Um amor de matar.
1 O morte.
Parada em frente a mesa do médico, estática e pálida, uma moça morena, de cabelos curtos e negros, segura o papel do resultado do exame que havia recebido. Era Clara Moraes, vinte e cinco anos, jovem, bonita, e com muito tempo pela frente...
...Bom, eu acho que não! "Apenas seis meses de vida", era o que dizia o doutor, enquanto a mesma ouvia em estado de choque.
– Como isso pôde acontecer?? — Clara pergunta com a voz trêmula.
– Olha, algumas vezes o câncer aparece rapidamente e cresce na mesma proporção, esse é um dos seus casos, o câncer de estômago é mais raro que os outros, e um dos mais difíceis de tratar. E o seu já esta se alastrando para os outros órgãos.
– Mas...mas...eu não entendo, eu estava bem até pouco tempo, não faz sentido...
– Há casos de pessoas que só descobrem o câncer uma semana antes de falecer, acontece bastante. O que podemos fazer são tratamentos que alonguem o tempo de vida, porém...
– Não, eu não quero!! — interrompe — Não vejo sentido em prolongar esse sofrimento, eu só... — pega a bolsa com raiva- Eu vou andando — Se levanta apressadamente e nervosa, deixando o médico falando sozinho, batendo a porta violentamente.
Não estava fácil para Clara, depois da noticia de sua morte iminente, ela não sabia o que fazer. Não queria avisar a sua família, era muito apegada aos pais e sabia que não iriam aguentar. Não queria avisar aos amigos, pois daqui a seis meses sua melhor amiga, Joana, vai casar e ela será, seria a madrinha. Não queria avisar ao seu chefe, era a melhor empregada da empresa, ele ficaria perdido. "Para quem iria contar?" "O que iria fazer?" Ficava em sua mente.
– A única solução é dar fim de uma vez a isso — enxugando as lágrimas em seu rosto enquanto prepara o jantar — eu vou morrer de qualquer maneira, então, então....-avista uma faca afiada em cima da mesa da cozinha — ENTÃO É ISSO!
Clara corre e pega a faca com violência, testa em seu dedo para ver o quão esta afiada, e faz um pequeno corte.
– Esta afiadíssima! Vai servir...- num ato de desespero e insanidade, segura a faca firmemente e respira fundo — então ta....vamos lá....- cerra os olhos e respira ofegante, criando coragem para cortar seus pulsos — Ta....E é um — aproxima a faca — e é dois -contrai em seus pulsos — E é TRÊ...
*DING DONG*
– Mas o que...
*DING DONG*
– Er...- joga a faca na pia rapidamente — Um, um minuuuto. — vai andando para a porta desconfiada — Quem é?
– ...
– Ué...- para em frente a porta e olha pelo olho mágico, avista um homem branco, loiro, com um terno preto bastante elegante, barba cerrada e semblante sério. — O, o que o senhor deseja?
– Boa noite — uma voz rouca e grossa responde — Meu nome é Gabriel Lourenço, me mudei para o apartamento ao lado, estou apenas querendo conhecer meus novos vizinhos, se permitir, é claro.
– Haaa sim — abre a porta devagar — Me perdoe, é que estava preparando o jantar, e aí estava toda suja, enfim..
– Ow, eu te atrapalhei??
– Não, não, não. Eu já tava terminando- da um sorriso amarelo — O senhor gostaria de entrar pra tomar um café?
– Ha, mas não seria muito incômodo?
– Não, de jeito nenh...Ha...HAHA, entendiii.
– Hehe, me perdoe, sou um pouco piadista. Mas, é, aceito sim. — Vai entrando devagar e observando o apartamento.
– Certo — fechando a porta — eu vou na cozinha pegar algo pra comermos e as xícaras, pode sentar — apontando para a sala- fica a vontade.
– Tranquilo — vai em direção ao cômodo, passando a mão nos móveis, senta-se na poltrona preta e meio surrada.
– Então... — indaga Clara enquanto prepara a comida na cozinha — Se mudou quando para cá?
– Uns dois, três dias. — falando num tom alto.
– Engraçado, não vi nenhum movimento, nenhum móvel, barulho.
– Eu trouxe as coisas a noite, é o único tempo que eu tenho. Minhas manhãs e tardes são extremamente atarefadas — observa um peixinho dourado nadando em um pequeno aquário, em cima da mesinha a sua frente.
– Sério? Você trabalha com algo muito pesado?
– É...podemos dizer que sim! Pesado, complexo, complicado, mas, gratificante.
– Carregando a bandeja com duas xícaras de café, e um prato de biscoitos até a sala — Nossa...- deixando na mesa — parece importante.
– E é.
–...
–...
– Entãão...
– O quê...?
– No que você trabalha? — curiosa.
– Ha, bom. Eu sou um... Um tipo de mensageiro...Na verdade, eu faço o trabalho sujo, sabe?
– Que tipo de trabalho sujo? — assustada.
– Bom...Eu sou um...Como posso dizer isso...Um ceifador!
–...
– UM O QUÊ??? — confusa.
– Um Ceifador, sabe — balançando as mãos — aqueles que levam as almas mortais pro submundo, pro céu, pro inferno, pro nosso lar, etc, coisa e tal.
– Você ta me dizendo que é...
– Sim, exatamente isso...
...Eu sou "O" morte!
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