Notas iniciais
Ficou maior do que o previsto, mas essa cena estava na minha cabeça então tive que escrever.
É realmente um desafio escrever as falas de alguém tão inteligente como a Maura, ela é sempre sincera, fala tudo do jeito certo e tudo mais...
Então se algo nas falas dela não fizerem sentido, eu sinto muito. Fiz o melhor que pude.
Ah e é claro, esse é o ponto de vista dela, fiquei surpresa ao conseguir escrever mais do que no capítulo dois...
Mas agora chega, vou deixar vocês lerem :)
Enjoy!

Fazia uma semana desde minha briga com Jane, o que significava que faziam seis dias desde que nos reconciliamos. Me deixava feliz saber que não permanecemos brigadas nem sequer por 24 horas.

Claro que o que ela havia me dito tinha me magoado, mas quando se desculpou pareceu estar sendo realmente sincera, digo isso porque sempre fui boa em analisar as pessoas, e naquele momento tudo nela indicava que estava arrependida.

Durante aquela semana eu fui percebendo pequenas diferenças, como no modo como ela me olhava, às vezes achando que eu não notava e desviando a atenção em seguida, em outras deixando escapar alguns toques com as mãos, que eu julgo terem sido intencionais.

E ao mesmo tempo em que tentava algum tipo de aproximação, ela também evitava contatos que antes eram comuns.

Quando íamos ao Dirty Robber depois do trabalho ela não se sentava na minha frente, somente ao meu lado.

Nos primeiros dias deixei passar, mas depois comecei a ficar realmente intrigada.

O que estaria acontecendo?

Era uma noite de sexta-feira, estávamos na minha casa para assistir um filme, eu pensei que tudo seria exatamente como sempre, conversaríamos, riríamos e depois continuaríamos com nossas vidas. Mal sabia o quanto estava enganada.

Depois de vermos um filme que eu havia escolhido e Jane havia criticado a noite inteira, eu resolvi deixa-la assistir ao canal de esportes.

Permaneci ao lado dela, ainda tentando entender os motivos pelos quais ela gritava para a televisão sendo que não poderia mudar o resultado do jogo.

– Ainda não consigo entender.

Ela parou de beber a cerveja e virou para mim.

– Entender o que?

– O porquê de você ficar gritando.

– Ah Maura, é uma questão de vibrar pelo time! Você deveria tentar!

– Vibrar pelo time? — ela assentiu animadamente – Como assim?

– Realmente não faz ideia não é?

– Não, sinto muito.

– Ok, é assim: se você torce pra determinado time, e está assistindo ao jogo dele, você se entusiasma e grita. Entendeu?

– E qual a razão disso? Eles não podem te escutar!

– Não aqui, mas se eu estivesse no estádio poderiam.

E voltou a beber olhando para a TV.

– Certo, mas você não está.

– Eu sei, só que isso não diminui a minha vontade de que meu time ganhe. Simples!

Um dos jogadores fez um ponto e ela gritou novamente.

– Você vai acabar irritando as suas cordas vocais. — eu avisei.

– Relaxe, elas vão sobreviver.

– Mesmo assim, está usando um tom muito elevado hoje.

– Estou animada, só isso!

– Não, está bêbada, isso sim.

– Como é?

– Você me ouviu! Quantas cervejas já tomou?

– Eu sei lá, não fico contando!

– Pois deveria, olhe a quantidade que tem sobre a mesa. — apontei para o aglomerado de embalagens vazias.

– Prometo limpar a bagunça antes de sair.

– Essa não é a questão.

– Então qual é?

– Jane, eu sei avaliar quando uma pessoa está sucumbindo aos efeitos do álcool, e não tenho duvida de que é o que está acontecendo com você.

– Maura, eu não estou bêbada! — se levantou, mas perdeu o equilíbrio e caiu no sofá.

Ficou sem jeito e liberou um suspiro.

– Você dizia algo?

– Acho que não.

– Bom então vamos, eu te ajudo a ir para o quarto.

– O que?

– Você não está em condições de dirigir.

– Claro que estou. — ela tentou.

– Sério? Não conseguiu ficar de pé nem por dois segundos!

– Eu...

– Vamos, você se explica amanhã, agora precisa descansar.

Desliguei a televisão e estendi a mão para ela, que após resistir um pouco, aceitou.

Estávamos caminhando em direção ao corredor e eu notei como os passos dela eram instáveis.

