Um amor e uma sombra

4 Um conto de sobrevivente e um DNA


Notas iniciais
Segurem os forninhos e peguem os lencinhos para a história da Britt! Espero que gostem :) (Talvez ficado um pouco grandinho, mas é que seu dividisse em dois capítulos, ficaria muito fragmentado...)

[...]

Então, um tiro foi disparado.

NÃO!– Santana gritou.

E um segundo tiro.

Brittany tinha caído de joelhos com os olhos fechados fortemente quando ouviu o grito de Santana, enquanto o som do disparo ainda latejava em sua cabeça, mas estupidamente percebeu que, se tivesse levado um tiro na cabeça, ela já estaria morta. Antes mesmo que terminasse de chegar nessa brilhante conclusão, ouvira outro estrondo e abriu os olhos para ver Sr. Lopez correndo em direção a uma menina de cabelos vermelhos cujo sorriso irônico havia escapado de seu rosto enquanto uma mancha vermelha se espalhava rapidamente pela camiseta branca.

Santana demorou para entender o que havia acontecido já que, novamente, foi rápido demais; Quando ouviu o tiro, se desesperou, mas percebeu que não havia sido Josh quem tinha puxado o gatilho, na verdade, havia sido ele quem levara um tiro na cabeça, então, ela se virou a tempo de ver um batalhão de policiais entrando no auditório pelas portas a sua direita, e junto deles estava uma ruiva bonita que aparentava estar um pouco deslocada no meio das fardas mas tinha um olhar preocupado que parecia procurar por alguém. Antes mesmo que a morena pudesse pensar sobre quem era a garota, assistiu-a ser baleada pela antiga arma já engatilhada de Josh que havia disparado sozinha ao bater no chão e sua identidade logo foi revelada quando seu pai gritou seu nome.

Trish, não!– Ele havia gritado e Santana seguiu-o em direção a garota, quando ele se abaixou ao lado dela.

Nossa, o desgraçado me ferra até sem querer! - Ela comentou, porque jamais perde a piada, nem quando está sangrando até a morte.

– Meu Deus, o que diabos você veio fazer aqui,T? — Brittany perguntou preocupada quando se ajoelhou do outro lado da menina, enquanto Dr. Lopez colocava algumas medidas de primeiros socorros em prática e um policial chamava os paramédicos da ambulância que estava aguardando do lado de fora.

Eu estava vindo falar com a sua garota. De melhor amiga nº 2 para melhor amiga nº 1, sabe?– A outra respondeu enviando uma piscada de olho rápida o olhar para Santana, que estava em pé um pouco atrás de seu pai, observando. - Mas aí eu encontrei esses policiais nada bacanas na entrada que não me deixaram entrar, mas eu estava preocupada com você, então usei um pouco da furtividade Woods. Hora ruim para uma visita? — Ela riu e Brittany lembrou como ela esconde qualquer dor por trás de seu humor negro.

– Pode apostar que sim, ninja Woods.

– Ele.. Ele tá morto? — A ruiva perguntou depois de alguns segundos de silêncio.

– Sim.– Brittany respondeu sem conseguir impedir uma voz fria demais.

Bem, espero que eu vá pro céu, então, não to a fim de esbarrar com ele lá em baixo.

– É claro que você vai pro céu, você é o anjo que eu conheci no inferno, lembra?– Brittany disse sorrindo para a outra, com uma lágrima surgindo em seus olhos. — Mas não agora, você não pode morrer agora, ouviu?

– Pode deixar, eu não vou a lugar nenhum enquanto Grey's Anatomy não terminar.

– Fechado — Brittany disse antes dos paramédicos chegarem para levarem e a loira avisou que iria junto, mas antes de seguir a maca, deu um abraço inesperado em Santana, que a abraçou de volta na mesma hora, percebendo o quanto ela estava precisando daquele abraço.

Eu estava com tanto medo de te perder. – Brittany sussurrou no ouvido outra, depois, Brittany olhou para a latina e esta não precisou mais do que isso para entendê-la dizer que elas conversariam mais tarde, elas nunca precisaram realmente de palavras para se comunicarem, afinal. — Eu amo você. – Santana disse silenciosamente apenas com os movimentos da boca enquanto a loira se afastava. — Eu também te amo. – A outra respondeu da mesma forma antes de correr porta a fora.

