Um Toque Feminino
1 Capítulo 1 Magias do Natal
Notas iniciais
Um semideus criativo e um homem executivo.
Uma semideusa criativa e uma mulher executiva.
O destino: gerar um único filho.
Filho este que vem para reestruturar o ser humano.
Porém, o que falta à humanidade?
Nada é fácil, nada vem de graça. O céu não cai do céu.
As mudanças submetem até o predestinado ao cadinho da purificação.
Capítulo Um
Jingle bells, jingle bells...
Com a cabeça cheia dos sinos de Natal, passei por uma lojinha, destas que se denominam como quiosque, e me lembrei de uma propaganda de celular veiculada na TV, “...só ganhou peso de papel”.
O espírito de natal gargalhou dentro de mim. Um leve sorriso demonstrou ao exterior o estado da minha alma. Dobrei a esquina, vitrines, vitrines e mil convites, mas nada de peso de papel. Uma livraria, muito papel, mas nenhum peso. Livro é sempre um bom presente. Coitadas das crianças! Ah sim! Tem sogra, talvez uma bíblia. Não, melhor não. Ela já está viciada em igreja, é o padre no céu e eu no inferno. Pensando bem, é melhor que a filha dela compre por nós dois. Minhas tentativas de agradá-la sempre foram vãs. Se eu lhe oferecesse uma viagem a Paris ou a Jerusalém o resultado seria o mesmo.
“Óh, Deus! Tudo tão velho! É lamentável que ninguém se preocupe em dar uma mão de tinta em nada! E você? Mandou-me para lá, por quê? Acha que estou tão velha quanto aquilo?”.
Passei pela livraria e arriei em uma cadeira no meio do corredor.
– Um chope, por favor.
Enquanto tomava o chope, pensava em como fazer para não me repetir no presente:
Vinte anos juntos, dia da salvação, “niver”, natal, dia dos namorados, dia das mães, dia das professoras, dia das mulheres, dia do primeiro beijo, da primeira transa, do casamento... Droga!
Deveriam inventar um peso de papel para cada tipo de pessoa.
A gente chegava ao balcão, quer dizer, entrava na loja, balcão era coisa do meu tempo, trombava com uma linda atendente e era só pedir...
– Preciso de presentes para uma brux... ah! Desculpe, quero dizer, para uma senhora acima dos sessenta, uma de trinta e uns e para uma garotinha de quinze.
A atendente pega três pesos de papel com cores diferentes, tipo assim: vermelho-PT, rosa-choque e outro rosa-bochecha.
– Aí estão. É só passar no caixa e está garantida a paz do seu Natal.
– Você tem certeza? – pergunto, olhando-a nos olhos.
– Claro! Quando elas abrirem o laço dos pesos, eles se transformarão no objeto sonhado...
– E quanto custa?
– O “tio” está de brincadeira? Pague o quanto quiser!
– Como é que é!?
– Se o Tio pagar $10, vai dar um presente de $10...
– Mas e se ela estiver sonhando com uma blusa?
– Blusa de $10...
– E se for com um..., um...
– Se o Tio estiver pensando em um vibrador, acho que com dez ela vai receber só as pilhas...
– Bem, não é bem isso. Creio que tem uma delas pensando em armas.
– Não tem problema. Por um milhão o tio leva um carro de combate, por mil tem uma Glock17, por cem tem umas adagas no grau e por dez tem...
Consegui romper a corrente que ligava o meu olhar ao olhar da atendente e fixei o peso vermelho-PT, não vislumbrei ali a paz do meu natal. Melhor voltar aos livros, ou melhor, ao chope...
– Mais um, por favor.
Enquanto esperava o segundo chope, apaguei da cabeça, os pesos mágicos e os dias comemorativos. Fiquei olhando o vazio. Pelo vazio – dos meus olhos – no espaço do corredor à minha frente, passavam inúmeras pessoas. Iam e vinham cumprindo ou tentando, como eu, o ritual mercantilista do natal. Passavam diante dos meus olhos, porém, eu não as via, eram apenas sombras. Estavam ali e era importante para mim que estivessem, mas assim, inúmeras e anônimas, genéricas e não identificadas. Mesmo que fossem conhecidas, amigos ou parentes passariam sem que eu as notasse. Era, sem dúvida, a única data festiva que não esvaziava Brasília.
