Um Sincero Devaneio
3 In Between
Notas iniciais
— Sabe, minha filha mora em Nova York. Estou indo visitar ela – a senhora sentada ao meu lado diz. — Saiu de casa assim que terminou sua faculdade, dizendo que algo a esperava lá. Uma grande oportunidade para sua carreira, falava ela. Sempre me orgulhei muito, sabe? Mas e tu, o que fazes indo para tão longe?
Em um dos meus devaneios, passei a definir a adolescência como o "In Between", ou meio-termo, da vida. Na infância, ações não são definitivas, ou pelo menos não é esperado que elas sejam. Isso não impede que as decisões de uma criança acabem influenciando seu futuro na idade adulta, claro, mas não irão definir. A infância é a época do começo de formação da personalidade e caráter de alguém, mas, de resto, é basicamente o período em que você nasce e faz merda (e é aceitável fazer merda). Por outro lado, quando se é adulto, as coisas são mais certas. Boa parte do caminho que a pessoa gostaria de percorrer na vida já foi traçado/executado, ou pelo menos é o que eu pensava. Querendo ou não, o tempo muda e amadurece pessoas. Assim, um adulto tem mais certeza de suas decisões e do peso dessas, ou pelo menos consegue lidar melhor com a pressão social (que acaba existindo em qualquer idade).
Adolescentes, como eu, estão no meio desses dois. Não há a leveza de ser uma criança, nem a certeza de ser um adulto. As ações que eu fizer agora vão influenciar diretamente meu futuro. Com o que eu escolho passar meu tempo pode definir a profissão que vou exercer no futuro. E a vida que vou viver. Onde vou morar. Como vou sobreviver. E o tempo é um fator decisivo. "Se o tempo voa, seja o piloto." Mas e se eu não souber como pilotar? E se eu aprender a pilotar tarde demais e o avião cair?
Isso provavelmente não foi uma das melhores coisas pra se pensar em um avião. O pensamento do valor da adolescência me traz ansiedade desde esse meu devaneio.
Por outro lado, o avião me traz um sentimento de "In Between" agradável. Nem la, nem cá. É como se o tempo parasse. Por algumas horas, é como se todos os problemas que viver provoca ficassem há alguns quilômetros de distância, assim como o avião.
Mas claro que eu não falaria tudo isso para aquela senhora, que me fitava com um sorriso simpático. Não a explicaria minha necessidade de sair de Fortaleza, ou que não sabia exatamente o que estava fazendo.
— Pra falar a verdade, também estou indo porque algo está a me esperar lá – respondi-a retribuindo o sorriso.
A mulher pareceu extremamente feliz com a resposta.
— Aposto que sim, querida – após dizer isso, a velhinha inclinou sua cabeça para o lado e rapidamente começou a roncar.
Alguma coisa tem que estar, pensei comigo mesma.
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