Estava definitivamente sob os efeitos da cerveja.

– Ei espere! — ela parou – Vou te ajudar a arrumar aquilo.

– Não há necessidade.

– Claro que há. — virou e se apoiou na parede – Eu fiz a maior parte daquela bagunça, o mínimo que posso fazer é arrumar.

– Jane, eu falo sério. Não se preocupe com isso.

– Eu também falo. Sei que preciso dormir, estou me sentindo meio mole mas...

– Essa é uma expressão vaga e sem fundamento, na verdade... — parei de falar ao sentir os dedos dela nos meus lábios, me surpreendendo.

– Shhh... Chega de dar uma de Google. — sorriu e abaixou a mão — Eu ia dizer que sei que preciso descansar, mas não vou me sentir bem sabendo que deixei você arrumar tudo isso sozinha.

– Já vi que não vou conseguir te convencer do contrário mesmo, então tudo bem.

Era impressionante, mesmo não respondendo completamente por seus sentidos devido a cerveja, ela ainda conseguia ser incrivelmente teimosa. E eu adorava isso.

Passamos alguns minutos recolhendo as coisas da sala de estar, então eu avistei uma última garrafa de cerveja no chão, ao lado do sofá.

– Ali Jane, tem outra! — eu apontei para o lugar.

– Eu pego.

Nesse instante fiquei insegura, afinal, no estado em que ela estava, se abaixar para pegar algo podia ser pedir demais.

Ela conseguiu, se abaixou e pegou, e quando pensei que tudo tinha terminado bem e ela não iria cair no meu tapete, algo ainda pior acontece.

Ela tropeça e de algum modo deixa o liquido da garrafa atingir sua blusa, molhando-a quase que por completo.

Com o susto deixou a garrafa cair e o vidro se estilhaçar no chão.

– Oh meu Deus Maura! Sinto muito, eu vou limpar! — tentou se abaixar mas eu a impedi.

– Não! Deixe isso pra lá, eu mesma limpo. Sente-se lá no sofá.

– Mas...

– Vá! Eu cuido disso.

Acompanhei cada passo dela em direção ao sofá, a distância era muito curta, mas ainda perigosa naquele momento.

Depois de recolher os cacos de vidro e joga-los fora eu fui até Jane, que para minha surpresa ainda estava acordada, fitando o vazio.

– Pronto, sem sinais de vidro. — disse me sentando ao lado dela.

– Me desculpe, eu sei que devia ter bebido menos, não sei o que deu em mim.

– Tudo bem, eu não me importo.

– Não diga isso, eu deixei a sua casa uma bagunça e até quando estou tentando limpar consigo fazer besteira.

– Não foi culpa sua, e sim da reação do seu organismo a cerveja que bebeu.

– Culpa minha de novo. Bebi porque quis.

– Sim, mas a ressaca que vai enfrentar amanhã já será castigo suficiente. — eu sorri.

– Puxa, isso faz eu me sentir tão melhor. — conhecendo a como conhecia, aquilo foi sarcasmo.

Coloquei minha mão sobre a blusa dela, que estava encharcada.

Percebi que ela se surpreendeu com o meu toque e me olhou assustada.

– Estou vendo se não se machucou.

– Não, eu estou bem.

Levantei a blusa e notei os músculos abdominais dela se enrijecerem, mas resolvi não questionar.

– Sim, está. Não vejo nenhum corte causado pelo vidro.

– Eu tive sorte.

– Nem tanta. Olhe o estado da sua blusa!

– Sim... Molhada.

– Muito. — me levantei e repeti o ato de antes, fornecendo a mão para ela – Vamos, eu te empresto uma minha pra você dormir.

Ela permaneceu no mesmo lugar.

– Não precisa, ela vai secar.

– Sim mas vai demorar, e será muito pior dormir com uma peça molhada desse jeito. — minha mão continuava estendida, e ela finalmente aceitou.

– Ah Maura, não sei se quero aceitar...

– Por quê? — perguntei enquanto andávamos lentamente.

– Porque suas roupas são cheias de frescuras, e eu gosto de me sentir confortável.

– Minhas roupas são muito confortáveis Jane.

– Uh, claro! Um exemplo disso são aquelas saias que você usa, nas quais não tem nem espaço pra respirar.

– Eu gosto de peças justas. Algum problema com isso? — estávamos no corredor rumo ao quarto de hóspedes.

– Não, nenhum. Você fica linda nelas inclusive.

