

— Você está linda, né? — disse Fabinho.

Amora assentiu.

— O que você vai fazer? — perguntou Fabinho. — Você vai anunciar o seu namoro com o Bento? Ainda bem que eu cheguei pra te impedir de fazer essa besteira, né?

Fabinho estava disposto a tudo para tirar Amora de Bento, por isso queria conquistá-la a qualquer preço. Amora era um dos melhores partidos da cidade. Ela era bonita, rica e famosa, e devia ficar com ele, não com Bento. Amora era sofisticada demais, refinada demais, muito inteligente e muito esperta para ficar ao lado de um reles florista. Fabinho se identificava com Amora. Eram parecidos, queriam as mesmas coisas. Fabinho tinha certeza de que faria Amora gostar dele. Era uma questão de tempo. Ele sim merecia estar ao lado dela. Mostraria para o mundo que tinha seu valor, que era digno de estar ao lado de Amora Campana.

— Como é que você tem coragem de vir falar comigo depois do que você armou pra cima da minha mãe, hein? — perguntou Amora. Bárbara havia contado tudo para ela.

Amora estava furiosa. Fabinho era um canalha, jogou sujo para fazer a mãe dela abrir o bico, e gravou a confissão. Bem que ela avisou para a mãe que Fabinho não valia nada. Cansou de alertar a mãe, mas Bárbara não deu ouvidos. Confessou todas as armações para ele. Amora não entendia como a mãe, sempre tão esperta, podia ter sido tão burra de ter caído na armação do Fabinho. Certamente, ele foi convincente, e soube manipular a Bárbara. Ele sabia muito bem o ponto fraco da Bárbara, que era a vaidade. Fabinho sabia jogar.

Mas Amora não sabia o que ele pretendia com isso. Por que ele armou para sua mãe? Por que ele tinha tanta raiva, tanto interesse em destruir sua mãe? Se ele botasse o vídeo na internet, sua mãe estaria arruinada. Não apenas a mãe, como ela, Amora, também, pois sua imagem estava associada à da mãe. Se Bárbara se queimasse, ela se queimaria também. Estava furiosa com Malu também. Malu participou da cilada contra sua mãe. Amora agora entendia por que Malu fingiu estar namorando com Fabinho. Não foi para fazer ciúmes no Bento, como ela imaginou. Na opinião de Amora, Malu era mesmo uma sonsa. De santa, não tinha nada. Estava mostrando as garras. Malu nunca se deu bem com a Bárbara. Malu sempre se mordeu de inveja da relação dela, Amora, com Bárbara, do afeto que Bárbara tinha por ela. Ela e Bárbara eram unha e carne, eram cúmplices, formavam um time, e Malu se ressentia disso. Certamente quis se vingar da mãe. Como Malu pôde fazer uma coisa dessas contra a própria mãe? Como pôde ser capaz de expor a família ao calhorda do Fabinho? Depois Amora diria umas verdades a Malu. Agora ela teria de lidar com Fabinho, que veio encher o saco justo quando o programa ia começar.

Ela ainda não conseguia entender qual o interesse de Fabinho nesta história toda. Por que ele tinha tanto ódio de sua mãe? E o pior era que Natan havia flagrado Fabinho e Bárbara na cama. Se Natan ouviu Fabinho e Bárbara falando mal dele, Fabinho saiu perdendo tanto quanto a Bárbara. Amora não entendia ainda qual era a do Fabinho. Por que Fabinho daria um tiro no próprio pé? Não fazia o menor sentido.

Fabinho entendeu que Amora já estava sabendo que ele armou para a mamãezinha dela.

— Ué, Amora, eu tinha que desmascarar a Bárbara pra provar que eu sou filho da Irene Fiori e do Plínio Campana. — disse Fabinho.

Amora levantou-se da cadeira, chocada.

— Gostou? — perguntou Fabinho.

— Como é que é? — perguntou Amora, sem conseguir acreditar. Então foi por isso que ele veio para São Paulo. Por isso forçou uma aproximação com ela, e ficou amiguinho da mãe dela.

— Você vê, Amora, essa vida é muito louca, né? — disse Fabinho. — Eu, filho do Plínio, e você, minha amiguinha de orfanato, adotada pela mulher que separou o meu pai da minha mãe. Ou seja, basicamente, esses anos todos, você usufruiu do que é meu por direito.

