Um Toque Feminino

7 Capítulo-7 - Uma


Notas iniciais
Capítulo dedicado à Nair e seu envolvimento com um dos aventureiros.

Capítulo Sete

Uma

Amigo!? Quando meu marido fez referência a um homem que eu tinha visto uma única vez, como sendo meu amigo, busquei no passado, a imagem de quem eu poderia chamar de amigo.

Um pouco antes de completar dezessete anos, eu poderia dizer que amigo mesmo, de verdade, era um piquira que tinha no sítio da minha avó. Não vou dizer que sinto mais saudades dele que da minha avó, porque seria injusto com ela, mas que éramos amigos, lá isso éramos.

Minhas férias são sempre aguardadas na esperança de me juntar ao meu amigo. Amanhã mesmo estaremos a caminho de lá. Minha mãe já disse que não vai, detesta roça, prefere ficar aqui em Goiânia. Nem nas fazendas do meu pai, que são aqui perto, ela gosta de ir. Meu pai poderia trazê-lo aqui para perto, mas ele acredita que se fizesse isso eu perderia a motivação para visitar minha avó e ele ia acabar tendo que ir sozinho. Por aqui tem outros cavalos, bons e bonitos, mas nenhum é igual ao Branquinho. Eu o ganhei quando fiz seis anos e ele era só um potrinho feio e das pernas bambas. Tinha uma cor esquisita, daquelas tipo, “cor de burro quando foge”, difícil de definir. Mas com o passar do tempo ele foi ficando branco. Agora que vai fazer onze anos está completamente branco. Mudei o nome dele para Branquinho. Meu pai disse que era por causa dele ser tordilho e que os tordilhos vão ficando brancos com o passar do tempo.

– Oi, vovó! Estava morrendo de saudade da senhora. Como vai o Branquinho?

– Filha! Pergunte primeiro por sua avó! Depois pelo cavalo!

– Ah, papai! Olhe para ela! Está cada dia, mais bonita! Nem precisa perguntar, ela está ótima!

– Deixa para lá, meu filho, ela gosta mesmo é daquele pangaré. Vá ingrata! Ele está te esperando.

Tirou o avental branco, pôs em minhas mãos e abraçou meu pai. Todas as vezes era a mesma coisa, ela resmungava e em seguida me dava o avental com o bolso cheio de rapadura para que eu levasse para o Branquinho. Estava anoitecendo, passear, só no dia seguinte. Mas no dia seguinte e nos demais dias seguintes enquanto eu estivesse por ali, o serviço do Branquinho estava suspenso. Nada de carroça, charrete ou semeadeiras. Era só meu. Onde eu ia ele ia atrás. Era como um cachorrinho, com a diferença que ele nunca passava à minha frente. Se a estrada era larga ele caminhava ao meu lado, se fosse uma trilha ele esperava eu ditar o rumo e o ritmo. Quando cavalgava ele sentia meu estado de espírito e andava ou trotava seguindo o que captava da minha ansiedade. Quando meu pai estava junto ele sabia que eu preferia seguir os passos do outro cavalo. Mas naquela manhã eu estava ansiosa e nem esperei meu pai montar, fui pegando a estrada e depois desviei em direção à cachoeira.

– Calma aí mocinha! Este pangaré não aguenta este rojão comigo em cima.

– Já falei para o senhor fazer um regime, está parecendo uma...

– Pode ir parando, não vou fazer regime com a comida da minha mãe!

– Com a da minha o senhor também não faz! Vai matar o cavalo, independente do ritmo.

– Então vamos ao passo, não quero voltar carregando o “panga”. E o sol já está muito quente, você dorme demais!

– Eu!? Às dez horas eu já estava pronta. O problema são as petas da vovó que não deixam o senhor sair da mesa.

– Ah, é?! Deixa estar, sua ingrata! Vou contar a ela. Onde já se viu? Colocar defeito nos biscoitos da minha mãe!

