Um Sonho Inesperado
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Enjoy!
Meus olhos ardiam com a claridade que entrava pela janela, minha garganta estava seca, tentei me sentar na cama mas senti minha cabeça latejar.
Tinha alguns flashes de memória da noite anterior, mas tudo ainda permanecia confuso, me lembrava de chegar na casa de Maura para vermos um filme, ela tinha decidido se arriscar com uma comédia romântica, mas eu não gostei muito da ideia, então resolvi criticar cada segundo, porque mesmo parecendo irritada com meus comentários, eu sabia que ela achava graça.
Então, comecei a beber, meu plano era apenas uma cerveja ou duas, e quando me dei conta já havia saído do meu controle.
Mas depois disso tudo parecia um borrão, nada de específico vinha na minha mente, e eu me preocupei com o que podia ter acontecido.
Após um certo esforço consegui me estabelecer melhor na cama e olhei ao redor, percebendo que estava no quarto de hóspedes de Maura, o mesmo no qual já havia dormido tantas vezes.
Passei minhas mãos pelo cabelo e levantei o mais devagar que pude, pois ainda sentia meu corpo muito pesado, caminhei em direção ao banheiro e joguei um pouco de água no rosto, me sequei com a toalha macia e olhei no espelho.
Logo reparei na blusa que vestia, que com certeza não era uma das minhas, já que eu sabia muito bem que não a estava usando quando tinha chegado lá naquela noite.
Passei a mão pelo tecido suave, não era preciso dominar o mundo da moda para perceber que se tratava de seda legítima.
Aquela peça só poderia pertencer a ela, a única pessoa que usava esse tipo de coisa em qualquer ocasião como se estivesse sempre pronta para sair na capa de alguma revista.
Saí do banheiro e resolvi procurar por Maura, assim que cheguei na sala eu a vi, preparando o café com o mesmo cuidado que muitas vezes me deixou impaciente, mas que naquele momento pareceu extremamente adorável.
– Bom dia! — ela disse ao notar minha presença, mas ainda sem desviar a atenção da máquina de café.
– Shhh... Fala baixo, minha cabeça dói. — reclamei enquanto me aproximava do balcão.
– Efeitos colaterais Jane. Isso é o seu corpo reagindo à quantidade de cerveja que você ingeriu ontem.
– Ah não, sermão agora não, por favor.
– Não é sermão, estou apenas te informando.
– E eu pareço querer essa informação?
Mas ela ignorou minha pergunta e continuou:
– Deveria ter me escutado e parado de beber enquanto ainda estava em um nível aceitável.
– Sério? Você não vai mesmo me deixar ficar quieta no meu canto curtindo a minha ressaca em paz né? — perguntei ao cobrir meu rosto com as mãos e me apoiar no balcão.
– Não mesmo.
– Ah Maura...
– Vamos, beba isso, vai te fazer bem. — disse me entregando uma xícara de café.
– O que? Pra que? Eu não quero!
– Eu sei o que eu digo, a cafeína te manterá acordada para que possa enfrentar o dia.
– E quem disse que eu quero fazer isso? — peguei a xícara, mas não bebi – Só quero dormir e esquecer essa maldita dor de cabeça.
– Você tem que trabalhar, esqueceu?
– Eu gostaria de esquecer, pelo menos por hoje, mas você não deixa.
– E nem vou deixar, a vida continua, não importa quantas ressacas encare.
E com isso ela se virou para a pia e eu continuei ali, tentando entender aquela frase.
Maura nunca foi do tipo que filosofa então de onde tirou aquilo?
– O que deu em você?
– Como? — perguntou, mas sem se virar.
– Eu perguntei o que deu em você. Porque tem alguma coisa estranha.
– Pare de se preocupar comigo e beba o seu café.
– Primeiro me diga o que está errado.
– Nada. O que te faz pensar que estou com algum problema? — finalmente me encara.
– Eu não sei direito, você parece meio distante.
– Engano seu, estou ótima! — afirmou, mas algo na voz dela me fez duvidar – Agora, beba!
– Ok, já que não tem outro jeito.
Eu coloquei a xícara nos lábios, e o vapor do café me atingiu antes mesmo do próprio liquido.
Bebi e coloquei o recipiente sobre o balcão.
– Pronto, satisfeita?
– Muito. — respondeu.
– Certo, agora será que você pode me dizer o que aconteceu ontem à noite?
Então eu ouvi um barulho, Maura deixou um copo cair no chão e meu instinto me alertou que algo estava claramente errado.
