Um Poeta
3 A Chama de Prometheus
Notas iniciais
Carlos acordou com o sol incidindo em seu rosto. O calor lhe fatigava. Que horas eram? Levantou às pressas procurando o celular. Atordoado, pisou em alguns papéis espalhados que acabaram grudando momentaneamente em seu pé. O aparelho estava jogado no sofá, vibrava vez ou outra anunciando a falta de carga. Em seu visor exibia um notório “15:33” que fez o coração do acadêmico acelerar, mas o “sábado” escrito logo abaixo lhe acalmou.
Tomou um banho, colocou a comida congelada no microondas, juntou as garrafas próximo a lixeira, outro dia as levaria para fora. Juntou os rascunhos, tentou pô-los em algum tipo de ordem, mas alguns faltavam, outros haviam perdido as folhas das capas, prometera várias vezes transcrevê-los para o computador, mas a correria do dia a dia aliada a uma procrastinação sutil lhe impediam. Vária vezes prometera jogá-los fora, mas tinha uma certa dificuldade em se desapegar dos papéis. No final, apenas os devolvia a uma caixa, onde ficariam guardados até a próxima crise.
A lasanha estava sem gosto, sabia que tinha comprado a marca errada. Jogou um pano molhado sobre uma poça de bebida seca no chão. Ligou para a diarista e marcou a faxina para o domingo. Sentou no sofá e começou a ler os trabalhos de seus alunos. Estes pareciam pertencer a um universo alheio ao apartamento. Organizados, diversos de sacos transparentes tinham etiquetadas informações das turmas, nos trabalhos especificamente, haviam clipes com informações adicionais sobre cada um dos alunos, suas dificuldades, vícios de escrita, ou qualquer coisa que a mente do professor considerasse relevante.
A caneta vermelha riscava os trabalhos sem hesitação enquanto, ao lado, o diário era preenchido com notas. Uma a uma.
A barriga reclamava novamente fome quando o professor fez sua pausa, amaldiçoou a hora, e o fato de não ter um supermercado 24h próximo. Ligou para um delivery, pediu comida chinesa. Voltou à correção dos trabalhos. A campainha tocou, a comida havia chegado estranhamente rápido. Mas, bem, estava com fome.
Na porta uma figura feminina lhe aguardava
Carlos congelou. Era ela. A figura que tornou seus últimos dias num tormento de agonia e ansiedade. A figura que havia lhe dado a caixa de veludo que ele passara o dia ignorando. Ela ali, na sua frente. Não como um espírito ou uma alucinação. Ela estava alí fisicamente na sua porta.
— Bo.. Boa noite… — Carlos gaguejou meio sem Jeito. — Quer entrar?
A jovem sorriu satisfeita.
— Agradeço o convite, Senhor Monteiro, contudo, o tempo desfere contra nós um golpe cruel, portanto, não nos prendamos entre paredes mortas.
Houve um pequeno hiato onde nada foi dito, onde o tempo parecia ter parado numa eternidade na qual Carlos mergulhara nos olhos de um azul cintilante da garota.
— Vamos sair? — Perguntou de uma forma quase retórica quando enfim processara as palavras ditas.
— Acaso não é o vibrar das cordas adormecidas que compõem a melodia? — Respondeu com um ar de astúcia. Havia algo no olhar, algo no tom de voz, algo que escapava à percepção direta de Carlos tornava a figura a sua frente hipnótica. Como luz aos insetos.
Ela virou-se e começou a desfilar pelo corredor. Carlos apressou-se em trancar a porta e segui-la. Se ele havia pensado nisso, certamente não, se tivesse pensado teria dito que esperava comida chegar, que tinha alguns trabalhos ainda para corrigir. Se tivesse pensado teria questionado o percurso, a segurança do local. Mas ele não pensou, apenas girou a chave na fechadura e saiu seguindo a figura da qual sequer conhecia o nome. Mas estava feito, ele havia deixado sua casa… Agora a estrada era dona de seus passos.
— Então… posso saber aonde vamos?
— Ah — ela arquejou de modo gracioso — Vamos ressoar como notas ao ar.
A noite escorre pelo firmamento num manto estrelado, meu belo poeta,
A lua hoje oculta parte de sua face em mistério e escuridão.
Então vamos ouvir a música ecoando no vento.
Vamos quebrar a luz num prisma de mil cores.
Vamos acender a chama de Prometheus.
Assistir o voo de Icarus e colher suas penas.
Teu tinteiro ainda está cheio e tua mão ainda não tem os calos estimados da escrita.
Ainda tendes muitas folhas para preencher.
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