Um Sonho Inesperado
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Essa fic começou como o ponto de vista da Jane, o sonho foi dela e tudo mais, então achei que estava devendo um pouco da visão da Maura sobre as coisas, posso ter demorado, mas coloquei isso.
Mais uma vez, me desculpem pela parte do necrotério e se tiver algo errado, eu faço o melhor que posso.
Enjoy!
Eu sou Maura Isles, decidida, firme e constante.
Então por quê arrisquei tanto naquela conversa com Jane?
Quando foi que me tornei essa pessoa que se rende aos riscos?
Procurar uma resposta já não me importava mais, ou pelo menos eu desejava que não importasse, porque eu havia dado todas as chances para que Jane falasse abertamente comigo, e mesmo assim ela não disse nada de concreto.
Não devia ter cedido aquele impulso de saber onde a conversa iria dar, eu nunca fui assim.
Só que não tive meu monólogo interno rápido o suficiente, e quando dei por mim já estava enviando aquela mensagem sabendo exatamente o que tanto esperava obter em troca.
Eu queria um sinal, um vestígio, qualquer coisa que me guiasse em alguma direção para poder entender os últimos acontecimentos.
Aquela noite no apartamento de Jane me fez pensar muito, e em muitas coisas.
Eu nunca esqueceria o jeito como ela me olhou nem se quisesse.
Fiquei lá por alguns segundos depois que ela saiu pela porta, tentando colocar tudo em uma ordem que fizesse algum sentido, mas um vento frio entrou pela janela e eu logo tratei de escolher uma blusa, qualquer uma na verdade, apenas queria vestir algo quente para poder pensar com coerência.
Quando estava devidamente apresentável, voltei para o sofá e me sentei nele, eu me sentia tão confortável na casa de Jane, era como se fosse minha também. Mas essa sensação vinha da intensidade e frequência com as quais frequentávamos uma a casa da outra.
Ali mesmo comecei a retroceder todas as mudanças, procurei por onde poderia ter começado.
No começo não formei nenhuma ideia que valesse a pena ser considerada, mas depois algo me veio em mente: sim, aquele dia em que Jane demonstrou seu primeiro comportamento incomum. O dia em que eu desejei bom dia e ela aparentou nervosismo em excesso e se atrapalhou com as palavras, para em seguida evitar qualquer contato comigo.
Então todas as outras coisas vieram em seguida, todas seguindo uma ordem indicando que algo estava de fato muito errado.
Quando descobri que a paixão dela era uma mulher, acreditei que esse fosse o “problema”, então fiz o que pude para que ela soubesse que eu não me opunha a uma relação entre pessoas do mesmo sexo, inclusive dividi minha experiência com Rachel.
Tudo para que ela se sentisse bem, tudo pensando em ajuda-la, e ainda assim ela não me disse quem era a mulher misteriosa.
Mas por quê tanto segredo? O que poderia ter de tão grave em meio a isso tudo para que ela não dividisse comigo?
Sim, naquele sofá, em silêncio com Jo Friday deitada ao meu lado eu pensei em inúmeras coisas.
Jane estava me olhando com desejo, sim eu sei que era desejo pois sua expressão declarava isso sem sombra de duvida, e quando me virei em um ato impulsivo ela se afastou, ficou nervosa e saiu, alegando que não estava bem, mas iria ficar.
Me ver sem a parte de cima da minha roupa a fez reagir assim porque... Ora, porque seus instintos e sua visão do que era atrativo mudaram quando ela se apaixonou por uma mulher, então era natural que me olhasse de um jeito diferente, pelo menos até que se acostumasse com as mudanças.
Mas o mistério sobre a identidade da tal mulher era o que mais me intrigava, e eu odiava me sentir assim.
Não queria me importar tanto mas era mais forte do que eu.
Precisava saber seu nome, como se conheceram e o que ela tinha feito de tão especial para ganhar o coração de alguém tão difícil de conquistar como Jane.
