Um Toque, Uma História.

7 Mojito à Meia-Noite


A música escorria pelos meus ouvidos como o álcool do mojito descia pela minha garganta: suave, gelado, quase doce — mas com aquele ardor lento que vinha depois, invadindo o peito sem pedir licença. "Why’d you only call me when you’re high?" sussurrava a voz do Alex Turner, meio debochada, meio ferida, exatamente como eu me sentia sem saber. Meu corpo flutuava de leve na superfície da piscina, e a água se movia em ondas preguiçosas, como se o tempo estivesse cansado de correr. Era uma daquelas noites em que a solidão não doía, só fazia companhia. O céu aberto deixava a brisa brincar com meu cabelo solto, e por um instante eu me permiti acreditar que estava tudo bem. Que talvez eu não sentisse mais falta. Que talvez ele tivesse se tornado só mais uma lembrança morna que o tempo leva quando não tem mais o que aquecer.

O som da campainha, no entanto, foi como um estalo de realidade que rompeu o feitiço da noite. Eu franzi o cenho, confusa — ninguém aparecia sem avisar, não ali, não naquela hora. Me levantei devagar, secando os braços com a toalha largada na borda, o coração batendo rápido sem motivo aparente. O mojito ainda escorria gelado por dentro, mas a minha pele esquentou. Andei descalça até a porta, ainda ouvindo a batida da música vindo do lado de dentro da casa. E quando girei a maçaneta, o tempo parou de verdade.

Nikolas.

Ou melhor — Nikko. Meu Nikko. Mesmo que há meses ele não fosse mais meu de jeito nenhum.

Ele estava parado ali, com aquela cara de quem carregava o mundo nos ombros, os cabelos bagunçados pelo vento, a barba por fazer e os olhos… ah, os olhos. Aqueles olhos que me viram antes de qualquer outra coisa, antes de qualquer palavra. E mesmo ali, na minha frente, parecia que ele ainda não acreditava que eu era real. Ficou mudo. Eu também. Por um segundo a gente só respirou o mesmo ar — e foi sufocante e libertador ao mesmo tempo.

— Nikko… — saiu mais baixo do que eu queria, mas ele ouviu. Claro que ouviu.

Ele tentou sorrir, mas foi um meio sorriso quebrado, como se tivesse desaprendido. E naquele instante, eu soube. A ex tinha acabado. O veneno tinha saído da pele dele, mas deixado cicatrizes. E por algum motivo, ele estava ali. Na minha porta. De novo.

— Posso entrar?

Assenti com a cabeça, engolindo todas as perguntas que queimavam na minha língua. Ele entrou. Aquele cheiro dele, tão familiar, tão cruelmente confortável, invadiu meu espaço de novo como se nunca tivesse ido embora. E por um segundo, por um segundo inteiro, eu quis chorar. Porque ele estava ali. Porque ele tinha vindo. Porque, apesar de tudo, ainda era ele.

— Tô na piscina — eu disse, tentando soar casual, mas minha voz saiu trêmula. — Se quiser… pode vir também.

Não esperei resposta. Me virei e fui na frente, de volta pro azul iluminado que agora parecia ainda mais fundo. Entrei na água devagar, deixando o corpo afundar até os ombros, tentando me acalmar. O mojito já tinha derretido demais, mas eu não consegui largar o copo.

Atrás de mim, ouvi o som dele tirando os tênis. A fivela do cinto. O pano da camiseta sendo puxado pela cabeça. E meu coração batia como se eu fosse adolescente de novo, como se tudo aquilo não fosse perigoso demais pra estar acontecendo ali, naquela noite qualquer.

Ele estava aqui.

E eu não sabia se isso me salvava ou me condenava.

A água envolveu meu corpo como um abraço morno, mas minha pele ardia num lugar onde a água não tocava — por dentro.

Senti quando ele entrou na piscina. Não ouvi o som exato do mergulho, não vi a espuma que se abriu ao redor dele. Mas eu soube. O jeito que o ar mudou, o leve deslocamento da água que tocou minhas costas, como se o universo me dissesse: ele tá aqui.

