Um Toque Feminino
3 Capítulo - 3 Três, Dois, Um...
Três, Dois, Um...
Sacolejamos o dobro do tempo previsto, e finalmente entramos em Três Corações. Faltavam apenas uns cinquenta quilômetros de estrada de terra para chegarmos a São Tomé. Rodei pela cidade, circundei a estátua do Pelé e parei em frente a uma lanchonete.
– Um cafezinho? – perguntei.
– É melhor as meninas decidirem, se dormimos por aqui ou se enfrentamos a poeira ainda hoje.
Como ninguém respondeu, ele completou.
– Tomaremos seu café, Brother, enquanto elas pensam.
Entramos na lanchonete e um segundo depois o Piauí já estava íntimo das garçonetes.
– Se vocês não fizeram reserva, não adianta ir, aquilo vai estar um inferno, e a cidade não comporta tanta gente. – disse-nos uma delas.
Saímos à procura de hotel. Parei em frente a um e o Piauí desceu para ver as possibilidades. Fiquei no carro com as meninas. A Karine sentada ao meu lado.
– Vocês estão se entendendo, Karine?
– Claro! Ele é gente fina.
– E o sofá de ontem?
– Acho que era só um pouco de banzo.
– Banzo? O meu Brother com banzo? Ele não tem saudade nem dos tempos de infância, como vai fabricar banzo em pleno carnaval?
– Qualquer que fosse o motivo da “deprê”, aparentemente ele superou.
– O motivo não seria a luz dos teus olhos?
– A luz dos meus olhos não há de faltar para ninguém, e muito menos para pessoas como vocês que parece que conheço há muito tempo.
– Eu estou incluída como beneficiária desta luz?
Olhou para a Maria, surpresa com a pergunta. Esgueirou-se por entre os bancos e sentou no colo da outra. Deu-lhe um beijo molhado, chapado, alucinado e quando se separaram disse como se fosse a última coisa que diria na vida.
– É você que me ilumina há séculos.
O Piauí voltou, sentou-se ao meu lado. Elas ainda estavam abraçadas.
– O recepcionista fez duas reservas para nós no Pálace Central, está cheio por aqui também. – informou-nos.
Parei em frente ao hotel e elas se dependuraram nele, cada uma de um lado, foram para a recepção, me deixando na companhia das mochilas. Quando subi os primeiros degraus da portaria, apareceu um boy para me socorrer. Repetiram o procedimento de distribuir os quartos eles e elas.
– Ô “mané”. Isto aqui ficou mal enjambrado, cama de casal, meu? E se elas resolverem ficar juntas esta noite?
– Ô “pastel”, é o seguinte! Eu arrumei os quartos, você não fez porra nenhuma, portanto a sua missão é cuidar para que elas não durmam juntas e como você é um fracasso ambulante, sugiro que você deixe sua cama arrumada aí no carpete antes de sair.
– No carpete? Eu?
– Claro! Nem pense em olhar para “minha” cama. Vire-se! – rosnou.
– Bom, carpete por carpete, vou armar meu acampamento no quarto delas.
– Beleza, será um bom argumento para eu trazer as duas para cá!
– Pois sim!
Esperamos por elas na recepção e saímos a caminhar pelas ruas. De acordo com o motivo da decoração da vitrine, uma ou outra se aproximava de mim, mas de um modo geral a Maria ficava mais comigo. Eu me sentia estranho naquele passeio. Não era bem nosso estilo. Em Brasília, acho que era hábito da faculdade, andávamos em bando, nós dois, uma, duas ou três meninas, mas cada um na sua, ninguém grudado em ninguém, mas aquelas duas pareciam um par de algemas, ou uma ou outra grudada no meu braço. Só não era cansativo porque elas revezavam. Comecei a observar que elas sutilmente exerciam suas preferências na escolha da companhia, estavam sempre se antecipando a nós. Quando retornamos ao hotel, estava bem claro para mim que nosso papo, a quatro, era muito bom, mas quando juntavam a Maria e o Piauí, as coisas não fluíam normalmente. Minhas conversas com a Karine, eram, quase sempre, interrompidas com a troca de pares. Era de se estranhar, pois ele era o nosso ponto forte em qualquer conversa, fosse da abobrinha à bolsa de valores. Voltei a me “encucar” com a paixão dele pela Karine. Enquanto ele pegava as chaves na recepção, cochichei ao ouvido dela.