– Você se cortou? — eu perguntei.
– Não, estou bem. — ela recolheu os cacos com cuidado e os jogou fora.
– Pode responder a minha pergunta agora ou prefere deixar cair outra coisa antes?
– Eu não fiz de propósito.
– É, eu sei. Acho que foi apenas o susto com as minhas palavras, mas agora eu me pergunto: por quê elas te assustariam? Eu falei algo errado?
– O que? Não! Eu só estou surpresa por você não se lembrar de nada.
– Eu também. Odeio me sentir assim, como se minha cabeça estivesse em branco.
– Mais um efeito da bebida.
– E você está desviando do assunto.
– Acho melhor nós irmos logo. — disse olhando para o relógio.
– Pra onde?
– Pra sua casa, você precisa de um banho frio, e eu duvido que queira tomar aqui, já que teria que usar uma das minhas roupas.
– Oh não! Você me convenceu, eu vou.
– Certo, espere só um momento, eu já tomei banho só tenho que me trocar.
– Você vem comigo? — perguntei sem tentar disfarçar meu espanto.
– Na verdade eu vou te levar.
– Ah não, não mesmo! Sem chance!
– Isso não está em discussão, você ainda não está totalmente apta pra dirigir.
– Estou sim, olhe! — ergui os braços e dei uma volta, mas minha cabeça doeu e eu coloquei a mão sobre ela – Ai!
– Eu avisei.
– Ok sabe tudo, só não demore.
Mas ela não respondeu, apenas se virou e saiu.
Eu suspirei e fui em direção ao sofá, onde me sentei e coloquei os pés sob a mesa de centro.
Maura não havia respondido a minha pergunta, e embora tivesse tentado desviar minha atenção, ainda sim eu consegui perceber o quanto ela ficou nervosa de repente, e logo tratou de mudar de assunto.
Mas por quê?
Então uma possibilidade me passou pela cabeça:
E se eu fiz algo que a constrangeu?
Ou pior:
E se eu tentei algo com ela?
Amaldiçoei meu cérebro por não conseguir se lembrar dos fatos corretamente.
Não poderia ter colocado tudo a perder, não depois de passar toda aquela semana me esquivando de contatos mais íntimos.
Sim, porque eu havia feito isso. Não conseguia olha-la nos olhos quando íamos ao Dirty Robber e por isso sempre sentava ao lado dela, já que morria de medo de perder o controle e me deixar levar pela cerveja, assim como poderia ter feito na noite passada.
Mas também logo me lembrei das vezes ao longo daqueles dias em que simplesmente não pude me conter e fiquei observando-a, algumas vezes no necrotério, na sala dela, e até mesmo na cena do crime quando ela se agachava perto do corpo.
Uma situação que eu não deveria apreciar, mas era mais forte do que eu.
Eu tentei com todas as minhas forças para agir normalmente, mesmo sendo traída pelos meus instintos vez ou outra.
Teria estragado tudo na noite passada?
Suponho que me perdi nos pensamentos, pois quando menos esperava Maura estava de pé na minha frente, com uma saia vinho e uma blusa branca, tão linda como sempre, e até mais.
– No que estava pensando? — ela perguntou.
– No... Ah bem, no que aconteceu ontem a noite.
– Jane...
– Por quê você não quer me dizer?
– Vamos fazer assim, você chega na sua casa, toma um banho, se arruma e então eu te conto tudo o que quiser saber. Tudo bem?
Eu confirmo com a cabeça e então saímos.
Durante todo o trajeto permanecemos em silêncio, até que chegamos na minha rua.
Depois de passar pela tradicional dificuldade com a chave eu finalmente consigo abrir a porta.
Maura entra e senta no sofá.
– Bem, eu vou para o banho e você... — ela me olhou com curiosidade e um arrepio percorreu o meu corpo – Sinta-se em casa.
Liberei um sorriso e saí rumo ao banheiro.
Eu abri o registro do chuveiro e chequei a temperatura da água, tirei minha calça e depois a blusa, só que essa com mais cuidado, já que não era minha.
Coloquei tudo sobre a pequena estante e entrei debaixo d’água.
Suspirei e me deixei levar pela sensação de limpeza e relaxamento que me dominou enquanto tomava banho.
Ao terminar, escolhi minhas roupas de trabalho sem muito esforço, e voltei para a sala.
Maura permanecia no mesmo lugar.
– O que ficou fazendo? — perguntei parando um pouco antes do sofá.
