Um Sonho Inesperado
13 Capítulo 13
Notas iniciais
No silêncio do meu apartamento fechei a porta atrás de mim e sorri.
Eu havia passado mais de uma semana correndo na direção contrária daquele sentimento, fugindo, me esquivando e me escondendo.
Não admitiria mas era isso o que estava fazendo.
Então quando achei que tudo estava perdido fui surpreendida por um beijo na chuva, e a reação nada rude de Maura.
Confesso que ao parar o beijo pensei que ela pudesse se arrepender, dizer que não queria ter feito aquilo, mas não, ela demonstrou certeza sobre sua atitude.
Em seguida tudo aconteceu com uma naturalidade que me assustou, eu nunca imaginei que seria tão simples seguir com aquela noite.
Mas contrariando tudo em que eu já havia pensado, estar com Maura daquele jeito era fácil, confortável e automático.
Talvez essa última palavra não fosse muito bonita para usar ao me referir ao que aconteceu, mas era a mais apropriada, já que tudo tinha caminhado na direção certa.
Eu me surpreendi com as coisas que fiz e disse, sim porque ainda não sabia que era capaz de beija-la e toca-la assim.
Mas como disse tudo foi muito espontâneo, eu não tive que forçar nada.
Acredito que a razão disso seja nossa amizade, já que fica mais fácil se sentir à vontade com uma pessoa que você conheça.
Algo surgiu na minha mente, a lembrança de que o dia seguinte estava a apenas algumas horas de distância.
Boa parte do problema havia sido resolvido mas eu não podia mentir para mim mesma e dizer que não tinha mais medo, porque eu ainda tinha, e muito.
Não queria que meu novo relacionamento com Maura afetasse o nosso trabalho.
Espera, eu realmente falei “relacionamento”?
Outro sorriso.
Era ridículo e nem sob tortura eu confessaria, mas me sentia como uma adolescente, ou até mesmo pior, porque nem quando era mais jovem me comportei de maneira tão indecisa.
Mas estava sozinha e ninguém podia me ver nem ouvir, então não faria mal sorrir e me deixar levar por essa sensação.
Maura tinha saído daquele restaurante chique, deixado Buckmann sozinho e ido atrás de mim.
Rapidamente deu um jeito de mentir mas não mentir ao mesmo tempo, e tudo para ser capaz de conversar comigo.
Se bem que o que tivemos nem chegou a ser um diálogo, pois mais brigamos do que qualquer outra coisa, então quando me virei ela simplesmente me impediu e...
Aquele beijo, o gosto da chuva se misturava com nossos lábios fazendo de tudo ainda mais especial.
Quando foi que eu tinha me tornado tão melosa?
Bom, suponho que aproximadamente quando toda essa loucura tão boa começou.
E mais uma vez a realidade me atingiu.
O dia seguinte podia me trazer alguns problemas, eu precisava pensar.
Mas, não foi ao pensar demais que quase estraguei tudo várias vezes ao longo desses dias?
Vamos Jane, quem sabe não seja a hora de deixar acontecer, já que ao se preocupar as coisas se tornam ainda mais complicadas, então apenas espere pra ver como tudo se desenrola.– Eu pensei.
Dormir, era isso que eu tinha que fazer para conseguir estar bem no dia seguinte, apenas dormir.
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Cheguei ao prédio mas não vi o carro de Maura estacionado em nenhum lugar.
Talvez fosse cedo demais e ela ainda estivesse em casa.
Entrei e fui a lanchonete, mas não vi minha mãe e isso me intrigou.
Ela tinha faltado antes porque estava doente, mas ontem ao conversamos me garantiu que havia melhorado.
Então por quê não estava ali?
Oh meu Deus!
Se ela estava em casa e Maura também, as coisas podiam não ser muito boas.
Claro que eu sabia que minha mãe não iria brigar com ela, afinal, quase me obrigou a dar um jeito em toda a situação, mas ainda assim não gostava nem de imaginar uma conversa entre as duas.