No ponto de vista de Fabinho, Amora era uma egoísta. Porque ela podia até ganhar muito bem, estar em excelente condição. Mas tudo o que ganhava, gastava consigo mesma. Gastava muito em compras, principalmente de sapatos importados. Para ela era fácil e cômodo, porque era Malu quem arcava com a maioria das despesas. Era Malu quem pagava os empregados, a escola dos irmãos e demais despesas, além de bancar os luxos da Bárbara. E tudo com a pensão que recebia de Plínio. A Toca do Saci sobrevivia graças ao dinheiro do Plínio e algumas doações. E ainda assim, Amora passou parte da infância e a adolescência sendo sustentada pelo dinheiro do Plínio. Antes de ela virar modelo e apresentadora, era Plínio quem a sustentava. Bárbara não era chamada para trabalhar há tempos. Plínio até deixou Bárbara bem financeiramente depois do divórcio, mas ela gastou tudo. Amora usufruiu de tudo que era dele, Fabinho.

Amora abanou a cabeça. O que ele estava dizendo não podia ser verdade. Do contrário, ela e a mãe estariam ferradas. Seria o maior escândalo da história da família. A mídia iria massacrar a mãe dela, e isso iria respingar nela e nos irmãos. Toda a família seria atingida. Amora se preocupava com sua reputação. Seu público não gostaria de saber que ela não apenas foi adotada, mas também era discípula da mulher que separou Plínio de Irene, e condenou o filho do casal à orfandade. Ela perderia tudo o que conquistou por causa de uma armação da mãe. Não era justo. Uma coisa era ela arriscar perder tudo para assumir o Bento. Ela estava com Bento e, bem ou mal, teria de assumir as consequências disso. Mas outra coisa completamente diferente era ela perder tudo por conta de uma armação da mãe. Ela é que não iria pagar o pato.

— Você está inventando isso. — disse ela, sentando-se na cadeira.

— Não. É a mais pura verdade. Agora, nós dois temos pedigree. — disse Fabinho, abaixando-se e ficando ao nível dela. — E é por isso, por ser oficialmente um dos melhores partidos da cidade, que eu vim te pedir em casamento.

Fabinho beijou a mão dela.

— O quê? — perguntou Amora, espantada.

— Amora, casa comigo? Você vai me fazer o homem mais feliz do mundo. — disse Fabinho, ajoelhando-se.

— Você só pode estar louco. — disse Amora.

— Não, eu estou sendo bem prático, na verdade. — disse Fabinho, levantando-se. — Aliás, que nem esse telefone, que eu comprei agora. Sabe que ele tem a função, menina, de mostrar a verdade. — mexeu no celular à procura do vídeo. — Olha que legal.

Entregou o celular para Amora, que começou a assistir o vídeo, estarrecida. No vídeo, Bárbara confessava ter separado Natan de Verônica: “Eu armei com a secretária. Ela teve que chegar mais cedo em casa e pegou a gente agarrados, na alcova do casal. Ah, foi mais fácil do que roubar dentadura de defunto. Você sabe que, no amor e na guerra, vale tudo”.

— Essa parte é o máximo, né? — disse Fabinho. — Amora, se eu botar esse vídeo na internet e espalhar que você é cúmplice da sua mãe, vocês estão ferradas. A não ser que você anuncie no seu programa que vai se casar comigo.

Ele pegou o celular da mão dela.

— Então, cocotinha, eu posso botar o vídeo na internet?

Amora amava seu trabalho. Não queria perder tudo o que conquistou, até porque foi difícil para ela chegar onde chegou. Mas não se casaria com Fabinho. Ela podia até amar sua profissão, mas também amava Bento e não queria se separar dele. Ela não queria ter de casar com Fabinho para salvar sua imagem. Não suportaria viver sob o mesmo teto que Fabinho. Só de olhar para a cara dele, lhe embrulhava o estômago.

Além do mais, se ela aceitasse casar com Fabinho, nem que fosse apenas para enrolá-lo, Bento não olharia mais para ela. Bento era um homem íntegro, jamais aceitaria que ela casasse com outro nestas condições, ainda mais se tratando de Fabinho, e não iria aceitar ter um caso clandestino com ela. Nem ela iria querer isso, pois não se sentiria bem ficando com dois homens ao mesmo tempo. Já disse isso uma vez para a mãe, quando Bárbara sugeriu que ela casasse com Maurício e vivesse em paralelo a paixão por Bento. Amora não queria abrir mão de nada: nem do Bento, nem de sua carreira de it-girl, nem da fama, nem da riqueza. Ela não deixaria Fabinho armar para separá-la de Bento e ainda se dar bem com isso. Se Fabinho achava que ela cederia à chantagem, estava muito enganado. Ela não sabia ainda como sair dessa, mas daria um jeito de se defender, de se livrar de Fabinho.

Ela não cederia à chantagem porque não era justo ela ter de assumir as consequências por algo que ela não fez. Amora sabia que a mãe tinha cismado com Natan e que pretendia separá-lo da Verônica. Sabia que a mãe estava errada, mas não teve coragem de ficar contra a mãe. Não queria magoar a mulher que a adotou e que lhe ensinou tudo. Bárbara era a única pessoa que lhe deu uma chance na vida. Bárbara a criou, educou, lhe ensinou uma profissão. Ela se sentia em dívida com a mãe adotiva. Mas ela não ajudou a mãe na armação. Porém, se ela não casasse com Fabinho, ele iria dizer para a mídia que ela ajudou a mãe adotiva no golpe.