– Lendo algumas revistas. — disse olhando para mim.
– Certo, acho que você já pode falar agora.
– Falar o que?
– O que aconteceu ontem.
– Oh, isso.
– É Maura, isso. Vamos diga de uma vez se eu fiz alguma besteira, quanto antes eu souber melhor.
– Você não fez nada que uma pessoa alcoolizada não faria.
– E isso é bom?
– Nem bom nem ruim. Apenas normal.
– Ok, seja mais clara.
– Mas eu estou sendo. Você começou a beber mais do que deveria e eu te alertei, obviamente você insistiu que eu estava exagerando e após uma tentativa fracassada de demonstrar que estava sóbria, finalmente se convenceu.
– Tentativa? O que eu fiz?
– Nada demais, tentou ficar em pé mas não conseguiu.
– Bom, não é tão ruim quanto eu pensava. Mas em que parte decidi usar uma blusa sua?
Ela sorriu e olhou para o chão, então se levantou e passou por mim, indo em direção à cozinha.
Eu estava prestes a perguntar de novo, mas ela interrompeu minhas intenções:
– Essa é parte mais engraçada.
– Por quê será que eu tenho a leve impressão de que não vou achar graça nenhuma?
– Não se preocupe Jane, você estava me ajudando a limpar a bagunça e então tropeçou e derramou a cerveja na sua blusa. — disse abrindo a geladeira e pegando uma garrafa d’água.
– Aposto que você riu da minha cara.
– Não na hora, mas agora que eu estou pensando... Sim, foi realmente engraçado.
– Eu imagino. — digo com sarcasmo – Mas e depois?
– Depois eu ofereci uma blusa e mesmo relutando você acabou concordando.
Ela bebeu a água e eu a observei, fui treinada para interrogar suspeitos e isso sempre me ajudou a ler a expressão corporal das pessoas. E havia algo na expressão de Maura que me pareceu diferente.
Me perguntei se devia questionar, mas então achei melhor parar.
Resolvi confiar no fato dela não conseguir mentir.
– Obrigada. Agora posso respirar tranquilamente.
– Ainda não entendo o motivo de toda essa preocupação. Do que tem tanto medo?
– Medo? Eu? De nada! Só estava curiosa e confusa...
– Espero ter ajudado.
– Ajudou. — eu afirmei, e então meu celular tocou, ao mesmo tempo que o dela – Rizzoli. — atendi.
Fomos informadas de um corpo em um beco no centro da cidade, Maura passou rapidamente na rua dela para que eu pegasse o meu carro.
Passamos o dia investigando mas tudo continuava sem fazer muito sentido.
Nos falamos apenas quando necessário, eu não sabia ao certo o que era, mas algo estava diferente com ela, principalmente no modo como olhava para mim.
Será que eu fiz alguma coisa?
Será que tinha me deixado influenciar pela cerveja e contado sobre o sonho?
Mas logo percebi que ficar tentando encontrar respostas para essa pergunta só me deixaria ainda mais nervosa, e resolvi confiar no que ela havia me dito, pelo menos por enquanto acreditando que nada demais tinha acontecido.
Eu precisava acreditar, certo?
As horas passaram devagar demais para o meu gosto, de noite chamei Frost e Korsak para beber algo antes de irmos embora, mas eles recusaram alegando terem outros compromissos, que eu não questionei.
Então Frankie apareceu e eu fiz o convite e ele, que aceitou rapidamente.
Mandei uma mensagem para Maura:
Frankie e eu estamos indo ao Dirty. Que vir com a gente?
Jane.
Após alguns minutos, a resposta:
Sim, só preciso terminar alguns relatórios, mas eu encontro vocês lá!
Maura.
Digitei uma resposta simples:
Ok, combinado.
Jane.
Então Frankie e eu chegamos ao bar, pedimos nossas cervejas e começamos a conversar, assuntos variados, trabalho, nossa família, e por último, porém não menos importante: esporte.
Como em um impulso me lembrei de que a qualquer momento Maura chegaria, e me calei.
Tentei recapitular todos os últimos acontecimentos e formular uma linha de estratégia para continuar mantendo meus sentimentos por ela sob controle.
– Uma moeda por seus pensamentos. — ele disse, me tirando do “transe”.
– O que? — perguntei, ainda um pouco atordoada.
– Onde estava a sua cabeça Jane?
– Minha cabeça?
– É, parecia estar em todos os lugares, menos aqui.
– Impressão sua. — tentei.