Ainda era cedo para isso, se minha mãe dissesse algo errado poderia colocar Maura em pânico.
Mas pensando bem, de nós duas ela foi quem sempre esteve mais segura diante disso.
Droga! E eu tinha pensado que as duvidas acabariam.
Balancei minha cabeça para tentar não pensar em nada daquilo, e fui até a máquina de café.
Frankie se aproximou e me cumprimentou.
– Bom dia.
– Hey Frankie. — decidi aproveitar para esclarecer minha duvida – Você sabe porque nossa mãe não veio? A gripe voltou?
– Oh, puxa, eu tinha esquecido! — exclamou – Ela pediu pra que eu te avisasse mas seu telefone só caía na caixa postal.
– Eu desliguei, não queria ser interrompida. — sorri ao me lembrar do motivo – Mas enfim, o que tem pra me dizer?
– Uma amiga da mamãe ficou doente, dessas que ela tem mas que a gente nunca viu sabe? Então, adivinha quem se ofereceu pra fazer companhia enquanto melhora?
– Deixa eu ver... — fingi me esforçar – Dona Angela coração mole? — sorri.
– Ela mesma. — Frankie sorriu de volta.
– Isso porque acabou de se curar de uma gripe forte. — bebi um gole de café e andei até uma das mesas.
Sentei numa cadeira e meu irmão fez o mesmo.
– Eu até tentei questionar mas ela disse algo como ser ela quem deve tomar conta da minha vida, e não o contrário. Bom, você a conhece.
– E como. E ela disse onde essa amiga mora?
– No interior, lugar afastado e não tinha mais ninguém pra ficar com ela, já que o único filho está viajando ou algo assim.
– Mais alguma coisa?
– Não, eu acho que... — mudou de expressão – Sim, tem uma! Mas essa parte foi estranha... — sorriu.
– Estranha como?
– Ela me pediu pra te dar um recado, que aliás me fez pensar um pouco...
– Certo Frankie, eu pretendo trabalhar ainda hoje, portanto seja mais rápido.
– Ok, ela disse: “fale para a Jane que eu desejei toda a sorte para ela com sua vida amorosa, e que quando voltar vou querer saber de tudo.” Com essas mesmas palavras, eu juro.
Por quê será que eu ainda me surpreendia?
A mulher não perdia uma!
– E eu não duvido. — bebi mais café.
– Mas então...? — arqueou a sobrancelha.
– O que? — eu sabia, mas fingir que não era mais divertido.
– Não vai me dizer o que aconteceu ontem?
– Ontem? — continuei me fingindo de desentendida.
– É Jane, ontem. Porque nossa mãe disse algo rapidamente sobre você ter passado lá e conversado com ela...
– Sim, eu fiz isso.
– E o assunto é o que eu acho que é?
– E como eu vou saber o que você acha?
– Certo, está parecendo a Maura falando. — a menção do nome dela me fez sorrir ainda mais e ele percebeu – É isso não é? Você contou sobre o que sente?
Suspirei e demorei um pouco.
– Sim.
– Pra quem? Nossa mãe ou Maura?
– As duas.
Ele abriu arregalou os olhos em choque.
– E como foi? Está tudo bem? Quero dizer com a Maura, porque pelo tom da mamãe ela não me pareceu com raiva de você.
– E não ficou.
– Sério?
– Pois é. — relaxei um pouco – Eu nunca imaginei que seria tão fácil.
– Ela entendeu tudo então?
– Ela praticamente me obrigou a tomar uma atitude.
Ele riu.
– É, me parece bem o que tipo de coisa que ela faria. E o resto, como foi?
– O que você quer? Os detalhes?
– Sim... Mas não todos, tenho até medo!
– Hey! — soquei o braço dele – Não aconteceu nada de demais, eu só dei um jeito de chegar até a Maura e o resto só aconteceu.
– Isso é tudo o que você vai falar?