Jane já tinha me elogiado outras vezes, mas havia algo no tom da voz que ela usou que chamou minha atenção.

Virei para olha-la e ela sorriu. Seus olhos brilhavam de uma forma diferente também.

Me puni mentalmente por não conseguir decifrar aquilo.

– Oh... Obrigada. — disse após alguns segundos.

Paramos em frente ao quarto.

– Consegue entrar sozinha? — perguntei.

– O que te faz pensar que estou tão mal assim?

– Os acontecimentos dessa noite. — respondi sinceramente, mas com um sorriso no rosto.

– É, acho que perdi minha moral por hoje... Mas sim, eu consigo entrar.

– Ok, vou até meu quarto pegar uma blusa. Já volto.

Cheguei ao quarto e abri meu armário, procurei por algo confortável mas bonito, e logo encontrei, afinal, modéstia parte sempre soube como escolher minhas roupas. Lamento que nem todos concordem.

Escolhi uma blusa de seda leve, azul bebê.

Voltei para o quarto e a encontrei na cama, deitada.

Fiquei observando-a por alguns segundos.

Os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro branco, a respiração leve mas claramente perceptível, o modo como parecia relaxada e ao mesmo tempo em alerta, devido ao que ela mesma intitulava de “instinto policial”.

Ela era tão linda, tinha traços fortes e marcantes, e ainda assim um rosto feminino.

O corpo em ótimo estado, contrariando a alimentação desregulada e incorreta.

– Sabia que é estranho ficar olhando pra alguém por tanto tempo Drª? — ela perguntou ainda com os olhos fechados, e depois os abriu.

– Pensei que tivesse adormecido.

– Estava esperando o meu traje glamoroso. — disse se endireitando na cama.

– É apenas uma blusa, não exagere. — entreguei a peça a ela, que ficou acariciando o tecido com uma expressão confusa – O que foi?

– Nada, é só que é bem menos chamativa do que eu achei que seria.

– E isso é ruim?

– É ótimo Maura. Obrigada.

– De nada. Agora vista logo pra que possa se deitar.

– Sim senhora!

Saí do quarto e ouvi um barulho vindo da sala, era o celular de Jane.

Me aproximei do aparelho e na tela o nome de Frankie piscava sem parar.

Normalmente eu atenderia e explicaria o que estava acontecendo, mas pensei melhor e resolvi levar o celular até Jane.

Ao chegar na porta do quarto eu entrei sem bater, percebi que a música havia parado de tocar mas não tive tempo parar dar mais atenção a isso, pois me deparei com algo que sabia que não deveria chamar minha atenção, mas que quando me dei conta, já havia feito com que eu me paralisasse logo na entrada do espaçoso lugar.

Jane estava em frente ao espelho, apenas de calcinha e sutiã, com a mão sobre a barriga, fazendo algumas poses que eu não consegui identificar.

A pele morena, os seios pequenos mas perfeitos cobertos pelo sutiã preto, os músculos distribuídos por todo o corpo, marcando-a da melhor forma possível.

Um físico como aquele jamais seria mantido se não fossem as aulas de yoga, os exercícios praticados na academia e é claro a vida constante de uma detetive, que perseguia criminosos e tinha uma vida nada monótona.

Meu cérebro me mandava a informação de que eu devia emitir algum som para que ela soubesse que eu estava lá, eu sabia que não era certo ficar em silêncio e olha-la daquele jeito, mas não conseguia fazer o que parecia certo. Apenas fiquei parada no mesmo lugar, fitando cada centímetro do corpo de Jane, sem piscar.

A cicatriz devido ao tiro que tinha levado tanto tempo atrás não comprometia sua beleza, na verdade funcionava com uma espécie de histórico da coragem que possuía, pena que ela muitas vezes discordasse disso.

Nos segundos que se passaram e que eu não conseguia contar, algo me ocorreu.

Meu coração disparou, minhas mãos suaram frio, minha respiração se tornou intensa, mas sem ritmo e um calor me percorreu de cima a baixo.

Eu já havia visto coisas assim antes, já tinha sentido algo assim antes também, mas nunca por ela.

Todos os estudos que eu verifiquei e que combinavam com os sinais que meu corpo emitia me diziam a mesma coisa, eu estava atraída por Jane.

Mas como?

Por quê?

Não era certo. Não podia ser verdade.

Eu devia estar enganada, aquela era única explicação, não podia sentir aquilo pela minha melhor amiga.

