Uma vez na internet conheci uma nova palavra e o seu significado me marcou muito, dizia isso: resiliência — 1.propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação.
2.capacidade de se a adaptar mudanças.

Achei muito interessante, basicamente era o que todos nós, criaturas de Adair estávamos fazendo. Eu particularmente tinha bastante dificuldade com mudanças; sentia como se não importasse com quantos garotos eu ficasse ou para quantas festas eu fosse ou o que eu fizesse em geral, no fundo sentia como se fosse ser sempre a mesma Evangeline de 200 anos atrás. Sempre em busca de algo que nunca poderia ter.

– Hey, já está viajando de novo? — Perguntei para Jude.
– Você sabe que não posso ficar muito tempo por aqui... O trabalho as vezes é tão cansativo!
– Imagino.

Nosso relacionamento tinha oficialmente fracassado. Uma parte de mim se sentia péssima por isso. Eu percebia que há semanas ele não me beijava ou me tocava como quando nos conhecemos, parecia muito distraído... Talvez tivesse conhecido outra mulher, uma que não tivesse o eterno corpo de uma garota de 16 anos. Olhando em comparação com outras garotas dessa idade eu até parecia franzina perto delas.

Quando a noite chegou Adair e Lanore saíram. Nunca tinha imaginado que Adair fosse capaz de amar alguém, mas ele realmente parecia ter sentimentos por ela. Senti que prendia a respiração ao observá-lo, parecia tão belo e selvagem. Imaginava perfeitamente porque as mulheres caiam em cima dele. Observei Lanore rindo e brincando com ele. Por um momento pensei que isso estava errado, ela não deveria parecer tão feliz enquanto eu... bem... eu deveria me adaptar a minha nova vida e nova condição e tentar esquecer o que havia se passado.

Estava me sentindo sozinha naquela enorme mansão. Tinha algumas amigas na escola mas me perguntava se realmente podia chama-las de amigas. As coisas mais importantes para mim estavam sempre guardadas a sete chaves e só me permitia conversar sobre futilidades, nada que fosse realmente importante para mim. Na casa, eu estava isolada. Falava ocasionalmente com Donna e Alejandro, raramente com Adair. Jude, durante um tempo, foi meu melhor amigo, mas agora parecia estar disposto a me ignorar. Fui até a estufa, o lugar que eu sempre ia quando precisava organizar meus pensamentos.

– Parece que nunca vou conseguir me livrar de você, para onde eu olho você está. E olha que essa casa é imensa...
– Depois de nossa última conversa...
– Eu não quero falar sobre isso, não agora pelo menos. — O que está fazendo aqui, nunca veio antes?
– Por isso mesmo... Fiquei curioso sobre esse local. Se lembra quando uma vez fomos a uma espécie de parque perto S.t Andrew. Lá também tinha esses tipos de flores. Me lembro que quando vi o local pela primeira vez, sabia que precisava que você conhecesse.
– Sim, me lembro. Aquele dia foi... Fantástico. — Disse sentido uma pontada no peito. — Você irá embora novamente? Eu fiquei um bom tempo aqui antes de você aparecer...
– Não agora, preciso descansar...
– Evangeline, está tudo bem? — Ele disse ao perceber que eu enxugava uma lágrima. — Queria tanto que você me perdoasse, queria fazê-la entender que eu sinto muitíssimo por tudo que aconteceu.
– Porque você acha que tudo que sinto está relacionado a você? Eu não estou chorando por sua causa. — Ele pareceu não acreditar, sempre muito convencido de si mesmo.
– Eu sei que errei, mas se pudesse voltar no tempo...
– Também pensei a mesma coisa mais cedo. Eu só queria poder voltar para St. Andrew, para minha família, minha filha, tenho tanta saudade dela e me arrependo tanto de tê-la deixado... As vezes sinto saudade até mesmo de você. — Disse em voz baixa. — Me pergunto porque tudo teve que acontecer daquela forma.
– Eu era muito novo, estava enlouquecido com toda aquela responsabilidade...

Olhei novamente para ele, aquele em que eu já havia confiado tanto.

– Você faz ideia de quanto eu sofri? O quanto eu ainda sofro? Eu meus pesadelos estou sempre sozinha, gritando por ajuda, mas você não está lá, já se foi.
– Eu voltei a St. Andrew uma vez. — Ele disse — Eu sentia, e sinto, tanta saudade de todos. Queria ver as coisas como estavam. Continua sendo uma cidadezinha, bem pequena comparada com essa em que vivemos. As pessoas trabalham com comércio e turismo que fazem...
– E você viu nossa antiga casa? Eu uma vez pensei em voltar lá, mas senti tanto medo...
– Vi, estava tudo decadente. Foi tão triste ver aquilo, a casa arruinada. Lembro o orgulho que minha família tinha da casa. — Ele disse soluçando. — Tudo passou, não é? Eu também vi o túmulo da nossa filha. Ela viveu bastante.
– Não acredito que ela tenha vivido muito bem sem os pais dela. — Falei, sentia a culpa como se fosse um martelo me golpeando.
– Sua família deve ter cuidado dela, não sei.
– Você nem procurou saber?
– Eu estava bastante atormentado naquela época. Nem tudo são flores para mim, Evangeline, eu tinha ido lá dar uma última olhada, como se para me despedir. Não contei toda a verdade... Eu tinha ido lá com Lanore, estava certo de que queria morrer... Então a levei e a pedi ela pussesse um fim em tudo isso, já que ela era a única que podia fazer isso.
–E ela fez?
–Sim... Depois voltei e morri mais umas duas vezes. — Ele disse em um tom de cansaço. — Desde aqueles tempos até hoje continuo sem controle algum sobre minha vida ou morte...
– Eu nunca contei isso para ninguém, mas me sinto tão culpada por tê-la deixado. Eu não me importava o suficiente com ela...
– Todos nós nos arrependemos de tantas coisas. .. e com o passar do tempo só vai piorando. Vamos tentar esquecer um pouco do passado. Eu tento isso todos os dias, é a única, única forma de conseguimos viver um pouco.
– Eu vou fazer essa viagem, tenho que voltar a St. Andrew. Preciso desesperadamente saber como ficaram as coisas com a minha bebê. Tenho tanta saudade dela. Eu me culpo porque prestei atenção a tantas coisas, eu prestava atenção ao meu sofrimento e esquecia dela. Agora que voltei prestava atenção em você e novamente quase posso esquecer que já tive uma filha. A única que eu tive e que vou poder ter, me sinto tão cruel...
– Você não é! — Ele disse me abraçando. — Vamos voltar. Vamos encontrar o que sobrou de nossa família.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.