O garçom trocou os copos, saiu da minha frente liberando meu espaço de visada e antes que eu levasse o copo à boca, uma cintura como há muito tempo eu não via, invadiu meus sentidos, materializou-se em meu cérebro, ressuscitando lembranças de imagens da minha esposa de quando ela ainda não era mãe e por um instante achei que havia retornado à magia dos pesos de papel. Mas não, não era devaneio. O monumento era real. Entre a barra da blusa preta e o cós da calça jeans, existia uma estreita faixa de pele morena com um umbigo coberto por um piercing de correntes prateadas, ladeado por duas pequenas tatuagens coloridas. A blusa, de alças estreitas, cobria um par de seios altivos que dispensavam o sutiã. Caso optassem por eles, não poderia ser maior que os de números trinta e oito ou no máximo quarenta. Os cabelos longos e escorridos até os ombros, pareciam alongar o formato do rosto e do nariz, os olhos refletiam o negro dos cabelos e estavam fixados na árvore de natal, que às minhas costas, decorava o centro do shopping. Sentiu-se observada e desviou os olhos diretamente para os meus. Preparei-me para o esgar de desdém que as meninas naquela idade sempre brindam os “tios”, mas ele não veio. Fui surpreendido com um sorriso simpático, desenhado por uma boca pequena que abrigava dentes brancos e miúdos. Antes que eu me movesse, mesmo que fosse por uma reação peristáltica qualquer, ela virou-se à direita passou pela livraria e seguiu em frente. Fiquei ali imóvel com cara de “pastel”, o copo na mão e na cabeça a imagem daquele jeans que se não fosse quarenta e dois, no mínimo era quarenta. Dei um “boot” na máquina e voltei a me ligar. Sequei o copo e me lembrei da sogra. Voltei a circular. Algumas vitrines mais tarde, vi um conjunto preto composto de sapato-bolsa e – eu diria – carteira, que me chamou a atenção. Procurei uma atendente disponível.
– Em sua opinião, este conjunto agradaria uma pessoa...
– É a coisa mais linda que temos aqui, se não fosse o preço já estaria esgotado.
– Você o usaria?
– Se minha mãe chegar a tempo para comprar o dela, com certeza vou usar, sabe como é, né? A gente só recebe a comissão depois do ano novo, aí o que encanta já está esgotado e não podemos antecipar reservas.
– E sua mãe vai gostar...
– A metade das clientes que entram na loja quer levá-lo. Os números trinta e cinco, e o trinta e sete já esgotaram...
– Então o melhor que faço é garantir o meu.
– Qual o número?
– 36.
Meteu-se por uma porta ao fundo e eu fiquei a observar o movimento dentro da loja, “pescoçando” fragmentos de conversas, até que me deparei com as alças de uma blusa negra, já vista. Estava sentada em um banco, de costas para mim, uma pilha de caixas de sapatos de cada lado.
– ... não ficar feliz enquanto não achar algo que lhe agrade.
– ...
– Lamento que não tenha, mas não vou deixar você ir embora sem nada. Aguarde-me!
O vendedor, que se desmanchava em simpatias, era um jovem com idade semelhante à da menina que me atendia. Estava abaixado aos pés da cliente, levantou-se agilmente e sumiu pela já citada porta, a qual, eu supunha, devia dar acesso ao depósito. Aproximei-me.
– Posso ocupar este lado do banco?
Olhou-me de relance e como se nunca tivesse me visto, fez um gesto indicando o banco. Fiquei meio desarmado, mas sentei assim mesmo.
– O senhor está me seguindo? – o tom era neutro, aveludado e baixo.
– Não. Mas estou feliz com o reencontro, é a minha chance de poder me desculpar.
– Desculpar de quê? – desta vez tinha um leve sorriso acompanhando a frase.
– Fui um pouco inconveniente, mas asseguro que não tive a intenção de lhe causar constrangimento, foi pura admiração.
– Admiração!?
– É! Assim como...
– Como um tio olha para uma sobrinha? Ou como um primo para a prima ou irmão para irmã, ou como um caçador para uma caça? Ou...
– Acho que como um homem dos trópicos olharia uma montanha coberta de gelo ou talvez quando um cara do cerrado, como eu, vê o mar pela primeira vez e descobre que o verde das folhas e o azul do céu não esgotam todos os matizes das duas cores.
– Você viu o mar e só se impressionou pelas cores?
– Isto seria o mesmo que dizer que admiro apenas o brilho dos seus olhos, ou...
– Ou...?
– Ou qualquer parte do seu corpo.
– O que você diria, então, que tanto te impressionou?
– As possibilidades do infinito, um verde que não tem fim, mas que se encontra com um azul que não tem começo, o infinito do movimento das águas, o infinito da linha do horizonte... — antes que eu falasse da infinita beleza que via nela, nossos atendentes mostraram as caras. – Ah! Aí vem sua coleção de sapatos, mas acho que para mim vem um par de mãos vazias. Está comprando a loja toda ou você é uma destas pessoas infinitamente exigentes?
– Eu! Ah! Sou quase infinita, mas no momento, só queria que este aqui me servisse. – disse pondo o sapato em minhas mãos.
– É o mesmo que estou querendo!
– Não acredito que lhe sirva. – disse com um sorriso zombeteiro.
