Um amor e uma sombra

9 Um pedido e um resultado


Notas iniciais
Desculpa a demora, gente, a faculdade está sugando toda minha energia vital! Mas aí está, espero que gostem :)

Dessa vez foi Santana quem acordou primeiro, ela se levantou da cama, onde havia dormido com Brittany em seus braços, e foi até a janela encarar o dia ensolarado. Se tinha uma coisa que a morena odiava era acordar cedo, mas, infelizmente, ela não tinha como escapar do colégio hoje, já que a classe delas teria uma prova importante e Brittany tinha um atestado, mas Santana não.

Antes de sair, a morena deu uma escapada até a padaria que ficava na esquina do hospital comprar um café da manhã reforçado (e bem melhor que o do hospital) para Brittany — Suco de laranja, bagel e donuts de chocolate — além de um café bem grande para ela mesma, como de costume. Chegando no quarto, ela decidiu não acordar a loira, que dormia tão tranquilamente, então ela deixou o café da manhã na mesa de cabeceira junto com um bilhete e foi enfrentar seu massante dia na escola.

...

Brittany acordou com o sol batendo em seu rosto e já sentindo falta do corpo quente de Santana perto do seu, mas achou logo o bilhete da morena — “Trocaria todos os breadsticks do Breadstix por mais um dia inteiro com você ao invés desse colégio imundo. Malditas provas. Fiquei com pena de te acordar, você parece um anjo quando tá dormindo... Aliás, você parece um anjo o tempo todo ♥ xoxoxo P.S.: Aproveite o café da manhã :)” — e a loira teve que sorrir olhando para os coraçõezinhos desenhados no bilhete e também por Santana ter ido até a padaria só para comprar seu café da manhã favorito. Brittany terminou de comer antes de que a enfermeira rabugenta do dia anterior entrasse no quarto (Feliz por não ter encontrado latinas adolescentes em camas alheias) para checar Brittany e dar entrada em sua alta.

– Brittany? — A voz de Ricardo Lopez chamou enquanto ele entrava no quarto.

– Hey, bom dia, Sr. Lopez! — Brittany respondeu com um sorriso, enquanto terminava de arrumar suas coisas para deixar o hospital.

– Bom dia! Como está se sentindo?

– Ainda um pouco dolorida, mas estou bem melhor... Como está o David?

– O transplante foi um sucesso, mas ainda estamos esperando pelo “pega”?

– Pega?

– Sim, o “pega” é como chamamos o momento após a transfusão quando a medula já consegue produzir cada célula do sangue em quantidades suficientes. É quando temos certeza que tudo deu certo, mas pode ficar tranquila, estamos bastante confiantes.

– Entendi, mas e agora?

– Bem, no momento, ele está num quarto especial, por que pacientes depois do transplante estão bastante vulneráveis a infecções, então ele precisa ficar isolado com cuidados específicos e ele continuará lá até que seu sistema imunológico esteja melhor. Ele não está podendo receber visitas ainda, mas você pode ir vê-lo, o que acha? — O médico perguntou e Brittany concordou com a cabeça.

Os dois caminharam lado a lado até que chegaram no quarto em que estava David, mas, em vez de entrarem, pararam diante de uma espécie de janela, com um vidro grosso separando os ambientes e Brittany pôde ver um quarto mais branco do que os outros, com um aspecto mais limpo impossível e David deitado na cama no centro com alguns tubos ligados no braço e um rostinho cansado, mas, ainda sim, ele parecia feliz e deu um grande sorriso enquanto acenava animadamente para Brittany, quando a viu. Michael, que estava sentado ao lado do filho, com um avental hospitalar cobrindo totalmente suas roupas, mascara e luvas, também sorriu ao ver a dupla e logo se levantou, mas, antes que ele pudesse ir até eles, o garoto chamou sua atenção e entregou a ele uma folha do caderno de desenhos que estava no seu colo.

– Olá, salvadora do dia! Como está? — Michael disse entusiasmadamente assim que saiu do quarto.

– Estou bem, e o David? — Brittany respondeu.