Porque essa era a mais pura das verdades, Jane Rizzoli não era uma pessoa fácil de se agradar em questões amorosas, digo isso por ter acompanhado boa parte das tentativas. Mas não tenho o direito de julga-la, já que comigo as coias também nunca deram muito certo, e eu sabia que tinha uma grande parcela de culpa, afinal, sempre acabava esperando demais de quem não devia.
Um flash, algo que acreditava ser improvável de acontecer, me ocorreu rapidamente ali naquela sala sozinha.
Alguma peças dos últimos dias, as atitudes estranhas de Jane, a descoberta de meus novos sentimentos por ela, tudo ligava algo maior... Mas o que?
Era por isso que sempre detestei adivinhações, o risco de errar é muito alto. Não, eu não iria dar um palpite, iria fazer melhor.
Se existisse alguma razão para Jane me olhar com desejo, se existisse alguma razão para ela sentir algo ao me ver sem blusa, eu descobriria do meu modo.
Faria perguntas, nada que a assustasse, somente algumas questões adequadas.
Então me levantei, fiz carinho em Jo Friday, peguei minha blusa ainda molhada e coloquei dentro de uma sacola, peguei minha bolsa, deixei apenas a luz da sala acesa e saí.
Do lado de fora do corredor me abaixei e peguei a chave embaixo do tapete e tranquei a porta.
No dia seguinte tudo estava planejado na minha cabeça, eu iria notar facilmente o desconforto de Jane diante da minha presença e então as perguntas aconteceriam. Mas o fato e que nada saiu como o planejado, primeiro ela não apareceu na cena do crime, Korsak disse que seu celular só caía na caixa postal, eu fiquei preocupada mas decidi deixar passar, depois quando finalmente apareceu ela não demonstrou nada de incomum, estava como sempre, sorrindo e fazendo piadas.
Como conseguia?
Eu adoraria ser capaz da mesma coisa.
E então depois de passar o dia inteiro esperando por qualquer sinal dela, mas sem obter respostas, eu dei o primeiro passo.
Novamente nada aconteceu como eu queria, dei todas as chances para Jane se abrir e dizer tudo o que sentia, não importava o que fosse eu queria ouvir, mas nada em especial foi dito.
Eu realmente esperava ouvir algo, mesmo conhecendo os riscos de me magoar eu queria ouvir algo, mais especificamente algo que explicasse o porque dela me olhar com desejo. Porém nossa conversa tomou outro rumo e uma frase em especial fez tudo perder seu sentido:
“Não se preocupe, somos amigas, não existe a menor chance disso acontecer.”
Sim ela disse que não havia a menor chance, então para que continuar com isso?
Essa maldita esperança repentina não deveria nem ter surgido de algum lugar para começar.
E mais uma vez me deparei com o motivo de não supor nada, porque sempre me decepciono quando descubro que estava errada.
O resto daquela noite se seguiu sem muita importância para mim, Jane saiu da minha sala e eu fiquei lá por cerca de mais uma hora. Mesmo tendo terminado meus afazeres ainda não me sentia pronta pra encarar a realidade.
Quando me senti, fui para casa, mas ainda me torturando por sequer pensar que Jane sentiu atração por mim.
Como pude?
Tudo não havia passado de um mal entendido, ela estava confusa e eu usei isso para acreditar em algo que me fizesse feliz.
Gostaria de esquecer tudo, mas só conseguia sentir raiva!
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Ao chegar ao trabalho fui direto para a minha sala, ainda haviam alguns exames cujos resultados estavam pendentes e eu tinha que verificar isso.
Coloquei a bolsa sobre a mesa e ouvi uma leve batida na porta, um de meus assistentes me entregou um envelope contendo os resultados.
Menos mau, pelo menos não precisaria me preocupar em cobra-los. Mas meu sorriso logo desapareceu do rosto quando vi que nas pequenas letras continham informações importantes, as quais não poderia dar por telefone.
Respirei fundo e ergui a cabeça.
“Decidida, firme e constante Maura! Lembre-se disso!” Pensei.
Entrei no elevador e me dirigi rumo ao andar de homicídios.
Cheguei e logo avistei Korsak, Frost e Jane.
Fiz o máximo que pude para tentar manter meu lado profissional, e consegui.