– Pode acreditar. Minha vida é colorida por três mulheres. Há de servir para uma delas.
– Três...?!
Fomos interrompidos pelos atendentes, enquanto quatro novos modelos eram expostos pelo rapaz, a garota sugeria que eu escolhesse outro, pois aquele que estava em minhas mãos, era o último e já estava vendido. Antes que eu demonstrasse meu aborrecimento, minha parceira de compras arrebatou o sapato das minhas mãos, sem a menor cerimônia, e virou-se para o atendente.
– Vou levar este aqui mesmo, capricha no embrulho...
– Mas, Carmem! Não te serve e...
– Eu sei, queridinho, mas me convém. Será um bom presente, para alguém especial, muito especial – senti uma vibração diferente na voz, alguma emoção oculta tinha afastado o aveludado e produzido um tom novo.
– É, deve ser especial mesmo! Você nunca comprou presente para mulher!
– Não fique com ciúmes, vou te amar para sempre!
A voz voltara ao tom normal. O jovem vendedor ficou rubro, apanhou o sapato e se dirigiu ao balcão dos pacotes. Quando voltou com o ticket para pagamento, a minha atendente, que aparentemente se esquecera de mim, já tinha arrumado a bagunça que havia aos nossos pés e já estava a meio caminho do depósito.
– O que deu nela? – perguntou a voz de veludo.
– Acho que você comprou o sapato da mãe dela – respondi.
O jovem que já se levantava com outro tanto de caixas nas mãos, olhou para mim e corrigiu.
– O senhor está enganado, é só um pouquinho de ciúmes. Quer que eu lhe mostre mais alguns modelos?
– Não Tom, ele já comprou o que há de melhor aqui – disse a morena, enquanto me estendia o ticket. – Vá, antes que ela faça bobagem. Me ligue quando puder.
O Tom disse um “beleza” e se afastou. Ela me puxou na direção do caixa.
– É melhor você pagar isto logo, ou...
– Tem certeza? Creio que sua amiga vai ficar triste.
– Não vai não, e por enquanto, é só minha irmã. Quando eu for apresentada a ela, compro outra coisa.
Fiquei olhando aquele rosto moreno sem saber o que pensar. Prefiro raciocínios lógicos. Entre a razão e o mistério, fico com a primeira. Por ali tinha algo no ar. Eu me sentia estranho, achei que eram os olhares. Paramos na fila do caixa e ela enfiou a mão no meu braço, ficou bem colada ao meu lado.
– Estou me sentindo estranho, tem uns olhares me acusando de pedofilia – cochichei.
– Não liga. Já fiz dezoito há muito tempo...
– Fez mesmo? Não parece!
– De qualquer forma, você pode fingir que é meu pai.
– E quem vai acreditar?
– Eu e você, caso queira, além das minhas amigas. Quer ver?
Fiquei olhando a cara de mistério que ela fazia até que chegamos ao caixa, passei o cartão e o ticket à atendente – uma plaqueta de acrílico indicava o nome Suzy — e vi seus olhos correrem de imediato na direção da minha acompanhante.
– Oi Suzy, “d’boa”? Queria te apresentar meu pai.
– Oi Carmem, beleza? É um lindo pai, e nem tem cara de tio, mas e o...
Interrompeu-se e olhou para mim, um pouco constrangida.
– Ah! Tudo bem, ele sabe que eu tenho outro pai. Fizemos as pazes e voltamos a morar juntos, só não tenho como apresentar os dois.
– Ah tá! Boa sorte para vocês e bom natal! Parabéns pelo presente!
– Não é para mim, é para minha irmã. Tchau.
– Tchau. Irmã...?!
Deixou a pergunta sem resposta e saímos da loja em direção à praça de alimentação.
– Carmem. É isto mesmo? Carmem?
– É. E se me chamam por outro nome fico chateada, sinto-me excluída.
– Muito bem, Carmem! Não vou me esquecer. Mas preciso que você me esclareça algumas coisinhas que aconteceram lá dentro, pode ser?
– Pode, mas você quer me dizer seu nome ou posso continuar te chamando de pai?
– Caramba! Desculpe-me. É Carlos Alberto.
– Olha, Carlos Alberto, quero muito continuar aquele papo sobre o infinito, quero muito que você ouça a história que eu vivi naquela loja, mas por hora só posso adiantar que trabalhei lá por dois anos. Tenho um compromisso daqui a meia hora ao qual não posso faltar. Prometo que às dezoito horas estarei livre. Se você puder venha, se não puder, amanhã estarei aqui novamente. Posso te dar um abraço de filha?
– Claro, mas vou te levar...
– Não é preciso, meu carro...
– Algum problema se eu for ao estacionamento?
– Não, nenhum, só que não é necessário.
– Vamos.