E eu não sabia o que fazer com isso.

Me virei devagar, como se qualquer movimento mais brusco pudesse assustar o momento. Nikko estava encostado na borda oposta, os braços abertos, as mãos apoiadas no azulejo. O corpo meio submerso, os olhos fixos em mim. E por um instante, eu tive certeza de que ele tava tentando decifrar se ainda me conhecia. Se ainda podia se aproximar.

— Você sumiu — eu disse, a voz embargada, mas firme. Não era uma acusação. Era só verdade.

Ele desviou o olhar, passou a mão molhada nos cabelos, jogando-os pra trás.

— Eu me perdi.

A resposta veio baixa, crua. Sem floreio, sem desculpa. Doeu mais assim. Doeu porque soou real.

O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Como se a gente estivesse pisando em cacos de vidro e cada passo precisasse de cuidado. Tanta coisa ficou presa entre nós. Tanta coisa nunca dita. Tantos dias ignorados. E, mesmo assim, lá estávamos nós — dois corpos flutuando na mesma água, com o mesmo passado grudado na pele.

Tomei um gole do mojito, mais pra manter as mãos ocupadas do que pela sede. E só então percebi que meu coração ainda batia rápido. Olhei pra ele de novo. O rosto meio cansado, meio bonito demais pra estar tão perto. A tatuagem no ombro que eu sempre admirei em silêncio. As olheiras que diziam mais que qualquer conversa. Ele não era mais o mesmo — e, de algum jeito, ainda era.

— Por que você veio? — perguntei apenas pela certeza, porquê precisava entender o que tinha puxado ele pra minha porta naquela noite, depois de tanto tempo de silêncio.

Ele prendeu o ar, os olhos buscando um lugar seguro na minha cara, como se pedisse permissão pra se abrir. Finalmente, suspirou, deixando a verdade escorrer pesada, como se fosse um fardo que ele carregava sem alívio.

— A Luna terminou comigo. — A voz saiu baixa, quase quebrada. — Eu descobri que ela tava me traindo. Peguei o celular dela, vi as mensagens, as fotos… Ela surtou quando soube que eu tinha visto. Terminou tudo na hora, e eu só aceitei.

Fez uma pausa, o peito subindo e descendo como se cada palavra precisasse de esforço.

— Eu já tava cansado de tudo aquilo, de fingir que tava tudo bem, de me perder num relacionamento que só me fazia mal. Saí de lá decidido a marcar o fim de tudo, se ela queria terminar, sendo mentira ou não, eu aceitei.

Ele me olhou, com aquela mistura crua de arrependimento e sinceridade.

— E foi burro demais de minha parte me afastar de você. Eu devia ter vindo antes, devia ter ficado. Mas não soube como. E agora, cá estou.

Fiquei em silêncio, deixando o peso das palavras dele cair sobre mim como a brisa fria que agora levantava da piscina. Minha garganta apertou. Quis chorar. Quis nadar até ele e abraçar com força. Mas também quis me proteger, me esconder, me calar.

Em vez disso, ofereci meu copo.

— Quer um gole?

Ele nadou devagar até mim, como se tivesse medo de chegar perto demais. Mas veio. E quando os dedos dele tocaram os meus pra pegar o copo, a corrente elétrica foi imediata. Não uma faísca, não um choque — mas algo mais fundo, mais quente. Como se minha pele reconhecesse a dele antes mesmo de mim.

Ele bebeu. Me olhou. Sorriu um sorriso pequeno, verdadeiro. E disse:

— Ainda faz o melhor mojito do mundo.

Sorri com os olhos, mas o peito apertou. Não dava mais pra fingir que esse reencontro era só saudade ou bebida. Havia feridas abertas, promessas não ditas, e o tipo de silêncio que só a gente sabia cultivar.

Respirei fundo. A água ao redor parecia escutar.

— Me promete uma coisa? — minha voz saiu baixa, mas firme, firme como eu precisava ser.

Ele arqueou levemente a sobrancelha, curioso e atento, como se soubesse que vinha algo importante.

