Um Sonho Inesperado
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Enjoy!
Nunca pensei que fosse me sentir daquele jeito ao ouvir algo que deveria ser natural, e que deveria me deixar feliz por Jane.
Uma surpresa no início, e depois um aperto no peito.
Foi basicamente o que senti ao ouvi Frankie afirmar que Jane estava apaixonada por alguém.
Mas por quê ela não me disse?
Quem seria essa pessoa?
Sempre confiamos uma na outra, sempre contamos tudo, por quê seria diferente agora?
Podia ser realmente uma pessoa especial, mas esse pensamente me assustou, e trouxe um sentimento novo, algo como uma sensação de perda.
Eu sabia que era errado me sentir assim, mas não tive tempo para analisar melhor o que estava acontecendo dentro de mim, pois quando me dei conta já estava mais perto, perguntando a ela quem era a tal pessoa.
Achei que ela tentaria se esquivar do assunto, ou ficar envergonhada por esconder isso de mim, mas jamais pude imaginar o que ela fez a seguir: simplesmente levantando e indo embora.
Obviamente que essa não foi sua reação imediata, primeiro ela me olhou por alguns segundos, sua expressão em choque.
Logo reparei que ela não contava com a possibilidade de que eu ouvisse justamente aquela parte da conversa, mas por quê?
Em poucos segundos ela estava se levantando rapidamente e passando por mim sem dizer uma única palavra.
Me virei de volta para a mesa para ver Frankie olhando para a porta, assim como eu.
– O que foi isso? — perguntei.
– Eu não sei, quer dizer, ela estava bem até...
– Até eu chegar. — completei por ele.
– Eu não disse isso Maura, eu só não entendi.
– Isso que você disse sobre ela estar apaixonada por alguém, é verdade? — me sentei em frente a ele.
– Eu acho que sim, ela não falou com todas as letras mas pelo jeito que descreveu não foi difícil presumir. E pela sua cara você não sabia de nada não é?
– Não. — suspirei e olhei para a madeira da mesa – Por quê ela não me disse?
– Não faço ideia, mas pra ser sincero nem comigo ela estava querendo falar, eu tive que insistir um pouco, ela me pareceu muito assustada.
– E ela disse a quem se referia?
– Não, então eu resolvi deixar por isso mesmo pra que ela não se sentisse pressionada e sugeri o brinde pra animar um pouco as coisas, mas aí...
– Aí eu apareci e a assustei.
– É. — bebeu um gole de cerveja e olhou para fora da janela – Ah me desculpe, você quer beber alguma coisa? — perguntou ao olhar para mim.
– Não obrigada. Perdi a vontade — confessei.
– Ei, não fique assim, tenho certeza que ela vai falar com você.
– É o que eu espero, mas mesmo assim ainda é estranho que tenha reagido desse jeito, como... Como se eu fosse a última pessoa que poderia saber sobre isso.
Eu percebi a expressão facial de Frankie mudar, como se estivesse pensando em algo que exigia um certo esforço, e depois olhou para mim e sorriu.
– Como eu não percebi isso antes? — disse fitando o vazio.
– O que?
– Ah... Bem, algo sobre o caso... Bom é que essa conversa toda me fez pensar em algumas coisas e enfim, acabei juntando as peças.
Pelo modo como as palavras saíram atrasadas em com dificuldade dos lábios dele, foi fácil notar que estava nervoso, mas preferi não questionar.
– Certo, então eu ajudei?
– Você não faz ideia do quanto. — pegou a carteira e separou o dinheiro – Eu tenho que ir agora, desculpe ter que deixa-la sozinha. Se quiser posso te acompanhar até o carro.
– Eu vou ficar bem, estacionei do outro lado da rua.
– Ok, boa noite. — disse colocando as notas sobre a mesa e se levantando.
– Boa noite Frankie.
Ele passou por mim e eu permaneci no mesmo lugar, mas logo constatei que não conseguiria ficar e beber a minha tradicional taça da vinho devido aos últimos acontecimentos.
Peguei minha bolsa e saí.