Quando abandonamos a trilha e entramos pelo pasto para chegar até à cachoeira, ele já havia concluído que o cansaço da montaria dele era devido ao excesso de peso causado pelos biscoitos de polvilho da minha avó, nada a haver com o tamanho da pança dele.

– Já está bem tarde, filha, o sol está a pino, se continuarmos pelo meio deste mato vamos perder o jantar.

– Que jantar?! Nem almoçamos ainda.

– Ah, então é isso! Um complô para me matar de fome. Sem almoçar e sem jantar. Vamos voltar.

– Já estamos chegando, Falta menos que um quilômetro, e além do mais os cavalos estão com sede.

– Este seu cavalo não me engana, está tramando alguma coisa!

– Acho que no momento ele está só pensando em um pouco de água fresca.

À medida que pressentiam a proximidade da água, seus passos ganhavam mais vivacidade e em poucos minutos a cachoeira estava à vista. Faltavam uns cem metros e meu pai segurou as rédeas do Branquinho.

– É melhor você esperar aqui. – o tom de brincadeira sumiu.

– Vamos, pai. É alguém que precisa de ajuda.

Galopamos até a cachoeira e o que vimos de estranho, era um homem só de calção de banho, estirado próximo à água, sangue por todos os lados, mas ainda respirava. O restante das roupas estava do outro lado do riacho.

– O que vamos fazer, pai?

– Vamos levá-lo ao hospital. Perdeu muito sangue e está com insolação. Tente limpar esta sujeira e vá molhando o rosto dele. Não lhe dê água.

Enquanto eu limpava a sujeira de sangue misturado com areia, meu pai sumiu riacho abaixo e voltou com duas varas de bambu. Em poucos minutos o ferido estava sendo arrastado, pelo Branquinho, sobre as varas em direção ao hospital.

– Porque não vamos até o carro e...

– Não vamos ganhar tempo com isso. Vai servir só para assustar sua avó. Mesmo que a gente demore uma hora a mais, é melhor do que eu colocá-lo dentro do carro, aquilo não é uma ambulância e o esforço pode reiniciar o sangramento.

Continuei caminhando ao lado do ferido. Meu pai montado e o Branquinho seguindo em frente, se auto comandando.

– E então, doutor? Como ele está?

– Vai sobreviver. A bala fez um estrago nas costelas dele, mas o danado tem sorte, o coração não foi atingido. O fêmur vai precisar de uma recauchutagem melhor do que a que eu posso fazer. Vamos mantê-lo dormindo até que o corpo se reidrate.

– Por quantos dias, Doutor?

– Uns três ou quatro.

Passou o quatro, o cinco o seis e nada. Uma semana.

– Doutor, faça alguma coisa.

– Ele está bem, só falta acordar.

Entrou e me deixou sozinha e agoniada na sala de espera. Voltou um século depois.

– Pronto, mocinha, pode entrar.

Fui falar com ele. Não se preocupava com ninguém, só queria saber dos sapatos. Estava preocupado em sair do hospital descalço. Aquilo parecia tão importante que botei o Branquinho na trilha novamente, só para procurar os sapatos dele, que meu pai não tinha encontrado. Quando levei os sapatos ao hospital, parecia que ele tinha encontrado um velho amigo, mas estava com medo do abraço. Meu pai voltou para Goiânia no dia seguinte e deixou-me de enfermeira. Eu passava o dia com ele e à noite voltava para minha avó. No terceiro dia meu pai voltou. Parecia preocupado, mas não me disse a causa. Passou a manhã toda na delegacia e só depois que cheguei em casa é que ele foi visitar o internado, que disse estar acostumado a ser chamado de Goiano.

– Vó, ele contou à senhora o que está acontecendo?

– Não. Passou a tarde, sentado aí, matutando, mas não disse nada.

– E onde está o carro dele?

– Chegou de táxi.

Fiquei acordada até que ele voltasse. Eu não ia conseguir dormir mesmo. Fiz um café e sentei na varanda, sob a luz da lua.

– Porque não foi dormir?