– Ele está bem, se recuperando... Graças a você e também ao Dr. Lopez aqui, que está cuidando super bem do meu filhote. — O homem disse com um grande sorriso para os dois.

– Apenas fazendo meu trabalho! E é um prazer cuidar do David, é um garoto muito especial. — O médico disse antes de se despedir, dizendo que tinha pacientes esperando por ele.

– Ah, Dave pediu para te dar isso. — Michael disse enquanto entregava a folha para a loira, que pegou, curiosa, e olhou o desenho; Ela podia perceber que ele tinha tentado desenhar a fachada do hospital e, na frente deste, estava um garotinho de cabelos loiros, quem Brittany assumiu que fosse David (Ela também assumiu que aquela era a cor dos cabelos do menino, antes da quimioterapia), segurando sua mão direita estava desenhado um homem maior com cabelo marrom e sorriso bobo que com certeza era Michael e em sua mão esquerda estava a figura de uma garota com os cabelos da mesma cor do garoto, seus olhos eram dois pontinhos azuis e Brittany percebeu que ele tinha desenhado ela com as mesmas roupas em que ele a havia visto ontem e, ao lado dela, também no mesmo figurino do dia anterior, estava uma garota cuja pele havia sido pintada levemente de marrom e Brittany teve que sorrir surpresa pelo fato de que ele ter desenhado ela e Santana.

– É lindo. — Brittany disse, com lágrimas nos olhos, e olhou para o garotinho no quarto, ainda sorrindo para ela.

– É, ele nunca larga esse caderno de desenhos, fica sempre desenhando o que ele vê de interessante, o que ele gosta, o que ele acha que é importante... Ele te acha importante, sabe. — Michael disse, olhando calorosamente para ela, que não sabia bem o que dizer, então apenas sorriu e concordou com a cabeça. — Eu gostaria de conversar com você sobre uma coisa, você tem um tempinho para um café?

– Claro. — A loira concordou e os dois foram em direção à lanchonete de hospital.

– Olha, desculpa, eu nem acho que deveria estar falando isso, sei que não é justo com você te pedir isso, mas... — O homem começou. — Você se lembra no dia que a gente se conheceu que você disse que nunca quis cortar relações com David, que apenas precisava fazer isso, por que ele merecia uma família e tudo mais?

– Sim, acho que lembro... — Respondeu uma Brittany confusa.

– Então, quando a Marise, minha esposa, faleceu, Dave tinha só dois anos e ela foi uma mãe maravilhosa durante esses dois anos, mas ele não se lembra disso, ele era tão pequenininho, ele não lembra nem dela direito, então ele sempre teve essa carência de uma figura maternal. Ele sempre vê os amiguinhos fazendo cartinhas no dia das mães, chegando de mão dada no colégio, na TV e ele sempre me pergunta sobre a mãe, se ela realmente não vai voltar, uma professora dele até conversou comigo uma vez sobre isso, sobre como ele se sente menos importante por não ter uma mãe... Você entende?

– Sim. — Respondeu Brittany firmemente; Ela havia perdido a mãe quando era mais nova também, não é nada como com David, mas ela sabe o que é sentir falta daquela figura materna, não importa o quanto seu pai já compense pelos dois. — Eu só não tenho certeza se estou entendendo o seu ponto...

– O sonho dele é ter uma mãe. Eu sei que mesmo não querendo você cortou relações e não vou te pedir para de um dia para o outro virar a mãe dele, não vou te pedir para ir em reuniões de pais, festinhas de amigos ou ter o número do pediatra gravado no celular ou nenhuma outra responsabilidade chata de pai, eu sei que você é jovem e deve estar com a cabecinha bem confusa agora, mas te conhecer deu um brilho no olhar do meu filho que eu não vejo há muito tempo e, uma vez que você passou na vida dele, sei que ele não vai esquecer e, posso conhecer quase nada de você, mas acho que você também não vai. Então, eu só vou, preciso te pedir que... Que você não saia da vida dele. Que você seja um pouco a mãe que ele sempre quis. — Michael terminou quase sem folego, depois de ter falado um pouco rápido demais, mas Brittany havia entendido cada palavra e todas elas estavam rodando em sua mente enquanto ela encarava o homem na frente dela. Ele não havia dito nada que ela já não tenha pensado nesses últimos dias, ter conhecido David realmente mudou muita coisa, antes ele era só uma lembrança, agora ele era o garotinho de cabelos e olhos iguais aos dela que fazia desenhos engraçados, ela jamais poderia esquecê-lo.