— Promete que não vai voltar pra ela. Que não vai correr de novo pro que te machuca quando as coisas ficarem difíceis.

O sorriso dele desapareceu devagar, como vela ao vento. Por um segundo, achei que ele fosse recuar. Mas não. Ele apenas se aproximou mais, deixando a água lamber nossas peles quase coladas, o rosto a centímetros do meu.

— Ayla… — disse meu nome como quem reza. — Eu já voltei. Mas foi pra ti. E não tem mais volta, não tem mais “ela”. Só tem agora.

Encostou a testa na minha, e naquele contato morno, senti as verdades que as palavras não conseguiam dizer.

— Prometo. Não volto. Nem por um segundo. Nem por um tropeço. Nem por saudade do que não devia existir.

Fechei os olhos. Um nó na garganta, o coração pulsando em cada parte do corpo.

— Então volta pra mim — murmurei, sentindo minha alma inteira se entregar naquela palavra pequena.

E ali, naquele instante em que nossos corpos flutuavam tão próximos, e a música tocava baixinho lá dentro da casa, e as palavras pareciam menos importantes do que os olhares, eu soube: a distância entre nós não era física.

A água ainda envolvia nossos corpos, fria, calma, mas entre nós o calor começava a se insinuar, lento, quase tímido. Nikko ficou ali, com o copo ainda nas mãos, como se ele próprio tentasse entender se aquele era o lugar certo para estar, se eu ainda deixaria.

Eu me aproximei devagar, deixando a água escorrer pelo meu braço até alcançar o dele. Por um instante, nossos dedos se roçaram — não foi um toque casual, foi uma promessa quase silenciosa, um convite para voltar a se encontrar. Ele não recuou. Segurou minha mão com uma força contida, como se estivesse ancorando seu corpo e sua alma no meu.

— Eu senti tua falta todos os dias — ele disse, e sua voz era um sopro entre nós, carregada de tudo que ficou preso por tempo demais. — E me arrependo de ter ido embora. Mas tô aqui agora. Se tu me disser que ainda posso ficar, mesmo que devagar... eu fico.

O silêncio entre nós ficou espesso, mas não pesado. Era cheio de expectativa, de medo, de esperança. Meu peito apertou, porque a resposta que ele precisava não era só um “tá tudo bem”. Era um gesto, um olhar, uma promessa que só o toque podia traduzir.

Eu apertei sua mão, entrelaçando meus dedos nos dele, firme, como se quisesse segurar não só o corpo dele, mas também aquela possibilidade tênue que nascia ali.

— Tá tudo bem — eu disse, quase num sussurro, sentindo a verdade dessas palavras espalhar-se devagar, como ondas calmas invadindo a areia. — Você nunca deixou de ser meu melhor amigo, sempre foi e sempre será.

Ele sorriu, um sorriso que parecia renascer da própria alma, e naquele momento, a água da piscina já não estava mais fria.

Olhei para ele, os olhos refletindo a luz fraca da casa, a lua escondida entre as nuvens. Não sabia o que dizer, mas naquele instante a necessidade de estar perto falou mais alto do que o medo. Aproximei o rosto, até que nossos olhos se encontraram, buscando uma confirmação silenciosa.

Nikko sorriu novamente, um sorriso que parecia feito para mim, para aquele momento. Aquelas linhas de expressão, as olheiras que contavam noites difíceis, tudo desapareceu num instante de leveza que me fez querer confiar.

Os dedos dele deslizaram para o meu rosto, um toque que era ao mesmo tempo suave e urgente. O coração acelerou, mas não pelo desespero, e sim pela esperança — uma chama pequena, mas real, que começava a arder dentro do peito.

— Posso? — ele perguntou, os olhos pedindo, a boca buscando.

E eu respondi sem palavras, inclinando meu corpo para perto do dele, sentindo o calor crescer onde a água não alcançava.

Nossos lábios se tocaram pela primeira vez naquela noite, um beijo que não era só desejo, mas cuidado, carinho e um silêncio que dizia tudo o que precisávamos.