Amora ficou ainda mais revoltada com Malu. Se Malu não tivesse ajudado Fabinho, ele não teria nenhum vídeo gravado. E sem vídeo, Fabinho não teria como ameaçá-la, chantageá-la para que se casasse com ele. Agora, Amora tinha certeza de que Fabinho iria acabar não apenas com Bárbara, mas com ela, com Bento e com qualquer um que se atrevesse a se meter no caminho dele. O negócio do Fabinho era ficar bem rico e tripudiar em cima de todo mundo. Malu ainda iria se ver com ela. Mas Amora cuidaria disso depois. Tinha um assunto mais urgente para resolver.

— Você acha mesmo que eu vou me casar com você por causa dessa chantagenzinha ridícula? — perguntou Amora.

— Ué, se você não se casa, eu boto o vídeo na internet. — disse Fabinho. — Se eu boto o vídeo na internet...

Amora não cairia nessa chantagem barata. Ela se considerava bem mais esperta e mais inteligente do que Fabinho.

— Isso é um problema seu e da minha mãe. — disse Amora. — Eu não tenho nada a ver com essa história. — cruzou os braços. — Aliás, o que o Plínio Campana vai achar quando descobrir que você está usando esse vídeo pra me chantagear?

Plínio não estava sabendo que Fabinho tinha o vídeo, e jamais saberia, no que dependesse do rapaz. Plínio achava que somente ele e Malu tinham. Plínio jamais compreenderia, nem concordaria com isso. A última coisa que Fabinho queria era decepcionar o pai. Plínio tinha de acreditar na sua honestidade. Fabinho não deixaria Amora tocar no celular dele, logo, ela não teria como provar que ele tinha o vídeo. E ele daria um jeito de fazer com que Plínio não acreditasse nela. Logo, Amora podia até tentar, mas não iria escapar dessa assim tão fácil. Ele não deixaria.

— O Plínio não vai achar nada. — disse Fabinho.

Amora entendeu que Plínio não sabia que Fabinho tinha o vídeo. Pelo visto, Plínio não confiava em Fabinho, senão teria deixado uma cópia do vídeo com ele. Plínio não fazia a menor ideia do que o filhinho dele andava aprontando. Claro que Fabinho não contou nada para Plínio. Plínio jamais iria concordar com os métodos que Fabinho usava para conseguir o que queria. E era óbvio que Fabinho iria se fazer de bonzinho para o pai. Assim ele conquistaria o afeto de Plínio, e Plínio liberaria a grana.

— Entendi. Você está bancando o bonzinho pra conquistar o papaizinho, é, fofo? — disse Amora. Pensou em contar tudo ao Plínio. Mas não sabia como seria a reação de Plínio, se ele acreditaria nela ou não. Fabinho certamente tentaria fazer com que Plínio não acreditasse nela. Inventaria uma história qualquer. Ela não teria como provar que Fabinho estava usando o vídeo para chantageá-la. Até porque ele não a deixaria chegar perto do celular dele. Seria a palavra dela contra a de Fabinho. Além do mais, Plínio conheceu Fabinho outro dia, não sabia do que o filho dele era capaz. E Amora morria de medo de Fabinho se vingar dela, se ela se recusar a casar com ele, ou se ela contar tudo para o Plínio.

Amora não sabia o que fazer. Se ela não aceitasse casar com Fabinho, ele botaria o vídeo na internet e ela estaria ferrada. E se ela cedesse à chantagem de Fabinho, Bento ficaria decepcionado com ela, não iria querer mais olhar na cara dela. Bento iria vir com aquele papo de que ela se importava mais com a imagem, com a carreira do que com o amor que sentia por ele. Bento achava que ela não devia ligar para a opinião pública. Mas não era tão simples assim. Era fácil para Bento falar.

