MARCOS

Marcos desviou-se por milésimos de antecipação. A vampira brincava com as enormes garras que se formaram a partir de suas mãos.

— É a disciplina da metamorfose. As minhas garras são tão possantes quanto as de um lobisomem. Surpreso?

Marcos não podia dizer que não estava. Sentia o ferimento no braço direito, Ela havia o acertado. Ele ainda forçou um sorriso desdenhoso.

— Devia fazer as unhas mais vezes.

— Vamos ver se vai continuar engraçadinho assim quando lhe arrancar a cabeça!

Ela investiu outra vez, ao passo que Marcos também avançou. Seus trunfos seriam sua força e sua velocidade sobre-humana. Mais rápido do que ela, ele teve tempo de soca-la no rosto e se esquivar das poderosas garras. Ele se afastou, viu ainda o sorriso cínico da vampira negra.

— Esperava mais da progênie da Mikhaela. Talvez com uns dois ou três mil socos desse conseguisse me ferir. Vai resistir ainda? Se vir em paz talvez eu não faça doer muito.

— Cala a boca. Eu vou te derrubar, vai ver.

Um novo assalto se iniciou, ambos os combatentes ávidos pela vitória. Marcos se esquivou do primeiro golpe, socou-a no rosto duas vezes, abaixou-se e ouviu o zunido da garra passando por cima da sua cabeça, ergueu-se ligeiro com um gancho de direita, mas por fim a vampira o atingiu. No último instante ele saltou pra longe, mas ela conseguiu fazer três cortes que começavam no braço esquerdo e terminavam na barriga.

— Não disse que ia me derrubar? Nem mesmo senti teus socos.

— Ainda tá cedo pra cantar vitória, moça.

Marcos teve uma idéia. Sim, era perfeito. Ele sorriu pra ela.

— Não está vendo que vai morrer? Por que não esconde esses dentes, Vampiro?

O vampiro mais jovem olhou por cima do ombro, seu sorriso ganhou um a mais malicio.

— Por que não Cala a merda da boca e vem logo?

As afiadas garras metamórficas cintilaram ao luar e ela respondeu:

— Com prazer!

Ela o atacou de forma impiedosa. Tentava a todo custo rasgar a carne morta de Marcos, mas ele conseguia estar sempre um passo a frente de cada movimento e mesmo que não fizesse frente a força e as artimanhas dela, a sua velocidade era o que lhe salvava a cada novo movimento. Suas esquivas eram sempre acompanhadas de um recuo ligeiro, o que a fazia acreditar que estava conseguindo empurrá-lo para a defensiva. Foi um engano. Marcos bateu com as costas na árvore, estava encurralado. Ela o golpeou de forma cruzada, com ambas as garras, mas ele saltou por cima dela. O golpe da vampira atingiu o tronco da árvore, mas suas garras místicas fincaram-se no tronco da árvore. Por mais que forçasse, não conseguia soltar-se.

Marcos sustentava ainda um sorriso desafiador.

— Não acreditou, não é? Mas eu venci-Marcos sacou a arma que trazia na cintura. — Eu posso estourar seus miolos agora.

— Eu não acredito que caí nisso. — sua voz não estava zangava, mas sim divertida- Mas acha que vai me matar com esse brinquedo?

Ele guardou a arma novamente.

—Eu imagino que não. Apenas vê se me faz dois favores. Primeiro: nunca me compare com a minha progenitora. Segundo: melhor me deixar em paz daqui pra frente.

Marcos estava exultante, havia vencido uma inimiga mais poderosa com a astucia. Para ele aquilo era o bastante. Já bastava. Ele deu as costas para ir embora. A vampira se aproveitou da boa fé de Marcos. Rapidamente, ela converteu as garras de volta em mãos, avançou novamente contra Marcos refazendo suas garras e atacou. Quando ele percebeu e se virou, já era tarde

A última coisa que viu foi a lua, brilhando contra garras Negras.

*

Ele teve pesadelos repetidos infinitas vezes. Aquelas garras o cortavam da mesma maneira de novo e de novo e de novo e nada podia fazer.

Acordou atordoado, sentia a garganta seca, aquele mesmo vazio no peito e sua visão turva. Estava numa sala escura, mofada e com goteiras. Ouvia uma música abafada, muitos metros acima. Estava deitado sobre um forrado de panos Velhos e rasgados.

A porta se abriu, era a vampira das garras místicas.

— A bela adormecida finalmente acordou. Você não tá tão longe de casa quanto parece, aqui é o Elysium de Nova Independência. Uma zona neutra de vampiros. -ainda desnorteado, Marcos nada falou e ela prosseguiu. — E também é o lugar para o qual trazemos progênies inconsequentes, como também progenitores de pulso frouxo.

— Cadê ela...?

— Ainda não está aqui, mas já mandaram alguém para buscar ela. A culpa é sim, toda sua.

— Filha da puta -houve uma pausa, sua voz saia com dificuldade- Eu ainda vou te pegar! -estava fraco, impotente. Suas ameaças eram vazias.

