Um Passo para o Amor
8 Preciso Falar com Você
—Aurora! — Diz alguém alguns metros atrás de mim. Viro-me para descobrir quem era, mesmo que a voz me soe levemente familiar. Reviro os olhos ao deparar-me com Ethan parado segurando um copo de café. — Nos encontramos novamente nesse mesmo lugar. Que coincidência, não sabia que você gostava de vir aqui.
—Pois é, gosto. Pelo menos dessa vez você está sozinho, pelo que posso ver. — Respondo, sem me importar em ser delicada. Ainda sinto a dor da noite anterior quando chorei por sua culpa.
—Eu já me desculpei por isso e você disse que me perdoou, lembra? Por favor, não seja rancorosa. — Argumenta, mas não o respondo, apenas me viro novamente para o balcão, pois havia chegado a minha vez. Peço um pedaço de torta de morango e chocolate, a minha preferida, e um copo de café, indispensável. Vou esperar pela entrega do pedido em uma mesa do canto e Ethan me segue para se sentar na minha frente.
—Espero que não se importe se eu sentar aqui com você.
—Na verdade, me importo. Mas infelizmente não posso te tirar daqui, então pode ficar aí.
—Quanta delicadeza, sinto-me lisonjeado pela sua receptividade tão grande. — Ele ironiza, curvando-se em um agradecimento exagerado que me faz rir contra a minha própria vontade.
—Sinceramente, isso foi ridículo. — Digo, enquanto a comida que pedi chega. Agradeço ao entregador e volto a olhar para o Ethan.
—Pelo menos te fez sorrir. — Diz ele em tom de brincadeira, rindo, mas quando assume uma expressão mais séria, as suas palavras parecem assumir maior veracidade. Pela segunda vez eu reviro os olhos. Como um pedaço de torta.
—Então, está tudo bem com você?
—Claro. — Respondo, sem nem pensar muito, de modo automático.
—Não, estou falando sério. Está bem mesmo ou só diz isso pra não dar mais explicações?
—Ah, sei lá… — Hesito um pouco antes de contar para ele o que está me deixando triste. — John está um pouco chateado comigo.
—Por quê?
—Eu acabei contando que vim aqui te encontrar aquele dia, lembra?
—Infelizmente, lembro sim.
—Pois então, eu deixei escapar sobre isso e ele acabou ficando muito zangado por eu não ter contado antes.
—Entendo. Provavelmente eu também ficaria com ciúmes, mas é bastante irracional. Você não estava o traindo.
—Não, eu não estava, mas ele não sabe disso e se eu quisesse poderia muito bem estar sim traindo ele com você. — Argumento, mesmo me sentindo constrangida em admitir uma possibilidade como essa.
— Poderia, mas não estava. Ele deveria confiar mais em você.
—E porque ele iria? O que eu fiz pra ser merecedora de confiança?
—A questão é o que você não fez. Não posso dizer que te conheço bastante, mas sei que você não é o tipo de garota que beija qualquer um que aparecer na sua frente te convidando para sair ou te elogiando. Na verdade, por experiência própria… — Ele abre um sorriso sarcástico. — … É mais o tipo que não poupa a grosseria para intimidá-los o máximo possível. Não que isso seja ruim! — Acrescenta rapidamente ao ver a minha expressão.
— Tanto faz. Com sorte ele logo vai me perdoar e assumir o erro, como sempre. Vai prometer mudanças, dizer que será mais compreensivo e assim que me ver conversando com outro rapaz brigaremos mais uma vez, e assim de novo, de novo e de novo…
—E você não cansa disso? Não é ruim ser sempre assim, apenas promessas vazias e sem sentido, sem uma real busca por mudanças, além de apenas palavras? — Pede-me, olhando-me com curiosidade. Ele parece bastante surpreso com isso e me peço se ele difere de John nesse ponto de personalidade.
—Canso, mas vale a pena. Quando não estamos brigados ele é sempre extremamente gentil e carinhoso. Eu me sinto bem quando estou com ele, me sinto protegida e… Porque estou contando isso pra você? — Pergunto, surpresa por dizer coisas tão pessoais justamente para ele, uma das pessoas de quem eu queria a maior distância possível.
—Porque eu estou disposto a ouvir. Estou aqui pra conversar com você sobre tudo que precisar. — Olho-o. O que o leva a fazer isso?
—Obrigada. — Sussurro, voltando minha atenção para o café, feliz por ter alguém para me ouvir, mas muito confusa por essa felicidade vir de um lugar completamente inesperado.
***
Naquela quinta-feira durante a manhã, um dia depois de verdadeiramente acertar-me com o Ethan, estava caminhando pelo campus tentando me distrair um pouco antes das aulas da tarde. Havia acabado de sair do almoço e combinei de me encontrar com John mais tarde. O tom de urgência quando fez esse pedido me preocupa e faz com que a tentativa de distração falhe miseravelmente.
Chego à uma área com algumas árvores e alguns bancos colocados em suas sombras. Sento-me em um deles, mas acabo achando-o demasiado desconfortável e decido me sentar na grama com as costas apoiadas em um dos troncos do lugar. Porém, o conforto não dura muito tempo, já que vejo Lauren, uma colega do curso de psicologia, vem correndo em minha direção.
—Oi, Aurora. Você está ocupada? — Pede, assim que se aproxima o suficiente para não precisar gritar.
—Não, você precisa de algo?
—Eu não, mas Jordan precisa e pediu que eu te chamasse. Ele está esperando do lado de fora do refeitório.
—Ah, desculpe, mas não posso ir falar com ele agora. Vou me encontrar com John logo, acho que é importante. Você pode pedir desculpas ao Jordan por mim?
—Tudo bem, mas assim que puder procure-o, acho que ele quer falar sobre o trabalho em dupla que vocês iam fazer juntos.
—Okay, eu falo com ele de tarde depois da aula, então.
—Vou avisá-lo. Até mais tarde. — Despede-se e sai correndo novamente. Olho para o celular e descubro que faltam apenas cinco minutos para o horário combinado com John. A ansiedade em meu peito cresce de forma exponencial, lançando-me em um mar de possibilidades do que ele pode querer me dizer. Levanto, pego minha mochila e vou até o local combinado: atrás do bloco A, onde temos grande parte das nossas aulas. Caminho devagar, mesmo que esteja explodindo de ansiedade. Ao chegar ele já está parado me esperando.
—O que aconteceu? — Pergunto, parando em sua frente de braços cruzados. Tento parecer forte e não demonstrar nenhuma emoção, mas a sua próxima frase desmonta toda essa falsa armadura em uma fração de segundos.
—Eu quero terminar com você.
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