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Estava no meu escritório pesquisando alguns novos recursos para realizações de autópsias, mas minha mente não matinha a concentração no que eu queria. Eu só conseguia pensar em Jane e no quanto as coisas haviam mudado em tão poucos dias, primeiro aquela mudança repentina de humor, que resultou na nossa briga quase definitiva, e tudo por motivos que ela nunca me explicou, alegando ainda não estar pronta. Depois ao longo daqueles dias em que ela pareceu tão diferente comigo. E então aquele episódio na minha casa, onde ela bebeu demais e disse coisas incomuns, despertando sentimentos e sensações em mim que eu nunca cogitei sentir por ela. Mas é claro que resolvi não falar sobre isso, pois nem eu mesma tinha certeza do que aquelas palavras tinham significado, e muito menos o porquê de terem causado reações tão inusitadas em mim.
E agora aquilo no Dirty Robber, onde uma simples pergunta minha fez com que ela se levantasse e fosse embora sem dizer nada.
Não era justo, éramos amigas, ela não podia me esconder algo desse tipo!
E se estava fazendo isso, teria que haver um motivo.
Num ímpeto eu me levantei e saí rumo ao elevador, determinada a descobrir o que estava acontecendo.
Jane teria que falar comigo, eu precisava de respostas.
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Ao chegar no andar de homicídios estranhei a calmaria.
Será que era muito cedo?
Não importava a hora, eu tinha que tentar falar com ela.
Passei pela porta e a vi com Frankie, que estava sentado em frente a ela, mas só pude ouvir o final da conversa deles.
– Não importa o que aconteça e nem como isso termine Jane, eu quero que você saiba que pode contar comigo sempre. Porque nada disso muda o respeito e admiração que eu tenho por você.
– Obrigada.
Eles se abraçaram e então Frankie me viu pelo ombro de Jane, e se afastou dela.
– Acho que eu já vou indo. — se levantou.
Ela virou e olhou para mim, mas não por muito tempo, apenas o suficiente para entender o porquê de Frankie estar saindo.
Ele passou por mim e sorriu.
Eu dei alguns passos em direção a ela.
– Posso me sentar?
– Claro.
– Eu não queria interromper a sua conversa com Frankie, sinto muito por isso.
– Tudo bem, contanto que você me diga exatamente o que ouviu.
– Nada demais, apenas as duas últimas frases antes de você se abraçarem. — ela riu – O que foi?
– É que você é tão literal.
– Sim eu sou.
– Não é ruim, só diferente.
– Por quê está me dizendo isso?
– Por nada, só achei que era preciso. Eu sei que às vezes perco a paciência, mas...
– Eu não me importo, até porque também perco a minha com você.
– Ah é?
– Sim, a sua falta de paciência acaba com a minha.
Ela ri outra vez, agora mais abertamente.
– Sobre ontem, eu sei que não foi certo sair daquele jeito, mas eu não esperava que você fosse aparecer.
– Eu apareci porque você me chamou.
– Sim eu sei, só que... — suspirou – Eu me distraí falando com Frankie e não pensei que você fosse chegar justo naquele momento.
– E por quê isso te preocupa? — esperei um pouco pela resposta, mas nada veio – Você não queria que eu ouvisse aquilo?
– Não.
– Eu não entendo, pensei que confiasse em mim.
– E eu confio!
– Então por quê não me contou que estava interessada em alguém?
– Porque eu estou mais do que interessada Maura.
– Ah desculpe, eu esqueci que a palavra certa é apaixonada. — eu mesma me surpreendi pelo tom que usei ao dizer aquilo.
– Sim, essa é a palavra, mas eu não tinha aceitado isso oficialmente até ter aquela conversa com o Frankie.
– E será que eu posso saber quem é ele?
– Ele?
– Sim, o homem por quem você está apaixonada.
– É... Bem... Como eu posso dizer isso...?
– Ainda não consegue falar comigo não é?
– Acho que não sobre esse assunto.
– Mas por quê? Você nunca agiu assim antes. Sabe, nunca escondeu, a não ser que... Dessa vez seja mesmo importante pra você. É isso?
