Um Verdadeiro Monstro

40 Último Capítulo


Notas iniciais
É com muito gosto que finalizo essa longa história. Há muito tempo eu escrevia e reescrevia um final digno para que eu me sentisse satisfeita e finalmente colocar um desfecho nessa fanfic. Ontem passei a madrugada inteira escrevendo-a em meu caderno e como pode-se perceber; fiquei muito inspirada com as ideias que me deram. Eu realmente não ia me sentir completa apagando essa fic, pois apaga-la seria como apagar uma parte do meu passado. Ganhei amigos e leitores maravilhosos! E sem mais ladainhas: Fiquem com o último capítulo de Um Verdadeiro Monstro ♥

Eu abri as portas... O gesto que fiz ao abaixar a maçaneta foi como pressionar um gatilho contra minha própria face.

Uma lufada de ar gélido soprou meus cabelos ao deparar com o interior da terrível pizzaria. Estava escuro, vazio e silencioso...

Dando alguns passos vacilantes para a entrada, girei minha cabeça para trás para ver se a menina estava ao meu lado. E ela, simplesmente sumiu.

Uma onda de dúvidas e tempestades de confusão pairavam sobre minha mente, era desistir e sair correndo ou continuar a enfrentar.

Meu estado correspondia a grande quantidade de remédios que engoli. Estava tonta e minha visão distorcia cada parede e objeto que avistava logo à frente. Já não estava bem mesmo, não sabia agora distinguir o que era de minha imaginação e o que não era.

Um estalo de ferro repentino me fez saltar atordoada, pois pude ouvir um grito seguido de um enorme e enferrujado giro de engrenagens.

Tapei os ouvidos esquecendo todos os conselhos que a criança me dera antes e girei voltando-me a correr para a porta, mas ao virar fui surpreendida por uma luz ofuscante de queimar os meus olhos. Era uma lanterna?

Voltando a enxergar aos poucos a imagem à minha frente foi tomando forma. Era um guarda noturno! E de repente, as lembravas voltavam a minha cabeça aos poucos... Os fatos eram que; A FazBear´s havia voltado a funcionar como eu tinha visto antes. Os animatronics com os corpos dentro de suas carcaças estão em putrefação e nenhum indivíduo fez questão desse caso pelo que acredito, a gerente é a ex-esposa de Purple Guy e ela também mata!

Estou realmente numa enrascada.

Diante dos olhos surpresos do guarda que me dirigia palavras de repreensão, eu não pude deixar de continuar a ouvir os gritos de horror em meus ouvidos. Eles se repetiam o tempo todo à cada estalo emitido... E o guarda parecia não perceber isso. Ele pedia para eu ir embora.

— ALGUÉM ESTÁ PRECISANDO DE AJUDA! — Berrei para que pudesse interromper sua ladainha. Respirando fundo, eu tomei coragem. — ...Você precisa ver isso... Pois...a FazBear´s inteira corre perigo...

O guarda me analisou cautelosamente. Dava para ver a confusão oscilando em sua cabeça. Antes que pudesse me responder, corri para o corredor me afastando.

Era hora de mostrar a verdade.

Revelar a todos que fui testemunha das mortes de crianças inocentes.

Eu corria com os pensamentos atordoados acompanha pelo guarda que seguia ultrapassado por mim. Não estou realmente acreditando! Esse é o momento de tirar do oculto o que manchou minha vida.

Uma forte topada no meu pé arrebatou meus pensamentos e não pude evitar a forte queda que sofri no meio do corredor.

Em meio aos gritos e estalos que não cessavam em minha mente. Me levantei completamente perdida e percebi que haveria tropeçado em algo. Algo grande e espesso.

Estava lá a carcaça de Bonny estirada no chão... Congelei-me ao recordar do nosso último encontro. Pude ver com dificuldade pelas poucas luzes que estavam no animatronic. Suas mandíbulas estavam entreabertas revelando o pudor... um cadáver em putrefação decaído.

Me afastei arrastando-me do chão evitando encostar nos dejetos que se desprendiam.

Em súbita tensão, pude sentir a sensação de vermes se arrastarem por meus pés, subindo meus tornozelos com agilidade, e rastejando sobre minhas pernas.

Eu não queria estar ali naquele momento...

Não precisei pensar duas vezes ao ser tomada pelo impulso de sair correndo daquele lugar. Não sabia mais para onde estava indo me distanciando naquele escuro, mas sabia que aquele corredor era onde me faria cruzar com a maldita porta da Safe Room. Fiquei dividida entre o avançar ou o regressar.

O caminho foi iluminado pela lanterna do guarda noturno. Ele gritou ao deparar-se com aquele animatronic no chão.