Amora pensou em pedir ajuda para Maurício. Se Fabinho botasse o vídeo na internet e espalhasse que ela era cúmplice da mãe, sua imagem estaria arruinada. Ela sabia que havia traído Maurício da maneira mais suja. Ela o enganou, mentiu para ele. Ela havia convencido Natan e Bárbara a fingir que tinham terminado, e ela também fingiu um rompimento com a mãe, tudo para Maurício aceitar fazer a campanha da Cosy Bed. Maurício estava indignado com a história de Bárbara ter armado para separar Natan da Verônica. Estava revoltado, e tinha brigado com o pai, porque Natan continuava com a Bárbara, mesmo depois de saber da armação. Maurício não iria aceitar fazer a campanha, não para a agência de Natan. Por isso Amora armou com Bárbara e Natan. Tudo por causa de um cachê de quinhentos mil reais. E ainda trocou Maurício por Bento. Maurício estava ferido e decepcionado com ela. Ainda mais depois de vê-la aos beijos com Bento pouco tempo depois de ter terminado com ele. Mas Amora tinha certeza de que Maurício ainda gostava dela. Ninguém deixa de amar do dia para a noite. E Maurício era uma pessoa justa. Maurício sabia que ela, Amora, não havia ajudado a mãe a separar Natan da Verônica. Bárbara armou com a secretária de Verônica. Ela, Amora, não tinha nada a ver com esta história. Não era justo ela perder trabalhos por causa disso. Maurício a ajudaria a se defender se ela pedisse. Calaria a boca dos jornalistas. Maurício podia estar magoado com ela, mas ainda comia na mão dela.

Porém, se ela anunciasse no programa que terminou com Maurício, que não iria mais se casar e estava com Bento, Maurício não limparia a barra dela. Maurício não iria querer fazer papel de idiota para a mídia, defendendo da maledicência a ex-noiva, que rompeu com ele perto do casamento para ficar com outro. Amora sabia que estava em uma situação complicada. Mas não queria ceder à chantagem. Não queria perder Bento e não queria sofrer as consequências de algo que não fez. Não era justo. Ela não deixaria Fabinho fazer mal a ela e ao Bento, e ainda se dar bem com isso.

— Amora, eu não estou fazendo nada. — disse Fabinho. — Bonzinho ou mauzinho, eu sou filho dele. E a mulher que se casar comigo vai ter uma vida de rainha.

— Aff... — resmungou Amora.

— Amora, você gosta de dinheiro, não gosta? — disse Fabinho, cruzando os braços. — Gosta de conforto? Eu também. Você nunca vai encontrar um parceiro melhor do que eu.

Fabinho usaria de todos os argumentos para convencê-la. Ela tinha de se casar com ele. Ele precisava vencer Bento, mostrar seu valor.

Amora riu de nervoso. Ela não casaria com Fabinho nem sob tortura. Aliás, para ela seria uma tortura casar com Fabinho. Preferia morrer a casar com ele. Não o deixaria se dar bem em cima do sofrimento dela e do Bento, de jeito nenhum. Peixinho apareceu:

— Amora! Amora, desculpa. A gente tem dois minutos, vai.

Amora levantou a mão, pedindo para Peixinho esperar.

— Licença, por favor. — disse Fabinho.

Peixinho retirou-se. Fabinho disse:

— Amora, se você não se casa comigo, eu boto o vídeo na internet. Vai todo mundo saber do que tua mãe é capaz... — disse Fabinho.

— Sai daqui! Cansei! Vai embora! — disse Amora.

— E não pensa que não vai respingar em você, não! Porque, no vídeo, a tua mãe admite que deu um golpe pra separar o Natan da Verônica! — disse Fabinho.

— E o quê que eu tenho a ver com essa história, posso saber?

— Que vai todo mundo pensar que você não só ajudou a sua mãe a dar o golpe, como também queria dar um golpe no filho dele! — disse Fabinho.

— Você é muito primário! — disse Amora. — Você acha que com essa chantagenzinha barata e me ameaçando, eu vou dizer o quê? “Claro! Vamos nos casar!”. Cresce! Você não sabe jogar? Você é mixo! — afastou-se.

Ela daria um jeito de se defender do Fabinho, mas não casaria com ele. Nem acreditava que ele gostava dela de verdade, só queria tomá-la do Bento. Para Fabinho, era uma disputa. Fabinho vivia disputando com Bento, desde criança. Ele queria ficar com ela por mero capricho. Mas ela não deixaria Fabinho separá-la de Bento. Daria um jeito de sair dessa. Falaria com Bento. Bento era inteligente e a ajudaria a pensar melhor no que fazer. Só que ela sabia também que tinha de agir rápido, antes de Fabinho botar o vídeo na internet.

Fabinho resolveu implorar. Amora tinha de aceitar casar com ele, não importava o preço a pagar. Custe o que custar. Por isso procurava usar todos os argumentos para convencê-la de que ela teria muitas vantagens em se casar com ele. Não a deixaria ficar com Bento, de jeito nenhum.

— Amora. — disse Fabinho, indo atrás de Amora e pegando no braço dela. — Amora, seja esperta. Casa comigo. Eu tô jogando assim porque eu sou louco por você. Você é igual a mim. Você sabe disso.