– Sr. Connor, eu-eu... — A garota começou, gaguejando, mas logo foi interrompida por Michael que percebeu a hesitação dela.

– Você não precisa dizer nada, não agora. Apenas pense sobre isso. Mas, eu realmente acho que seria bom para ele. E para você. — Sr. Connor disse, antes de pegar seu café e deixar Brittany sozinha com seus pensamentos e fantasmas.

...

Brittany não era muito fã de taxi, a ideia de entrar no carro de um estranho e deixar que ele dirija para onde quiser (Mesmo que você tenha dado um destino a ele) não a agradava, mas ela não tinha muita escolha; Depois da conversa com Michael, ela teve uma abrupta vontade de ir falar com Santana, então ligou para o pai dizendo que ele não precisava ir buscá-la pois iria de taxi e que precisava pegar algo no colégio, e ela foi contra os protestos do pai e de Dr. Lopez, que insistia que ela precisava ir direto para casa descansar. No momento, ela meio que desejava ter escutado ele e esperado até de noite para falar com a morena, já que o a dor no corpo e cabeça ia e voltava de uma forma bem irritante, mesmo com os remédios, além da dor latejante no local por onde haviam tirado medula que aparecia as vezes.

Chegando no colégio, ela já percebeu os olhares em cima dela, provavelmente ainda pela história com o Josh ou talvez por ela estar andando um pouco mais devagar que o de costume e meio que mancando ou ainda por ela ter faltado a aula no dia anterior ou pelas roupas surradas pós-hospital e rosta cansado sem maquiagem (Diferente do uniforme das Cheerios ou roupas legais e maquiagem sempre bem feita que estavam acostumados a ver nela.). O único lugar que as notícias correm mais rápido que nas ruas de uma cidade pequena, é nos corredores do colégio de uma cidade pequena. Enfim, ela ignorou a todos e continuou sua busca pela latina mais linda de Ohio, que estava começando a ficar difícil, ela foi procurar até na Sala do coral, onde não encontrou Santana, mas Rachel estava lá ensaiando alguma coisa sozinha e pareceu um pouco surpresa ao ver Brittany.

– Oh, hey, Britt! — Rachel cumprimentou.

– Olá, Berry...

– Eu achei que você não viria hoje de novo, estávamos até pensando em cantar “Keep holding on” para você, mas ela disse que nem por cima do cadáver dela, mas mandamos todas as nossas boas energias para você de qualquer forma. Enfim, tudo bem? — A garota menor disse, com sua animação usual e Brittany deu um quase sorriso com Santana cumprindo o pedido dela de não os deixar fazer nenhuma apresentação de pena para ela.

– Obrigada... Sim, tudo ótimo. — A loira respondeu, não querendo prolongar o assunto. Ela havia dito para Santana que ela podia contar tudo para o pessoal do Glee Club (Mas só eles.) sobre tudo de Brittany — O passado, Josh, sua mãe, na verdade ela meio que pediu que ela contasse, Brittany já não se importava mais tanto com as pessoas sabendo sobre tudo aquilo, estava realmente disposta a ser completamente honesta com tudo e todos, mas ainda ficava desconfortável em ter que repetir a história dela tantas vezes e Santana aceitou em contar dessa vez. — Er, você sabe onde a Santana está?

– Não sei, desculpa. Na verdade, eu não a vejo desde o primeiro período, depois da prova... — Ela respondeu, desconfiada.

– Tudo bem, Obrigada. — Brittany disse e já estava saindo, quando pensou melhor e voltou. — Rachel... Posso te fazer uma pergunta meio pessoal?