— Era isso... — Sussurrei sem fôlego — As crianças... assas... assassinadas...

O guarda levantou sua cabeça. Seu olhar vazio e sem vida voltou-se para mim. Em resposta com a voz trêmula balbuciou as palavras.

— Não estou surpreso...

* * * * *

Estávamos na parte mais iluminada pela pizzaria. O corredor que guardava os quadros de Dona Mih na parede. Voltar a vê-los me dava um aperto melancólico. Eram lembranças delas, imortalizadas à cada pincelada de tinta.

Cautelosa perguntei, perguntei ao guarda adulto que me levara para lá para esclarecer ideias, se ele também não escutava os gritos e estalos que me acompanhavam desde minha chegada. O guarda negou gentilmente. Ter a certeza de que eu era a única a ouvir aquela voz não me consolava de modo algum.

Mas há de dizer que os relatos que o guarda noturno me contou me atordoaram ainda mais. Uma das explicações sobre o descaso com os robôs que ocultavam corpos no expediente da pizzaria era de que, a maioria dos frequentadores incluindo funcionários tinham consciência do que acontecia — isso me fez bambear as pernas.

Ninguém tinha coragem — pelo que dizia o guarda — de denunciar os ocorridos, pois também eram cientes da má sorte que caía para os "corajosos".

Entre alguns, há sobreviventes que, para continuarem a viver, tiveram que adotar o silêncio...

Ele foi me contando tudo. Seu rosto representava os traumas encarnados nos olhos de uma pessoa.

Não demorou muito para narrar o trágico episódio de Purple Guy — o rapaz que mudava de forma física ao desencadear acessos de insanidade.

Comovendo-me, discuti abertamente as associações que tivemos antes que pudesse saber da triste verdade. O guarda me compreendeu revelando que Vincent já havia sido despedido há muito tempo e explicou que rondava a Fazbear´s causando assassinatos para suprir sua vingança e por pura zombaria para provocar a ira de Lucy, a gerente.

Eu sentia um gosto amargo na minha boca em efeito a cada relado mórbido que recebia.

O guarda me fez voltar a realidade acenando na frente dos meus olhos.

Antes que pudesse responder, empalideci ao ver faíscas acendendo na ponta da moldura do quadro logo atrás das costas do guarda. Ele havia se virado para trás e também percebeu que algo não estava bom.

Então tudo pareceu correr muito rápido. De quadro em quadro tive a catástrofe de presenciar chamas corroendo as pinturas, uma por uma.

Os gritos que estavam em minha cabeça agora estavam fundidos aos gritos do guarda que berrava para que saísse dali, mas eu não me movia, não conseguia minhas pernas obedecerem aos seus comandos.

— VENHA! VENHA! LOGO! — Seus escândalos desesperados em meio a calamidade se distanciavam da minha audição.

Pude ouvir o som estridente do alarme embora nenhuma gota dos dispositivos no teto houvesse caído.

Minha visão começou a ficar turva, sem quase perceber o guarda tentando me tirar do lugar onde estavam plantados meus pés. Eu não sabia o que estava acontecendo mas em hipótese alguma me movia.

Enquanto o corredor era tomado pelas cores fortes das labaredas que subiam ao teto, em minha visão tudo sumia, escurecendo.

Os gritos e estalos em minha mente foram dando forma a uma canção. canção cuja havia escutado, cantada na voz de uma pessoa que amava, a mesma que passei a odiar. A bela música entoada foi se desafinando em notas macabras. Sacudi minha cabeça querendo sair daquele devaneio e fui surpreendida a ponto de quase ter um infarto. Era Vincent em carne e osso , agarrando meus braços com uma expressão maquiavélica, a mesma fisionomia que o vi pela última vez ao mata-lo.

O grito que emiti era capaz de ser escutado por toda parte. Rugindo escandalosamente com sangue nos olhos eu tomei força para empurrá-lo contra o fogo!

É difícil expressar o que aconteceu. Pude ver seu corpo sendo lançado para a parede rebatendo com força nas chamas que corroíam os quadros, dilacerando lentamente tudo a volta. Seu corpo ricocheteou no chão e o fogo começou alastra-se em suas roupas.

E foi aí que senti uma dor aguda perfurar meu peito. Claramente me dei conta que havia matado na verdade o guarda noturno! Eu estava alucinando minutos antes!

Caí ajoelhada com os berros travados em minha garganta... Eu havia o empurrado para a própria morte...

Mas vi com lucidez seu corpo sendo carbonizado, o último vestígio de sua expressão assustada. O guarda me encarando, os olhos saltados de horror. Sendo cremado bem na minha frente.

Encostei minha testa no chão puxando meus cabelos num surto silencioso. Eu o matei...