Acompanhei-a até o carro e ganhei mais um abraço fraterno, mas nenhuma informação a mais. Nada de endereços ou telefones e muito menos o motivo para tantos segredos ou razão pela qual não poderia me apresentar ao pai. Às dezoito na praça, era tudo. Com a cabeça cheia de abelhas, substituindo os sinos de natal, abandonei as compras e voltei ao serviço.
– Dr. Carlos! Que trajes são estes? Santo Deus! O senhor foi assaltado? Cadê sua gravata? Cadê seu...? O Senador...
– Calma Marina! Não houve nada e o Senador cancelou...
– Acabou de ligar, disse que está vindo para cá!
– Não se preocupe. Eu não estou aqui.
– Mas..., mas..., mas...
– Você está ficando apopléctica a troco de nada, Marina.
– Mas Doutor...
– Está bem Marina, vá ao meu carro e busque a gravata, o paletó e um presente que está no banco traseiro. Arrume um papel decente e faça um embrulho caprichado.
Cinco minutos depois ela entrou na minha sala.
– Doutor, o senhor cometeu um engano. Isto não serve na Doutora Nair.
– Não é para ela.
– Ah não, Doutor! Ah não! Ela não merece isso! O senhor nunca foi destas coisas, ela vai morrer, ela vai morrer...
– Ei! Você está ficando maluca? Está se esquecendo da Clarice? Depois vocês reclamam quando a gente fala que mulher é um bicho irracional...
– O senhor não vai querer me convencer que isto serve no pé da Ciça, olha pra ela – apontou a foto sobre minha mesa. – Tão miudinha!
– Acorda Marina. Busque um café duplo para mim e um triplo para você. Enquanto isso tente se lembrar da trabalheira que aquelas duas te deram para organizar a festa de quinze anos dela.
– E que é que tem uma coisa com a outra?
– O tempo Marina, o tempo. Ele passa. Está lembrada? Quando ele passa a gente cresce ou engorda, o homem envelhece e a mulher enlourece...
– Humpf...
Os sapatos caíram das mãos dela, estava estática e a cor sumiu das bochechas. Deu meia volta, resmungou um, “não precisa ofender”, e marchou para fora da minha sala. Caramba! Aquilo não era minha secretária, não podia ser. Apanhei os sapatos e fui até a mesa dela. De longe, mesmo através do vidro que separava a ante-sala do meu escritório e a sala dela, dava para ver os riscos da maquilagem escorrendo. Dez anos de sorriso permanente, mesmo quando tinha que trabalhar doze horas por dia, e era a primeira vez que eu via aquilo.
– Escuta Marina, tente se acalmar, não fiz nada para te ofender e todo este tempo que trabalhamos juntos...
– Humpf... a Doutora vai ter um ataque...
– Não vai não...
– Vai sim...
Peguei o telefone.
– Clarisse, diga aqui à Marina qual é o número que você calça. – colei o fone no ouvido dela.
– Oi Marina! Tudo beleza? Diga ao meu pai que uma havaiana verde, número trinta e seis, vai me fazer feliz neste natal.
Desliguei.
– E aí? Podemos conversar numa boa?
– Humpf...
E lá se foi mais uma boa parte da maquilagem. Recorri ao serviço médico do condomínio e uns quarenta minutos depois ela refazia a pintura, com a ajuda da terapeuta. Quando o Senador saiu da minha sala, ela já estava a postos e sorridente. Mas quando ele se foi, o sorriso dela também sumiu. Voltei aos meus papéis, mas os eventos do dia não me permitiam o menor grau de concentração. Primeiro aquele “mulherão”, com cara de adolescente, me chamando de pai e depois dez anos de sorriso indo por água abaixo. Dia atípico; completamente atípico. Minutos depois toca o telefone.
– Melhorou, Marina?
– A Doutora está aqui...
– Quem...?!
– Sua esposa.
Antes que eu desligasse o telefone a doutora entrou na minha sala. Não esqueceu o porte e a elegância de sempre, mas o rosto não escondia o quanto estava transtornada. Revelava, à primeira vista, que todos os seus títulos internacionais sobre a psicologia da educação foram esquecidos junto com o amor que sentia por mim. Nas mãos, o presente da Clarice, que voou para minha mesa.
– Será que você poderia me explicar isto? – espremia as palavras entre os dentes, como um cão rosnando. A explosão era iminente.
– Posso sim, mas não aqui. Aqui eu explico tudo sobre orçamentos e finanças, esta parte sentimental vamos tratar em casa.
– Para você ter tempo de arrumar uma desculpa, um álibi?
– Venha comigo ou vou com você e ainda podemos ir cada qual no seu carro, mas aqui não é lugar para explosões de ciúme.
Abri a porta e fiquei esperando que ela se decidisse. Por fim, caminhou resoluta, mas parou quando o telefone da minha mesa tocou. Antes que eu chegasse a ele, ela voltou a falar.