– Sim, é. Até porque, essa sua curiosidade toda está ficando estranha, parece que em vez de irmão, você é minha irmãzinha fofoqueira. — sorri.
– Muito engraçado. Eu só quero saber se deu tudo certo, sabe, vocês duas...
– Sim Frankie, tudo correu muito bem, obrigada.
– Ótimo... Isso significa que vocês agora são... — mas não terminou, e nem precisava.
– Eu não sei. — ao dizer aquilo me dei conta de que realmente não sabia.
– Como assim não sabe? — nenhuma resposta, eu fitei a madeira da mesa enquanto pensava – Jane?
Olhei para ele.
– Eu só não sei, quer dizer, nós ainda não falamos direito sobre isso.
– Não tem problema, vocês vão falar.
– Como pode saber?
– Porque a parte mais difícil já passou, certo?
Sim, aquilo fazia sentido.
Meu medo era da rejeição, e isso foi algo que definitivamente não aconteceu.
– Sim... É, está certo.
– Então pronto.
– Mas... Como ainda não está tudo muito claro e definido, será que você podia manter isso só entre nós?
Fez cara de pensativo, mas então sorriu.
– Claro que posso. Mas você sabe que assim que nossa mãe voltar ela vai fazer disso algo público não sabe?
Sim, infelizmente ele tinha razão.
– Eu sei, mas até lá as coisas estarão mais certas, eu acho.
Eu acho?
Já não estava na hora de ter certeza?
– Acha? — absurdo, mas senti como se ele tivesse lido meus pensamentos.
– Ok chega, eu vou subir, tenho coisas pra fazer.
– Você ainda não a viu hoje não é? — neguei com a cabeça – Não tenha medo, vai dar tudo certo.
– Isso já está ficando muito estranho, melhor eu ir antes que você queira me ensinar truques de maquiagem também. — levantei.
– Pode brincar, seu segredo temporário está seguro comigo.
– Obrigada. — sorri.
Virei e fui para os elevadores.
Ao chegar na minha mesa Frost me contou as diversas novidades e avanços sobre o caso, e por volta de uma hora mais tarde conseguimos encontrar o culpado.
Estava preparando o relatório quando lembrei de algo.
– Cadê o Buckmann?
Eu não me importava com ele, mas não podia perder a chance de olha-lo nos olhos sabendo dos últimos fatos.
– Ainda não deus as caras. — Korsak respondeu – Acho que depois do jantar com a Drª Isles as coisas podem ter esquentado um pouco...
Meu sangue ferveu.
– Não! — aquilo soou mais alto e irritado do que eu previ.
– Como não?
Eu responderia, mas acho que Frost percebeu meu desconforto e tomou a frente.
– Acho que o a Jane quer dizer é que a Drª parecia não estar muito interessada no Buckmann.
– E o que te faz achar isso? — perguntou virando para mim.
Pense rápido Jane!
– Porque ele é um idiota, e Maura pode conseguir coisa muito melhor.
– É, pensando por esse lado... Eu também não gosto muito dele, parece que tem alguma coisa errada.
– Pra mim é o conjunto de tudo. — infelizmente o que era um pensamento saiu em voz alta.
Os dois me olharam e eu me preparei para desviar do assunto fingindo irritação, quando ouvi meu celular tocar e uma nova mensagem aparecer na tela.
Olá. Ainda não nos vimos hoje mas eu preciso mesmo falar com você.
Estou na minha sala, pode vir aqui?
Maura.
Sorri e olhei para cima para ver se ninguém tinha notado.
Ao me sentir com um certo tipo de privacidade, digitei a resposta.
Claro.
Jane.
Inventei uma desculpa qualquer e desci o mais rápido que pude.
Ela precisava mesmo falar comigo, mas sobre o que?
Será que estava arrependida do que fizemos?
Ou quase fizemos, uma vez que eu ainda não me sentia pronta para o resto, e francamente a ideia de estar ainda me assustava.
Entrei sem bater.
Maura estava andando de um lado para o outro atrás de sua mesa e não me viu chegar.