Cumprimentei a todos, inclusive ela que continuava como sempre, sorrindo e me encarando como se tudo estivesse perfeitamente bem.
Deveria estar, já que eu fui a única que acreditou nessa possibilidade, certo?
Relatei os fatos, comentei os resultados e expliquei o máximo que pude.
Estava me preparando para sair quando vi o Tenente Cavanaugh sair de sua sala, seguido por um homem alto, cabelos escuros e olhos claros.
Uma fisionomia diferente para mim, eu nunca o tinha visto antes, quem seria ele?
Cedi a minha curiosidade e permaneci no mesmo lugar, não precisava de fato saber o que estava acontecendo, mas estava me sentindo tão perdida que qualquer mera distração me faria bem.
Vi Cavanaugh ajeitar a gravata, claro indício de preparação para um comunicado.
Após se certificar que estava recebendo a atenção de todos, ele começou:
– Bem, o que tenho para dizer é breve e simples. — o homem misterioso deu um passo para frente, como se fosse ensaiado – Este é Christopher Buckmann, ele é advogado e estará nos acompanhando nos casos que recebermos pelas próximas duas semanas.
Nada mais, apenas isso e fez sinal para que todos voltassem ao trabalho.
Os dois se aproximaram de Korsak, Frost e Jane, e consequentemente de mim também, já que estava a menos de um metro de distância.
– Ele vai começar com vocês Rizzoli. — Cavanaugh anunciou.
– Mas esse caso já está em andamento. Não seria melhor se pegasse algum novo?
– Não. Quero que comece nesse.
– Sim senhor. — Jane disse.
Assim como ele se afastou, Christopher estendeu a mão para Jane.
– É um prazer conhecê-la Det. Rizzoli.
– Igualmente.
Repetiu o gesto com Frost.
– Det. Frost.
– Seja bem vindo. — desejou.
E depois com Korsak.
– O famoso Korsak eu presumo.
– Não sei enquanto a parte do famoso, mas o resto está certo.
Sorriram.
Me perdi ao avaliar as reações de todos diante da presença dele, notei que Jane estava visivelmente desconfortável, mas quase não notei quando Christopher veio em direção a mim.
– E você é...? — perguntou.
– Drª Maura Isles. A legista chefe.
Estendi minha mão para cumprimenta-lo mas para minha surpresa ele a tomou nos lábios e beijou.
– Sim, claro! É uma honra conhecê-la. — liberou minha mão.
– Para mim também Dr. Buckmann.
– Ah por favor, me chame de Christopher. — sorriu e se virou – Todos vocês.
– Tem certeza? — Korsak perguntou.
– Sim, eu não sou muito chegado às formalidades.
– Percebe-se. — a voz de Jane saiu mais grossa do que o normal e ela liberou um sorriso fraco – Mas então, o que te traz aqui?
– Fui mandado para acompanhar a parte legal dos casos, documentos e essas coisas.
– E por quê? Nunca precisamos disso. — Korsak disse.
– Sim, e eu também acho desnecessário, ainda mais para esse departamento que é tão bem visto lá fora, mas estou aqui sob ordens superiores.
– Certo.
Resolvi interromper para comunicar que estava voltando para o necrotério.
– Eu vou descer, se tiver novidades aviso você Jane. — fiz parecer casual.
– Ok. — simples, direto.
Algum tempo mais tarde encontrei algumas anomalias no ferimento da vítima e chamei Jane por mensagem.
Encontrei algo, venha aqui.
Maura.
Alguns minutos mais tarde ouvi a porta abrir e olhei para trás, preparada para vê-la entrar como sempre, mas ela não estava sozinha, Christopher a acompanhava.
Antes que eu pudesse questionar ele mesmo se adiantou.
– Decidi vir porque quanto mais souber, mais vou poder relatar. O que significa que tudo será feito mais meticulosamente.
– Está bem. É sempre bom prestar atenção nos detalhes. — falei e voltei minha atenção para o corpo sobre a mesa.
– Bom, você disse que achou algo, o que foi? — Jane perguntou.
