Um Produto revolucionário
1 Capítulo único
Mauro e sua esposa voltaram mais cedo das férias. Seu filho caçula, cinco anos completos, teve uma daquelas doenças que alguns médicos adoravam nomear como “virose”. Um diagnóstico rápido para algo que eles não faziam a menor ideia do que se tratava e tinham “interesse zero” em ir mais longe do que um receituário de soro reidratante e “paraocêtamal” em caso de febre.
O molecote passou metade do caminho de volta numa bagunça de fluídos tão abundante dentro do carro, que Mauro cogitou tocar fogo no veículo assim que chegassem em casa. A esposa falava que não era para tanto, mas o homem estava além do entendimento sobre o que era aquela medida.
Virando a esquina de um longo quarteirão iluminado com postes de luz amarela, o homem respirou aliviado. Seu lar. Seu castelo. Sua sagrada fortaleza estava a alguns metros de alcance e ele já se via sentado na poltrona de couro, uma cerveja gelada e a TV no canal de esportes. A esposa que se virasse com o guri, afinal a culpa toda era dela pelo retorno prematuro das férias que ele cuidadosamente havia planejado.
O filho, Augusto, era um menino alegre e espirituoso, mas era muito paparicado pela mãe por ser filho único de uma gravidez depois dos 35. Tudo precisava ser metodicamente limpo e desinfetado. Os alimentos eram cuidadosamente escolhidos e preparados. Mauro queria ver o filho sujo de terra, descalço, cheio de arranhões como toda criança, mas tal pensamento enchia a esposa de pavor. Exagero? O homem nem ousava mencionar essa palavra em voz alta.
Eliana era uma mãe carinhosa e cheia de zelo. Seu amor pela família era elogiado pelos parentes próximos e pelas pessoas de seu círculo de amizades. Antes de se casar, havia se formado em Pedagogia, mas não lecionou. Curiosamente, não tinha nenhum tato pra lidar com crianças. Isso até se descobrir grávida. A chave seletora em sua cabeça mudou para o modo MÃE e ela se debruçou na coisa toda.
Mauro gostou da ideia, mas levou tudo de uma forma tranquila. Os amigos festejaram com ele a notícia do “filho homem” com direito a charuto e todo o resto. Um pai de primeira viagem sempre sente que todo aquele culto à paternidade era uma preparação para o que viria depois, fosse lá o que fosse.
Quanto ao retorno antecipado de férias, Mauro observou uma série de sinais que o alertavam para tal desfecho, mas preferiu crer que não era nada. Outra medida enganadora. Quando alguém falava que tal coisa era nada, uma pessoa sã deveria rebater com veemência ou na melhor das hipóteses, correr para bem longe do locutor. Mauro pensou sobre isso enquanto estacionava o carro na garagem de sua casa.
A escolha da praia vinha de uma sugestão do Rubem, colega de trabalho, um quarentão solteiro e ainda vivendo com a mãe. Isso deveria ter acionado o “sentido-aranha” em Mauro, mas não aconteceu. Outro alerta foi a nova postura de Eliana sobre deixar Augusto_ “Guto” _ ter mais autonomia durante o passeio. E o mais importante (e crítico) é que a mãe decidiu que o filho podia experimentar alimentos diferentes da dieta caseira ao qual era acostumado. Uma evolução?
Foi uma revolução.
A praia estava lotada de turistas e vendedores ambulantes. Guto se perdeu duas vezes. Engoliu água do mar quando a mãe foi ajustar o biquíni. Comeu camarão frito com areia da praia, água de côco, sorvete, melancia gelada, frango assado com farofa e salpicão, mais água de côco e pudim de leite condensado de sobremesa. Bronzeado como um nativo das praias, seu sorriso não tinha medida. Ela de novo, a medida.
Eliana não cabia em si de felicidade e orgulho das novas experiências do filho. Ele teria muita coisa para contar aos colegas de escola e ainda mais novidades até o fim das férias. Foi quando no Terceiro Dia, os céus clamaram que era demais e a fúria dos deuses abalou o firmamento. Guto acordou no meio da noite com uma dor de barriga e a saga do banheiro começou.
Entre chamar o Juca (há quem chame o Hugo) e sentar no trono, Mauro e Eliana se revezaram em cuidar do filho adoentado. Ao amanhecer, o menino dormia e os pais dormitavam, exaustos e preocupados. Tomaram café no quarto do hotel e decidiram levar o filho a um posto de saúde local naquela mesma manhã.