– Sem saber o que está acontecendo?! Fiz um café. Sente-se aqui e me conte.

– Tive uma conversa séria com seu amigo e outra com o delegado. Fui a Brasília e tive outra conversa séria por lá.

– Com o tal Carneiro?

– Sim. Hoje pela manhã tive outra conversa séria com o delegado, que ligou para o Carneiro e teve outra...

– E agora à noite o senhor teve outra conversa séria com os dois. Qual é o assunto?

– Ansiosa?

– Muito.

– Bem, o nosso amigo tem uns inimigos por lá. Andou recebendo ameaças.

– Como assim?

– Ameaças de morte, telefonemas, bilhetes, essas coisas assim.

– Sabem de quem, e por quê?

– Não. Havia duas cartas sobre a mesa dele. Devido às circunstancias, eu e o Carneiro as abrimos. Uma tinha uma foto de jornal, de alguém sendo velado e a outra tinha uma folha de papel em branco, dobrada em cruz.

– Como em cruz? Em quatro partes?

– Não era dobrado em quatro partes, como se faz, para que caiba no envelope. Era um papel do tamanho do envelope, foi dobrado ao meio no sentido mais longo e a outra dobra era acima do meio, bem vincada, para fazer a cruz e depois foi desdobrado e colocado aberto no envelope. O delegado de lá entende que é uma ameaça de morte. As cartas foram postadas lá mesmo, uma antes que ele saísse de lá e a outra no dia em que ele levou os tiros. O Carneiro disse que não é a primeira vez que um funcionário dele é ameaçado, mas que nunca passou disso. Um outro funcionário disse que o mais provável é que seja algum marido traído tentando reaver a esposa.

– Uma mulher!?

– Por que o espanto? Você viu rastros de mulher aquele dia. Não se apresse em julgar.

– O que ele disse hoje?

– Confirmou a história do primeiro dia e alega desconhecer as ameaças. Se ele não colaborar não se pode fazer nada. O Carneiro acha que se o seguiram até aqui, é porque estão dispostos a acabar com ele.

– E o que ele diz

– Está considerando exagero e disse que assim que estiver bom volta para casa. Quem está preocupado é o delegado, não quer segurar o abacaxi. Quer que ele seja removido imediatamente. O de Brasília concorda com o daqui. Quanto mais rápido ele sair da região, mais seguro estará.

– O senhor também pensa assim?

– Penso. Porém, alguma coisa me diz que ele não está contando toda a verdade. Agora vamos dormir que precisamos levantar de madrugada para roubar um carro.

– Roubar um carro!?

– Sim. – disse balançando um chaveiro com quatro chaves.

– É necessário que seja de madrugada?

– Vamos sair às quatro, às cinco e trinta você pega a trilha de volta e antes das seis eu estarei aqui sem ter que dar explicações a ninguém. Vamos ver o que o carro dele nos diz. Espero que o carro funcione, depois de dez dias parado. Gostaria de não ter que pedir ajuda ao dono do boteco.

– E porque não?

– Quanto menos gente envolvida, melhor.

– Vai ser uma marcha forçada para os cavalos.

– Quinze quilômetros é uma hora de trote, na volta você deixa seu pangaré fazer o ritmo. Está com medo?

– Claro que não. Se seu puro-sangue morrer, te dou uma carona.

Não precisou da carona e nem da ajuda do dono do boteco, ligou o carro e saiu de mansinho, quando as luzes do boteco se acenderam ele já estava a mais de cem metros, e eu peguei a trilha de volta.

Peguei o café que minha avó já tinha feito e sentei na varanda novamente. Onde será que ele foi? Era para ele estar me esperando e não eu esperando por ele. Decorridos mais uns quinze minutos, ele chegou. Desceu sorridente.

– Acho que roubamos um bom carro!

– Não me parece, perdeu feio para meu corcel.

– Ah! Mas o seu corcel teve uma dianteira boa!

– Onde o senhor foi?

– No hotel em Três Corações, apurar umas coisinhas.

– E?