– Basicamente sim.
– Essa é uma expressão vaga Jane e eu sei que você pode fazer melhor do que isso.
– Não agora.
– Por quê?
– Ainda não é o momento.
– Como assim o momento? Por quê parece ser tão difícil?
– Porque é.
Suspirei fundo, tínhamos que começar de alguma forma, então tive uma ideia.
– Está bem, já que não pode me dizer um nome, então me fale sobre ele pelo menos.
Eu ainda não sabia como aquilo iria terminar, nem se iria me sentir bem ao ouvi-la descrever o tal alguém, mas resolvi arriscar. Duvidei que pudesse me sentir ainda mais confusa.
– Ok. — sorriu – É inteligente, quero dizer, realmente inteligente, às vezes até demais. É uma pessoa gentil e generosa, que vive tentando participar mais da minha vida e eu realmente adoro isso, embora tente disfarçar na maior parte do tempo. Me ajuda quando eu preciso, e até mesmo quando eu acho que não preciso. Me apoia, me aconselha, me faz rir, e quando nós brigamos eu me sinto péssima. Mas é claro que também me irrita às vezes, e no fundo eu acho que são nossas pequenas discussões e diferenças que fazem com que essa pessoa seja tão especial pra mim.
Eu nunca tinha visto ela descrever alguém assim antes, com esse brilho nos olhos, com essa emoção presente em cada palavra.
Naquele momento não tive duvida de que se tratava de um sentimento real, e aquilo me magoou.
Mas por quê?
Eu deveria estar feliz por ela, talvez até estivesse, mas ainda sim sentia como se perdesse algo importante.
Como se a estivesse perdendo.
Mas isso era ridículo!
Jane e eu sempre acompanhamos o status da vida amorosa uma da outra, sempre falamos sobre tudo e eu nunca havia me sentido assim quando ela se referiu a outra pessoa.
Quando isso teria mudado?
Como eu deveria reagir?
– Maura? — perguntou tocando de leve na minha perna, provocando um arrepio pelo meu corpo – Você está bem?
– Sim, estou. — respondi enquanto ela pegou o copo com o café e o colocou nos lábios.
– Satisfeita com as minhas palavras? — perguntou ao abaixar o copo momentaneamente e depois tomar mais um gole.
Eu decidi dizer algo para tentar aliviar a tensão, sem nem imaginar a reação que minha frase poderia causar:
– Eu posso dizer que sim, afinal, com base na descrição que você deu essa pessoa é basicamente uma versão masculina de mim! — sorri para disfarçar meu nervosismo.
Então a tosse de Jane me assustou, ela havia engasgado com o café e levou alguns segundos para se recuperar.
– Oh, você está bem? — perguntei passando minhas mãos pelas costas dela.
Ela ofegou um pouco, manteve os olhos fechados e depois olhou para mim.
– Claro, eu só não esperava por esse tipo de comentário.
– Desculpe.
– Tudo bem.
– Mas então, não pode me dizer mais nada?
– Não, sinto muito.
– Faz alguma ideia de quando poderá?
– Também não.
– Jane...
– Olha. — pegou minha mão – Sei que não estou no direito de pedir aqui, mas eu preciso que me prometa uma coisa.
– Qualquer coisa. — garanti.
– Prometa que vai ter paciência comigo, porque eu sei que talvez demore um pouco até estar pronta pra falar sobre isso com você. E não quero que sinta que eu estou te excluindo da minha vida de alguma forma, porque não é isso. Não é porque eu contei ao Frankie e não a você que eu te considere menos minha amiga, eu só... Nem com ele eu pretendia falar, simplesmente aconteceu e eu ainda tenho que aprender a lidar melhor com isso. Mas preciso saber que você não vai se irritar e desistir. Promete?
– Eu até posso prometer isso, desde que você prometa que vai se esforçar pra conseguir conversar comigo, ok?
– Eu já estou me esforçando...
– Jane!
– Tudo bem, certo eu prometo! Agora é sua vez.
– Eu também prometo.
– Ótimo.
Nós nos abraçamos, mas dessa vez com mais significado, mais vontade, mais entrega.