Queria fugir, sair correndo e jamais em toda minha vida voltar para esse lugar, mas seu cadáver queimava feito fogueira extensa sobre toda a passagem de saída.

A fumaça parecia fechar minha garganta por inteiro me impulsionando a tosses. Logo percebi que não estava só.

Saltei ao ver sentir um vulto luminoso diante dos meus olhos. Pude separar facilmente do iluminar das chamas, pois aquele vulto... tinha rosto.

Tomada por força maior fui erguida para seguir aquela luz. Mesmo que me levasse para a direção contrária da saída.

Eu ouvia canções que estranhamente sibilavam em um canto. Seguindo-as com as pernas bambas evitando o contato com o fogo pude chegar ao encontro de uma porta aberta. Lágrimas pesadas entornaram dos meus olhos ao vislumbrar aquela cena.

Estavam lá a imagem angelical de cada criança num branco translúcido. Todas de mãos dadas numa roda, cantavam uma alegre canção.

Com um grito corri para agarrá-las mas seus corpos se desmancharam de imediato, resultando-me a profunda solidão.

Para meu espanto pude ouvir soar sobre meus ouvidos o mesmo grito que havia me perseguido por todo esse tempo. Congelei-me ao dar de cara com Springtrap no canto da sala. Ele estava de joelhos e em suas fendas escorriam sangue. Pude reconhecer a tal voz. Vincent gemia a dor dos seus músculos e ossos sendo prensados lentamente pelas engrenagens do animatronic.

— SEU VERME! — Berrei incrédula sem pensar duas vezes.

O som dos ossos dele sendo estalados a cada instante dentro daquele traje era perturbador!

Sem reação as minhas ofensas, gritos, golpes e empurrões que prejudicavam ainda mais sua situação dentro daquela roupa, em seu rosto permanecia um sorriso largo e doloroso. Por trás da máscara, pude ver seus olhos cujo um havia aspecto humano e outro apresentava um círculo redondo e luminoso.

Me enojei inteiramente dando-me por insatisfeita pelo seu castigo; começando a sacudir a carcaça dura do animatronic em vão num acesso de ira.

O fogo que começava invadir a sala me alertou. Tenho que sair agora!

Antes que pudesse me mover, as mãos de Springtrap estavam agarradas em meus antebraços, me impedindo de sair dali!

Nesse momento passei a sentir o gosto amargo do caos na pele.

Gritando , inalando fumaça enquanto me contorcia.

Nada movia aquelas mãos espessas de ferro que me privavam de fugir.

A cada tentativa diminuíam-se as chances com a destruição alastrando pela sala.

Consumida inteiramente pelo desespero em relance pude ver a fisionomia de Vincent por trás de Sprintrap. Era sinistro o jeito como suas feições se distorciam como imagens de tv, ora mudando para forma humana, ora num aspecto roxo insano.

O fogo queimava mais e mais o chão em nossa volta. Pude sentir suas mãos se soltando rapidamente para um abraço formado em arco com aqueles mecanismos maciços. mal pude revirar o corpo, eu estava completamente presa!

Impossibilitada me esticar, continuei a tentar usar a força lhe dando golpes limitados com os punhos. Minhas mãos começavam a sangrar pois era duro o ferro que eu golpeava. Meu choro não cessou, mesmo que minha atenção fosse roubada pelas luzes que surgiam novamente, agora há metros acima de nós.

A última imagem que pude ver; as crianças novamente cantando de mão dadas numa roda que girava lentamente e que subia cada vez mais alto para o teto. Senti minha cabeça sendo empurrada contra o peito do animatronic. Sem esperança entrei em prantos ocultando meu rosto, que por espanto, pude ouvir a voz fraca de Vincent fazendo "Shh..."

E então,

fomos consumidos pelo fogo.

*

*

*

*

*

10 anos se passaram. Meu distintivo de detetive ofuscava com a luz do sol que saía das nuvens pesadas. Em meu blaser de couro, ainda guardava as cicatrizes do passado.

Com as mãos enterradas no bolso em passos confiantes comecei a ponderar sobre as minhas memórias daquele dia: Eu havia acordado do lado de fora. Diversos caminhões de bombeiros, viaturas e repórteres estavam lá. Minha mãe que havia voltado de uma viagem de emergência ao saber da história contada pelo meu pai me agarrava com força. Assustada não entendia o que havia acontecido. Estava enrolada num pano que um agente havia me dado. Os médicos surpresos disseram que sobrevivi por um milagre ao ser engolida por todas aquelas chamas que demoliram toda a pizzaria.

Parei em frente a rua onde anos estaria aquele estabelecimento.

Com o rosto inexpressivo voltava a pegar rumo de minha caminhada.

Com a canção sussurrante em minha cabeça...

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