Expliquei o melhor que pude o padrão incomum na borda da ferida da vítima, mas cheguei a um ponto em que não pude deixar de citar termos médicos.
– Ele esteve exposto a itens tóxicos por várias vezes, e isso causou o padrão irregular e anormal na borda do ferimento. Porque o organismo dele reagiu à química dos fluídos, mexendo com a regeneração da pele.
– Ok, o que isso quer dizer, resumidamente?
Eu responderia, mas a voz do advogado foi mais rápida do que a minha.
– É uma anomalia na borda da ferida, causada por um tipo de doença contraída pela constante exposição a fluídos tóxicos.
Um advogado possui aquele conhecimento?
– E como sabe tudo isso? — ela fez a pergunta que eu preferi adiar.
– Trabalhei em muitos casos nos quais esses termos médicos são usados muito frequentemente, acabei aprendendo coisas.
– Então quer dizer que existem outros mais complicados do que a Maura? — sorriu e apontou para mim.
– Ser detalhista não é uma coisa ruim.
Vi como o sorriso dela desapareceu quando Christopher não correspondeu a piada, e seus olhares se cruzaram sérios por alguns instantes, até que eu resolvi interceder.
– Melhor voltarmos ao caso. — sugeri e ambos assentiram.
A manhã passou e deu lugar a tarde, fui até a lanchonete para tomar um café orgânico quando me deparei com Christopher lidando com a máquina de café.
Me aproximei.
– Ela emperra as vezes. — falei e ele me olhou – Deixe eu só... — apertei alguns botões e segurei o filtro – Pronto! — consegui fazer o liquido sair normalmente.
– Obrigado.
– Disponha.
Voltei para o balcão e fiz meu pedido, enquanto aguardava ele parou ao meu lado.
– Você é sempre tão boa em tudo o que faz?
– Como é?
– Sabe, primeiro lá no necrotério, e agora aqui.
– Ah, não foi nada demais. Sempre acontece comigo então só aprendi como resolver.
– Se prefere chamar assim, por mim tudo bem.
Notei que ele iria continuar, mas a voz de Jane fez com que virasse para olha-la.
– Ei! Estava te procurando! — exclamou.
– E acaba de encontrar. Mas o que houve?
– Temos um suspeito e como disse que queria acompanhar tudo de perto, eu pensei que...
– Pensou certo! — bebeu mais um pouco de café – Me deseje sorte Maura... Posso te chamar de Maura não é?
Eu não esperava por aquilo.
– Claro, e boa sorte.
Sorriu e passou por Jane, jogou o copo de café fora e sumiu do alcance da minha visão.
– “Pode te chamar de Maura?” “Claro!” — Jane gesticulava com as mãos e usava um tom de deboche – Sério?
– O que?
– Aquele cara está flertando com você! — afirmou.
– Está?
– Ah vamos, você sabe que sim!
– Se soubesse não perguntaria. — meu café ficou pronto e eu o peguei – Por quê sua mãe não veio hoje?
– Ela pegou um resfriado, mas nem ouse tentar mudar de assunto.
– Não estou fazendo isso.
– Sim, está. Por quê não admite que sabe que esse cara está dando em cima de você?
– Ele só está sendo gentil Jane.
– Não! Gentileza é dizer: ”hey, bom trabalho!” E não olhar dentro do seu decote ao invés dos olhos durante uma conversa.
Isso aconteceu?
Como eu pude não notar?
– E isso realmente aconteceu?
– Maura!
– O que? Não posso afirmar algo sobre o qual não tenho certeza.
– Ok, não preciso que confirme. Eu já sei a resposta!
– Então por quê começou com isso? — minha voz saiu muito mais cansada do que eu pretendia que fosse.
Ela abriu a boca para responder, mas simplesmente revirou os olhos e disse:
– Vou trabalhar! — passou por mim.
Me virei e tentei aumentar o tom.
– Eu também.
O que foi aquilo?
Como tinha começado?
Por qual motivo?
Eu não havia notado qualquer indício de interesse de Christopher em mim, será que meu julgamento tinha sido afetado?
O fim da tarde chegou e eu fui até o andar de homicídios para me informar sobre a atual situação do caso.