– Dois quartos alugados no nome dele, uma cama de casal em cada. Saíram antes do café da manhã. Ele pagou a conta e levou a bagagem dos dois quartos, só que no carro não tem bagagem alguma. O pessoal do hotel não se lembra de muita coisa, estava muito cheio. É bem possível que os dois quartos eram um para cada, mas a história da bagagem me faz acreditar que havia mais alguém. E quando ele falou com o médico referiu-se a amigos. O médico disse que era delírio, não havia nenhum amigo, mas eu suspeito que o doutor enganou-se.

– E agora, o que o senhor vai fazer?

– Vamos aproveitar que estamos motorizados, dizer tchau à sua avó e pôr o pé na estrada.

– E o Goiano?

– Podemos oferecer uma carona a ele!

– E se ele não aceitar?

– Você acha que ele vai ser assim tão ingrato?!

– E se for?

– Neste caso devolvemos o carro dele e pedimos nosso dinheiro de volta. E para retribuir a ingratidão vamos esquecer que ele teve amigos.

– E se ele...

– Sua mãe não ficou feliz com a ideia, mas podemos levá-lo para uma das fazendas e convidar os amigos dele para uma visita.

– Que amigos?

– Os que você vai descobrir que ele tem.

Com a ajuda do delegado, nós o convencemos a esquecer o passado e buscar uma nova vida. Aceitou a carona, no próprio carro, e foi para Goiânia conosco. Na estrada tentamos tirar dele o restante da história.

– Este é o melhor caminho, Goiano. Tanto faz ser sozinho em Brasília como em Goiânia. É bobagem voltar e arriscar a vida novamente.

– Vou perder meu emprego.

– Goiânia oferece muitas oportunidades, mas é preciso estar vivo.

– A ideia de passar o resto da vida escondido não me agrada.

– Não é para o resto da vida, a menos que você se deixe matar nos próximos três meses. Se você abandonar o serviço, os inimigos de lá vão te esquecer e marido nervoso sempre arruma outro alvo.

– A função do serviço é mexer no podre alheio, mas nunca saí com mulher casada.

– E todas as noites nos bares você confere se suas acompanhantes são solteiras?

Ficou calado.

– O sapato do seu amigo, é um bom sinal para que você siga em frente deixando tudo para trás, a menos que ele e a menina da cachoeira sejam de suma importância na sua vida.

– A menina foi uma companhia para o carnaval, evitou que eu morresse afogado, devo-lhe por isso, mas é só, nem o nome dela eu sei. O dono do sapato eu desconheço.

– É mesmo? E quem teria retirado sua bagagem do hotel?

– Não me lembro, mas pelo que consta fui eu.

– Tem ideia de onde foi parar?

– Se não estiver no porta-malas, foi roubada.

– Com certeza foi roubada. Alguma ideia de quem a roubou?

Meu pai desanimou do interrogatório. Eu voltava da aula e tentava conversar sobre a vida dele, mas nunca tinha sucesso.

– Olhe meu anjo, vamos cuidar das coisas que precisam ser lembradas. O que passou, passou. Vamos recuperar as aulas que você perdeu. Sua semana de prova está chegando. Vamos gabaritar tudo. Você se confundiu de novo com este número atômico. Sua mãe. Seu pai. Lindo vestido. Este sapato não está te machucando? Eu levo isso...

Era tudo sobre mim e nada sobre ele. Quando pode se levantar, passou a ir ao escritório com meu pai. Saiam e voltavam juntos. Nem uma voltinha, nem uma escapada noturna e nem uma desatenção comigo. Ria da minha dificuldade com a física e a química e me explicava tudo novamente. Comecei a acreditar que tinha encontrado um rival para o Branquinho. Mas não durou muito tempo a nossa amizade. Aquela gentileza toda começou a me irritar. Passei a ficar mais tempo no colégio. Compromissos noturnos, saídas com as colegas. Só programas onde ele estava excluído. Às vezes eu cruzava a sala, onde os três estavam conversando, sentia os olhares me seguindo e mal dizia boa noite. Não estava a fim de conversar. Minha mãe invadiu meu quarto.