– É ela não é? Com ela seu escritório serve para qualquer assunto! Por isto...
– O que foi Marina? – ignorei-a.
– É pra Doutora.
Liguei o viva voz.
– Marina repita, acho que não estou entendendo...
– Tem uma senhorita aqui, de nome Infinita, e quer falar com a Doutora, alega ser um assunto urgente do Consulado Britânico.
Olhei pra Nair, que parecia tão pasma quanto eu, mas pelo menos a expressão de ódio havia sumido.
– E que assunto seria este?
– Disse que é pessoal e exclusivo para os ouvidos da Doutora.
– Ok. Deixe que entre.
Com certeza, estávamos os dois apreensivos, eu mais que ela.
– Boa tarde, Doutor! – estendeu a mão, sorrindo.
Trajava um vestido branco que revelava a ausência do sutiã e todas as curvas de seu corpo. Ao virar-se para cumprimentar minha esposa, pude ver a marca de uma super-cavada calcinha, algo entre uma tanga e um fio dental, que pelo sombreado mínimo, supus que fosse branca. Ao terminarem o tradicional “face a face”, foi a Nair quem quebrou o silêncio.
– Você se importa em nos emprestar seu escritório por uns segundos?
– Você está bem? – perguntei.
– Estou.
– Te espero aí fora.
– Pode me esperar em casa, não precisamos alterar nossos planos.
Foi gentil, mas sem qualquer sinal de calor. Acompanhou-me até a porta e só depois que me ouviu dizer “até amanhã” com a Marina, a qual resmungou um “desculpe”, foi que fechou a porta, voltando para sua visita. Entrei no carro e viajei em mil conjecturas. O que mais me preocupava era o convite para que me retirasse. Não o convite em si, mas as cores com as quais foi emitido. A morena era um mistério total, mas as reações das duas mulheres que eu mais conhecia na vida eram totalmente avessas as do dia-a-dia. Uma nunca fora molhada e a outra nunca fora seca. Um “barraco” me preocupava também, mas no momento estava minimizado. Algo me dizia que aquele encontro era de importância maior que um “barraco”. Não me lembro do trajeto, dos semáforos ou dos “pardais”, mas de repente me vi em casa com a Clarice dependurada ao meu pescoço. A única coisa rotineira do dia, e era bom para eu tomar conhecimento que não era o mundo todo que estava maluco. Alguém estava normal.
– Papaizinho querido do meu coração...
– Eh! Lá vem bomba!
– Ô pai! Eu só queria ver minha sandália nova.
– Que sandália?
– A havaia..., papai você está bem?
– Ah, minha lindinha! Você já tem uma centena destas. Comprei uma de salto, mas deu tanta confusão que acabei esquecendo-a no escritório.
– Vou buscar...
– Não! Podemos esperar até amanhã. Hoje preciso que você me faça um favor enorme.
– Credo pai! Você está sinistro!
– Desculpe filha, mas é importante. Este tem sido um longo dia, minha adrenalina está no topo e os problemas só começaram. Você vai me ajudar muito se for dar um giro por aí, mas me prometa que estará de volta às dezoito horas para dar um abraço em sua mãe. Se você optar pelo cinema, dê uma olhada nas vitrines enquanto espera o início da sessão, preciso de uma sugestão de presente para sua mãe.
– Eu faço parte desta família e estou sentindo cheiro de crise, será que...
– Não tem crise comigo, talvez sua mãe esteja precisando desabafar, mas é só isto.
– Mas é preciso que eu seja excluída?
– Acredito que será só um desabafo, não vou decidir nada sem lhe dar a chance de opinar, portanto, saia e divirta-se. As vitrines estão lindas!
Quando a porta se fechou atrás dela, engoli uma dose de “Salinas” que fez meu estômago se lembrar que a hora do almoço tinha passado em branco. Por volta das dezesseis horas a Nair retornou. Sentou-se ao meu lado e ficou um bom tempo em silêncio, olhando o copo vazio em minha mão. Parecia estranhamente calma.
– Há dias venho te observando, voltou a beber e a fumar, seus horários estão cada vez mais irregulares e quando chega em casa, não dá a mínima atenção a ninguém. Não fala mais sobre o serviço e nem me convida para sair. Tive que ir sozinha ao último casamento ao qual fomos convidados. Eu gostaria de entender o que é que está acontecendo.
– Nada. Não está acontecendo nada. Digamos que seja minha crise de meia idade.
– Sem ironias, por favor.
– Sim senhora. Ironia não pode, mas uma seção de arremessos pode.
– Desculpe-me por aquilo, mas vamos tentar conversar sério, estamos precisando, pelo menos eu estou querendo.