Eu precisava sentir que ainda estávamos próximas, que por alguma razão ainda desconhecida não a estava perdendo para alguém cujo nem o nome eu sabia.
Nos afastamos e eu me levantei, indo na direção oposta.
Tive a leve sensação de que tudo poderia ficar bem de novo, de que em algum momento Jane me contaria tudo sobre o seu novo amor.
Sorri por alguns instantes, mas somente até perceber que as chances dessa conversa me incomodar eram enormes.
Apertei o botão do elevador e os segundos que se passaram foram torturantes para mim.
Mas logo ele chegou, as portas se abriram e eu entrei.
A manhã passou como sempre, fomos chamados para um novo caso e depois de horas de uma investigação intensa, eu estava na minha sala revisando alguns relatórios, quando me deparei com uma mensagem no meu celular:
Estou indo para o Dirty com Frost e Korsak, quer nos fazer companhia? :)
Jane.
Sorri automaticamente ao ver que era ela, e logo digitei uma resposta.
Claro! Vejo vocês lá!
Maura.
Fiquei por mais alguns minutos, até me dirigir para o bar.
Frost, Korsak e Jane conversavam sobre algo animadamente quando cheguei.
Ao me ver ela logo abriu espaço no banco para que eu me sentasse ao seu lado.
– E então? O de sempre? — perguntou sorrindo.
Ao vê-la daquele jeito eu fiquei sem palavras, era tão reconfortante saber que não havia mais nenhum traço de preocupação em seu rosto.
Talvez fosse melhor não mencionar sua vida amorosa depois de tudo.
– Maura? — perguntou ao notar minha distração.
– Sim! Ah, o que quer dizer com o de sempre?
– Vinho, quero saber se você quer vinho.
– Quero! Vinho, claro, seria ótimo!
– Você está bem Drª Isles? — Korsak me perguntou.
– Estou, por quê a pergunta?
– Parece meio nervosa.
– Só tive um dia estressante e então fica um pouco mais difícil conseguir focalizar em pequenas coisas. Sinto muito.
– Tudo bem. — Jane respondeu e fez sinal para a garçonete, que logo trouxe a minha taça de vinho tinto.
A hora seguinte se passou descontraidamente, eu ri em vários momentos com os diálogos que Frost e Korsak trocavam, sempre com suas piadas e comentários sobre algo que aconteceu durante o dia.
Eu definitivamente apreciava muito a companhia deles.
Mas assim como a noite avançou, ambos disseram que já estava tarde e avisaram que iam se retirar.
– Não faça nada que eu não faria. — Frost disse para Jane.
– Haha, muito engraçado.
– Falo sério, toda vez que você bebe acaba fazendo besteira! — afirmou se levantando.
– Frost! O que a Maura vai pensar?
– Desde quando você se importa com isso Jane? — mas ela não me respondeu – E além do mais, eu já te vi bêbada.
Todos riram, menos ela, que ficou constrangida pela menção de algo que ela não conseguia se lembrar.
– Oh! Acho que isso responde a sua pergunta. — ele disse sorrindo para ela – Mas aqui entre nós Drª... Ela não fez nada errado fez?
– Frost... — ela alertou.
– O que exatamente você quer dizer com ‘errado’ detetive? — perguntei.
– Ah bom, todo tipo de coisa, já que geralmente quando bebe além da conta acaba sempre falando o que não deve, mas que costuma ser só o que ela não tem coragem de dizer quando está sóbria.
– Ok, agora chega. Korsak leve-o pra casa, está óbvio pra mim que ele já bebeu demais. — Jane disse.
– É, acho que você tem razão. Vamos! — Korsak disse pegando no braço de Frost – Boa noite.
– Boa noite. — ela e eu respondemos ao mesmo tempo.
Provavelmente não era certo confiar no que Frost disse, afinal, ele não respondia completamente por seus sentidos devido ao álcool.
Então por quê Jane ficou tão incomodada com o assunto?
Aquilo teria algum fundo de verdade?
– Maura... Sobre o que ele disse, eu...
– Você não precisa se explicar.