Santana estava chegava ao hospital, ainda tentando assimilar tudo que havia acontecido, mas ao, mesmo tempo, estava evitando pensar nas coisas que ouviu e os pensamentos que vagavam em sua mente, pelo menos até que Brittany, seu pai, o papa, qualquer um, contasse toda a verdade para ela. Ela ainda se sentia suja e enjoada por aquele homem ter tocado dela mas, principalmente com raiva pela forma que ele estava tentando humilhar e perturbar Brittany, tirando o fato dele ter chegado perto de matar ambas sem pensar duas vezes. Mesmo não tendo ouvido a história completa, ela conseguiu captar muita coisa daquela conversa e seu coração estava apertado só de pensar em tudo que a loira havia passado, coisas que ela nunca nem tinha imaginado e chegou a ter uma pontada de culpa por nunca ter percebido a sombra por trás dos olhos azuis alegres. E o que foi aquele maluco dizendo que era o pai dela? Qual a relação dele com seus pais? Ela estava ainda mais confusa e com a cabeça cheia de perguntas agora do que estava mais cedo. Após Brittany ter saído, a polícia quis falar com ela, seu pai e Mr. Schue, eles pediram desculpa pela demora contando como o cúmplice policial que Josh havia mencionado tinha dado um jeito de entrar no sistema da polícia do lado de fora e bagunçado as informações e a rota que as patrulhas deveriam seguir para chegar ao MH mas já havia uma equipe procurando por ele — Aparentemente os dois haviam soltado uma espécie de gás sonífero no carro mais cedo, facilitando a fuga.- Josh estava realmente morto, graças ao atirador que agiu rápido assim que chegou e viu que ele estava próximo de apertar o gatilho; Então, ela não teve realmente tempo de conversar com o pai depois de tudo e ela também teve a impressão que ele estava evitando ela, mas não queria tirar conclusões precipitadas, ela conversaria com ele mais tarde de qualquer forma. Quando pediram que eles fossem até a delegacia, ela pediu para que seu pai fosse sozinho, pois queria ir ficar com Brittany, ela sabia que Sr. Pierce estava fora da cidade em alguma reunião e talvez ainda demorasse para chegar.

Entrando na sala de espera, viu que o lugar estava vazio, com exceção de uma figura loira cujos olhos brilharam ao ver a morena.

San?– Perguntou para depois correr na direção dela.

Hey, Britt-Britt – A outra respondeu enquanto elas se abraçavam, um abraço demorado e calmo, diferente do que elas tiveram em meio a confusão mais cedo no auditório, um abraço que ambas precisavam para descarregar toda energia ruim que estavam sentindo. — Como está a sua amiga? – Santana questionou, que, mesmo não conhecendo a garota, havia percebido que ela era importante para Brittany.

Ela está em cirurgia, os médicos não quiseram me falar nada, apenas que eles só saberiam mais depois da operação. Mas ela é forte, ela vai sair dessa.– Britt tentou ser otimista, contradizendo um pouco com a preocupação no seu rosto; Santana acho que ela parecia ter envelhecido 10 anos nas últimas horas. — O que você veio fazer aqui? – A loira agora dava um leve sorriso para a outra.

Eu não ia te deixar sozinha aqui... — Disse enquanto colocava uma mecha de cabelo fora do lugar por trás da orelha da loira – Você está bem?– Perguntou mesmo achando que era uma pergunta idiota no momento.

Eu não sei, mas vou ficar. E estou melhor agora, com você aqui.– Brittany pegou uma das mãos de Santana, que não sabia o que dizer, ela só queria tirar toda a preocupação e sofrimento daqueles olhos azuis, então ela simplesmente a beijou, um beijo calmo e gentil que a loira aceitou alegremente; Quando o beijo se quebrou, Brittany olhou nos olhos escuros na sua frente e se deu conta de como Santana devia estar confusa, porém sem saber como perguntar sobre tudo que aconteceu, então, ela resolveu contar toda a história de uma vez por todas, não podiam mais adiar essa conversa. Ela, então, guiou a outra até as cadeiras da sala de espera e elas sentaram uma de frente para a outra.

Você não precisa me contar nada que não esteja preparada agora ou te faça ficar desconfortável, Britt...