– Cuidado! Vai acabar fazendo um buraco no chão.
Ela me olhou.
– Isso é fisicamente impossível Jane. Seres humanos não podem perfurar superfícies sólidas e consistentes com os pés ou nenhuma outra parte do seu corpo. Para isso teriam que ter em mãos determinadas máquinas capazes de...
– Ok, eu entendi. Você está nervosa demais pra rir das minhas piadas.
– Não estou nervosa.
– E eu sou detetive, sua expressão corporal está gritando o quanto você está tensa.
– Expressões não gritam, elas não possuem essa capacidade, na verdade a única coisa que fazem é...
– Para! — aumentei levemente a voz e dei a volta na mesa, peguei no braço de Maura e a puxei até o sofá – Agora me conte o que aconteceu. — pedi ao nos sentarmos.
Ela soltou uma respiração pesada, quase um suspiro.
Mas espera, ela nunca fazia isso. Pelo menos não que eu tivesse visto.
Talvez tudo fosse ainda pior do que eu pensava.
– Ontem você disse que tinha falado com a sua mãe, certo? — começou e eu sorri ao me lembrar do que estávamos fazendo quando falei isso.
– Sim, e daí?
– Tem certeza que ela reagiu bem?
– Tenho. Por quê?
– Bom... — passou a mão pelo cabelo – É que ontem quando cheguei em casa eu não a vi, então me lembrei que era tarde e ela já deveria estar dormindo, mas hoje também não consegui encontra-la. E isso é incomum, já que nos falamos todo dia de manhã.
– Maura... — me preparei para dizer o motivo da ausência da minha mãe, mas ela continuou.
– Você acha que ela está me evitando?
A preocupação evidente em seus olhos.
Tão adorável.
Foco Jane, foco!
– Não, não acho.
– Mas...
– Ela não está fazendo isso.
– Então por quê também não veio trabalhar? — eu ri – Não tem graça, eu estou preocupada.
Me esforcei e fiquei séria.
– Eu sei, só que você não precisa. Vocês não se viram porque ela foi ficar com uma amiga que mora no interior e está doente, então ontem de noite devia estar arrumando as malas e saiu bem cedo.
– Tem certeza?
– Claro.
– E por quê não me disse antes?
– Porque eu também acabei de saber, Frankie me contou.
O silêncio se estabeleceu na sala e tudo voltou a minha mente.
Os beijos, os toques, o cheiro dela em mim.
Diga alguma coisa Jane!
– Confesso que não foi assim que eu imaginei nosso reencontro depois de... Ontem.
– Desculpe, estraguei o que era para ser um momento especial não é mesmo?
– Eu acho que estranho seria a palavra certa. — a expressão dela mudou e eu me xinguei mentalmente pela escolha de palavras – Não foi o que eu quis dizer, eu...
– Tudo bem, eu entendi.
– O que nós fazemos agora Maura?
– Em que sentido?
– Disso, nós. Quer dizer... Existe um nós?
Ela aproximou o rosto do meu, pensei que iria me beijar, mas não, ela era esperta, provocar era o seu negócio.
– Deixe-me ver... Você me beijou, certo? — assenti, queria ver onde aquilo iria dar – E você gostou? — mais um assentimento – Se arrepende?
– Não! — afirmei.
É, eu realmente não me arrependia, e isso era tão bom.
– Então já tem sua resposta. — afastou o rosto.
– Eu não entendi.
– Se você admite que me beijou, que gostou e que não se arrepende, do que mais precisa saber?
– De você, porque eu não estou sozinha nessa, eu não fiz tudo sozinha aliás.
– Eu sei.
– Então...?
– O que seu instinto policial está dizendo? — mas eu não respondi e continuou – Eu pareço arrependida?
Eu a observei melhor, fui treinada para notar esse tipo de coisa e usar para meu benefício pessoal era muito bom às vezes.
A resposta veio e me surpreendeu, para em seguida me deixar feliz.