– Preciso de um favor, pode ser?
– Claro! Faço qualquer coisa pelas pessoas a quem amo – cochichou de volta.
– Pode me emprestar seu lado da cama?
Riu antes de responder.
– Isto requer um ajuste. Você me empresta sua escova de dentes?
– Eu também te amo – respondi.
Ela me olhou séria. Empurrou-me para o lado da Maria e foi se algemar aos braços do Piauí, aparentemente feliz. Puxei a Maria para o sofá enquanto eles subiam para o quarto.
– O que você acha?
– Que está bem misturado, uma branca e um moreno e uma morena e um branco.
– Isto é minha área, branco, preto, pau, pedra, o que quero saber é sua opinião do ponto de vista das centelhas do matchu pitchu, o que é que o Confúcio está te soprando.
– Formam um belo casal, ele é maravilhoso, só não entendo o porquê de não gostar de mim, sempre que estou com ele, é como se ele estivesse ausente, viajando, mal responde o que pergunto.
– Você acha que ele fica pensando nela?
– Em quem mais seria?
– Qual foi o acordo que eles fizeram lá em Pirenópolis?
– Acordo?! Bem, ele estava lá, tentando se desculpar por você. Ela chegou deu-lhe um beijão na boca, depois colocou as mãos na cintura e disse, “se você quiser, a Maria pode ficar aí se desculpando por mim o resto do dia, mas não se esqueça que ela precisa ir a São Tomé das Letras”, virou as costas e foi te buscar.
– Cacilda! Ela é a melhor de todos nós!
– Vamos dizer que eles empatam.
Havia um tom de admiração tão singular naquela frase que me ocorreu que as duas poderiam estar “vidradas” nele.
– Acho que você deveria ir conferir.
– Nem pensar, vai estragar o clima.
– Só se for o dela, porque ele ficaria mais feliz.
– Não, não. Prefiro esperar pelo convite.
– Mas eu não te convidei!
– Nem quando despachou a Karine? Foi um convite com padrões claro de mensuração. Gostaria que ele mostrasse por mim o mesmo interesse que você tem.
– Agora fiquei com ciúmes. Vou arrumar uma garrafa e mergulhar minhas...
– Venha cá que vou arranjar um lugar mais quentinho para você mergulhar.
Quando o sol nasceu, já tínhamos enfrentado a poeira. A paisagem de uma cidade de pedra estava ali, à nossa frente. Além da cidade, a montanha apresentava o câncer da devastação. As pedras que movimentavam a economia e davam vida ao local, eram arrancadas da encosta que abrigava a cidade. As pedras eram semelhantes às de Pirenópolis. Grandes folhas arrancadas de um bloco, serradas em forma de cerâmicas naturais e empregadas com os mais diversos objetivos. Piso, parede, cobertura e até mesmo enfiadas em molduras para que adornassem as paredes. Eram inúmeros e diversos os desenhos fossilizados, incrustados nas “cerâmicas”, que se podiam ver espalhadas nas paredes da cidade. A engenharia local é única. E mesmo a pedra sendo idêntica, não se vê qualquer traço de semelhança com Pirenópolis. Pode-se dizer que a pedra faz parte daquela cidade, mas ali, a pedra é a vida. Passamos o dia fotografando cada canto, encontramos uma pirâmide inacabada que servia de abrigo a mendigos e outros animais. Uma sujeira total. Restos de comida, embalagens e estrume por toda parte.
– Isto era a central de comunicações com Matchu Pitchu?
– Ah! Não brinca “né”, Goiano – disse Karine. — Matchu Pitchu não tem cimento. A meu ver o alemão que enterrou dinheiro aqui, confundiu tudo, nem na cultura Inca nem na Egípcia, tem concreto armado. Se ele ao menos tivesse respeitado a engenharia local isto não teria se transformado em estrumeira. Imagine uma pirâmide erguida, não com blocos como no Egito, e nem de concreto como isso, mas com plaquetas de meia polegada de espessura, como constroem por aqui. Seria lindo!
– É, seria! Mas já imaginou a dificuldade?
– Você acha que quem fez aquela igreja teria dificuldade para fazer uma pirâmide? Faltou foi bom senso. Ainda bem que algum deus misericordioso não deixou isto prosperar.
– Parece que tem uns cães que compartilham da sua opinião – resmunguei enquanto tentava limpar o sapato em uma pedra – estão completando a “caca”.