– Não estou a fim de sermão.

– Quanta azia, credo! Já que você não tem mais tempo para conversar nem com sua mãe, vim lhe dizer que pedi ao seu pai para mandar o Goiano desocupar o espaço. Já está na hora de você recuperar sua liberdade.

– E quem está me prendendo? Tô nem aí, para ele.

– É?! Pois eu estou. Já vai completar três meses que ele está aqui, já engrenou um emprego com seu pai, pode se virar sozinho. Está na hora dele pegar o “rumo do braquiária”.

– Para onde ele vai?

– Não é da nossa conta. E como dizem por aqui: "ema, ema, cada um com seu pobrema".

– O papai vai dar as contas dele?

– Creio que não. Não passa um dia sem tecer um elogio a ele. Parece que tem talento para organizar e convencer as pessoas.

– Só pode, “né”! Com tantas namoradas que ele tinha...

– Estou sentindo algo no ar? — franziu a testa.

– Ah! Qual é, mãe? Já vai tarde!

– Eu também acho. Boa noite.

Saiu e me deixou com meus pesadelos. Meu quarto parecia tão grande, a cama cabia até o Branquinho. Se ele estivesse aqui comigo, eu teria um amigo para conversar igual a gente fazia, enquanto andava pelos morros que se vestiam do rosa das sementes do meloso, as águas geladas da cachoeira. O vermelho na areia. Saí da cama e voltei para a sala.

– Papai?

– Oi filhinha! Pensei que só eu sofria de insônia. Venha cá, estou com saudades de você.

– Eu também. Estou com saudade da Vovó, do Branquinho...

– As férias estão quase chegando, podemos passar lá quantos dias você quiser.

– E o escritório?

– O Goiano cuida.

– Mas ele não é advogado!

– Mas é um bom administrador e um “relações públicas” fora do normal.

– Com os homens também?

– Oh! Oh! Estou falando dos talentos profissionais dele. Você tem alguma reclamação a fazer? Alguma mágoa? Ele se comportou mal com você?

– Não, pai! Que ideia!

– Então qual é o motivo do julgamento? Nós dois pedimos a ele para esquecer o passado. Vamos ser os primeiros a lembrar a vida que ele levava?

– Acho que falei sem pensar. Vou ver se minha cama me aceita de volta.

– Saudades da cama agora?

– É. Acho que só não tenho saudade de mim.

Voltei para minha cama. O travesseiro estava alto demais..., os lençóis..., droga... Saí da cama e fui para o quarto da minha mãe.

– Mãe?

– Pesadelos, minha filha?

– Acho que sim.

– Deita aqui que passa.

Aconcheguei-me ao colo dela e dormi. Quando meu pai entrou, acordei. Antes de me levantar cochichei ao ouvido dela.

– Não quero que ele vá embora.

Voltei para minha cama e sonhei que o Branquinho estava voando. Todo mundo atirava nele, eu gritava e ninguém me ouvia. Acordei chorando. Como este povo dorme! Será que ninguém vai levantar? Então levanto eu. Fui para o chuveiro e apaguei a cara de sono e choro. Porcaria, este secador bem que podia funcionar direito, será que está na voltagem errada? Olha isso! Nem barulho faz! Abandonei o secador. O que vou vestir hoje. Quem autorizou você estacionar aí, vá dando o fora! Não quero saber de sardas no meu seio. Olha que coisa horrorosa, sai, sai, sai. Ah. Não sai não? Pois eu ponho um sutiã. Uma blusa. Ou um vestido. Olha esta cintura, você está parecendo uma formiga, vai quebrar...

– Naná!

– Oi mãe. Estou indo.

Peguei a mochila e fui direto para mesa do café. Afastei a xícara e coloquei a mochila na mesa.

– Preciso de ajuda. Estou “maus” em química.

– Química não é comigo. – disse minha mãe.