– Ok, ok, ok! Podemos iniciar pelos motivos que levou o império britânico a fincar bandeira no meu escritório?
– É mais conveniente falarmos sobre nós dois primeiro. Depois tratamos dos outros.
– Aquela morena tem precedência sobre qualquer assunto. Ela ajudou a comprar aquelas bombas, desculpe, sapatos. Não dei a ela qualquer indício de como me localizar, portanto posso inferir que ela esteve lá por sua causa. Estranho não? Mas sabe o que é mais estranho? É que lá não é seu endereço. Ela te explicou como chegou lá?
– Vou pedir à Rosário para fazer um café e ...
– Vamos conversar na cozinha, mandei a Rosário para casa e a Clarice ao cinema. Quero esta história bem clara.
– Eu também preciso saber o motivo que levou o senhor a ficar de abraços com uma desconhecida no shopping.
– Uma pechincha, preço mínimo por uma assessoria de grande valia.
– Não achei graça nenhuma. Como é que você “estica” os olhos para uma menina que tem idade para ser sua filha?
– Fazia parte da promoção. Vamos voltar ao ponto que interessa: a visita.
Remoeu por uns instantes, mas entrou no assunto.
– O ponto certo, está há uns quinze dias atrás. O laboratório ligou avisando que haviam surrupiado uma cópia do seu teste de DNA. Fui até lá e exigi que investigassem. À época, só tomamos conhecimento do resultado diante do juiz, e agora esse desleixo. Coloquei alguém para acompanhar o trabalho deles. Não quero mais ser surpreendida por este tipo de coisa. Cavar paternidade por aqui uma vez é o bastante.
– Será que você nunca vai esquecer aquilo? O tempo passou.
– O aquário de onde tirei você, nunca vai sair das minhas lembranças.
– Pois deveria. Se você tentasse ver as coisas de outra forma. Ponha sua psicologia a seu serviço e lembre que escolhi você entre uma dúzia que...
– Escolheu entre!? Você está maluco? Alguma vez você me viu mergulhada naquela podridão que você frequentava? Alguma vez eu me misturei com prostitutas, aventureiras, drogadas, assassinos ou outra escória qualquer? Não queridinho. Você não me escolheu. EU – berrou o eu – te pesquei daquele aquário imundo, mas usei uma linha bem longa para não me sujar...
– Foi mesmo? E que tipo de linha era esta? A mesma que...
– Não se atreva a dizer mais besteira. Sabe muito bem que te ofereci amor e carinho numa hora bem difícil da sua vida, afora isto, me vesti de paciência e esperança até que você pudesse ver que existe um mundo mais limpo e que você poderia ter uma chance nele. No mais, nunca incentivei as ideias sujas de ninguém. Meu comportamento e meus trajes sempre foram pautados na moralidade e...
– Fico feliz que você se preocupe com o saneamento social, mas lamento informar que seu sucesso é bem precário.
– Melhore a sinalização, porque não entendi. Está se referindo a quê?
– À minha agenda, à sua agenda. Olhe para elas e veja como são diferentes, você trabalha com essa adolescência destrambelhada e eu atendo a metade dos heróis nacionais, é o governador mais querido, o deputado mais votado, o senador com mais projetos aprovados, o empresário mais benemérito, e no entanto, elas estão entrelaçadas.
– E você acha que eu não vejo a ligação?
– Vê? Com estes olhos cheios de ciúmes...
– Ciúmes!? Eu? O que vejo é esta escalada social que absorve as pessoas, são requisitadas constantemente e acabam deixando a família em segundo plano, assim como você...
– Também acredito que seja por aí. O senador fez isto com o filho, o tal filho virou deputado e faz isso com o neto do senador, daqui a uns dias você vai atender o filho do neto do senador. Será que são tão burros que não aprendem? Claro que aprendem, tanto é que não voltam mais ao seu consultório, vão ao meu.
– A ideia é esta. Adultos resolvidos correm atrás de seus objetivos.
– Certamente, assim como enviam seus herdeiros esquizofrênicos aos consultórios para que se adaptem ao paradoxo que existe entre o discurso e o ato dos...
– Espere um pouco. Você está insinuando que o meu trabalho... O que estes seus clientes têm te encomendado? Você está fazendo algo ilegal? Você...
– Não se agite. O meu consultório recebe o mesmo tipo de paciente que o seu. Chegam prontos, quase adultos, só tenho que ajustar umas coisas ou outras, esconder algumas pontas, suprimir ou acrescer umas palavras, mas não me pergunte para que servem ou a que se destinam, pois você também não sabe o futuro dos seus pacientes. Além do mais a semente germinou longe de nós, mas de qualquer forma não vou me enganar fingindo que vivo num mundo mais limpo e transparente que o da minha juventude.
– Estou te desconhecendo, aquele mundo de maconha e prostitutas era melhor que o atual? As suas cicatrizes...