Riram, a caminho da rua, enquanto eu tentava me livrar da sujeira, pegaram à esquerda, descendo o morro a pé.
– Onde vocês estão indo?
– Vamos ver a pedra – disse Karine – apontando um monte ao lado esquerdo da rua, uns cem metros abaixo.
O tal monte era a pedra. Parecia um ovo mal acabado, meio amassado, cheio de mato por cima. Estava meio enterrado e meio coberto. A ponta descoberta parecia ser o lado mais fino do ovo e teria sido exposta quando estavam abrindo a rua pela qual descemos. Ali na face voltada para a rua e para baixo, abrigadas da incidência direta dos raios solares, tinha umas garatujas desenhadas em vermelho sangue. Eram as tais letras que completavam o nome da cidade. Virei para a Maria e anunciei o tamanho da minha ignorância.
– Isto lá são letras!? Onde foi parar o “a”, o “b” e o “c”? isto aí é uma enganação, uma...
Parei de falar porque eles estavam rindo, mas eu tinha mais uma dúzia de definições para o que eu via.
– Acho que você entende mesmo é de bosta de cachorro.
E riram mais ainda.
– Muito engraçado, vocês. Então alguém faça o favor de explicar o significado destes desenhos de criança aí.
A Karine foi a primeira a parar de rir.
– Quando você vai a um restaurante chinês, você lê a frase de cima ou a de baixo?
– A de baixo, a de cima são aqueles...
– Aqueles caracteres da escrita deles que nós não entendemos nada, e, no entanto, tem um “zilhão” de pessoas que entendem. Estes aí, – apontou as garatujas – ainda não apareceu uma pessoa que os entenda.
– Ah! Agora ficou claro! Não vou explicar para vocês o que significam estas garatujas, porque minha imaginação não é suficiente nem para descrever esta pedra como um ovo velho, gorado, torto e mal acabado, com uns cinco metros de altura, mas com certeza daqui a alguns dias, vai aparecer um gênio, tipo aqueles que diziam que a terra era plana, e era o centro do universo e que tinha pego uma carona com as tartarugas que estavam de passagem não se sabe para onde, e que a maçã da eva era virgem, mas que foi comida pelo “big-bum-bang” do universo, mas que ser comida pelo universo não conta e que, portanto, a maçã continua virgem e o gênio vai explicar “tudinho” para nós, em cadeia nacional e tudo mais. Vocês vão ver! Ah! Podem rir. Mas vocês verão! O próximo milênio está chegando e cada milênio tem seu gênio e esta coisa aí vai ser fichinha para ele, porque...
– Será que tem hospício por aqui?
– É bem provável, mas trancaram as portas por que o cara nunca mais pode aparecer para escrever o resto do “analfabeto” do planeta dele, mas o gênio do...
– CALA A BOCA, senão nós vamos te enfiar no hospício, maninho!
– Está bem! É tanto carinho que me sufoca! – miei.
– É melhor a gente descolar uma cerveja bem geladinha e voltar para Três Corações.
– Mas Piauí, a gente não ia curtir o carnaval daqui?
– Ia, minha princesa das cordilheiras, mas é uma questão de segurança pública, vai que ele tem outro ataque! O hospício de lá deve ser mais seguro que o daqui.
– Ok! E que tal uma terceira opinião?
– Viu maninho!? Isto é que é exemplo de consideração, ouvir...
– Calado. Você está sub-júdice, ela se refere à opinião da Karine, portanto, você calado e a Karine com a palavra.
– Bem, na minha mui conceituada opinião, estou de pleno acordo em mantê-lo sob estrita vigilância e submetê-lo ao regime de bebidas amargas de baixa temperatura, mas discordo da propositura de interná-lo. Em se observando que os sintomas não desapareceram com o regime amargo, sugiro que seja servido ao paciente, pois é paciente e não réu, uma volumosa salada composta de braquiária, jaraguá e napiê, para avaliarmos a qual destas gramíneas ele se adapta melhor, pois, salvo melhor juízo, estamos tratando de um complexo, porém simples caso de burrice.
– E tem cura?
– Não sendo congênito, a esperança existe, porém, quanto antes iniciarmos o tratamento, melhor. Chamo a atenção dos meus caros colegas, para o fato de que seria altamente recomendável o absoluto silêncio do paciente.