– Eu tenho uma audiência hoje, mas acho que posso te ceder a assessoria do Goiano. Se ele concordar.

– Sem problemas, te pego no colégio. – sorriu o Goiano.

– Preciso para já. Agora. Pode ser?

– Minha filha, você tem que ser mais organizada, não pode deixar tudo pra última hora. Tem que aprender a se antecipar aos...

– Tá bom pai, deixa para lá, eu dou um jeito...

– Devagar mocinha. Desde quando as coisas por aqui se resolvem assim? É possível reconhecer que alguém por aqui anda com a cabeça no mundo da lua? Onde foi parar seus horários? Sua disciplina?

Eu detestava quando ele me tratava como criança. Mas ele não tinha terminado. Pegou minha mochila e colocou nas mãos do Goiano.

– Faça um favor para esta família. Aí dentro tem uma agenda que certamente está toda desatualizada. Fique em casa o tempo necessário para por isso em dia. Eu cuido dos processos.

Minha mãe tentou dar uma força, ela sabia que não era assim que eu queria as coisas, mas não foi muito eficaz e eu fiquei a sós com ele, mal-humorada e constrangida. Ele levantou-se e pôs minha mochila nas costas.

– Aonde você vai?

– No momento só preciso sair daqui e a mochila ajuda a diminuir a dor.

– Dor? Você disse que tinha sarado!

– Isso nunca sara. Todas as vezes que me sinto perto do meu pai, as dores voltam.

– Seu pai te batia!?

– Todas as vezes que ele via um anjo triste eu levava umas chicotadas nas costas. O anjo chorava e eu apanhava outra vez. O anjo chorava mais, e eu apanhava até que o anjo sorrisse. O jeito era sair de perto dele.

– E seu pai está aqui?

– Bem aí, olha! – apontou a cadeira vazia onde meu pai estivera.

– Mas a culpa não é sua!

– Nunca foi. Mas ele tinha certeza que um anjo não fica triste à toa. Vamos?

– Para onde?

– Uma vez eu ouvi falar de um lugar que era o rascunho do paraíso. Depois apareceu um anjo e disse que se eu rezasse todos os dias ele ia batalhar um cantinho perto do paraíso para mim. Acho que encontrei alguma coisa parecida e como preciso fugir do meu pai...

– Você continua rezando?

– Um anjo e um paraíso?! Quem vai dispensar? Vamos?

Encheu-se de mistério e me deixei levar. Ganhou o asfalto na direção de Cuiabá, depois uma estrada de terra à direita e mais uns quinze minutos um grande arco de entrada com os dizeres.

Fazenda Sucuri.

Nelore PO.

Prop. Dr. Altamir.

– Você me trouxe a uma fazenda do meu pai?!

– Eu já suspeitava, só queria ter certeza. Deus, anjo, paraíso...

– Não acho que o paraíso seja cheio de vacas, eu não sou anjo e muito menos meu pai é Deus. – retruquei aborrecida.

– Estou decepcionado. Muito decepcionado. Tenho sido enganado este tempo todo. Preciso arranjar a que me apegar senão... Você tem certeza que não é nada daquilo que eu pensava?

– Tenho.

– Isso quer dizer que eu não morri?

– Um pouco maluco, mas vivo. – ainda chateada.

– Bem, já que a vida continua, vou adiar minha ida ao paraíso e curtir as palmeiras, as flores, os pássaros que cantam por aqui, remar no lago, passear na floresta e quem sabe descolar uma paca no espeto. Um peixe assado?

– E a dor nas costas? – tentei um tom de cinismo.

– Que dor? O sorriso dos anjos é o linimento do mundo!

E enquanto remava no lago ajudava a pôr minha agenda em dia. Paca não tinha, mas saiu um frango caipira com guariroba. E uma salada com mil folhas e legumes colhidos na horta da casa do administrador da fazenda, sem química e sem agrotóxicos. Uma jaqueira imensa, duas redes e a preguiça do pós-almoço.

– Goiano?

