Um Olhar
2 Still love you
Notas iniciais
Passaram-se alguns meses e, enfim, dezembro chegou. O fim do outono já podia ser sentido, e os agasalhos de inverno começavam a sair do guarda-roupa no hemisfério norte.
Asheley descia do táxi no aeroporto de San Francisco – Califórnia – e corria para não perder o voo matinal para Paris. Ainda era início de dezembro, mas sua ansiedade a cosumia cada vez mais. Tinha que ir o quanto antes.
Já nos confortos do avião, ela fechou os olhos esperando que conseguisse cochilar. As noites estavam cada vez mais curtas para ela e este ano não tinha sido como os outros. De forma alguma.
Ela já não era a mesma. A Asheley frágil que precisa ser protegida entrava em extinção. Nas noites que passava acordada, não podia deixar de pensar no motivo de Domenick tê-la deixado.
Para sua segurança – Podia ouvir a voz dele dizendo.
Não serei mais aquela bonequinha de vidro. – Pensou ela em seu autoconsolo.
Já havia se passado alguns minutos e o sono não se manifestava. A turbulência ajudava um pouco. Logo, desistiu. Asheley pegou a carta e começou a marcar as partes que, supostamente, formavam a verdadeira mensagem.
Havia duas coisas que lhe chamava atenção: Uma delas era o último verso do poema que a fazia torcer para não estar lá por acaso:
“Ainda te amo.”
Foi essa pequena frase que a fez virar noites e continuar tentando desvendar os mistérios da carta durante meses. Dias exaustos ficavam para trás. Mas, ficariam mesmo, ou viriam piores? As coisas nem sempre são como desejamos, Asheley sabia disso.
A outra coisa que a incomodava era que o anagrama não dava um local exato. Onde em Paris? A carta tinha uma resposta que parecia um tanto ousada.
“... seguir seu coração”.
Seguir meu coração? Merda Nick!
Como ele poderia saber para onde o coração dela a levaria? Que loucura!
Asheley tentou não pensar nisso naquele momento. Essa ideia nunca levava a nada.
. . .
O voo foi longo. Quando chegou a Paris ela foi direto para o hotel em que sempre se hospedava quando visitava a cidade de luz.
O frio era bárbaro. Os casacos de San Francisco pareciam lingerie em Paris. O inverno mandava um sinal de sua vinda e Asheley já temia o que estava por vir quando a última folha de outono caísse.
Era a primeira vez que passava o inverno na Europa, ela odiava as baixas temperaturas. Neste momento, desejava estar em algum país do sul. O Brasil era o seu preferido e era onde podia por em prática seu português e apreciar esse fim de primavera/início de verão. Ela amava o verão. Sorte ter crescido na Califórnia.
Quando chegou ao quarto do hotel, seu corpo desabou na cama e, mesmo com as roupas da viagem, o cansaço dos dias anteriores e o colchão estranho, ela teve a melhor noite de sono que já teve desde o início do ano. Seus sonhos pertenciam a seus desejos, e só a eles, numa incrível harmonia entre o ilícito e a cobiça de seus sentimentos mais íntimos.
. . .
Todos os dias de dezembro Asheley ia à Avenue des Champs-Élysées na esperança remota de encontrar Domenick em um café ou em uma das incríveis lojas da avenida. Ou ele, ou Hugo, ou uma resposta... Qualquer coisa. Isto a confortava.
Ela se lembrava de Hugo. Lembrava que ele queria matar Domenick e depois, aparentemente, mudara de lado. Lembrava também que ele havia recebido vários tiros e se manteve de pé, e em seguida matou Jerom.
Talvez tenham sido apenas sonhos...
Fosse o que fosse ela iria ter essas respostas depois que encontrasse Domenick.
Os dias foram se passando e, cada vez mais, o frio foi abraçando a Europa. Até que o dia chegou. Os canais de TV não falavam de outra coisa; a sexta-feira marcada pelos Maias era o assunto da semana. E seria o alvo de comentários da semana seguinte.
Solis die.
O maior dia do ano e a noite mais curta. O dia do solstício de inverno. O dia em que Asheley encontrará com Domenick. E, se sobrar tempo, o fim do mundo no término da noite.