Fabinho sabia que Amora era tão gananciosa e sem escrúpulos quanto ele, e usava das mesmas armas que ele para derrubar os inimigos. Amora valorizava tudo o que tinha e era capaz de qualquer coisa para preservar. Ela também fazia de tudo para alcançar seus objetivos, inclusive, passar por cima dos outros se achasse necessário. Ele não prestava, tinha consciência disso, e sabia reconhecer quem não prestava também. Farejava de longe. Porém, pelo visto, a patricinha se achava melhor do que ele:

— Você está dizendo que eu sou da sua laia, garoto?

Na opinião de Amora, ela não era uma marginal como Fabinho.

O rapaz chegou à conclusão de que Amora era muito mais esperta do que ele imaginava. Amora conseguiu dar a volta nele uma vez, naquele dia em que ele foi atrás dela na Casa Verde. Ele ameaçou contar ao Natan e ao Maurício que Amora largou tudo para visitar o namoradinho de infância, se ela não fosse ao estúdio. Naquela ocasião, Amora pensou logo em uma maneira de ele não poder cumprir a ameaça e conseguiu se safar. E agora, Amora não cedeu à chantagem dele e ainda ameaçou contar tudo ao Plínio. Amora sabia que Plínio não iria gostar de saber que ele usou o vídeo para chantageá-la. Ela sabia também que ele não iria querer decepcionar o pai. Ele precisava conquistar o afeto de Plínio. Amora contaria para Plínio, sem sombra de dúvida. Claro que Fabinho negaria tudo. Daria um jeito de inverter o jogo, e ainda sair de vítima nesta história. Amora não teria como provar que ele tinha o vídeo. Ele excluiria o vídeo do celular, e seria a palavra dela contra a dele. Ele não deixaria rastro.

Fabinho não usaria mais o vídeo, porque desistiu de forçar Amora a se casar com ele. Mesmo sob ameaça, ela não aceitou. O plano não deu certo. E se ele cumprisse a ameaça e botasse o vídeo da Bárbara na internet, Plínio iria ter certeza de que ele tinha uma cópia do vídeo e que usou para chantagear Amora. Só ele tinha o vídeo, além de Plínio e Malu. Ninguém mais tinha. Nem Plínio, nem Malu botariam o vídeo na internet, para não expor a família. E ninguém mais teria interesse em botar o vídeo na internet, a não ser ele, Fabinho.

Mas ele acreditava que o plano tinha tudo para dar certo. Era quase perfeito. Nem pensou na possibilidade de Amora não aceitar casar com ele. Afinal, ele ameaçou acabar com a imagem dela, e ela sabia que ele não estava brincando. Ele achava que Amora não arriscaria perder trabalhos, tudo o que conquistou, por causa de algo que ela não fez. Ela valorizava demais o que tinha para arriscar perder tudo por causa de calúnias. O importante era botar pressão, ameaçar para ela ficar com medo e aceitar. Se ele cumpriria a ameaça ou não, era outra história. Mas o tiro saiu pela culatra. Não adiantou ameaçar, insistir, Amora não aceitou. E cumprir a ameaça estava fora de cogitação. Plínio comeria o fígado dele. Plínio não queria expor a Malu e os outros filhos da Bárbara. Ainda que ele editasse o vídeo, e botasse na internet somente a parte em que Bárbara confessava ter armado para separar Natan da Verônica, Plínio não iria gostar. Plínio disse que expor a Bárbara estava fora de cogitação.

Fabinho percebeu que não adiantava nada armar contra Amora, ameaçá-la, ela sempre dava um jeito de se livrar. Ele não era páreo para ela. Amora era muito esperta e inteligente, era uma jogadora habilidosa, melhor do que ele, o que a tornava ainda mais perigosa. Além do mais, Amora era cria da Bárbara Ellen, outra que não valia nada, pois prejudicou Irene, prejudicou a ele e internou Madá várias vezes num hospício. Não que Fabinho gostasse de Madá, mas era muita crueldade Bárbara fazer o que fazia com a própria mãe. Havia outras maneiras menos cruéis de fazer Madá ficar de bico fechado. Por pior que ele fosse, ele não internou nem a mãe de sangue, nem a mãe adotiva em um sanatório sem necessidade. Pensando melhor, ele e Amora não eram da mesma laia mesmo.

— Não, aí, não. Você é muito pior do que eu. — disse Fabinho.

Amora deu um tabefe na cara de Fabinho. Estava ofendida e ficou perturbada também. Como ele podia dizer um absurdo desses? Fabinho azucrinava ela e o Bento desde criança, fazia de tudo para separá-los, como mentir, armar intriga. Agora ele recorreu a um meio sórdido, a ameaçou e a chantageou para que se casasse com ele, e ainda tinha a cara de pau de dizer que ela era pior que ele? Ela sabia que não era santa. Ela usava de ameaça e chantagem também. Ela fez isso com Lara, quando Lara tentou derrubá-la. Mas ela nunca tentou obrigar ninguém a se casar com ela. Tudo o que ela fazia era para se defender, e para preservar tudo o que tinha, para não deixar pessoas como Lara Keller puxarem seu tapete. Para lidar com pessoas como Lara, infelizmente era preciso descer ao nível delas. Ela usava chantagens e ameaças como estratégias de sobrevivência no mundo competitivo da fama. Fabinho não fazia por sobrevivência, e sim por inveja. Na opinião dela, Fabinho era um sujeito patético, medíocre e sem classe.