– Hum.

– Tenho uma notícia triste para te dar.

– Não precisa. Seu pai já falou comigo.

– O que meu pai falou com você te deixou chateado?

– Não. Já estava na hora. Eu teria ido antes, não fosse a dor nas costas.

– Que dor?

– Aquela que sinto quando uma flor...

– Não era um anjo?

– A flor murcha, os pássaros param de cantar os anjos entristecem...

– Seu pai batia em você? Responda com seriedade. – pedi.

– Bem que eu merecia, mas ele dizia, “não tenho o que há de bom para dar ao meu filho então porque hei de dar o ruim?” e me perdoava sempre.

– E de onde saiu a história das chicotadas?

– Cada vez que seu sorriso apaga é como se uma daquelas cordas da maca se partisse. Não suporto a ideia de que elas se acabem e o Branquinho siga em frente.

– Meu pai cansou da sua gratidão e mandou você sair...?

– Não. Ele viu que tem uma corda quase arrebentando...

– Ele viu que eu te amo?

Saltou da rede com tanta rapidez que achei que ele tinha levado a tal chicotada de verdade. O galho da jaqueira reclamou com a violência. Sentou atravessado na rede e estendeu a mão puxando a borda da minha, para poder me encarar.

– Voltei a sentir aqueles zumbidos no ouvido. Não estou ouvindo direito. Poderia fazer o favor de repetir isso?

– É tão difícil assim? Será que não daria para você me encarar como se eu fosse uma mulher? Cansei de ser anjo e não quero ser sua irmã!

– Esta parte, acho que ouvi bem, só não entendi a anterior, eu estava deitado e... pode repetir?

– Eu te amo!

Balançou a cabeça como se ainda estivesse tonto.

– Acho que levantei muito rápido. Vou deitar e gostaria que você repetisse isso mais lentamente.

Deitou na rede e eu deitei em cima dele.

– Estou dizendo que te amo, mas gostaria que você pensasse bem antes de me responder. Quero mais que sua gratidão. Quero mais que um amor fraterno. Quero...

– Você está pronta para um marido?

– Porque uma pergunta destas?

– Vamos criar a expectativa de um casamento nos seus pais e...

– Gratidão novamente? Casaria comigo só por...

– Não diga bobagem. Eu te amo desde o momento que você abriu aquela porta de enfermaria.

– E por que não disse nada?

– Imagina; demência, efeito colateral dos remédios, trauma pós-cirúrgico, devaneios pós ressuscitação, sombras do véu de Isis e o pior de todos os motivos, a tal da gratidão.

– Mas...

– Veja bem, isso não é um pedido de casamento, só quero ter certeza dos seus sentimentos, ou pelo menos ouvir que você está levando isso a sério.

– Pois eu não tenho certeza de nada. Só quero ficar perto de você sem ser tratada como um anjo ou irmã. Quero sentir o calor dos teus lábios e do seu corpo. E isso é sério.

– E é possível você se esquecer de certas histórias do meu passado e não falar mais em gratidão.

– Apaguei. Agora só se você me relembrar.

– Vou cuidar de esquecer também.

– Agora posso dar minha notícia triste?

– Não era esta?

– Eu nem sabia que ele havia falado com você.

– Preciso fechar os olhos?

– Não.

– Então manda, que eu aguento.

– Não posso mais te chamar de Goiano.

– E por que não?

– O que mais tem nesta terra é goiano e eu amo um só.

Embaixo da jaqueira, ouvindo os pássaros cantar, renomeamos nossa amizade para amor. No meu aniversário de dezessete ficamos noivos e no de dezoito casamos. Ele rompeu de vez com o passado adotando o meu sobrenome em vez de me pedir para adotar o dele. E eu voltei a ter como amigo o Branquinho. Com o passar do tempo fiz novas amizades, mas aquele quase morto tornou-se mais que meu amigo, até hoje, ele é o ar que respiro.

Notas finais
O oitavo capítulo nos traz o fruto da aventura dos quatro.