Asheley acordou cedo e viu o sol nascer na madrugada de Paris como costumava fazer desde que chegou.
O encontro estava marcado para 21h:02min.
Mas, onde?
Ela quebrava a cabeça tentando encontrar um local secreto na carta ou, quem sabe, em seu coração. Um lugar na grande Paris que Domenick teria citado quando estava com ela no ano passado, ou quando eles namoravam na adolescência.
Onde?
Havia uma única data e uma hora exata. Se escolhesse o local errado poderia não ter outra chance de encontrar Domenick ou teria que esperar mais alguns dias, meses ou até anos.
Paris tinha diversos lugares que haviam deixado Asheley sem ar em suas visitas turísticas. O Museu do Louvre, o museu mais visitado do mundo onde ela pôde ver a Mona Lisa, artefatos do Egito Antigo, greco-romanos, e obras primas de Michelangelo, Ticiano e Goya. Houve também o Museu de Orsay que possui obras de Degas e Van Gogh. Asheley era fanática por Van Gogh.
Além dos museus, Asheley também fazia questão de dar uma passada na magnífica Catedral de Notre-Dame que possui os maiores vitrais da história. Ela não podia se esquecer também da Torre Eiffel, que é memorável para qualquer um que já a visitou. Além da torre, ela se lembrava do Arco do Triunfo, o símbolo do patriotismo e orgulho Frances, que também era inesquecível.
O problema de todos esses lugares marcantes era... que todos eram marcantes! Todos igualmente memoráveis.
Qual deles?! – Se perguntava.
A carta dizia para Asheley seguir seu coração, mas isso não ajudava em nada.
A vontade que Asheley tinha era de arrancar seu coração e jogá-lo na Avenue des Champs-Élysées e segui-lo enquanto rola pelo asfalto da avenida mais bela do mundo – como diriam os franceses.
Foi então que ela se manteve em êxtase. E, de repente, saltou aos berros no quarto do hotel.
– A avenue des Champs-Élysées! – Gritou – C'est elle!
A Avenue des Champs-Élysées, em português, Avenida Campos-Elísios, possui cinemas, cafés, lojas de especialidades luxuosas e árvores de castanheiros da índia. A Champs-Élysées é uma das mais famosas ruas do mundo e com aluguéis que chegam a € 1,1 milhão (R$ 3 milhões em média) por ano, por 92,9 metros quadrados de espaço.
A avenida tem 1,9 km de comprimento, iniciando-se na Place de la Concorde, junto ao Obelisco de Luxor, Museu do Louvre e Jardins das Tulherias e termina na praça Charles de Gaulle, onde está o Arco do Triunfo.
Do Obelisco até o Arco do Triunfo.
Mas, o que a Campos-Elísios tinha de tão especial para Asheley?
E... Onde na avenida?
A resposta vinha da parte mais íntima de seu passado: sua infância.
. . .
Quando Asheley ainda era, literalmente, uma garotinha indefesa, seu pai a levou para Paris pela primeira vez. Asheley, seu pai e sua mãe. Só eles.
Como uma família...
Ela cresceu com sua mãe e raramente seu pai ia visitá-la. Ele vivia com outra mulher na Carolina do Sul. Quando Asheley soube que eles iriam juntos para Paris ela não se conteve em suas risadas e gritos durante uma semana inteira. Era mais que um passeio, era um momento mágico em sua vida depois da separação de seus pais, o que se tornava muito raro. Isso a deixava tão feliz ao ponto de torná-la quase tola. Uma garotinha alegre e sorridente que não pensava ou falava sobre outra coisa até o dia da viajem.
No segundo dia na capital, seus pais a levaram para o Jardim das Tulherias e lá começou um dos dias mais incríveis que já pôde sonhar. Mais a noite, os três se reuniram num café da Champs-Élysées e quando Asheley voltava do banheiro, ela pôde ver seus pais se beijando na mesa do canto. Aquele beijo fez derramar em uma garotinha de dez anos uma lágrima que batizou aquela união novamente.
“Que dure para sempre”.
. . .
Era lá. Naquele café, na mesa do canto às 21h:02. E Asheley já estava a caminho para o lugar que seu coração revelava dentre suas emoções e marcos da vida na grande cidade de luz.
Espero que meu coração me leve para o lugar certo.
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