— Sai daqui! — disse Amora, dando mais dois tapas no ombro dele, descontrolada. — Sai daqui, garoto! Eu tenho nojo de você! Nojo!

— Segurança! Segurança! — chamou Peixinho. — Tirem...

— Sai! — gritou Amora.

Fabinho achava que Amora faria qualquer coisa para salvar sua imagem, inclusive, casar com ele. Achava que Amora iria aceitar viver ao seu lado para continuar famosa, vivendo no luxo e no glamour. Para não ser difamada, não pagar pelo o que não fez. Por isso decidiu chantageá-la.

Mas agora ele percebeu que Amora não cedeu à chantagem porque não queria abrir mão do Bento, de jeito nenhum. Nem sob a ameaça de ter a imagem arruinada. Pelo visto, ela queria tudo: continuar rica e famosa, e ser feliz ao lado de Bento. Só que ela estava querendo demais, e ainda não se tocou que isso não era possível. Não havia condições de ela ter tudo. Bento jamais aceitaria entrar no mundo dela. Ele queria que Amora largasse tudo para que fosse viver com ele. Além de desprezar o mundo de Amora, Bento era orgulhoso demais para admitir que Amora ganhasse muito mais dinheiro do que ele, e em menos tempo. Bento achava absurdo Amora ganhar, por exemplo, cinquenta mil reais só para fazer um único anúncio, ou para sorrir e tirar fotos em um evento. Um dinheiro que ele não ganhava nem em um mês vendendo flores. E Amora não queria abrir mão do luxo, do glamour, da vida de celebridade para viver na Casa Verde. Só que ela iria quebrar a cara. O romance dela com Bento jamais daria certo. Bento jamais daria a ela uma vida de rainha com que ela tanto sonhava. Eles eram diferentes demais.

Fabinho ficou furioso. Amora o rejeitou por causa de Bento. Não aceitava o fato de Amora Campana dispensá-lo, ele, que era filho do Plínio, herdeiro de uma das maiores fortunas da cidade, para ficar com um reles florista. Para ele era muita humilhação Amora Campana rejeitá-lo. Os seguranças se aproximaram e o agarraram. Fabinho gritou:

— Eu quero ver a sua cara coberta de estrume do lado daquele jardineiro!

— Cala a boca! — gritou Amora.

— Você vai se arrepender de não ter casado comigo! — gritou Fabinho. — O Bento vai te dar uma vida de... — apontou o dedo para ela, porém, um dos seguranças tentara agarrar seu braço. Soltou o braço. — O Bento vai te dar uma vida de bosta! — desvencilhou-se dos seguranças. — Licença, amigo! Licença!

Fabinho foi embora, fervendo de raiva por dentro. Pensando bem, que importava? Ele não precisava da Amora mesmo. Agora que iria ficar rico, teria um monte de mulheres aos seus pés. A Mel estava bem interessada nele. Não faltariam mulheres que quisessem aparecer nas colunas sociais ao lado dele. Mas Amora iria se arrepender por tê-lo rejeitado. E já que ela queria tanto assumir o namoro com Bento, ele iria dar um empurrãozinho. Tiraria fotos dela com Bento e espalharia na internet como se ela estivesse traindo Maurício. Afinal, ninguém mandou ela esconder da mídia que havia rompido com Maurício. Que se virasse agora. Não era ela que gostava tanto de aparecer? Fabinho daria uma forcinha. Ele só não enviaria as fotos para Sueli Pedrosa porque ela revelaria a fonte, e ele não queria que ninguém, muito menos Plínio, soubesse que foi ele. Fabinho sabia que Amora perderia trabalhos com essa calúnia, que ela ficaria queimada no mercado, mas não se importava. Ela que se virasse para limpar a imagem. Ou então, que desistisse da carreira de it-girl e fosse morar com o florista na Casa Verde. Ele não dava um ano para ela estar cheia da vida simples.

— Isso não vai ficar assim. — disse Fabinho, subindo na moto. — Você me paga, Amora.