– Eu sei, mas é que ainda me incomoda não lembrar de nada daquela noite na sua casa. Como posso ter bebido daquele jeito?
– Acontece, não se culpe.
– Mesmo assim, eu sinto que ainda tem algo que você não está me contando.
– Você e seus instintos...
– Sim, eu e eles... — pegou a garrafa de cerveja e bebeu um gole – Mas você ainda não me respondeu.
– Porque nenhuma pergunta foi feita.
– Ok, então oficialmente: tem mais alguma coisa sobre aquela noite que você não me disse?
– Sim.
– E o que é?
– Bom... — mas eu não consegui dizer mais nada.
– Certo, agora eu estou com medo. O que foi que eu fiz?
– Nada grave.
– Ainda sim é alguma coisa, mas o que? — sem palavras, eu não conseguia – Vamos Maura! Espere... Não me diga que eu... Eu tentei te agarrar?
Os olhos dela estavam arregalados e a respiração pesada. Claros indícios de que a resposta para aquela pergunta era realmente de extrema importância.
Mas por quê ela me perguntou aquilo?
Por quê exatamente essa possibilidade passou pela cabeça dela?
– O que? Por quê você acha que teria feito isso?
– Eu não sei, só que tem sido dias muitos estranhos e eu achei que talvez pudesse ter... Ah... Apenas me diga se eu fiz isso ou não.
– Não. — sua expressão se suavizou – Mas foi por pouco.
– Como assim?
– Você disse algumas coisas estranhas. — bebi um gole de vinho.
– Que coisas?
– Nada que fizesse muito sentido, apenas algumas indiretas. Fique tranquila, tenho certeza de que tudo não passou do álcool reagindo no seu organismo.
– Claro, o álcool... — ela fitou o vazio – Me desculpe se eu te constrangi. — disse ainda sem olhar para mim.
– Não constrangeu, eu estava ciente dos motivos de todas as palavras. — e não era mentira, eu estava mesmo ciente, ou desejava estar, enfim, naquela altura já nem sabia mais.
– Isso me tranquiliza, de verdade.
– Por quê?
– Por que o que?
– Por quê te tranquiliza? Quero dizer, por quê se importa tanto?
– Bom porque somos amigas e eu não queria que se sentisse desconfortável com algo que eu tivesse feito ou dito.
– Você não controlava suas ações e muito menos suas palavras naquela noite Jane.
– Eu sei, mas isso não diminui minha culpa.
– Eu entendo.
Conversamos mais um pouco, até decidirmos que já estava de fato ficando tarde, eu disse a Jane que meu carro estava na outra rua, pois não tinha encontrado vaga para estacionar, e ela se ofereceu para me acompanhar até ele, alegando andar armada e ter condições de me proteger.
Eu estranhei, ela nunca tinha feito nada isso antes, mas não questionei e aceitei.
Caminhávamos pela rua escura e ela começou a falar do caso, mais especificamente sobre o garotinho de 8 anos que havia sido encontrado morto em um parque, cujo assassino ainda não tinha sido encontrado, mas estávamos trabalhando nisso.
– Eu não consigo entender como alguém consegue machucar uma criança indefesa.
– Muitos distúrbios psicológicos podem explicar esse tipo de crueldade.
– Você me entendeu. Eu acho que esse tipo de coisa não devia acontecer e esse tipo de gente não devia existir. Mas não dá pra controlar, quanto mais monstros como esse são colocados na cadeia, mais deles se espalham por aí. Parece um ciclo vicioso. Será que isso nunca vai ter fim?
Nossos braços se encostavam vez ou outra, aquilo já havia se tornado natural e fazia eu me sentir em paz.
– Sinceramente não tenho a menor ideia, mas espero que sim.
– E eu agradeço a sinceridade. Considerando é claro que você é sempre assim.
– Assim como?
– Verdadeira e... Transparente.
– Isso foi um elogio Det. Rizzoli?
– Acho que sim Drª Isles, mas cuidado com seu ego!
Nós rimos.
– Mas falando sério, eu realmente entendo o que quer dizer com esse assunto sobre a violência, como no caso desse menino de hoje.