– Não, nem um pouco.
– Ok, e seu instinto é mesmo ótimo não é?
– Ele é infalível.
– Embora eu não seja muito a favor desse tipo de afirmação exagerada, tenho que concordar.
– Como você faz isso?
– O que? — perguntou sorrindo.
– Isso de num momento parecer tão confusa e no outro ser essa pessoa tão segura.
– Não sei, é espontâneo.
Eu ri.
– E você gostaria de almoçar comigo senhorita espontânea?
– Seria um prazer.
Nós levantamos.
– Eu mando uma mensagem quando terminar o que estou fazendo.
– Vou ficar esperando.
E eu saí.
A hora do almoço foi se aproximando, Maura e eu teríamos mais privacidade e eu poderia finalmente ter alguma noção de como as coisas seriam.
Mas como nem tudo acontece como queremos, e principalmente as coisas mais importantes, assim que eu me deixei animar o telefone tocou, avisando nada mais nada menos do que um novo homicídio.
Frost, Korsak e eu fomos até o local, que era um parque de diversões abandonado, e em meio a brinquedos e mais brinquedos enferrujados, estava o corpo de uma garota, por volta dos seus 18 anos ou menos.
Abaixei para olha melhor para ela e depois olhei ao redor.
Cada dia essas atrocidades me chocavam mais.
Então senti uma mão no meu braço, e eu conhecia aquele toque suave.
Virei e vi Maura ao meu lado.
Ela sorriu e eu abri passagem para que se aproximasse do corpo.
Após fazer o que tinha que fazer e liberar o corpo para ser levado, ela foi até seu carro.
Frost e Korsak falavam sobre as teorias e decidiram tomar o depoimento da pessoa que tinha encontrado a garota.
Voltei para o prédio e aguardei a mensagem de Maura, avisando que iniciaria a autópsia.
Assim que recebi fui até o necrotério.
Enquanto ela examinava a vítima, recebi uma ligação de Frost dizendo que a família da menina havia sido localizada e já tinha sido informada morte, além de falar sobre um colega de escola que a tinha ameaçado algumas vezes. Garanti que já o encontraria lá em cima e desliguei.
– Temos um suspeito. Achou algo?
– Nada esclarecedor, mas não há lesão correspondente com agressão sexual, na verdade não existe nem indício de que ela tenha praticado sexo alguma vez.
– Ok, descartamos estupro então.
Começou a fechar o corpo.
– Estou terminando aqui e todos os exames já estão sendo feitos.
– Está bem, você ma avisa quando ficarem prontos?
– Claro.
Estava saindo quando resolvi mudar o rumo da conversa, o suspeito podia esperar um pouco.
– Acho que nossos planos foram por água baixo.
Ela virou para mim.
– Se refere ao almoço? — eu assenti – Não nos faltarão oportunidades Jane, já que trabalhamos no mesmo ambiente e nos vemos com muita frequência.
– É, eu sei mas... — me calei ao som do celular de Maura, ela o pegou, olhou para tela e apertou um botão com certa raiva – O que foi?
– Quer mesmo saber?
– Eu estou perguntando não estou?
– É o Christopher. Ele está me ligando e mandando mensagens desde a hora que eu acordei.
Eu ri.
– Você quer o que? Deixou o cara plantado te esperando!
Eu não sentia pena dele, mas não podia perder a piada.
– Engraçado, ontem você adorou que eu tivesse feito isso.
– E continuo adorando, realmente, sei que vou adorar pro resto da minha vida, mas sei lá Maura... Ele quer uma explicação.
– Só que eu não posso mentir, e não sabia se podia dizer o que realmente aconteceu.
– Por mim poderia, mas o problema seria se ele contasse pra todo mundo.
– Você não quer que as pessoas saibam?
– Eu...
– Ainda é cedo.
– É, mas não pense que é porque eu não...
– Eu não estou pensando nada, e não me importo em manter segredo por enquanto.
– Certo, mas enquanto ao Buckmann?