– Não vêm com essa, eu te conheço, e não é de hoje que você está estranha.
– Acho que você precisa de mais uma cerveja maninho. — levantei o braço para fazer sinal para a garçonete mas ele me impediu.
– Você não confia em mim?
– Frankie...
– É uma pergunta simples, confia ou não?
– Claro que confio.
– Então me conta o que está acontecendo.
– Mesmo se não estiver acontecendo nada?
– Eu sei que está. Não sei o que é, mas alguma coisa aconteceu, você parece meio distante e ao mesmo tempo preocupada.
– Não é nada demais, eu vou ficar bem.
– Sim, mas até lá não faria mal nenhum dividir com seu irmão aqui não é?
– Eu não sei...
– Vamos Jane, confie em mim.
Eu poderia dizer a Frankie o que me preocupava?
Poderia tentar, não precisava dizer exatamente tudo.
– É que é um pouco difícil...
– E pessoal. — completou.
– Como sabe?
– Pelo seu jeito, mas continue, estou ouvindo.
– Aconteceu uma coisa alguns dias atrás e agora eu nãos sei como lidar com isso. Quer dizer, venho tentando nesses últimos dias, mas tem sido difícil, e meu medo é que só piore. — falei apressadamente, esfregando a cicatriz na minha mão direita, um gesto que não passou despercebido por Frankie.
– Pode me dizer do que se trata?
– Ainda não, é que é muito confuso pra mim e...
– E falar disso ainda é estranho pra você.
– Eu só... Não consigo entender como começou e nem o porque.
– O que começou?
– O que você faria se sentisse algo por alguém, algo forte e real mas totalmente inesperado e confuso, e que mesmo você sabendo que provavelmente é um erro terrível, ainda assim não consegue evitar?
– É uma boa pergunta. Mas pra te responder, eu teria que saber um pouco mais, como por exemplo, o porquê de parecer tão errado.
– Bom, porque a outra pessoa... — mas não consegui terminar.
– Não sente o mesmo? É isso?
– Eu não sei, eu nunca perguntei.
– Por quê não?
– Porque eu não posso, não consigo me imaginar perguntando e correndo o risco de estragar o que já temos e... — notei que tinha falado demais.
– Então você mantém contato com essa pessoa?
– Ah Frakie, eu não devia ter dito isso... Você não devia ter perguntado e...
– Claro que devia, e sabe o que eu acho? Que mesmo que você não tenha me dado muitos detalhes, de uma coisa eu tenho certeza: você nunca vai saber se poderia ter dado certo, se não tentar.
– Você não entende, é mais complicado do que parece.
– E se não for? E se for fácil e você descobrir isso tarde demais?
– Como assim?
– Jane, eu não faço ideia de quem você está falando, mas seja lá quem for, está claro pra mim que é real, porque dificilmente eu te vejo assim por causa de alguém.
– Frankie...
– Só pense Jane, pense que dessa vez pode realmente valer a pena tentar.
– Eu não sei...
– Ok, esqueça isso por enquanto, pode decidir o que fazer quando chegar em casa, porque eu sei que não vai falar mais nada sobre isso comigo, então... — levantou a garrafa de cerveja – Vamos fazer um brinde!
– Sério?
– Muito sério! — afirmou.
– E a que nós vamos brindar?
– A você.
– Por quê?
– Porque não é todo dia que se descobre que Jane Rizzoli está apaixonada!
Eu teria gritado para ele falar baixo e parar com aquilo, teria dito que apaixonada era uma palavra muito forte, embora soubesse que era perfeita.
Eu me arriscaria a dar um soco no braço dele e usar minha autoridade de irmã mais velha para fazê-lo abaixar aquela garrafa.
Mas nada disso foi possível, pois antes mesmo de poder sequer organizar minhas ideias, uma voz rompeu atrás de mim.
– Apaixonada? — oh sim, eu conhecia aquela voz, aquela doce e suave voz – Por quem?
Estremeci e me virei lentamente para olhar para Maura que estava parada a menos de um metro de distância.
Como pude esquecer que ela iria nos encontrar lá?
A conversa com Frankie me distraiu e naquele instante pareceu muito tarde para remediar o erro.
Na minha cabeça o bar todo havia sumido, estávamos somente Maura e eu, e me apavorei ao tentar encontrar uma resposta para ela, enquanto olhava em seus olhos, que tinha uma mistura de curiosidade e algo a mais que não consegui identificar.
Sim, eu estava com sérios problemas!
Continua...
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