O beijo veio lento, como quem tem pressa de provar sem pressa, de se encontrar nas curvas de uma boca que parecia já ser parte do corpo — só que agora liberta, sem medos, sem desculpas. Os lábios dele tinham um sabor familiar, meio salgado pela água da piscina, meio doce pela esperança que deixava escapar. Fechei os olhos e me deixei levar, porque aquilo era mais do que um beijo. Era um sentimento guardado há anos.

Os dedos dele, ainda no meu rosto, desceram para o meu pescoço, envolvendo com uma delicadeza quase reverente. Senti um arrepio percorrer a pele, uma sensação que estava guardada há tanto tempo, esperando pela coragem certa para aparecer. O mundo lá fora parecia um vulto distante; ali, naquela bolha líquida e calma, só existíamos nós dois.

Quando nossos lábios se separaram, o ar entrou frio, mas não me afastou. O olhar dele, intenso e terno, segurava o meu como se quisesse traduzir toda a falta, toda a saudade que nunca foi dita em voz alta. Eu queria que ele visse tudo — meu medo, minha vontade, meu cuidado.

A mão que segurava a minha apertou de leve, quase para dizer “tô aqui, e não vou embora”. E eu, com a voz embargada e o coração aberto, sussurrei:

Eu esperei por isso... muito tempo.

Ele sorriu, um sorriso que não precisava de palavras para ser compreendido, e então nossos corpos se aproximaram ainda mais, como se a distância tivesse sido um muro fácil de derrubar, pedaço por pedaço, com toques e suspiros.

As mãos dele deslizaram pela minha cintura, devagar, quase como se pedissem permissão a cada centímetro, até me puxar com firmeza. Um gesto cheio de certeza, como quem enfim decide segurar o que já era seu há muito tempo. Me deixei levar, o corpo colando no dele com naturalidade, e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, Nikko me ergueu com facilidade, me encaixando no colo como se meu lugar fosse ali desde sempre.

Meus braços se enroscaram no pescoço dele, e as pernas, como se tivessem memória própria, se entrelaçaram ao redor da cintura dele, com uma fluidez que me tirou o fôlego. O copo escorregou da mão dele e caiu na água com um som abafado, como se o mundo estivesse concordando em parar por um momento só nosso. O mundo podia desabar ali fora, que eu não sairia daquele abraço.

Ele colou os lábios na curva do meu pescoço, como quem beija um lugar sagrado. E foi ali que senti — não só o calor, mas o carinho. A maneira como ele me segurava, como os dedos passeavam devagar pelas minhas costas, mapeando a pele com um cuidado quase devoto. As mãos subiam e desciam num ritmo calmo, aconchegante, como se quisesse me memorizar de novo. E quando os dedos dele chegaram ao meu cabelo, foi como se o tempo parasse.

Nikko enfiou os dedos entre os fios molhados com delicadeza, fazendo um carinho lento no meu couro cabeludo que me fez fechar os olhos e suspirar, rendida. Era como se dissesse, sem precisar falar: "Tô aqui. Tô voltando. E dessa vez, é pra ficar." Ele não sabia. Não fazia ideia do quanto aquele toque me atravessava, do quanto sonhei em sentir os dedos dele assim, no meu cabelo, escorregando pela nuca, descendo pela espinha com um carinho que queimava.

A água nos envolvia até os ombros, mas o calor entre nós dois fazia tudo parecer brasa. Eu sentia o coração dele batendo forte contra meu peito, e o meu respondia no mesmo compasso. A respiração dele esbarrava no meu rosto, quente, íntima, enquanto nossos olhos se encontravam entre um beijo e outro.

Beijos agora mais famintos, mais firmes, mas ainda assim cheios de cuidado. Um desejo que crescia como maré, e vinha acompanhado de uma ternura que desmontava qualquer defesa.

Ele começou a nadar com calma, me carregando como se eu fosse leve — não só no corpo, mas também no peso que sempre carreguei no coração. Os braços dele firmes me guiavam, e o mundo parecia girar num ritmo mais lento só pra nos dar tempo.