Ao chegar lá estavam Frost, Frankie e Christopher.
Automaticamente, perguntei:
– Onde está a Jane?
– Interrogando o irmão da vítima, junto com o Korsak. — Frankie respondeu.
– O que faz aqui Drª? — Frost perguntou da maneira mais gentil que podia.
– Queria me atualizar sobre o caso, soube que as coisas não estavam fáceis.
– E ainda não estão. Esperamos que mudem.
De repente senti uma mão no meu braço, virei o rosto e encontrei Christopher me fitando.
– Podemos conversar?
– Sim.
Dei poucos passos ao lado dele, somente até estar um pouco longe.
Quando estávamos frente a frente, disse:
– Serei direto e franco como sempre fui ok?
– Tudo bem.
– Eu gostei de você. É algo do tipo de realmente achar que pode dar certo, mas pra saber eu preciso ampliar nossos ambientes.
– Eu não entendi a questão dos ambientes...
– Você quer jantar comigo?
Outro baque!
O que?
Um convite... Um tanto quanto inesperado.
– Essa é a sua ideia de ampliação?
– É. Não quero que se sinta forçada a nada, é apenas um convite.
– Não me senti forçada.
– E isso significa...?
Significa o que?
Eu não fazia ideia!
– Que eu vou pensar. Está bem assim?
– Ótimo, pensar... Ótimo! — sorriu.
O que eu estava fazendo?
Acalme-se Maura!
Simples, arrume algum compromisso de propósito e diga que está ocupada.
Ele se afastou, fez sinal de despedida para Frost e Frankie, passou a mão de leve pelo meu braço e pelo movimento dos seus lábios, ele pronunciou um ‘boa noite’, mas que eu não pude ouvir claramente pois ainda estava sob o efeito do ocorrido.
– Você está bem? — Frankie perguntou.
– Estou! Só me distraí por um instante.
– Hey Drª, sei que provavelmente não tenho o direito de me intrometer mas... Buckmann fez o que eu acho que fez? — Frost perguntou ao se aproximar.
– E o que seria isso detetive?
– Bom, é que ele passou o dia inteiro fazendo perguntas sobre você sempre que possível e agora pouco me disse que ia... Convida-la para jantar.
Jane tinha razão.
Realmente existia um interesse.
Como pude não perceber?
– Então ele planejou?
– Então ele fez? — insistiu.
– Sim, fez. — admiti.
– E o que você disse? — Frankie perguntou com um certo desespero.
– Que iria pensar.
– Droga! — exclamou baixo, mas ainda assim perfeitamente audível.
Semicerrei os olhos e me preparei para questionar aquela reação mas Frost interrompeu meus pensamentos.
– Eu acho que seria uma boa, o cara parece ser legal.
– Você sairia com ele? — Frankie debochou.
– Estou falando sério.
– E eu também! — encostou na parede – Não vou com a cara dele.
– Sim, mas é a opinião dela que importa, porque... — ele parou e olhou para mim, claramente constrangido – Desculpe, não temos o direito de fazer isso, sinto muito.
– Tudo bem, foi engraçado.
– Foi?
– Claro, nem mesmo a Jane se preocupou tanto com minha vida amorosa assim.
– Isso foi antes... — Frankie começou mas não terminou.
– Antes do que?
– Nada!
Decidi não levar adiante, apenas me virei e saí.
Cerca de meia hora depois estava organizando minha estante quando vi Jane entrando.
– Eu avisei! — parou em frente a minha mesa.
– Como?
– Eu disse que ele estava interessado em você, mas o gênio não percebeu.
– Se está se referindo ao Christopher...
– Sim, é a ele que me refiro! E esse nome? Que droga de nome é esse? Todo cheio de pompa! Eu não gosto dele!
– É, seu irmão compartilha o mesmo sentimento.
– Exatamente, meu irmão. A pessoa que me contou que a minha melhor amiga foi convidada pra jantar por um idiota. Por quê não falou comigo?
– Porque aconteceu a menos de uma hora atrás e você estava no meio de um interrogatório. E além do mais, como pode saber que ele é um idiota se o conhece a menos de 24 horas?