Colocou o capacete, enfiou a chave na ignição. Tinha certeza de que Amora iria atrás de Bento em algum momento. Ficou esperando Amora sair. Quando ela saiu, seguiu-a até a casa de Bárbara. Quando Amora saiu novamente, certamente para ir atrás de Bento, Fabinho continuou seguindo-a em sua moto, a uma distância segura. Chegando à Casa Verde, viu que Amora foi até a Acácia Amarela. Saiu de lá com o Bento, e os dois foram até um café que fica do lado da loja. Sentaram-se em uma das mesas de fora. Perfeito. Ele estava do outro lado da rua. Bento e Amora estavam distraídos, conversando, não perceberiam a presença dele. Além do mais, se fosse preciso, ele se esconderia atrás de uma coluna. Ficou observando o casal. Pegou seu celular, e ficou procurando o melhor ângulo. Já havia tirado uma foto, quando ouviu uma voz atrás dele:

— E aí, cara?

Fabinho olhou para trás. Aborreceu-se ao ver que era Giane. Mais do que isso, ele estava em pânico. Tinha vontade de gritar, mas disfarçou. Não suportava olhar para ela, nem ficar perto dela. Ela o fazia se sentir mal. Ela tinha de aparecer ali para perturbá-lo? Tudo o que ele queria era esquecer que ela existia, e ela vinha atrás dele atormentá-lo. Ela lhe trazia lembranças horríveis. Perto dela, ele voltava a ser aquele garotinho que ela humilhou na infância, a sentir o que ele sentia. Além disso, Giane era uma chata, uma pentelha, que vivia atrás do Bento.

Por causa do Bento, para defender aquele otário, Giane enchia o saco dele. Ela o humilhava, o provocava. Ela se metia onde não era chamada e sempre o atrapalhava. Ela o atrapalhou quando ele foi à Casa Verde pela primeira vez, atrás da Amora, quando ele destruiu a estufa e agora ela estava atrapalhando-o novamente, aparecendo justo quando ele estava fotografando o Bento e a Amora juntos. Giane era uma pedra no seu sapato. Era impressionante como Giane estava sempre no caminho dele.

— Você tá a fim mermo da Amora, ou é só pra disputar com Bento? — perguntou Giane, enquanto Fabinho enfiava o celular no bolso.

Fabinho não era apaixonado por Amora. Ele a via como um meio de ascensão social, e um troféu que tinha de ganhar para vencer Bento. Ele só não queria perder Amora Campana para Bento. Ele sentia que precisava mostrar para o mundo que era um vencedor, que se deu bem na vida, que era um privilegiado. Casar com Amora seria a cereja do bolo, seria a confirmação de que ele havia superado seu maior oponente. Por ter sido tão humilhado na infância, ele queria mostrar que havia vencido. Amora não quis casar com ele, nem sob chantagem e ameaça. Ela feriu seu orgulho, por isso Fabinho queria se vingar dela. Mas Amora, por mais bonita que fosse, não o atraía do mesmo jeito que uma certa garota.

Na verdade, a única mulher que realmente mexia com ele estava ali, ao seu lado, embora Fabinho jamais admitisse para quem quer que fosse. Ao mesmo tempo em que queria distância dela, junto com a vontade que tinha de fugir dela, também havia uma vontade enorme de agarrá-la e beijá-la. Mesmo metida naquelas roupas horríveis, ela era a mulher mais atraente que ele já viu. Ainda mais com o jeito marrento dela. Ela era explosiva, tinha o pavio curto, era brigona, e o enfrentava, não se deixando intimidar. Ela não era uma garota boba, medrosa, nem fraca.

No fundo, Fabinho a admirava por isso, embora ele também tivesse razões de sobra para ter uma raiva imensa dela, que o humilhou no passado. Além disso, ele podia imaginar o que havia por trás daquelas roupas que ela usava. As roupas masculinizadas e largas não escondiam o corpo dela para ele; ao contrário, criavam um mistério que aguçava a curiosidade e o desejo de desarmá-la. Ele não sabia o que fazer com a atração e desejo crescente que sentia por ela, e não queria nem pensar no que isso poderia significar. Ele não devia estar se sentindo tão atraído por ela. Ele a via como inimiga. Também não estava disposto a deixar Giane saber o quanto o afetava. Fabinho sentia que precisava afastá-la dele. Giane o atrapalhava, o tirava do foco. Ele queria ficar rico e se vingar de todos os responsáveis pelo seu sofrimento. Ele não tinha tempo para pensar em bobagens e não podia se dar ao luxo de fraquejar. Nem passava por sua cabeça ter romance com alguém, muito menos com a suburbana, que era sua maior inimiga. Ainda mais se tratando da mulher que o fazia se sentir fraco e inferior.

Para ele, a explicação para nunca ter se sentido parte dali, daquele ambiente, era ser um Campana. Ele acreditava também que a explicação para ele sempre ter se sentido um estranho, um peixe fora d’água na Casa Verde, na casa de Gilson, era que ele não pertencia àquele lugar. Ele não tinha absolutamente nada a ver com aquele mundo, aquelas pessoas. Era por isso também que a Casa Verde o odiava: aquelas pessoas eram de nível inferior ao dele, claro que iriam odiar quem estava no topo. E como ele não pertencia àquele mundo, não podia desejar ninguém que fizesse parte daquilo. Mas a razão dizia uma coisa, o corpo outra. Ele não queria desejar Giane, mas não conseguia evitar, e isso o irritava.