Eu sei, mas eu preciso, é melhor assim. Está na hora de você ouvir uma história que começa na minha terra natal, lá em Montreal...

Espera, isso não fica no Canadá?

Sim, Québec, Canadá, onde eu nasci e vivi até os 12 anos. Ei, você não sabia disso?– Brittany perguntou tentando se lembrar se já havia falado sobre sua cidade para ela.

Não! – Santana estava meio surpresa por não saber disso, ela parecia descobrir algo novo sobre Brittany a cada momento que se passava ultimamente. — Mas você nem tem sotaque!

É, eu sempre vivi entre Québec e a casa dos meus avós aqui em Ohio, que foi onde meu pai nasceu, então, meu sotaque sempre foi meio misturado também e quando me mudei pra cá ainda fiz de tudo pra me livrar daquele sotaque, eu queria me livrar de tudo que me lembrava do Canadá. – Ela terminou e Santana concordou com a cabeça, acenando que ela continuasse.

A família do meu pai era de Ohio e da minha mãe do Canadá,– Ela começou, segurando a mão da outra e tomando uma respiração profunda.- Quando eu tinha 10 anos, minha tia, Regina, se casou...

Com o Josh?– Santana terminou a frase quando sentiu a hesitação na voz da outra.

Sim, minha mãe costumava ser muito próxima dela e da outra irmã, Tália, que você já conheceu e a gente reunia a família toda sempre que podia.– Disse Brittany com um quase sorriso, se lembrando dos grandes churrascos da família Pierce com sua mãe. — E minha tia morava no mesmo bairro que eu, então, eles estavam sempre lá em casa. Todo mundo gostava dele, ele era super médico, simpático, engraçado, legal com todo mundo, bem, um pouco mais legal do que devia comigo às vezes, mas, além de me deixar desconfortável de vez em quando, ele nunca fez nada demais e eu era uma criança, então nunca falei nada com meus pais porque eu não tinha realmente maldade na cabeça pra ver algo de errado, mas... Um dia, quando eu já tinha acabado de fazer 11, meus pais tiveram que viajar por um fim de semana e pediram para minha que tia ficasse tomando conta de mim e da minha irmã, que tinha só 2 anos na época e quando ela teve que sair uma hora, me deixou sozinha com ele. Mesmo só com 11 anos, eu podia perceber que ele estava bêbado, mas não disse nada até que eu vi ele gritando com a minha irmãzinha por alguma coisa estúpida que eu nem me lembro mais, então eu só pedi que ele parasse, mas que ele ficou irritado e de repente não era mais tão legal assim. Ele me bateu e... e me estuprou. – Brittany quase não conseguiu falar a última palavra, mas precisava, havia prometido que falaria tudo com todas as letras e Santana permanecia calada apenas olhando nos olhos da outra, segurando suas mãos e tentando passar todo apoio que conseguia, mesmo não sendo capaz de falar nada, ela se sentia horrível por Brittany ter que relembrar e falar disso, mas era a única forma de ela saber como ajudar. — Foi horrível, porque ele fez isso bem na frente da minha irmã, eu me lembro de ouvir ela chorando e ele... Foi horrível, só horrível.

Oh, Britt....– Santana abraçou a garota na frente dela, com o coração partido tendo que pensar na garotinha fofa que ela viu na foto passando por isso e estava surpresa em ver que a loira não havia derramado nenhuma lágrima, seu rosto estava sem expressão. As suas estavam agora sentadas uma do lado da outra; Santana abraçava Britanny que estava com a cabeça meio encostada em seu peito, olhando para a cadeira vazia na frente delas com uma expressão assombrada enquanto continuava.

Ele me ameaçou, disse que, se eu falasse alguma coisa, eu não gostaria do que aconteceria comigo e minha irmã, então, não disse nada, mas minha mão notou que eu estava estranha, ela perguntava o que era, insistia, até que eu contei. Na mesma hora ela ligou para a polícia e depois para minha tia, ela queria avisar que ele era perigoso, contou o que ele tinha feito e falou para ela sair de casa pois ele podia tentar alguma coisa contra ela quando visse os policiais chegando, como fazê-la de refém ou algo assim. Mas ela não fez o que minha mãe disse, ao contrário, ela avisou para ele que ele tinha sido denunciado e estavam indo prender ele, ela disse que entendia que ele estava bêbado, que perdoava ele, ela era louca, eu acho, ainda não sei onde ela estava querendo chegar e nem ele descobriu, porque ele fugiu antes que ela pudesse terminar. Mas ele não foi embora logo. Minha mãe havia sido chamada na delegacia para depôr, minha irmã estava na creche e meu pai estava sozinho tomando conta de mim, e eu me lembro de estar no meu quarto quando ouvi muito barulho lá em baixo, então eu desci as escadas, meu pai estava caído com um machucado na testa e a última coisa que eu senti foi uma picada no meu pescoço, ele havia injetado em mim alguma coisa para me fazer dormir. Ele era um super médico, afinal.