No posto, médico e enfermeiras de plantão tinham tudo, menos vontade de trabalhar naquele calor, tendo que lidar com casos de embriaguez, insolação, intoxicação alimentar, queimaduras por água viva e cortes causados por mergulhos acidentais. Mauro olhou ao redor e lembrou-se daqueles filmes de guerras. Pessoas feridas e gemendo pra todo lado, sangue e partes de corpos espalhados, mas ali, no caso, faltavam o sangue e as partes, mas sobrava areia pelo piso.
Guto foi atendido uma hora depois de chegarem. Diagnóstico? Uma virose. Certamente depois de informar o cardápio dos primeiros dias na praia, alguma coisa não cairia bem no estômago do menino. Mauro tinha certeza que era a areia da praia. Voltaram para o hotel com sachês de soro, garrafas de água mineral e analgésicos. Em plenas férias, Eliana e Mauro voltaram à rotina de serem pais.
Vendo que a melhora não vinha, era hora de voltar para casa, limpa, segura e imaculada, onde Guto se recuperaria em paz e perto da pediatra de confiança da família. O trajeto de seis para sete horas ocorreu sem trânsito, uma vez que a única família voltando antes do tempo era a de Mauro.
Era tarde da noite quando Guto foi colocado na cama, adormecido e medicado. Eliana respirou fundo e fechou a porta atrás de si, voltando para a sala onde o marido se estabeleceu como senhor do castelo e ligou a TV. A cerveja e o controle remoto em mãos prontos para começar uma maratona de filmes, séries ou jogos esportivos.
Mauro olhou para ela, sorrindo. Ela devolveu o sorriso com uma careta cansada e recostou-se no tecido macio. As imagens na televisão passando freneticamente, mostrando propagandas diversas e monótonas. Numa dessas, um homem, com um sorriso que lembrava aquelas pastilhas de porcelana branca do banheiro de sua avó, anunciava um produto qualquer para calvície ou impotência. Mauro chiou entre os dentes e mudou de canal. Propagandas anunciavam de tudo. Era um bombardeio de tranqueiras e mentiras para o telespectador que se achava exigente. Mas não era.
Eliana ressonava de leve ao seu lado e Mauro suspirou. As férias podiam ter dado certo, mas a soma de uma série de situações ajudou a atrapalhar. Aproximou-se da mulher e abraçou-a pelo ombro. Ela não estava errada em manter a ordem e a harmonia da casa. Sabia o que era melhor para o filho. O mundo lá fora era uma selva, então proteger o filhote era sua missão sagrada. Principalmente da comida de restaurantes.
Mauro sentiu as pálpebras pesadas. Efeito colateral de dirigir por quase sete horas e um pouco por causa da cerveja. Prometeu a si mesmo que faria um planejamento de férias diferente, mais seguro para o Guto e menos trabalhoso para a esposa. Escolheria o lugar e evitaria dicas duvidosas de certos colegas de trabalho. Vencido pelo sono, acomodou-se junto da mulher e dormiu. Sonhou com a TV ligada onde um apresentador sorridente e maquiado vendia algo com o entusiasmo de um torcedor de futebol.
A propaganda era colorida e barulhenta, o produto era mostrado na tela com letras grandes e brilhantes:_ “Bom Senso-sabor Limão! Sachês de 15 gramas. Duas caixas pelo preço de uma! Frete grátis para todo o estado!” _ Mauro sorriu e se viu pegando o celular e ligando para o número que aparecia na tela. Comprou logo quatro caixas, afinal bom senso nunca era demais. Talvez levasse algum para o trabalho, oferecendo para seus colegas. Compra feita, era só esperar a entrega.
O dia amanheceu e Mauro acordou no sofá, babando na almofada. O cheiro de café, manteiga e ovos enchia o ar ao seu redor. Guto estava sentado no tapete da sala, assistindo desenhos animados e segurando seus brinquedos prediletos. O homem olhou o celular sobre a mesa, apanhou-o e pesquisou as últimas ligações. Nenhum número diferente estava registrado, nenhuma encomenda de qualquer produto mirabolante vendido pela TV.
Mauro riu do sonho, do produto e de si mesmo.
Fim
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