– Talvez sim, mas não faça esta cara. Os dois mundos são nebulosos. A diferença é que, naqueles tempos, cada um dava rumo à sua vida, eram mulheres que abominavam o casamento e homens que davam vazão a seus hormônios, praticavam a liberdade e só embarcava quem queria. Ressalvando uma rusga familiar ou chutar uns conceitos arcaicos pro alto, não faziam mal a ninguém. Este povo de hoje espalha o cheiro de sua maconha em todos os ambientes, você acaba cheirando, quer queira quer não. O nosso patrimônio foi formado com o que recebemos pela prestação de serviços a outras pessoas, mas quem nos garante que não nos pagaram com o dinheiro do narcotráfico, da sonegação fiscal ou de lucros obtidos em licitações fraudulentas. Ah! É bem possível que seus diamantes tenham vindo da merenda escolar ou tenham sido adquiridos com as verbas desviadas do programa de combate à AIDS.
– Deus me livre!
– Não se preocupe, você é uma grande contribuinte da CPMF. Está lembrada quem a criou? Foi alguém da área médica, não foi obra dos tributaristas. Você se lembra a que se destinava? E que o “P” era de provisória?
– Estamos fugindo do assunto, isto não tem nada haver com...
– Como não? Você é minha heroína. Livrou-me da escória social e eu preciso que você me diga quem é a escória. Os desajustados que você atende ou os heróis que vão ao meu escritório. Posso refrescar sua memória lembrando-a que a diferença entre o que o governo diz que gasta e o que é colocado à disposição do povo, passa pelas mãos destes homens públicos, assim como obras suntuosas e asfaltos que se desmancham com as primeiras chuvas são o elo entre estes zelosos representantes do povo e os empresários que as fazem e abocanham lucros estratosféricos.
– Você está sendo bem ácido.
– Se você quiser podemos traçar um paralelo entre os recursos que o palácio do catete, do catetinho e do planalto diziam que mandavam para a Sudene e o tamanho das barrigas dos meninos do sertão nordestino, ou você acha que a bandeira do “fome-zero” e o sorriso do presidente vai fazer com que chegue lá os cinco quilos de arroz que o Goiás disse que doou? Talvez não chegue cem gramas ou nem mesmo a notícia de tal doação.
– Se você for listar todas as mazelas do País...
– Ok! Voltemos aos nossos clientes. Longe do seu consultório e sem saber nada sobre Freud, eu diria que seus pacientes são legítimos representes do nosso povo, ou melhor, parte integrante dele. Têm os mesmos anseios de justiça e igualdade, mas também têm a consciência do mundo dos pais, começam a questionar e são rotulados de desajustados. Na linha do horizonte, aparece minha heroína predileta, doutora Nair, que convence a todos nós, de que somos a maior maravilha do mundo. Somos capazes de viver no glacial, no frio, no temperado, no quente, no escaldante, no tórrido, no úmido e no seco. Em suma, simbioticamente falando, somos o máximo da adaptação. Superamos nossas “neuras”, se não as eliminamos, damos um jeito de varrê-las para baixo do tapete e tocamos em frente. Classificamos os tempos de doutora Nair como reminiscências e corremos a procura do doutor Carlos Alberto para que ele dê uma revisada na nossa estampa. Temos que assegurar que nosso fantástico projeto social que envolve milhões de dólares, e talvez beneficie uns poucos, não deixe à mostra as pontas das linhas de sutura do superfaturamento, dos desvios ou da corrupção. Isto quando é um projeto sério, pois tem alguns que sobrevivem apenas até o momento em que o recurso é colocado à disposição, a pedra fundamental fica para amanhã. Vamos embolsar e guardar um pouquinho para tratar as “neuras” dos nossos pimpolhos, porque nós, não as temos mais.
– Você acha que eu presto um desserviço?
– De forma alguma! Já deixei bem claro a admiração que tenho por você e pelo que faz, não fosse a sua colaboração e eu seria um elemento socialmente pernicioso, improdutivo.
– Mas existe uma crítica implícita nesta conversa toda...
– Não consigo concluir quem é a escória, se o joio ou trigo e quando penso no caldo da cana e no bagaço, fico mais confuso ainda.
– E qual é a dúvida entre o caldo e o bagaço?
– Talvez sejam os dois ou nenhum deles...
– Analise pelo lado da serventia...
– É. Em uma noite fria eu ficaria com o bagaço...
– Acredito que foi este seu estilo de pensar que fez com que os detetives levantassem a hipótese de que você seria uns dos interessados em sumir com o exame.
– Demais, não é!? E a próxima menina que descobrir meu passado de escória vai me obrigar a fazer tudo outra vez.
– Creio que alguém descobriu um atalho, uma mixaria na mão de um funcionário, e ganha-se tempo.