– E como pode sair com ele se só o conhece pelo mesmo período de tempo?
– Eu não aceitei o convite Jane!
– Não, mas disse que ia pensar, o que cria uma certa esperança.
– Até isso Frankie te contou? — ela confirmou – O que quer que eu faça?
– Que pense melhor nisso, quero dizer, pense mesmo.
– Só isso?
– Não, você também poderia... Recusar.
– Por quê?
– Como assim?
– Me dê um motivo, um bom motivo para que eu recuse esse convite. Apenas um.
– Eu... — andou pela sala – Só acho que ele não faz o seu tipo e... Bom Maura, ele só vai ficar aqui por duas semanas, aposto que você é algum tipo de diversão pra ele enquanto brinca de policial. Não sei... Você merece coisa melhor, algo real eu quero dizer.
– Como quem?
Mas não houve resposta.
Eu olhei para o chão.
O celular de Jane tocou e ela atendeu, falou algumas coisas e desligou.
– Tenho que ir, Frost achou algo.
– Certo.
E saiu.
Eu nunca a tinha visto reagir assim antes.
Tão nervosa, revoltada e imparcial no julgamento de alguém com quem eu me relacionava.
Se bem que não existia um relacionamento e eu francamente não sentia a menor vontade de criar um, mas ainda assim aquilo me pegou de surpresa.
Jane estava tão incomodada com a presença de Christopher, quase como se estivesse com ciúmes.
Mas não, não era possível.
Por quê ela sentiria isso?
Não Maura! É ciúmes, mas não desse tipo. Se tratava de ciúmes de amiga.
Ela estava preocupada com que eu me entregasse para um novo relacionamento e isso nos afastasse.
Será?
Mas por quê agora?
Possibilidades, lá estavam elas querendo me afetar mais uma vez, mas eu não deixaria.
Peguei meu celular e fiz a única coisa que consegui pensar em fazer, uma coisa da qual não tinha muita certeza, mas que naquele momento me fez sentir como se qualquer consequência fosse um lucro.
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O andar onde ficava estava silencioso, eu estava reunindo minhas coisas para sair quando ouvi a porta se abrindo para revelar Jane do outro lado.
– Você disse sim. — ela falou ao se aproximar.
– Sim pra que?
– Para o convite do Buckmann, você aceitou.
– Como soube? — eu estava realmente surpresa.
– Frost recebeu uma mensagem no celular e sorriu, eu perguntei se era de alguma garota e ele disse que não, que era o Buckmann contando que você tinha aceitado o convite dele.
– Ele fez isso?
– O que foi? Está chocada por ele não ser a discrição em pessoa como você pensou?
Um pouco.
– Jane...
– Como pôde?
– Como pude o que?
– Aceitar... Sabe, depois do que eu falei, pensei que tivesse me entendido.
– Isso é o que eu mais tenho tentado fazer.
– O que...
– Eu preciso tentar de novo Jane, tenho que me permitir isso, até porque, da última vez que tentei as coisas não saíram muito bem como planejadas.
– Tentou?
– Sim.
– Com quem?
Curiosidade e angústia.
As características mais fáceis de serem notadas na voz de uma pessoa, pois são as mais difíceis de disfarçar.
Jane curiosa e angustiada, a última palavra eu ainda não entendia o porque.
E eu... Eu não podia mentir e inventar um nome, nada nunca foi tão simples, e isso não ia mudar da noite para o dia.
Demonstrar minha fraqueza estava fora de cogitação, se eu não podia falar, o jeito era sair em silêncio.
E foi o que fiz.
Fugir nunca foi uma das minhas saídas mais acessadas, mas como um ditado popular já dizia:
“Para tudo nessa vida existe uma primeira vez.”
Seguir esse tipo de coisa nunca me agradou, mas meus padrões já não eram como antes, já que meus sentimentos também já não eram os mesmos.
Afinal, eu estava apaixonada pela minha melhor amiga, e de encontro marcado com um homem por quem não sentia absolutamente nada.
Continua...
Notas finais
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