Engoli em seco.

O corpo humano possuí muitas facetas, e aquela era apenas uma das inúmeras outras que não podíamos controlar.

Mas eu deveria, eu tinha que esquecer o que estava sentindo e todos os pensamentos inapropriados que surgiram na minha mente, mas antes que pudesse me concentrar nessa tarefa, vi Jane se virar para mim.

Não demorei para formular a ideia de que ela tivesse visto meu reflexo pelo espelho, e então notado minha presença.

Nossos olhos se encontraram, eu esperei pela fúria, confusão ou pela pergunta: “Há quanto tempo estava aí?”, para qual é claro eu teria que dar uma resposta sincera, já que não conseguia mentir, mas para minha total surpresa, outras palavras saíram pelos lábios dela, naquela voz rouca que se demonstrou mais forte do que nunca.

– Apreciando a vista Drª Isles? — deu ênfase no meu nome, de um jeito sexy.

– Ah... Eu, na verdade vim trazer seu celular... — ergui o aparelho na direção dela – Era Frankie, mas parou de tocar quando eu entrei aqui, e ... Bom...

Eu estava gaguejando involuntariamente, e isso me deixou ainda mais nervosa.

– Ei, tudo bem. — pegou o celular da minha mão, e nossos dedos se esbarraram, causando um efeito quente em mim, pelo qual eu não esperava – Ele liga de novo depois.

– Jane, por quê está sem roupa? — perguntei.

– Oh... — ela olhou para si mesma e depois para mim – Isso... Bom, eu queria checar meu corpo, sabe, pra ver se está tudo em ordem. — arqueou as sobrancelhas.

– Em ordem?

– É Maura, você é mulher deve saber do que eu estou falando...

– Não precisa se preocupar com isso, você está ótima.

– Acha mesmo?

Oh Deus! Eu não só achava, como tinha certeza.

– Sim. — alguns segundos de silêncio – Mas agora você deveria vestir algo e dormir.

– Parabéns! Você corta o clima maravilhosamente bem! — exclamou e virou para vestir a calça.

Clima?” Certo, estava confusa.

– Jane, você está bem?

– Estava melhor quando você não bancava a médica. — disse colocando a blusa. – Chega de show por hoje, se quiser ver mais vai ter que esperar até amanhã.

– Show?

– Não se faça de desentendida, sei que estava me olhando. E não se preocupe, foi bom ter um espectador, ainda mais sendo você. — a voz dela estava claramente abalada pelo álcool.

Cerveja, sim, só podia ser isso que estava fazendo ela me dizer todas aquelas coisas.

Tinha que ser, certo?

Então me lembrei de algo que Frankie havia me dito algum tempo atrás:

“Uma língua bêbada é uma língua sincera.”

Claramente isso se referia as pessoas que dizem a verdade quando estão embriagadas.

Seria esse o caso de Jane?

– Ah certo, você definitivamente precisa de uma boa e longa noite de sono. — peguei as cobertas e as ajeitei – Deite.

E foi o que ela fez.

Mais nenhuma palavra foi dita nem por ela nem por mim ali dentro, eu saí do quarto tendo a certeza de que Jane adormeceria rapidamente.

Fechei a porta e me encostei na parede do corredor.

Nunca imaginei que aquela noite fosse terminar daquele modo.

Tanto foi dito nas entrelinhas, coisas que provavelmente apenas eram mais um dos efeitos colaterais da bebida que ela havia ingerido excessivamente.

Eu queria que esse fosse o motivo?

Eu queria que Jane tivesse falado aquelas coisas sem ter essa intenção?

Fechei meus olhos e suspirei profundamente ao me dar conta de que por mais que tentasse negar para mim mesma, eu desejava que todas as palavras inusitadas tivessem sido reais, verdadeiras e com significado.

Mas por quê queria que ela me dissesse aquilo?

Éramos amigas, nada mais.

Como seria dali em diante?

Por quê sentia aquilo por ela?

Oh, eu tive medo de descobrir.

E contando com o importante fato de não poder mentir, o que tornaria tudo ainda mais complicado.

Eu seria capaz de esconder esse novo sentimento?

Eu não queria e nem iria arriscar nossa amizade por algo tão absurdo.

Eu ficaria perto dela e não sentiria absolutamente nada, certo?


Continua...


Notas finais
Reviews me deixam tão feliz *-*
Hahaha