E lá fomos nós em busca de um remédio amargo e gelado para combater o meu estado calamitoso. Lá pelas tantas, depois de muitas doses do remédio, que os meus médicos também bebiam aos copos, a minha defensora, juíza e carrasco, apontou o dedo para mim e perguntou.
– Em sua opinião, quem foi o gênio do século XX?
– Olha, por uns tempos achei que fosse o Figueiredo...
– Eu disse pra vocês duas, interna, interna, interna...
– Ah! Qual é maninho? Imagina você ali embaixo daquele ovo, cheio de jornalista em volta, todos querendo ver o seu oco, e sendo sua obrigação explicar para o mundo o significado daquele borrão! Você ia deixar que te comessem vivo, até que você “descolasse” uma resposta que não existe? Ele entendia tanto de salário mínimo, quanto você entende aquela coisa lá.
– E o que fez você mudar de ideia?
– Descobri que ele estava plagiando o Getúlio.
– Mas o Getúlio não ficou só no discurso.
– Devia ser muito burro, “né”?
– Você acha que um homem que comandou um continente durante tantos anos pode ser chamado de burro? Nem pensar!
– Neste caso o Figueiredo volta a ser gênio, só que já o risquei do meu caderno.
– E substituiu por quem?
– Por ninguém, mas acabou de me ocorrer uma ideia. Vocês conhecem outro elemento que tenha a capacidade de conseguir três amigos maravilhosos como vocês?
– Ô garçom, descola uma salada aí!
Fui condenado ao silêncio novamente. Na hora de ir embora, joguei a chave para ele e sentei no banco da frente, o que deixava as meninas no de trás. Antecipei-me para pegar as chaves do hotel. Quando eles se aproximaram, empurrei a chave do nosso quarto na mão dele.
– Hoje você cuida das crianças, pois eu estou muito “bebum” – saí trocando as pernas.
Fui para o quarto da Maria e me tranquei nele. Menos de dez minutos depois, bateram à porta. Um bêbado costuma desmaiar. Bateram novamente, continuei embriagado. Quando comecei a pensar que tinha me livrado, a chave girou e a porta abriu. Sentei na cama.
– Não deu certo, parece que ele está feliz com a companhia da Karine.
– Merda! Nem quando eu estou bêbado, esse desgraçado, me socorre.
– Valeu a encenação, mas ele te conhece bem. Vamos ao chuveiro?
– Vamos, mas me conta o que ele disse.
– Muito pouco. Que eu sou linda e maravilhosa, que não tenho qualquer acordo com vocês e que não preciso deixar você me manobrar. Ah! E que com três na cama não se dorme muito bem.
– Tem muitas verdades aí, mas também tem inverdades. O que você ouviu que não foi dito?
– Estamos entrando na área da minha tese?
– Estou pedindo um help ao seu sexto sentido. Tipo opinião do Peter Pan, Zaratustra, Zé Arigó... O que você acha que existe por trás do discurso dele.
– Estou confusa, ele é sempre carinhoso comigo, tudo que ele disse foi dito como se as palavras não fossem suficientemente boas para transmitir as ideias e por isto ele juntava um pouco mais de carinho em cada uma. Até quando ele sugeriu que eu voltasse para cá, foi de forma carinhosa, mas de um carinho e um tom que não admite réplica.
– Filho da mãe, e eu é que estou com sezão.
– Tem algumas expressões que você usa que eu não entendo.
– Tipo?
– Sezão, ver o oco...
– Não são palavras que a Karine usaria, sezão é mais usada pelo povo nordestino, febre de mosquito, malária. Ok? E o outro eu não deveria ter utilizado, expressa situação extremamente vexatória, é de baixíssimo calão.
– Mas qual é o sentido?
– Não dá para pular esta parte?
– Não. Quero saber.
– Situação hipotética de alguém ter a porta dos fundos usada e abusada a ponto de não fechar mais, daí poder se ver lá dentro. Desagradável em todos os sentidos.
– E é possível?
– Na imaginação tudo é possível. Mas vamos deixar isto de lado, me conta como você conheceu a Karine.