— Acho que já ouvi isso mais cedo. É melhor aproveitar esse último descanso. Seu julgamento será amanhã quando o sol cair. Uma pena que uma progenie tão promissora tenha que morrer assim por sua insolência. -seus olhos, junto com sua voz, estavam repletos de maldade e ironia- Tenha bons sonhos! -cuspiu as últimas palavras.

Ela saiu e trancou a porta daquela cela improvisada. Precisava dar um jeito de sair. Daria um jeito de sair.

*

Mikhaela se afastou da igreja com pressa quando o burburinho começou.

— Se quer morrer, que morra... Mas não me faça parte disso.

A Nosferatu chegou finalmente próximo de seu apartamento, localizado no centro da cidade. Lá vivia confortavelmente longe da luz do sol com seu gato, Boris e sua cadelinha, Ruby. Quando chegava perto da portaria, viu que quem tomava conta da guarita era o senhor Borges, um idoso calvo, de bigodes cheios de pele branca e sardenta. Como era de costume, ela o cumprimentou com um enorme sorriso, mantinha aquela máscara de boa vizinha.

— Seu Borges, achei que estava de folga hoje.

— Ah, oi, Kaela. Eu estava, mas o Joaquim tinha que ir no velório ou enterro de um parente, alguma coisa do tipo. Espera um minuto que a trava está quebrada, vou abrir o portão pra você. -apesar de ser uma ruiva doce e gentil, Borges sempre estava um pé atras para com ela. Algo lá no fundo o dizia para se afastar. Um medo sem explicação.

Enquanto Borges saía da guarita para destravar o portão defeituoso, duas pessoas surgiram da escuridão junto de Mikhaela. Um casal, ambos vestidos inteiros de preto. Ele, moreno alto de cabelos curtos e barba por fazer. Ela, loira, ligeiramente mais baixa que o outro mesmo com os saltos. Ambos tinham um olhar profund, a pele pálida.

— Mikhaela, a quanto tempo! -A loura abraçou-a, cochichou a seu ouvido em seguida.- É melhor vir com q gente sem dar um show igual tua progênie.

Mikhaela abriu um sorriso ao casal.

— Alan, Elida, por onde andaram? Eu até os convidaria para entrar, mas a casa tá uma bagunça. Por que não damos uma volta no lago, não fica longe.

Ambos assentiram, e ela guiou o caminho.

— Seu Borges, acho que vou demorar, não espere por mim.

A situação era estranha, Borges pensou no mesmo instante em chamar a polícia. O trio sumiu na noite.

A praça do lago estava vazia. Os três chegaram, Mikhaela se virou ao casal.

— Vão me levar para o Elysium por causa dele?

— Sim. -Respondeu-lhe a loura. — Você falhou como progenitora. Os primogênitos vão julgar os dois.

— E se eu disser que não vou?

O homem tomou a frente, ajeitando a gola da jaqueta.

— Acho que esquecemos de dizer que não viemos como mensageiros. Somos captores.

Com uma velocidade fora do normal, Alan partiu pra cima de Mikhaela, socos e chutes miravam o belo rosto da ruiva, mas ela se defendia ativa e passivamente com perícia. Ela desviou-se de dois socos, aparou um chute, girou e acertou o vampiro no rosto com a costa da mão. Elida viu a desvantagem do companheiro e combinou esforços com ele. No segundo assalto. A mistura de percepção e reflexos ultra rápidos permitiam a ruiva a antecipar cada movimento, tirando o corpo do caminho dos golpes mais potentes e aparando os brandos afim de poupar seu precioso.

Num vacilo de Alan ao abrir a guarda, Mikhaela evocou o máximo de seu Ímpeto. Um soco bem colocado no pomo de Adão e o vampiro foi arremessado contra um banco caindo inconsciente.

— Pois é, Elida, a luta que começaram já estava perdida desde o começo. Se desistir agora prometo não fazer contigo igual fiz com teu amigo.

A vampira loura sorriu.

— Não me compare com o Alan ou com outros vampiros de sangue fino -Ela tirou a jaqueta e arremessou-a longe. A regata curta deixava a mostra seu físico definido. -Agora somos só nos duas. Espero que faça valer a pena, honey.

As duas avançaram. Elida ganhou a dianteira por ter sido mais rápida por um ínfimo momento. Acertou uma cotovelada e encaixou um giro com um soco em seguida, Mikhaela recuou a medida que a loira seguiu sem dar tempo a moça para recuperar o equilíbrio. Mikhaela fingiu um cruzado com a breve abertura que teve, mas girou todo o corpo e chutou Elida na barriga. A vampira não se abalou com o golpe, seu sorriso sanguinário ficou maior. Ambas usaram seu ímpeto vampírico na segunda investida, dessa vez trocando socos e pontapés ferrenhamente sem se preocupar com defesas.

As duas estavam empatadas em força, mas Mikhaela não dispunha do mesmo vigor de Elida, e caiu sem forças antes que a loura. Elida num impulso de crueldade, pisou sobre o seio esquerdo de sua adversária caída. Mikhaela gritou de dor. Era como se a outra vampira esmagasse seu coração morto.

— Parece que esta perdido para você desde o começo, honey -sua voz irônica pairava na mente de Mikhaela- Agora pode relaxar. Não vou mais te machucar.