Quando percebi, ele me encostava na borda da piscina, com delicadeza. Me prendeu ali, entre seus braços e a parede fria, e tudo que existia era o contraste entre o calor dele e o concreto atrás de mim. A água batia no meu quadril, mas era a presença dele que me afogava — no melhor sentido.

As mãos dele se firmaram nas minhas coxas, como se quisessem se assegurar de que eu estava mesmo ali. Os olhos, escuros e marejados de um desejo recém-nascido, buscaram os meus. Mas antes que os lábios dele voltassem a se colar aos meus, eu desviei o rosto com um sopro de fôlego.

— Nikko... — sussurrei, com a voz mais trêmula do que gostaria. — Eu... eu preciso perguntar uma coisa antes da gente ir além.

Ele franziu o cenho, mas não disse nada.

— A tua ex... isso tudo ainda é recente. E eu... eu não quero ser um escape. Não quero que amanhã tu acorde e perceba que só me usou pra esquecer ela.

Tentei manter a voz firme, mas ela quebrou no meio, porque a verdade doía mais do que eu queria admitir. Eu queria tanto ele. Mas não ao custo de ser só um refúgio.

— Se isso for só pra tapar um buraco... — comecei a dizer, mas não terminei.

Ele me calou com um beijo.

Um beijo cheio de certeza. De resposta.

As mãos dele subiram até o meu rosto de novo, segurando com uma firmeza doce, como se estivesse me puxando de volta pro agora.

— Não é — ele sussurrou contra meus lábios. — Não é sobre ela. Não tem mais ela. Tem você. Só consigo ver e querer você. E eu só quero o que tu quiser me dar. Pelo tempo que quiser me ter.

E naquele instante, eu me permiti.

Permiti que o passado ficasse onde devia. Que o medo escorresse junto com a água. Que o desejo que eu guardava fazia anos, escondido nas entrelinhas dos nossos silêncios, finalmente se libertasse.

O beijo voltou com mais fome, e eu respondi com toda a entrega que ainda me restava.

As mãos dele apertaram minha cintura, e as minhas escorregaram pelas costas largas, sentindo a pele quente sob os dedos. Quando roçamos nossos quadris, a tensão entre nós virou faísca.

Ele me encaixou melhor contra a borda, a boca descendo pelo meu queixo, pelo pescoço, mordendo de leve, sugando o ar dos meus pulmões. E eu me arqueei contra ele, as mãos segurando os ombros, as pernas ainda presas à cintura dele, como se fossem parte dele agora.

Nossos corpos se procuraram, se entenderam. A respiração ficou entrecortada, e os movimentos mais lentos, mais intensos. Ele me olhava entre um beijo e outro, como se ainda tentasse acreditar que aquilo era real.

E era.

Era real demais pra ser sonho, intenso demais pra ser só desejo. Era um reencontro. De bocas, de mãos, de histórias.

As mãos dele desceram pelas minhas costas até o quadril, e com um movimento sutil, ele me puxou ainda mais pra ele, colando nossos corpos sob a resistência quase morna da água. Senti o volume rígido pressionando entre minhas pernas, e um arrepio me percorreu inteira, da nuca até o centro pulsante que doía por ele.

Minhas unhas arranharam de leve os ombros dele, e ele soltou um gemido rouco, quase um grunhido abafado contra meu pescoço.

— Fala que é isso que tu quer — ele murmurou, a voz rouca e baixa, como uma corrente elétrica dentro da água.

— Eu quero — sussurrei, com a boca roçando no canto da dele. — Eu quero você. Assim, agora.

Não teve hesitação.

Ele segurou minhas coxas com mais firmeza, me erguendo um pouco — o suficiente pra me posicionar melhor sobre ele, com as costas contra a parede da piscina. A água fazia tudo parecer mais lento, mais arrastado, como se o tempo estivesse com preguiça de passar.

E então ele entrou em mim.

Devagar, fundo, num deslize que me fez arfar alto contra o ombro dele. A água dificultava o movimento, mas não o sentimento. E talvez por isso, tudo parecia mais sensível. A fricção era diferente, quase sedosa. Quente. Profunda.