– Eu só não me conformo. E sei que deveria já que trabalho com isso há anos, mas ainda assim é difícil.
– Não se culpe por ter sentimentos Jane.
– Queria poder acabar com esse tipo de coisa.
– Todos nós queremos. — mais alguns passos, então eu senti que precisava dizer algo – Você é uma ótima pessoa.
– Agora eu estou sendo elogiada?
– Sim, está, aproveite o momento! — mais risadas e eu consegui avistar o meu carro no fim da rua – Mas é verdade. Fico feliz em saber que essa vida de policial não endureceu o seu coração.
– É eu também.
– Quem quer que seja essa pessoa por quem você está apaixonada... — ela me olhou – Espero que saiba a sorte que tem.
– Talvez ela até saiba, só não esteja pronta pra admitir ainda.
– O que quer dizer?
– Bom, é que apesar de adorável, ela também é muito teimosa.
– Ela? — eu paro ao lado do meu carro – Como assim ela?
De repente tudo pareceu fazer algum sentido, e já estava mais do que na hora.
Aquele devia ser o motivo de Jane se sentir tão desconfortável sobre o assunto.
Ela estava apaixonada por uma mulher!
Mas será?
Se fosse verdade, quem poderia ser?
Eu tinha que averiguar, mas ela não disse mais nada.
– Jane, eu fiz uma pergunta!
– E eu ouvi!
– Então por quê não me respondeu?
– Foi só um erro com as palavras Maura, só isso. Eu não quis dizer “ela”! — tentou, mas não soou muito convincente.
– Sim você quis! — afirmei.
– Como pode ter tanta certeza?
– Porque as chances de você ter errado na referência ao sexo da pessoa por quem está apaixonada duas vezes, é mínima.
– Eu...
– É isso não é? O tal alguém é uma mulher! Essa é a razão de você estar tão nervosa.
– Se você já está afirmando, pra que precisa que eu confirme?
– Porque somos amigas, e... E eu quero saber quem é ela, e como a conheceu... Enfim, quero saber como aconteceu.
– Eu não posso.
– Não pode o que?
– Falar sobre isso.
– Jane...
Eu não tive chance de terminar, não pude dizer mais nada para convencê-la a falar comigo, pois quando percebi ela já estava indo embora.
A rua estava silenciosa, já era tarde, e ao longe a silhueta de Jane foi desaparecendo através da escuridão.
Assim que eu já não podia mais vê-la, abri a porta do carro e entrei nele, depois de assegurar que estava devidamente trancado, eu suspirei pesadamente e coloquei as mãos no volante.
Jane não negou minha afirmação, ela simplesmente fugiu.
Eu poderia entender o porquê de ser difícil para ela admitir algo tão inesperado e novo como um sentimento romântico por outra mulher, afinal de contas sua família era religiosa e ela foi criada distante de todo esse tipo de possibilidade de relacionamento.
Claro que não tinha preconceito, disso eu tinha certeza. Mas ainda assim a diferença entre não se importar com a escolha de outras pessoas, e não se importar com a sua própria escolha, era imensa. Afinal, quando se trata da nossa vida, tudo fica mais complicado.
Será que ela falaria comigo sobre isso?
Mas quando?
Eu estava pronta pra ouvi-la descrever sua nova e incomum paixão?
Como me sentiria diante disso?
Apertei minhas mãos contra o volante ao finalmente entender que nada ficaria bem dentro de mim depois de tudo isso.
Eu certamente não me sentiria bem ao conversar com Jane sobre seus sentimentos.
Mas quando isso começou?
Quando eu passei a não conseguir encarar algo que antes foi tão simples?
Quando e como meus sentimentos por ela mudaram?
Oh eu não fazia ideia!
Mas algo era certo: aquilo, seja lá o que fosse, estava realmente presente no meu coração, eu não podia mais negar nem evitar. Mas como conviver com algo assim quando não posso mentir sem sofrer de um ataque de urticária?
O que fazer quando se descobre uma paixão repentina por sua melhor amiga?
Continua...
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