Além disso, mesmo que ele parasse para pensar na possibilidade de ter algo com ela, ele sabia que jamais teria a menor chance com Giane, porque ela o odiava e só enxergava o Bento. Fabinho acreditava que tinha mais chances com Amora, pois ele era herdeiro do Plínio. Bento não era o parceiro ideal para a it girl apresentar ao mundo fashion, e Fabinho acreditava que Amora não abriria mão de seu estilo de vida para ficar com o florista. Mas Amora não deu chance a ele, o que só aumentava seu rancor e inveja de Bento. No que depender dele, Amora e Bento pagariam caro.

Fabinho estava irritado e não queria papo com Giane. Ele não tinha tempo a perder com ela, e ela não tinha muito assunto. Incrível como Giane só sabia falar no Bento. Era impressionante, a garota não fazia outra coisa que não fosse cuidar da vida daquele otário. Desde pequena, Giane era a sombra do Bento, vivia grudada nele que nem carrapato, sempre em função dele. Não tinha vida própria. Quando crianças, sempre que ele e Bento brigavam, lá ia Giane, defender o Bento, tomar as dores do mané. E pelo visto isso não mudou com o passar dos anos. Ele não podia pisar na Casa Verde, não podia nem chegar perto do Bento, que lá ia Giane, bancar a defensora dos fracos e oprimidos. Ele desejou que ela fosse procurar outra pessoa para amolar. Ela devia se tocar que não tinha controle algum sobre a vida do Bento, e deixar aquele otário se defender sozinho.

— Qual é, moleque? Vai embora, se manda, se manda!

— Se manda você! Esse território aqui é meu! Esqueceu? — disse Giane. Para ela, Fabinho ameaçava a paz local.

No ponto de vista de Giane, uma vez que Fabinho desprezava a Casa Verde, não tinha nada que colocar os pés ali. E ela estava cansada de ver o Bento sendo sacaneado, de vê-lo envolvido em fofoca, escândalo. Ela logo imaginou que Fabinho aprontaria alguma coisa para Bento e Amora, por isso foi ver o que ele veio fazer. E viu que Fabinho estava tirando fotos do casal. Certamente, para espalhar fofoca. Não era a primeira vez que Fabinho difamava o Bento. Se era para Fabinho ficar tirando fotos, para expor o Bento, manchar a imagem dele, que desse o fora dali. Será que Fabinho não se cansava de perseguir o Bento, de fazer maldades?

Do ponto de vista de Fabinho, a rua era pública e Giane não mandava nada ali. Não era ela quem diria o que ele devia ou não fazer. Ela que fosse procurar o que fazer, que cuidasse da própria vida e o deixasse em paz. Não era enchendo o saco dele que ela conseguiria chamar atenção do Bento. Se ela gostava tanto do Bento, se queria tanto conquistá-lo, ser notada por ele, então que cuidasse melhor da aparência. Até porque Bento gostava era de mulheres femininas e arrumadas. Enquanto Giane tivesse aquela aparência desleixada e masculinizada, Bento continuaria enxergando-a como um irmãozinho. Ela devia saber que Bento não se interessava por figuras andróginas. Não que ele tivesse alguma intenção de ajudá-la a conquistar Bento. Fabinho virou-se, ficando frente a frente com ela. Já sabia como afastá-la. Era só atingi-la em seu ponto fraco.

— Vem cá, por que ao invés de ficar enchendo o meu saco, você não vai dar um jeito nesse cabelo horroroso, hein? — disse Fabinho. — Você sabe que te olhando assim de perto, bem de perto mesmo, você não é feia não! Você tem a boquinha bonitinha, tem a pele bonita. — olhou na direção de Bento e Amora e apontou para o Bento. — Você não quer pegar o Bento? Então, melhora esse visual. Tô falando sério!

Ele não sentia a menor culpa em humilhá-la e atingi-la onde mais doía, pois ela havia feito o mesmo com ele. Ela o fazia se sentir inferior e menos homem, então, ele só dava o troco fazendo-a se sentir menos mulher. Era sua vingança por ela ter destruído sua bola e chamado de fresco. Além disso, na opinião dele, chegava a ser um crime uma mulher bonita como Giane insistir em se esconder atrás de roupas masculinizadas e largas.

— Vá te catar, cara! Eu, hein! — disse Giane, furiosa, e foi embora.

— Valeu, brow! — disse Fabinho.

Assim que Giane saiu, Fabinho continuou tirando fotos de Bento e Amora.