– Eu não preciso mentir, mas também não tenho que dizer a verdade completa.
– Como assim?
– Digo que estou com uma pessoa, mas não preciso falar quem é.
– Boa ideia.
Sorrimos.
O celular dela tocou de novo.
– Hora de colocar em prática. — disse ao confirmar que era nome dele que piscava na tela.
– Boa sorte. — sorri – E me avise se surgir algo novo.
Ela assentiu e eu me retirei.
O interrogatório foi feito por Frost e eu, mas nada de produtivo pôde ser usado.
Quando voltamos para o bullpen Korsak estava pesquisando algo no computador e com uma cara de preocupado.
– Qual o problema? — perguntei.
– Cavanaugh passou por aqui com uma cara péssima, disse que tinha um comunicado mas que esperaria vocês dois chegarem pra dizer. — respondeu.
– Eu não gosto disso, da última vez que veio com essa de comunicado foi pra apresentar o Buckmann.
– E ele em? Até agora nada. — Frost comentou.
– Acho que a coisa tá meio feia pro lado dele. — falei sorrindo ao imaginar a cara daquele idiota quando Maura desse o fora oficialmente nele.
Os dois me olharam intrigados e então Cavanaugh apareceu e se posicionou na entrada.
– Agora que chegaram eu posso falar. Foi feita uma investigação interna e descoberto que Christopher Buckmann estava sendo pago para se infiltrar na homicídios e conseguir informações sobre os casos.
Eu sabia que o cara era um idiota, mas não esperava por isso.
– O que? — perguntei.
– Tudo vinha sendo feito em sigilo há alguns meses, quando a suspeita de um funcionário corrupto surgiu, mas só agora que o culpado foi encontrado.
– Culpado esse que estava andando conosco para todo canto ontem. — Korsak disse.
– Eu sei. Mas nós não fomos os únicos que nos enganamos a respeito dele, outras unidades também passaram por isso. A questão é: ele está sendo procurado mas até agora nada, então fiquem espertos.
Nós assentimos e quando ele se afastou, Frost perguntou para mim:
– Você sabia algo sobre isso Jane?
– Não, por quê?
– Porque comentou sobre a coisa estar feia pro lado dele...
– Ah, não eu me referia a outra coisa.
– A que? — Korsak perguntou.
– Nada que valha a pena ser discutido.
– Bom, de qualquer jeito, eu admito que por essa não esperava.
– Nem eu, quer dizer, não sou fã dele, mas também não tinha imaginado nada desse tipo. — falei.
Voltamos ao trabalho.
As horas se passaram e a tarde chegou, assim como seu fim.
Era por volta das 17:30 quando eu não aguentava mais tantas pistas falsas e não havíamos chegado a lugar algum.
– Eu vou ver se a Maura tem algo novo.
– Ela mandou mensagem? — Korsak perguntou.
– Não, mas nós também não temos nada por aqui, não custa checar com ela, eu não demoro.
Desci rumo ao necrotério.
Ao chegar lá notei que a o laboratório onde os estagiários ficavam estava vazio, e então lembrei de Maura dizer algo sobre eles saírem todo final de tarde para comer algo e voltei minha atenção para meu destino.
As portas estavam fechadas e eu olhei pelo vidro, mas a imagem com a qual me deparei estava longe de ser a que eu esperava.
Maura estava sendo pressionada contra um canto da sala por Buckmann.
Ele segurava nos braços dela e eu ainda pude ouvir um pedaço do que diziam.
– Christopher pare com isso, você está me machucando.
– Eu te solto se você me disser quem é a pessoa com quem está saindo, só me dê um nome e eu te deixo em paz.
– Não vou fazer isso, você é louco?
– Eu vou ficar pior se você não falar! — gritou e empurrou-a com mais força contra a parede – Anda, eu quero um nome!
Desgraçado!
Senti algo dentro de mim mudar, por instinto passei a mão na minha arma para me certificar de que ela estava mesmo comigo.