Ai, não... — Santana comentou quase involuntariamente.

A próxima coisa que eu me lembro foi ter acordado num lugar escuro e quente, um porão, eu descobri depois, era grande, tinha até um banheiro improvisado com cortinas como parede, tinha também uma bica no alto de uma parede, que passou a ser nosso chuveiro e água potável depois, e encolhida num canto estava uma garotinha de cabelo vermelho olhando assustada pra mim.

Trish?

Sim, a mãe dela trabalhava como enfermeira no mesmo hospital que Josh e ela teve o azar de a mãe a ter levado para o trabalho no dia que ele tinha ido até lá roubar alguns suplementos médicos antes de fugir comigo. Ela me contou que ele sempre olhava demais pra ela quando ela ia até o trabalho da mãe, nas festinhas do hospital, enfim, naquele dia ela só estava no lugar errado na hora errada.

Vocês ainda estavam em Montreal?

Não, só descobrimos quando saímos, mas estávamos numa espécie de Chalé quase no meio da mata em Wisconsin.

Ual.

É, deve ter sido uma viagem longa, pelo menos ele nos manteve dormindo. Ele era dos EUA e muito esperto, deve ter achado um jeito de passar a fronteira sem problemas e ficar escondido bem facilmente. Nós ficamos lá por quase um ano.

Um ano? Você ficou sequestrada por quase um ano?– Santana quase gritou, ela não tinha imaginado tudo isso, Brittany apenas concordou com a cabeça e prosseguiu.

Dizem que o fundo do poço é quando você se acostuma com as coisas ruins e foi exatamente o que aconteceu comigo e com a Trish. Eu passei tanto tempo naquele lugar, onde ele só lembrava de nos dar comida quase uma ou duas vezes na semana, servido de saco de pancada quando ele estava irritado, sendo torturada quando ele estava entediado, sendo estrupada quando estava afim e eu só tinha 11 anos, mal sabia sobre sexo, as vezes me esquecia que aquilo não era uma vida de verdade, eu nem me lembrava mais o que era uma vida normal, sentia que eu não era mais do que um pedaço de lixo e a morte por misericórdia ele havia falado até fez sentido pra mim, morrer ou qualquer outra opção seria com certeza melhor do que a não-vida que eu estava vivendo. Nunca me esqueço de quando nós saímos de lá, o sol parecia queimar minha pele e meus olhos ardiam, demorando a se acostumarem com a luz, porque ele nunca nos deixava sair, então nem nosso corpo lembrava mais o que era o sol, como era não viver num porão sem janelas. – O rosto de Brittany ainda estava apático, mas seus olhos aparentavam ver um fantasma enquanto encarava o assento desocupado e a outra pensava sobre o que a loira estava imaginando ali. Santana estava chocada com as coisas que a amiga contou e com a crueza de sua voz, mas também tinha ainda mais raiva agora por tudo que ele a fez passar, raiva como ela nunca sentiu antes; Ela abraçava mais fortemente a garota em seus braços, querendo protegê-la, mas, infelizmente, sabia que não tinha como protegê-la do que ela já havia passado.

Está tudo bem agora, amor, e eu prometo que nunca, nunca vou deixar nada assim te acontecer de novo.– A morena disse após virar o rosto da loira com sua mão para que essa olhasse para ela e Brittany não pode deixar de sorrir pois sabia que, mesmo que Santana não pudesse fazer nada que prevenisse algo de ruim inesperadamente acontecer, ela realmente queria dizer isso.

Eu sei, San. – Ela continuou – Mas eu tive sorte que eu não estava sozinha, sabe? Sinceramente, se a Trish não estivesse lá comigo, eu não teria sobrevivido. Era incrível como mesmo vivendo um pesadelo ela conseguia me fazer rir as vezes, a gente apoiava uma a outra.