– O pai dela era funcionário da embaixada do Brasil, e o colégio dela programou uma excursão nas cavernas da região onde eu trabalhava. Era visita de meia hora, mas só podia entrar no máximo dez pessoas e o guia. Eu era o guia do grupo em que ela estava. Em uma caminhada de uma hora, ela nos atrasou uns quarenta minutos. O grupo seguinte nos alcançou e ela continuou inventando coisas para não andar, ou pegando desvios errados. Aí juntaram uns nervosos e resolveram carregá-la. Fizeram uma maca com duas japonas e a colocaram em cima. Ela ainda deu um jeito de cair da maca. Quando chegamos, a caverna tinha desmoronado e a poeira ainda estava no ar. Fui demitida, por falta de liderança e ganhei uma bolsa do colégio em que ela estudava. Nunca mais precisei trabalhar para estudar e ganhei uma amiga para qualquer ocasião.
– Você acha que ela salvou sua vida?
– Livrou-me do trabalho, deu outra direção ao meu destino, mas não teríamos morrido no desmoronamento, quem estaria lá dentro era o grupo dos nervosos. Ninguém se lembrou dos agradecimentos. Ficou tudo na conta das coincidências. E eu só ganhei a bolsa por influência do pai dela.
– E quando vocês começaram a namorar?
– Namorar? Nós não namoramos, nos amamos e é só. Quando descemos aquela trilha, descemos de mãos dadas, nós duas sabíamos exatamente o que tinha acontecido. Mas houve outras meninas e meninos que vieram caminhar ao lado dela, mudos como eu, mas sabiam que ali era o lugar. Bem, se você quer uma data, foi aquela, quando a gente tinha treze anos.
– E agora têm quantos?
– Vinte e um.
– É um bom tempo! Foi por ela que você dispensou o Juan?
– Não. Foi por mim mesma. Ele era um bom parceiro para muitas coisas, mas muito mesquinho para se viver a vida toda ao lado dele.
Acordamos pela manhã com o abrir da porta. Uma Karine sorridente caminhou na minha direção, beijou-me, rolou por sobre nossos corpos, beijou-a e começou a juntar a cabeleira negra. Ajeitou-a sobre o travesseiro e deitou em cima. Colou-se no corpo da amiga e me puxou para um abraço triplo, fazendo da amiga o recheio do sanduíche. Como o silêncio se prolongara, resolvi quebrá-lo.
– Vai ficar mais gostoso se você tirar a roupa.
– As roupas não me impedem de sentir a paz de corpos que se amam. Adoro isto, esta calma este cheiro de amor. Infelizmente – continuou sussurrando – vocês precisam sair da cama, têm muito que caminhar hoje.
– Têm ou temos? – perguntei.
– Têm. Eu não posso ir.
A Maria reagiu, desmanchando nosso abraço.
– Como não pode ir? O que houve? Você está bem? O que...
– Calma, querida, você está desequilibrando meu paraíso. Está tudo bem, só que liguei para minha mãe e ela pediu para que eu voltasse. Meu pai quer me ver.
– Então vamos embora, todos...
– De jeito nenhum, não vou te perdoar se você deixar aquela íngua apresentar um trabalho mais completo que o seu.
– Mas sem você? E como você vai voltar? O que vou fazer sem...
– Você está bem acompanhada e eu já arrumei uma carona até o aeroporto de Belo Horizonte, e do Cumbica à Brasília é rapidinho.
– Está acontecendo alguma coisa com seu pai?
– Ah! Deve ser mais uma recaída, e você sabe, minha mãe anda sem paciência com ele.
– O que seu pai tem? – perguntei.
– Ficou paraplégico, bateu o carro, e a vida de não fazer nada deixa os dois estressados. Volta e meia eu preciso intermediar. Vamos agir?
Empurrou-nos para fora da cama e enquanto eu tomava banho ela escovou os cabelos da amiga.
– Vocês gastarão dois dias para visitar todas as cascatas, mas depois disto me liguem, vou preparar um jantar para apresentar você e o Piauí à minha família e não se esqueça que segunda-feira esta mocinha tem que embarcar em direção às montanhas dela.
– São tantas cascatas assim?
– Poucas. Só que tem uma que fica a mais de dez quilômetros, não dá para fazer outra coisa, além de ir lá. O Juan não se dispôs a enfrentar o trecho.
– Mas indo, não dá para fazer outras coisas lá?
– Claro que dá! Mas as águas daqui não são quentes como as de Caldas Novas.
– Pena que você esteja fugindo, senão nós três juntos poderíamos dar uma aquecida nelas.
– Vocês ainda estarão em três.
– E você acha que tem como comparar o seu calor com o do meu irmãozinho?
Olhou bem séria para mim, me abraçou, beijou e depois disse.
– Vamos, ele já deve estar esperando para o café.
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