Não precisaria usá-la num primeiro momento, a única coisa que tinha que fazer era...
– Jane Rizzoli, serve? — perguntei asperamente ao empurrar com força a porta e entrar no lugar.
Ele virou para mim com certo espanto e liberou Maura.
– Como é?
– Você pediu um nome e eu estou te dando um.
– Eu me referia ao novo namorado dela. — apontou para Maura.
– Namorada. — corrigi – Sou eu.
– Você? — e riu.
– O que foi? Não acha maravilhoso que ela tenha te largado ontem pra ficar comigo? — perguntei sarcasticamente.
– Ela não fez isso por você. — virou para Maura – Vamos, parem com esse teatrinho, seja lá quem for o cara eu quero saber.
– Por quê é tão difícil aceitar que perdeu pra outra garota Buckmann? — perguntei.
Ele me olhou.
– Porque isso não aconteceu. — pegou no braço dela – Chega de brincadeira, eu me entendo com você depois Rizzoli, agora quero um nome! — exclamou.
– Você é surdo ou o que? Eu te dei um nome!
– Isso é sério? — perguntou para Maura, ela assentiu e ele a segurou com mais força – Me deixou por causa dela?
– Parece que sim. — respondi por ela – Agora largue-a.
– Vocês vão pagar por isso!
– Pode ser, mas primeiro tire as suas mãos de cima dela. — coloquei a mão na minha arma e ele viu.
Soltou o braço de Maura e ela se afastou dele rapidamente.
– Cavanaugh vai adorar saber disso. — provocou.
– Ah sei... E prefere contar pra ele antes ou depois de ser preso?
– Do que está falando?
– Você sabe, ou pensou mesmo que ia ficar jogando com os bons e os maus e não seria pego?
– Sua... — se aproximou.
– Se eu fosse você não chegaria tão perto, eu tenho uma arma e sinceramente ainda não sei porque não a usei.
– Então use.
– E perder a chance de te ver algemado? Que graça teria?
– Você sabe que isso não vai me impedir de falar não sabe?
– Sei, mas não me importo. Faça o que quiser, como quiser.
– Jane... — Maura tentou.
– Eu falo sério, conte pra todo mundo, afinal, quem daria ouvidos pra um advogado corrupto mesmo?
Rapidamente ele saiu.
– Ele está fugindo! — Maura alertou.
– Não por muito tempo. — peguei meu celular – Frost alerte todo mundo, Buckmann acabou de sair do necrotério... Isso, ok me mantenha informada. — desliguei.
– E então?
– Então que ele não saí desse prédio sem os pulsos dentro de um par de algemas.
– Eu não sei, ele é esperto.
– Tão esperto que eu tive que repetir várias vezes sobre nós pra que entendesse.
– É compreensível, eu saí com ele e me esforcei pra parecer interessada.
– E pra que? Quero dizer, o cara é um idiota!
– Agora eu sei disso, mas ontem mal o conhecia.
– Mais um motivo pra não sair com ele.
– Eu sei, mas a única coisa que tinha em mente ontem era me manter longe de você. — falou com naturalidade enquanto caminhava até sua sala.
Eu a segui.
– Por quê?
Ela parou e virou para mim.
– Porque eu achei que nós nunca seríamos mais do que amigas e decidi tentar esquecer.
– Com aquele cara?
– Ele demonstrou interesse e eu aproveitei.
– Simples assim?
– É.
Enquanto pensava em como tudo tinha uma visão diferente quando se está a par de todo os lados, recebi uma mensagem de Frost, li e coloquei o celular no bolso.
– Pegaram seu namorado. — brinquei.
– Jane!
– Ok, eu não resisti.
– É realmente estranho você se referir a ele dessa forma, afinal, há alguns minutos se intitulou como minha namorada, então não fica bem colocar alguém em seu próprio lugar tendo consciência disso, certo?
– Você adora complicar não é mesmo?
– Não respondeu minha pergunta.
– E nem você a minha.