Ela parece incrível.

– Ela é. Ele consumava ameaçar a gente dizendo que se uma de nós tentasse fugir, negar ou qualquer outra coisa do tipo a outra pagaria o preço, então, nós sempre nos comportamos, principalmente depois da vez que eu tentei esfaquear ele com uma chave de fenda que ele havia esquecido lá embaixo mas ele só pegou da minha mão e usou nela, nunca mais tentei nada depois disso. Só que uma vez, quando eu tinha quase 12, ele foi um pouco longe demais com ela e eu me descontrolei, comecei a xingar ele de tudo que eu conseguia, acho que eu cheguei a tentar bater nele, só que ele era muito maior que eu, enfim, ele não fez nada com nenhuma de nós na hora, ele até sumiu por uns dias até que ele voltou e, pela primeira vez, ele me levou lá pra cima; A casa tinha poucos móveis, mas era uma completa bagunça com roupas, comida estragada, até baratas por toda parte, mas a única coisa que me chamou atenção foi... Que minha mãe estava lá. Sentada numa cadeira suja com as mãos amarradas por trás e uma fita adesiva na boca, eu tentei correr até ela mas ele me segurou e amarrou de frente para ela num cano que aparecia sobre a parede. Ela estava tentando falar mas não conseguia, eu só via os olhos dela e até hoje não tenho certeza se eles estavam mostrando felicidade em me ver ou choque pelo estado que eu estava, de qualquer forma, antes que ele pudesse começar a falar, houve uma sirene e na mesma hora ele a puxou, colocando-a na frente dele com uma faca no pescoço dela... Quase o mesmo que ele fez com você. – Brittany disse a última frase como se ela a machucasse mais que tudo e continuou – Então, os policiais entraram e foi tudo muito rápido, ele ficava gritando coisas sem sentido enquanto um policial tentava negociar com ele, mas eu só conseguia ver minha mãe, ela estava olhando pra mim o tempo todo, agora com os olhos calmos e me dizendo que tudo ia ficar bem, mas eu não acreditava neles, eu só gritava, pedia que ele largasse ela mas... Mas ele não largou... E... — Pela primeira vez Santana viu lágrimas nos olhos dela, sua voz tremia e ela olhava novamente para a cadeira em sua frente como se estivesse olhando para a mãe naquele momento novamente, como se estivesse de novo naquele chalé a 5 anos atrás – E... E então ele cortou a garganta dela e... E eu só me lembro de gritar mas parecia que não saia voz nenhuma, como nos pesadelos... E-E ela sangrava muito e não desviava os olhos de mim, como... como se ele quisesse ter certeza que a última coisa que ela veria seria meu rosto. E foi... – Brittany parou quando não conseguiu mais falar entre os soluços e Santana a abraçou com toda a força que tinha enquanto chorava junto. — Foi horrível.– Ela terminou num sussurro e ficou nos braços de Santana enquanto apenas chorava.

Depois de muito tempo, Brittany parou de chorar, mas continuou nos braços da morena, tomou a água que uma enfermeira bondosa deu para ela quando viu a garota aos prantos e só se afastou de Santana quando viu o médico de Trish se aproximar.

Acompanhantes de Patricia Woods?– O médico perguntou.

Sim.– Brittany e Santana responderam ao mesmo tempo, se levantando rapidamente.

A cirurgia foi um sucesso e, felizmente, a bala não fez nenhum estrago abundante, contudo, teremos que monitorá-la para saber mais e ficarmos cientes de qualquer piora, mas, por hora, ela está bem e se tudo der certo logo ela ficará curada.

Eu posso ver ela? – Brittany perguntou se aproximando do médico.

Desculpe, só família direta no momento, você vai precisar da autorização de um parente para visitá-la.

Mas a mãe dela não chegou ainda, eu só quero ver se ela está bem!– A loira exclamou.

São as regras, sinto muito, mas eu lhe garanto ela está ótima e em boas mãos. Ela ainda está apagada pela anestesia e medicamentos, tenho certeza que a mãe chegará antes dela acordar, fique tranquila. – O médico disse e logo se virou, voltando para a área restrita.