– Eu acho que sim, pode falar. — A garota respondeu, confusa.

– A sua mãe biológica não é lá a melhor mãe do mundo, né? Tipo, você não preferiria nunca ter conhecido ela?

– Não, eu gostei de ter conhecido ela, mesmo que ela não fosse como eu sempre imaginei. Eu não estava procurando por uma mãe, propriamente dito, eu tenho pais e eles são os melhores do mundo, acho que eu estava procurando apenas uma parte do meu próprio quebra-cabeça, eu acho. Claro que eu preferiria que fossemos amigas agora, mas tudo bem. — Rachel disse, pensativa.

– Você realmente a queria como amiga, mesmo que sabendo que é sua mãe e sendo horrível nisso?

– Claro. Como tem mães que são suas melhores amigas e amigas que são quase mães as vezes, acho que eu gostaria de um relacionamento com ela no meio disso, qualquer um, afinal, ela é uma parte de mim, eu sou parte dela, acho que a gente poderia ter construído um e poderia mesmo ter sido bom, mas... Ela não quis, só se fastou, como se eu não fosse nada. — Ela disse, terminando com uma expressão triste dessa vez, que apertou um pouquinho o coração de Brittany.

– Ela realmente te machucou com isso, não foi?

– Sim... — Respondeu num sussurro, as duas garotas sempre se entenderam relativamente bem, mas nunca haviam realmente conversado e Rachel também sempre tentava ao máximo esconder o quando doeu a rejeição da mãe, algumas vezes funcionava melhores do que outras. — Eu não queria muito, nunca esperei muito, só queria ela presente, sabe, saber que eu podia ligar se precisasse de um conselho feminino, de vez em qando ela perguntaria as novidades, então eu contaria as coisas no glee club, falaria sobre o Finn, coisas assim.

– Sinto muito...

– Valeu, mas tudo bem são águas passadas! — Ela disse reassumindo seu jeito animado de constume, provavelmente tentando não ficar mais triste.

– Isso! É melhor eu continuar procurando, e obrigada. Pela conversa.

– Sem problemas. — A garota de polainas respondeu com um sorriso e Brittany deixou a sala.

...

Ela continuou vagando pelo colégio, pensando na conversa que teve com Rachel, lembrando da expressão triste da garota pela rejeição da mãe, penando sobre como David se sentiria ela saísse da vida dele, depois de os dois terem se conhecido, imaginando como seria o relacionamento dos dois com ele falando sobre a escola, depois sobre a primeira paquera, a primeira namorada, quem ele levaria para o baile, recordando como eles se deram bem, enfim, tudo. Não é que ela não quisesse estar na vida dele, ela só não sabia se isso era o melhor para ele, já ela ainda era “Brittany burra”, com mais fantasmas e sombras que qualquer um, com a cabeça não totalmente sã e ainda sem ter certeza de sua capacidade emocional. Ela deu uma pausa nos pensamentos quando percebeu que já estava rodando a escola há um bom tempo e que já havia procurado Santana em cada canto, sendo que ela sabia que a morena não tinha aula naquela hora, então ela lembrou o que Rachel disse sobre não ter visto ela desde a prova e teve que deixar escapar um sorriso quando imaginou onde ela devia estar.

...

Santana continuava olhando para o céu azul em cima dela, o olhar fixo, sem nem notar a hora passar, até que percebeu a porta do telhado se abrindo e ouviu a voz de Brittany.

– Vejo que anda aproveitando meu esconderijo. — Disse com um sorriso e pode perceber o canto da boca da morena subindo um pouco, mas ela não disse nada e continuava encarando o céu, sem muita expressão. — Ei, San, está tudo bem? — Perguntou por último enquanto se ajoelhava ao lado de Santana e passava a mão pelos seus cabelos. A latina olhou finalmente para a loira, seu olhar ainda ilegível.

– A clínica me mando um e-mail com o resultado do teste de DNA. — Santana respondeu, tentando manter a voz fria e firme, mas Brittany pode perceber uma certa hesitação, uma certa incredulidade. — Josh é meu pai.

Notas finais
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