– Mas eu perguntei primeiro.
Droga!
– Repita então.
– Você quis dizer aquilo?
– Não foi isso o que você perguntou antes.
– Mas é o que eu quero saber.
Me aproximei.
Ela merecia a verdade, e não era difícil dizer.
Eu sabia a resposta, e ela não me assustava tanto mais.
– Sim, eu quis dizer cada palavra que falei pra aquele idiota.
– Tem certeza? Porque existe também o fato de você ter se preocupado com a minha segurança e isso levou a falar coisas que não queria e eu entendo, já que o nervosismo pode nos fazer tomar atitudes que não desejamos e...
– Shhh... — mais perto agora – Por quê você não pode simplesmente confiar em mim? Se eu disse que quis dizer cada palavra, é porque eu quis dizer cada palavra e tenho certeza disso. Estudo nenhum vai me convencer do contrário.
– Então, somos... Namoradas? — hesitou na última palavra.
– É, acho que somos.
– E você está bem com isso?
– Eu estou correndo o risco de todo mundo descobrir, então sim, estou bem com isso.
– Eu tinha esquecido, e se ele disser algo? Como as coisas vão ficar?
– Eu não sei, mas não estou preocupada com isso agora, até porque duvido que ele abra a boca, já que não terá muito tempo antes de estar atrás das grades com a chave jogada fora.
– O que ele fez é tão grave assim?
– Ele era corrupto, então sim, muito grave.
– Tem certeza de que se sente bem com isso?
– Sim, mas e você tem que sempre ter certeza de tudo?
– Desse modo é mais seguro.
– Talvez, mas eu tenho certeza de uma coisa. — sentei no sofá – Estou cansada e quero ir pra casa.
Maura foi até a mesa e pegou suas coisas.
– Na verdade você vai pra minha. — afirmou.
– Quem disse?
– Eu.
– E quando pretendia me consultar a respeito?
– Um pouco antes do Christopher aparecer eu tinha decido falar com você sobre isso, mas enfim, não deu certo.
Levantei.
– Ótimo, vamos nessa. Aproveitar que a dona Angela está fora. — falei descontraidamente.
Acho que Maura levou aquilo de uma forma diferente.
– Por quê? Tem algo em mente? — perguntou sorrindo.
Aquele sorriso.
Sim, eu sabia o que ela estava pensando.
– Ah, eu... Bom... Na verdade... — semicerrei os olhos e amaldiçoei a minha gagueira repentina.
– Tudo bem, não se preocupe. — passou por mim – Eu tenho algumas ideias.
E saiu.
Um pé na frente do outro, automaticamente eu fui seguindo-a até o elevador.
Me senti como um robô programado, fazendo tudo sem emoção, Maura falava mas eu não conseguia prestar atenção, já que apenas um frase permanecia impregnada na minha cabeça.
“Eu tenho algumas ideias.”
E lá estavam meus pensamentos maliciosos.
Mas também, a inocência estava longe de ser encontrada no tom que ela disse aquilo.
A noite já tinha chegado e nós ficaríamos sozinhas naquela casa imensa.
Algo me dizia que aquilo não acabaria bem.
Ou talvez acabasse bem até demais!
O fato era que mesmo ainda não me sentindo pronta para fazer sexo com alguém que até duas semanas atrás era apenas minha amiga, ela ainda era a mesma pessoa incrivelmente sexy e linda de sempre.
Eu sou humana, e me lembrava perfeitamente da sensação de vê-la sem blusa no meu apartamento, mas agora tudo estava diferente, agora ela permitiria que eu a olhasse.
Agora, ela esperaria que eu a tocasse.
E convenhamos, se contentar em apenas ver uma mulher como Maura e não toca-la era tarefa para alguém muito forte ou muito burro.
Eu não era nenhum dos dois.
Então como resistir a ela?
Eu deveria tentar resistir antes de mais nada?
Seja lá como fosse, eu sabia que naquela noite meus limites seriam testados.
Continua...
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