– É assim mesmo, eles tem essa palhaçada de apenas família, mas eu tenho certeza que ela está sendo bem tratada, não se preocupa. E foi você mesmo que me disse que ela era forte e ia sair dessa, não foi?– Santana tentou animar a amiga.

Sim, e obrigada por ficar aqui comigo, obrigada por tudo.

Eu estarei sempre com você, Britt, não importa o que aconteça.

Brittany decidiu esperar até que a mãe de Trish chegasse e Santana ficou com ela, depois de um tempo de silêncio, a morena não se aguentou mais.

Britt, posso fazer uma pergunta?– Ela sabia que talvez fosse inconveniente pedir que a loira falasse mais, mas ela não se conteve; Brittany olhou para a outra e concordou com a cabeça, já tendo quase certeza de qual era a pergunta. — Qual a relação desse homem com meus pais?

Brittany encarou a latina sem saber o que responder, sabia que aquilo era o que mais perturbava cabeça dela, mas havia tentado evitar o assunto, não se referir aos pais dela durante a história, até porque não achava que era o lugar dela contá-la, e sim, Sr. e Srª Lopez.

Por favor, se você sabe, me conta, eu quero que seja você. Eu não aguento mais isso, parece que tá todo mundo escondendo alguma coisa de mim. Por favor.– Santana pediu ao ver a hesitação nos olhos da loira que, com um suspiro, resolveu falar.

Eu fui a primeira garota com quem ele foi desleixado para se deixar capturar, sendo alguém que o conhecia e tal, mas ele já havia violentado várias pessoas antes, sempre mudando de estado, conseguindo se safar. Quando ele me sequestrou, a foto dele saiu em vários jornais e noticiários, assim, várias dessas pessoas procuraram a polícia por terem reconhecido ele como a pessoa que as violentou mas nunca foi capturado, até porque quanto mais denúncias contra ele, maior seria a pena que ele pegaria, e, bem, uma dessas pessoas foi a sua mãe.

Minha mãe? Você quer dizer que ela foi... – Santana nunca ouvira nada sobre isso, nem podia imaginar sua mãe passando por isso, de repente sua raiva daquele homem aumentou mais ainda, assim como um pensamento que ela não queria, não podia acreditar.

Sim, mas ela não apenas denunciou, seus pais chegarama ir até Montreal dar apoio aos meus pais, porque eles tinham uma filha da mesma idade que eu e isso derreteu o coração de mãe e pai delas, eu acho. Meu pai me contou que Maribel e minha mãe ficaram muito amigas, que elas se falavam quase todos os dias por telefone e que sua mãe foi de muita ajuda pra minha família.– Brittany sorriu para Santana, como se agradecesse pela atitude da mãe. — Na verdade, foi graças a seus pais que eu e Trish fomos salvas. No dia que minha mãe foi sequestrada também, ela estava em Ohio, na casa da minha avó e seus pais estavam indo visitá-la, quando viram Josh raptar ela, foi sua mãe quem ligou para a polícia e foi procurar meu pai, enquanto seu pai seguiu o carro até o chalé, dando o endereço para a polícia. Ele estava do meu lado o tempo todo, até me levarem para o hospital.

Eu tinha 12 anos, mas não me lembro de nada disso, meus pais sempre viajavam, telefonavam muito de qualquer forma, e eu ficava muito com a minha avó tomando conta de mim, acho que eu não teria notado a diferença. – Santana disse, pensativa.

É, acho que eles acharam um assunto pesado para uma criança e não quiseram contar meia história. Enfim, quando eu estava no hospital, sua mãe foi me visitar, me dar apoio, disse que ela havia superado e que eu superaria também, contou como o pai dela havia morrido e como minha mãe era especial mas estava num lugar melhor, depois disso eu nunca mais os vi... Até que você me levou na sua casa pela primeira vez.

Você sabia quem eu era quando me conheceu? — A morena estava chocada por tudo que Brittany sabia sobre ela, mais do que ela própria e ficava cada segundo mais desesperada com as ideias rondando a sua cabeça.

Não, eu não fazia ideia. Eu tinha acabado de me mudar com meu pai para Ohio e eles não sabiam. Foi uma surpresa pra todo mundo, inclusive, naquele dia seu pai me pediu para que não falasse nada até que eles conversassem com você e como eu já estava querendo esquecer de tudo e seguindo meu mantra de “não falar, não pensar, não sentir”, obedeci. Você não está com raiva de mim por não ter te contado, está?