– Foi só isto que seus detetives descobriram?
– Descobriram que alguém tinha grampeado meu celular e o fixo daqui de casa...
– Mas o suspeito não era eu?
– Era, mas você “varre” os seus telefones todos os dias, fica difícil, não é? É uma das suas “nóias”?
– Exigência da clientela. Tem uns que fazem a verificação, eles mesmos, antes de me ligarem. É comum alguém marcar e aparecer duas ou três horas antes. Quanto mais público é o homem, mais sigilosos são os assuntos. Mas a que conclusão seus detetives chegaram?
– Até agora a nenhuma, o consulado britânico é o escritório do detetive Brito, que promete seriedade, pontualidade e sigilo britânico em qualquer investigação, a morena trabalha com eles há pouco tempo e tinha como função me seguir, para acompanhar qualquer pessoa estranha que me abordasse na rua. Quando entrei no consultório ela foi passear no shopping e deu de cara com você. O resto você já sabe, correu lá para evitar uma... uma...
– Cena? – completei.
– É.
– Tem umas coisinhas que ainda não entendi. Quem te avisou? O cara que deve estar me seguindo não ia dedurar a colega de serviço.
– Uma cliente. Viu o abraço de vocês e me ligou.
– Vou fingir que acredito que você tem uma cliente que me conhece. Aquela menina chegar ao meu escritório, não foi surpresa só para mim. Como foi que você ficou tão segura de que podia me expulsar de lá tão rapidamente?
– Enquanto você tentava adivinhar a cor da calcinha branca que ela usava, o nome Brito foi cochichado ao meu ouvido.
– Mulheres! E que mais vocês conversaram que ocupou a tarde toda?
– Mais nada, não foi mais que cinco minutos de conversa, só que tive que atender à Marina...
– Terei que dispensá-la.
– Por quê?
– Você ou um dos seus detetives envolveu-a nisto, não posso ficar com ela.
– Eu a pressionei para me avisar quando você saísse e...
– Você está imaginado como estou me sentindo? Esqueça meus clientes desconfiados e esqueça quantos filhos eu possa ter espalhado por aí, mas não se esqueça que qualquer deles, mesmo que seja uma dezena, terá no mínimo cinco anos a mais que nossa filha. Agora pense na mulher que você foi durante todos estes anos e no marido que fui para você e me responda: qualquer de nós merece ser investigado pelo outro?
– Por favor me perdoe, mas estes fantasmas...
– Deixe que os fantasmas conversem entre si, os meus e os seus, não dê a eles status de realidade. Sombras são sombras, vem e vão e nós permanecemos.
– E se uma sombra destas bater na nossa porta...
– Terá que se materializar antes, e se conseguir, que mal poderá fazer? No máximo vai aumentar sua chance de ser avó. Ou será que seu coração está se amesquinhando e não cabe mais ninguém? Você e o ciúme sempre foram incompatíveis!
– Você já pensou no que sua filha vai dizer?
– Com certeza ela tem um vocabulário melhor e mais moderno que o meu, porque eu haveria de pensar em limitá-lo? Deixe que ela se expresse à vontade.
– Você não se preocupa?
– Com que? Fantasmas? Ocupar-me-ei deles, quando se tornarem um cordão de tropeço, não antes. Agora me dê licença que vou tomar um banho e visitar seu “amigo” Brito e seus funcionários. Se tiver algo de concreto nesta história eu vou apurar. Ah! Faça-me um favor, deixe sua mãe bem longe deste assunto, minha cabeça já está cheia.
– Meu amigo!?
Deixei-a com a indignação no ar e fui esfriar a cabeça no chuveiro, mas o eco da última palavra dela me acompanhou.
Notas finais
Fanfic? Também.
Original pois tudo foi criado pela minha imaginação.
Fanfic pois é tudo embasado no que vi e deduzi da vida e dos nossos heróis midiáticos. Torcemos pelo John Wayne em muitos bang-bangs, pelo rebolado do John Travolta em Tempos de Brilhantina, pela arte e leveza do Baryshnikov no Bolshoi, pela beleza e simpatia da Roberta Close entre outros. Meus olhos vêm nesta sequência uma diminuição gradativa da testosterona no mundo.
Escrevi esta fic há dez anos, o tempo passou e ela continua atual, se não profética, mais ainda se olharmos o número avassalador de participantes nas paradas gays e se olharmos para o congresso nacional onde um político procura adequar a Bíblia ao comportamento do homem de hoje.
Fiz do personagem central um elo entre o homem de hoje e o que se prenuncia para o amanhã: Um homem com menos testosterona, menos belicoso, um homem de paz.
Com o apoio das mãos amigas e gentis da Fernanda Azevedo, capa de Fenix estou disponibilizando aos frequentadores do Nyah esta história de realidade ficcional.
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