— Puta que pariu... — ele sussurrou, a testa colada na minha. — Tu... tu é perfeita.

Eu agarrei o cabelo da nuca dele e fechei os olhos, sentindo o corpo todo estremecer.

Ele começou a se mover — lentos impulsos, firmes, como se dançasse comigo num ritmo que só a gente conhecia. Me pegava com força, mas com um carinho que me desmontava inteira. Uma mão presa na minha cintura, a outra passeando pelas minhas costas, depois descendo até a curva da bunda, apertando, puxando, guiando.

A água se agitava ao nosso redor, pequenas ondas batendo nas bordas, cúmplices do nosso segredo.

Minhas pernas apertaram mais a cintura dele, e os gemidos dele se misturavam aos meus, abafados pelo calor do momento. Eu mordi o ombro dele, tentando me conter, mas era impossível. O prazer crescia, espiralava, e com cada investida mais profunda, mais certeira, eu sentia meu corpo se render.

— Olha pra mim — ele pediu, a voz embargada. — Quero ver tua cara quando gozar.

Abri os olhos, e ali estava ele. Todo meu. Cabelos molhados, olhar faminto, a boca entreaberta. Um homem em carne viva. Um amigo, um amor antigo, uma paixão que agora se tornava verdade entre ondas e gemidos.

Me inclinei pra beijá-lo, e foi nesse beijo que eu gozei.

Um orgasmo quente, intenso, que me atravessou como um raio, sacudindo cada canto do meu corpo. Me perdi nele. Na boca, no toque, no som que ele fez quando sentiu meu corpo se contrair ao redor do dele.

Ele gemeu alto, jogou a cabeça pra trás, e me segurou com ainda mais força quando o próprio clímax o levou junto. Gozou dentro de mim, com um gemido que parecia mistura de alívio e adoração.

Ficamos assim. Colados. Respirando juntos, ofegantes, como se o mundo só tivesse espaço pra nós dois ali naquela piscina, naquela noite, naquele instante em que tudo se alinhou.

Os dedos dele acariciaram minhas costas. Me abraçou como se tivesse medo de eu sumir.

— Se tu for embora agora, juro que mergulho atrás — ele sussurrou, com um sorriso cansado e sincero.

— Idiota — ri baixinho, encostando a testa na dele. — Eu tô aqui. Ainda tô aqui.

E no fundo, eu sabia: depois dessa noite... seria impossível voltar a ser só amigos.

O silêncio que veio depois não era desconfortável — era cheio. Cheio de tudo que não coube nas palavras durante os anos que a gente ficou longe.

Ele me abraçou mais forte, como se ainda quisesse me manter ali, colada nele, ancorada naquele momento. As mãos deslizaram pelas minhas costas em carinhos preguiçosos, e a boca dele encontrou meu ombro, onde deixou um beijo calmo, quase reverente.

— Eu sonhei com isso tantas vezes — ele disse baixo, como se confessasse um segredo antigo. — Contigo. Com teu corpo no meu, com a tua boca, com a forma como tu me olha. Mas nada no sonho era tão bom quanto te ter de verdade.

Eu sorri, sentindo o peito aquecer mais do que a própria água.

— Eu também — murmurei. — Sempre foi tu, Nikko. Sempre.

Ele afastou só o suficiente pra olhar dentro dos meus olhos, e os dele estavam brilhando — molhados, talvez, mas não pela piscina.

— Me deixa ficar, Ayla — ele pediu, a voz embargada de uma ternura crua. — Não só hoje. Me deixa te fazer feliz. Cuidar de ti. Te amar do jeito que tu merece.

Eu toquei o rosto dele com os dedos, traçando a linha da mandíbula, o lábio inferior que tanto sonhei beijar, e beijei de novo — com calma, com gosto, com tudo que havia em mim.

— Tu já faz — respondi. — Só por estar aqui.

E então ficamos ali, abraçados dentro da água, com o mundo lá fora suspenso, como se a noite tivesse nos engolido só pra gente existir dentro dela.

E pela primeira vez em muito tempo... eu me senti em casa.