Brittany, esse homem é meu pai?– Ela ignorou a pergunta da amiga pois não conseguia mais segurar essa questão que estava martelando no seu cérebro.

Não, seu pai é a pessoa que te ama e te criou, nada mais importa.

Brittany, ele é meu pai?– Ela repetiu, não queria um discurso sobro o verdadeiro sentido da paternidade agora, ela queria a verdade.

San...– Brittany disse devagar, não sabia o que dizer, como dizer.

Sem eufemismos, sem meias palavras, sem tentar me proteger, só fala a verdade completa dessa vez, por favor.

Sua mãe descobriu que estava grávida 2 meses depois de Josh, mas seus pais estavam tentando ter um filho desde antes do que aconteceu, de qualquer maneira, então...– Brittany não sabia como, não queria dizer aquilo. — Sim, ela pode ser o seu pai, mas também pode não ser, San, as chances eram as mesmas. — Brittany assistiu o rosto de Santana ficar pálido e seus olhos se encherem de horror e continuou, tentando acalmar a amiga — Seu pai me contou isso no mesmo dia que me pediu silêncio, ele disse que não sabia. Eles não sabem e nem querem saber porque não tem importância, Santana.

– Não tem importância? Como poderia não ter importância eu ser fruto de um estupro? Como pode não ter importância você ter que conviver com a filha do homem que arruinou a sua vida? – Santana havia levantado e estava andando de um lado para o outro na sala com as mãos atrás da cabeça, lágrimas já brotando nos seus olhos. — Deve ser por isso que você não quis ficar comigo. Você tem nojo de mim, você deveria ter nojo de mim!

Não, Santana, não diz isso! Nunca diga isso! - Brittany se levantou também e estava se aproximando da outra, não queria que ela pensasse isso, não era verdade.

Mas se eu tenho o mesmo DNA que um monstro, eu devo ser um monstro também, por isso que eu sou uma vadia, por isso todo mundo me odeia... Até meu sangue é sujo! – Santana estava descontrolada, chorando de verdade agora e já cambaleava mais do que andava de um lado pro outro, quando Brittany a pegou pelos ombros e encostou-a com força na parede, para que a outra voltasse a si, olhando diretamente nos olhos dela, quase a assustando.

Para! Para com isso e me escuta! Primeiramente, você não tem certeza disso, depois, não é seu sangue que influencia no seu caráter, e sim, sua criação, os valores que seu pai te deu e esse é seu verdadeiro pai, não importa a ciência, o homem que te criou, que te ama, ele é o seu pai e não diga que você é um monstro, porque eu conheço a verdadeira Santana, por trás da vadia que VOCÊ tenta fazer com que os outros vejam, e eu sei que seu coração é bom. Eu estava completamente perdida e destruída por dentro quando te conheci, mesmo que você não soubesse, mas você me salvou, você me deu alguma coisa pra amar, pelo que querer viver, você me deu você e nenhum monstro teria sido capaz disso. Você não é como ele, sabe por quê? Porque eu nunca seria capaz de amar ninguém como ele, mas eu amo você e eu quero estar com você, mesmo com meus fantasmas, mesmo com seus fantasmas, eu não me importo com as sombras, eu só me importo com você. Porque eu amo você, Santana Lopez.– Brittany terminou e beijou Santana com talvez até mais força e desespero do que na madrugada anterior e Santana acreditou em suas palavras, mesmo que estivesse péssima e atordoada pela possibilidade daquele homem ser seu pai, Brittany estava certa, Ricardo era seu pai e nada mudaria isso. Ela também tinha Brittany, suas últimas palavras e aquele beijo ainda aquecendo seu coração e sabia que conseguiria superar qualquer coisa com ela ao seu lado.

Notas finais
Ta-dãã! Mas será que Brittany não esqueceu nenhum detalhe nessa história? Não sei, vamos esperar para ver! No próximo capítulo teremos mais enfoque em Brittana especificamente e várias consequências disso tudo irão aparecendo no decorrer dos capítulos, fiquem ligados. Obrigado por ler mais esse novo e maravilhoso capítulo, por favor, quem puder deixe um um comentário para me fazer mais feliz :3